Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
אָדוֹן

Avraham chamou D'us de "Senhor"; os nomes de Reuven e Rut; provocar os ímpios; lugar fixo para a oração

Berachot 7b

A Guemará prossegue a série de ensinos de Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon bar Yochai: Avraham foi o primeiro a chamar D'us de "Adon" (Senhor), e Leá, a primeira a agradecer a D'us; um excurso etimológico mostra como os nomes de Reuven e Rut anteciparam seu caráter e destino. Segue-se o ensino de que a má criação dentro de casa é pior que a guerra de Gog e Magog, a permissão — e seus limites — de provocar os ímpios neste mundo, o valor de fixar um lugar para a própria oração, e o encerramento com o episódio de Rav Nachman explicando a Rabi Yitzchak por que não comparecia à sinagoga para rezar, citando o ensino de que servir a Torá vale mais que estudá-la.

A Guemará · הַגְּמָרָא

01Avraham, o primeiro a chamar D'us de "Senhor"
Bavli · 7b
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: מִיּוֹם שֶׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת הָעוֹלָם, לֹא הָיָה אָדָם שֶׁקְּרָאוֹ לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא ״אָדוֹן״, עַד שֶׁבָּא אַבְרָהָם וּקְרָאוֹ אָדוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמַר אֲדֹנָי אֱלֹהִים בַּמָּה אֵדַע כִּי אִירָשֶׁנָּה״.

Disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: desde o dia em que o Santo, Bendito Seja, criou o mundo, não houve homem que chamasse o Santo, Bendito Seja, de "Adon" (Senhor), até que veio Avraham e O chamou de Senhor, como está dito: "e disse: Senhor D'us, como saberei que a herdarei?" (Gênesis 15:8).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
אדני אלהים – כתוב באל"ף דל"ת.

"Adonai Elohim" — está escrito com álef e dálet (isto é, com o Nome que se lê "Adonai", indicando senhorio, e não o Tetragrama).

Nota

A Guemará abre um novo bloco de ensinos de Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon bar Yochai, no mesmo estilo homilético usado em 7a. Aqui, o mérito de Avraham é destacado por um detalhe filológico: em toda a história humana até então, ninguém havia se dirigido a D'us com o título "Adon" — termo de senhorio e autoridade —, até que Avraham o fez ao questionar como saberia que herdaria a terra. Rashi confirma que o texto traz a grafia que indica esse título de senhorio, e não o Tetragrama.

02Daniel só foi respondido por causa de Avraham
Bavli · 7b
אָמַר רַב: אַף דָּנִיֵּאל לֹא נַעֲנָה אֶלָּא בִּשְׁבִיל אַבְרָהָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעַתָּה שְׁמַע אֱלֹהֵינוּ אֶל תְּפִלַּת עַבְדְּךָ וְאֶל תַּחֲנוּנָיו וְהָאֵר פָּנֶיךָ עַל מִקְדָּשְׁךָ הַשָּׁמֵם לְמַעַן אֲדֹנָי״, ״לְמַעַנְךָ״ מִבְּעֵי לֵיהּ.

Disse Rav: também Daniel não foi respondido senão por causa de Avraham, como está dito: "e agora, ouve, nosso D'us, a oração de Teu servo e as suas súplicas, e faze resplandecer a Tua face sobre o Teu santuário desolado, por causa do Senhor" (Daniel 9:17) — "por Tua causa" deveria ter dito.

אֶלָּא — לְמַעַן אַבְרָהָם שֶׁקְּרָאֲךָ ״אָדוֹן״.

Antes, (o versículo diz) "por causa de Avraham, que Te chamou de Senhor".

Nota

Rav estende o mérito do título "Adon" através dos séculos: Daniel, ao suplicar por Jerusalém, usa a expressão "por causa do Senhor" (lemaan Adonai) em vez de "por Tua causa" — uma escolha lexical estranha que a Guemará resolve identificando "Adonai" ali não como referência direta a D'us, mas como alusão a Avraham, o primeiro a usar esse título. O mérito de Avraham, portanto, ecoa até a oração de Daniel no exílio babilônico.

03Não aplacar alguém em sua ira (retomado)
Bavli · 7b
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: מִנַּיִן שֶׁאֵין מְרַצִּין לוֹ לָאָדָם בִּשְׁעַת כַּעֲסוֹ — שֶׁנֶּאֱמַר: ״פָּנַי יֵלֵכוּ וַהֲנִחוֹתִי לָךְ״.

E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: de onde (se prova) que não se deve aplacar uma pessoa no momento de sua ira? Como está dito: "Minha face irá, e te darei descanso" (Êxodo 33:14).

Nota

A mesma norma de etiqueta já ensinada em 7a — não tentar aplacar alguém enquanto ainda está irado, provada pela resposta de D'us a Moshé — é aqui repetida, mas agora atribuída à cadeia de transmissão de Rabi Shimon bar Yochai em vez de Rabi Yosei, integrando-se à série de ensinos que a Guemará está desenrolando neste daf.

04Leá, a primeira a agradecer a D'us
Bavli · 7b
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: מִיּוֹם שֶׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת עוֹלָמוֹ לֹא הָיָה אָדָם שֶׁהוֹדָה לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, עַד שֶׁבָּאתָה לֵאָה וְהוֹדַתּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַפַּעַם אוֹדֶה אֶת ה׳״.

E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: desde o dia em que o Santo, Bendito Seja, criou o Seu mundo, não houve pessoa que agradecesse ao Santo, Bendito Seja, até que veio Leá e Lhe agradeceu, como está dito: "desta vez agradecerei a D'us" (Gênesis 29:35).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
הפעם אודה את ה' – לפי שראתה ברוח הקדש שיעקב מעמיד שנים עשר שבטים ולו ארבע נשים כיון שילדה בן רביעי הודית על חלקה שעלה יותר מן החשבון המגיע לה.

"Desta vez agradecerei a D'us" — porque ela viu por inspiração divina que Jacó estabeleceria doze tribos, e que ele teria quatro esposas; assim, quando deu à luz um quarto filho, agradeceu por sua porção, que ultrapassou a conta que lhe cabia proporcionalmente.

Nota

Um paralelo estrutural ao movimento anterior sobre Avraham: assim como ele foi o primeiro a chamar D'us de "Senhor", Leá foi a primeira pessoa na história a expressar gratidão explícita a D'us, ao nomear seu quarto filho, Yehudá. Rashi explica, com base em tradição, por que precisamente o quarto filho provocou esse agradecimento: Leá sabia por inspiração profética que as doze tribos se dividiriam entre quatro matriarcas, cabendo a cada uma, proporcionalmente, três filhos; ao dar à luz o quarto, ela reconheceu ter recebido mais do que sua parte justa.

05Reuven: "vejam a diferença entre meu filho e o filho de meu sogro"
Bavli · 7b
רְאוּבֵן. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: אָמְרָה לֵאָה: רְאוּ מָה בֵּין בְּנִי לְבֶן חָמִי. דְּאִילּוּ בֶּן חָמִי, אַף עַל גַּב דְּמִדַּעְתֵּיהּ זַבְּנַיהּ לִבְכֵירוּתֵיהּ, דִּכְתִיב: ״וַיִּמְכֹּר אֶת בְּכֹרָתוֹ לְיַעֲקֹב״, חֲזוֹ מָה כְּתִיב בֵּיהּ: ״וַיִּשְׂטֹם עֵשָׂו אֶת יַעֲקֹב״.

Reuven. Disse Rabi Elazar: disse Leá: vejam a diferença entre meu filho e o filho de meu sogro (Esaú). Pois quanto ao filho de meu sogro, ainda que por vontade própria tenha vendido sua primogenitura a Jacó, como está escrito: "e vendeu sua primogenitura a Jacó" (Gênesis 25:33), vejam o que está escrito sobre ele: "e Esaú odiou a Jacó" (Gênesis 27:41).

וּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר הֲכִי קָרָא שְׁמוֹ יַעֲקֹב וַיַּעְקְבֵנִי זֶה פַעֲמַיִם״ וְגוֹ׳.

E está escrito: "e disse: não é justamente chamado seu nome Jacó? Pois já me enganou duas vezes" etc. (Gênesis 27:36).

וְאִילּוּ בְּנִי, אַף עַל גַּב דְּעַל כֻּרְחֵיהּ שַׁקְלֵיהּ יוֹסֵף לִבְכֵירוּתֵיהּ מִנֵּיהּ, דִּכְתִיב: ״וּבְחַלְּלוֹ יְצוּעֵי אָבִיו נִתְּנָה בְּכֹרָתוֹ לִבְנֵי יוֹסֵף״, אֲפִילּוּ הָכִי — לָא אִקַּנֵּא בֵּיהּ, דִּכְתִיב: ״וַיִּשְׁמַע רְאוּבֵן וַיַּצִּלֵהוּ מִיָּדָם״.

E quanto ao meu filho (Reuven), ainda que Yosef tenha tomado dele a primogenitura contra sua vontade, como está escrito: "e por ter profanado o leito de seu pai, sua primogenitura foi dada aos filhos de Yosef" (I Crônicas 5:1), mesmo assim ele não teve inveja dele, como está escrito: "e ouviu Reuven, e o livrou de suas mãos" (Gênesis 37:21).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
ראו מה בין בני לבן חמי – על שם העתיד קראה שמו כדאמרינן לקמן שמא גרים.

"Vejam a diferença entre meu filho e o filho de meu sogro" — ela deu-lhe o nome em vista do futuro, como diremos adiante, que o nome é causa (do caráter e destino da pessoa).

Nota

Rabi Elazar interpreta o nome "Reuven" (que ele lê como contendo a raiz "ver" — re'u, "vejam") como a própria declaração profética de Leá no momento do nascimento: um convite para contrastar o caráter de seu filho com o de Esaú, filho de seu sogro Yitzchak. Esaú, apesar de ter vendido sua primogenitura voluntariamente, guardou ódio profundo de Jacó por ela; Reuven, ainda que tenha perdido sua primogenitura contra a própria vontade (transferida aos filhos de Yosef como punição por um ato seu), não guardou rancor de Yosef — pelo contrário, foi ele quem tentou salvá-lo das mãos dos irmãos que queriam matá-lo.

06Rut: o nome que antecipou seu mérito
Bavli · 7b
רוּת, מַאי ״רוּת״? אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁזָּכְתָה וְיָצָא מִמֶּנָּה דָּוִד שֶׁרִיוָּהוּ לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּשִׁירוֹת וְתִשְׁבָּחוֹת.

Rut. O que significa "Rut"? Disse Rabi Yochanan: que ela mereceu, e saiu dela Davi, que saciou (rivahu) o Santo, Bendito Seja, com cânticos e louvores.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
רות – המואביה משום דאיירי בפירושי השמות נקט לה.

"Rut" — a moabita; visto que (a Guemará) trata de interpretações de nomes, menciona-a aqui.

Nota

A Guemará prossegue o exercício de encontrar significado profético nos nomes próprios, agora com Rut, a moabita, ancestral do Rei Davi. Rabi Yochanan liga o nome "Rut" à raiz que evoca "saciar" ou "regar" (ravah), pois dela descenderia Davi, que "saciaria" a D'us com seus Salmos — cânticos e louvores compostos ao longo de sua vida.

07De onde se sabe que o nome é causa: a prova de "vinde ver as obras de D'us"
Bavli · 7b
מְנָא לַן דִּשְׁמָא גָּרֵים? אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, דְּאָמַר קְרָא: ״לְכוּ חֲזוּ מִפְעֲלוֹת ה׳ אֲשֶׁר שָׂם שַׁמּוֹת בָּאָרֶץ״, אַל תִּקְרֵי ״שַׁמּוֹת״ אֶלָּא ״שֵׁמוֹת״.

De onde sabemos que o nome é causa (do destino da pessoa)? Disse Rabi Eliezer: pois diz o versículo: "vinde, vede as obras de D'us, que pôs assolações (shamot) na terra" (Salmos 46:9); não leias "shamot" (assolações), mas "shemot" (nomes).

Nota

A Guemará fundamenta, com uma leitura alternativa de vogais no mesmo texto consonantal, o princípio subjacente aos dois movimentos anteriores: os nomes não são arbitrários, mas causam ou anunciam o destino e o caráter de quem os carrega. O versículo de Salmos, lido originalmente como referência às "assolações" que D'us impõe na terra, é relido como testemunho de que D'us "pôs nomes" na terra — isto é, determinou destinos através dos nomes dados às pessoas.

08A má criação em casa é pior que a guerra de Gog e Magog
Bavli · 7b
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: קָשָׁה תַּרְבּוּת רָעָה בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ שֶׁל אָדָם יוֹתֵר מִמִּלְחֶמֶת גּוֹג וּמָגוֹג. שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִזְמוֹר לְדָוִד בְּבָרְחוֹ מִפְּנֵי אַבְשָׁלוֹם בְּנוֹ״, וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״ה׳ מָה רַבּוּ צָרָי רַבִּים קָמִים עָלָי״, וְאִילּוּ גַּבֵּי מִלְחֶמֶת גּוֹג וּמָגוֹג, כְּתִיב: ״לָמָּה רָגְשׁוּ גוֹיִם וּלְאֻמִּים יֶהְגּוּ רִיק״. וְאִילּוּ ״מָה רַבּוּ צָרָי״ לָא כְּתִיב.

E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: é mais dura a má criação dentro da casa de um homem do que a guerra de Gog e Magog, como está dito: "salmo de Davi, quando fugia de Absalão, seu filho" (Salmos 3:1), e está escrito logo depois: "D'us, quão numerosos são meus adversários, muitos se levantam contra mim" (Salmos 3:2). Já a respeito da guerra de Gog e Magog está escrito: "por que se agitam as nações, e os povos tramam em vão?" (Salmos 2:1) — mas "quão numerosos são meus adversários" não está escrito ali.

Nota

Rabi Yochanan compara a intensidade da linguagem usada por Davi em dois salmos distintos: o que descreve sua fuga do próprio filho Absalão emprega expressões de angústia pessoal e numerosa oposição ("quão numerosos são meus adversários"), ausentes do salmo que descreve a ameaça cósmica e escatológica de Gog e Magog. A conclusão é que a dor de uma criação malograda dentro do próprio lar supera, em intensidade subjetiva, até mesmo a guerra apocalíptica das nações contra Israel.

09Por que "salmo", e não "lamento", ao fugir de Absalão?
Bavli · 7b
״מִזְמוֹר לְדָוִד בְּבָרְחוֹ מִפְּנֵי אַבְשָׁלוֹם בְּנוֹ״, ״מִזְמוֹר לְדָוִד״?! ״קִינָה לְדָוִד״ מִיבְּעֵי לֵיהּ!

"Salmo de Davi, quando fugia de Absalão, seu filho" — "salmo de Davi"?! "Lamento de Davi" deveria ter dito!

אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֲבִישָׁלוֹם: מָשָׁל לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? — לְאָדָם שֶׁיָּצָא עָלָיו שְׁטַר חוֹב. קוֹדֶם שֶׁפְּרָעוֹ הָיָה עָצֵב, לְאַחַר שֶׁפְּרָעוֹ שָׂמַח.

Disse Rabi Shimon ben Avishalom: a que se compara essa questão? A um homem contra quem foi emitida uma nota de dívida. Antes de pagá-la, estava triste; depois de pagá-la, alegrou-se.

אַף כֵּן דָּוִד, כֵּיוָן שֶׁאָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״הִנְנִי מֵקִים עָלֶיךָ רָעָה מִבֵּיתֶךָ״, הָיָה עָצֵב, אָמַר: שֶׁמָּא עֶבֶד אוֹ מַמְזֵר הוּא, דְּלָא חָיֵיס עֲלַי. כֵּיוָן דַּחֲזָא דְּאַבְשָׁלוֹם הוּא — שָׂמַח. מִשּׁוּם הָכִי אֲמַר ״מִזְמוֹר״.

Assim também Davi: quando o Santo, Bendito Seja, lhe disse: "eis que levantarei sobre ti o mal desde a tua própria casa" (II Samuel 12:11), ficou triste, pensando: talvez seja um escravo ou um mamzer, que não terá piedade de mim. Quando viu que era Absalão (seu próprio filho), alegrou-se. Por isso disse "salmo".

Nota

A Guemará questiona a própria escolha lexical do título do salmo: por que "salmo" (termo de louvor) e não "lamento", diante de uma fuga tão dolorosa? Rabi Shimon ben Avishalom resolve com uma parábola sobre uma dívida: o sofrimento antecipado de uma punição desconhecida é pior do que a própria punição, uma vez identificada e circunscrita. Davi temia, após a profecia de Natan, que o "mal desde sua própria casa" viesse de um escravo ou de um filho ilegítimo — figuras sem laço afetivo genuíno com ele —, e alegrou-se, paradoxalmente, ao descobrir que era Absalão, seu próprio filho legítimo, ainda que isso significasse guerra e fuga.

10É permitido provocar os ímpios neste mundo
Bavli · 7b
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: מוּתָּר לְהִתְגָּרוֹת בִּרְשָׁעִים בָּעוֹלָם הַזֶּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֹזְבֵי תוֹרָה יְהַלְלוּ רָשָׁע וְשֹׁמְרֵי תוֹרָה יִתְגָּרוּ בָם״.

E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: é permitido provocar os ímpios neste mundo, como está dito: "os que abandonam a Torá louvam o ímpio, mas os que guardam a Torá se irritam (yitgaru) contra eles" (Provérbios 28:4).

תַּנְיָא נָמֵי הָכִי, רַבִּי דּוֹסְתַּאי בְּרַבִּי מָתוּן אוֹמֵר: מוּתָּר לְהִתְגָּרוֹת בִּרְשָׁעִים בָּעוֹלָם הַזֶּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֹזְבֵי תוֹרָה יְהַלְלוּ רָשָׁע״ וְגוֹ׳. וְאִם לְחָשְׁךָ אָדָם לוֹמַר: וְהָא כְּתִיב ״אַל תִּתְחַר בַּמְּרֵעִים אַל תְּקַנֵּא בְּעֹשֵׂי עַוְלָה״ — אֱמוֹר לוֹ: מִי שֶׁלִּבּוֹ נוֹקְפוֹ אוֹמֵר כֵּן. אֶלָּא: ״אַל תִּתְחַר בִּמְרֵעִים״ — לִהְיוֹת כַּמְּרֵעִים, ״אַל תְּקַנֵּא בְּעֹשֵׂי עַוְלָה״ — לִהְיוֹת כָּעוֹשֵׂי עַוְלָה.

Foi ensinado também assim numa baraita: Rabi Dostai ben Rabi Matun diz: é permitido provocar os ímpios neste mundo, como está dito: "os que abandonam a Torá louvam o ímpio..." etc. E se alguém te sussurrar para dizer: mas não está escrito "não te irrites com os malfeitores, não tenhas inveja dos que praticam a injustiça" (Salmos 37:1)? Dize-lhe: quem tem o coração inquieto (por seus próprios pecados) é quem diz isso (para se justificar). Antes, (o versículo significa): "não te irrites com os malfeitores" — para seres como os malfeitores; "não tenhas inveja dos que praticam injustiça" — para seres como os que praticam injustiça.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
מי שלבו נוקפו – הירא מעבירות שבידו. אומר כן – מפרש אל תתחר במרעים אל תתקוטט והוא אינו כן אלא אל תתחר במרעים להתגרות במעשיהם לומר אעשה כן גם אני.

"Quem tem o coração inquieto" — aquele que teme por transgressões que já cometeu. "Diz isso" — interpretando "não te irrites com os malfeitores" como "não brigues com eles"; mas não é assim; antes, (significa) "não te irrites com os malfeitores" — a ponto de te deixares provocar por seus feitos, dizendo: "farei assim também eu".

Nota

Rabi Yochanan estabelece um princípio surpreendente: é permitido — e, pela leitura de Provérbios, até louvável — provocar e confrontar os ímpios neste mundo, ao contrário da atitude passiva que se poderia esperar. Uma baraita paralela, em nome de Rabi Dostai ben Rabi Matun, antecipa a objeção óbvia de um versículo de Salmos que parece dizer o oposto ("não te irrites com os malfeitores"), e a resolve por reinterpretação: aquele versículo não proíbe confrontar os ímpios, mas sim imitá-los ou invejar seus métodos. Quem invoca o versículo para evitar confronto é suspeito, segundo a Guemará, de ter consciência pesada por seus próprios pecados.

11Segunda prova: "não tenha teu coração inveja dos pecadores"
Bavli · 7b
וְאוֹמֵר: ״אַל יְקַנֵּא לִבְּךָ בַּחַטָּאִים כִּי אִם בְּיִרְאַת ה׳ כָּל הַיּוֹם״.

E diz (o versículo): "não tenha teu coração inveja dos pecadores, mas sim do temor de D'us, todo o dia" (Provérbios 23:17).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
ואומר אל יקנא לבך בחטאים כי אם ביראת ה' כל היום – אפשר לומר אל תתקוטט עם רשעים כי אם ביראת ה' יראי ה' אלא על כרחך אל יקנא לבך לעשות כמותן.

"E diz: não tenha teu coração inveja dos pecadores, mas sim do temor de D'us todo o dia" — seria possível dizer "não brigues com os ímpios, mas sim com os temerosos de D'us"; mas forçosamente (o sentido correto é): "não tenha teu coração inveja" para agir como eles.

Nota

Uma segunda prova escriturística reforça a leitura anterior: o versículo de Provérbios não proíbe confrontar os pecadores, mas alerta contra a inveja de seus métodos ou sucesso aparente — a única inveja legítima é a do temor a D'us, que deve ocupar o coração o dia inteiro.

12Objeção: Rabi Yitzchak disse o oposto — não provoques o ímpio próspero
Bavli · 7b
אִינִי?! וְהָאָמַר רַבִּי יִצְחָק: אִם רָאִיתָ רָשָׁע שֶׁהַשָּׁעָה מְשַׂחֶקֶת לוֹ אַל תִּתְגָּרֶה בּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יָחִילוּ דְרָכָיו בְּכָל עֵת״. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁזּוֹכֶה בַּדִּין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מָרוֹם מִשְׁפָּטֶיךָ מִנֶּגְדּוֹ״. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁרוֹאֶה בְּצָרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כָּל צוֹרְרָיו יָפִיחַ בָּהֶם״!

Mas é assim?! Não disse Rabi Yitzchak: se viste um ímpio a quem a hora sorri (que prospera), não o provoques, como está dito: "seus caminhos prosperam em todo o tempo" (Salmos 10:5). E não só isso, mas também que sai absolvido no julgamento, como está dito: "Teus juízos estão longe, acima dele" (Salmos 10:5). E não só isso, mas também que vê a queda de seus adversários, como está dito: "ele sopra sobre todos os seus adversários" (Salmos 10:5)!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
יחילו – יצליחו. וחבירו על כן לא יחיל טובו (איוב כ׳:כ״א). מרום משפטיך מנגדו – מסולקין דיניך ברחוק הימנו. יפיח בהם – בנפיחתו הוא דוחה אותם כקש.

"Yachilu" — prosperam; palavra semelhante em "por isso não permanecerá o seu bem" (Jó 20:21). "Teus juízos estão longe, acima dele" — Teus julgamentos são afastados, distantes dele. "Ele sopra sobre eles" — com seu sopro ele os afasta como palha.

Nota

A Guemará levanta uma objeção direta a partir de um ensino de Rabi Yitzchak, aparentemente contraditório: diante de um ímpio a quem "a hora sorri" — que desfruta de prosperidade, sucesso no julgamento, e triunfo sobre seus inimigos —, não se deve provocá-lo, sob pena de sair prejudicado no confronto. Três provas sucessivas do mesmo versículo de Salmos sustentam essa cautela, contrastando com a permissão geral de confrontar os ímpios estabelecida nos movimentos anteriores.

13Primeira resolução: assuntos pessoais versus assuntos celestiais
Bavli · 7b
לָא קַשְׁיָא, הָא בְּמִילֵּי דִידֵיהּ, הָא בְּמִילֵּי דִשְׁמַיָּא.

Não é difícil: este (ensino de cautela) refere-se a assuntos pessoais (do próprio confrontador); aquele (a permissão de provocar) refere-se a assuntos celestiais (em defesa da honra de D'us e da Torá).

Nota

A primeira resolução da contradição distingue o motivo do confronto: quando a provocação nasce de uma ofensa ou disputa pessoal contra o próprio confrontador, o ímpio próspero deve ser evitado, pois a "hora lhe sorri" e ele provavelmente prevalecerá; mas quando o confronto é por causa da honra Divina ou da Torá, é permitido e recomendado, independentemente da prosperidade momentânea do ímpio.

14Segunda resolução: se a hora sorri ou não sorri ao ímpio
Bavli · 7b
וְאִיבָּעֵית אֵימָא הָא וְהָא בְּמִילֵּי דִשְׁמַיָּא, וְלָא קַשְׁיָא: הָא בְּרָשָׁע שֶׁהַשָּׁעָה מְשַׂחֶקֶת לוֹ, הָא בְּרָשָׁע שֶׁאֵין הַשָּׁעָה מְשַׂחֶקֶת לוֹ.

E, se quiseres, dize: ambos (os ensinos) tratam de assuntos celestiais, e não é difícil: este (a cautela) trata de um ímpio a quem a hora sorri; aquele (a permissão) trata de um ímpio a quem a hora não sorri.

Nota

Uma segunda resolução alternativa descarta a distinção entre assuntos pessoais e celestiais, propondo em vez disso um critério baseado exclusivamente na condição do próprio ímpio: quando a "hora lhe sorri" (está em ascensão e sucesso), é prudente evitar confrontá-lo; quando não lhe sorri (está em declínio), é permitido e seguro provocá-lo.

15Terceira resolução: justo completo versus justo incompleto, e a prova de Rav Huna
Bavli · 7b
וְאִיבָּעֵית אֵימָא: הָא וְהָא, בְּרָשָׁע שֶׁהַשָּׁעָה מְשַׂחֶקֶת לוֹ, וְלָא קַשְׁיָא, הָא, בְּצַדִּיק גָּמוּר, הָא, בְּצַדִּיק שֶׁאֵינוֹ גָמוּר. דְּאָמַר רַב הוּנָא: מַאי דִּכְתִיב, ״לָמָּה תַבִּיט בּוֹגְדִים תַּחֲרִישׁ בְּבַלַּע רָשָׁע צַדִּיק מִמֶּנּוּ״, וְכִי רָשָׁע בּוֹלֵעַ צַדִּיק? וְהָא כְּתִיב: ה׳ לֹא יַעַזְבֶנּוּ בְיָדוֹ, וּכְתִיב: ״לֹא יְאֻנֶּה לַצַּדִּיק כָּל אָוֶן״. אֶלָּא: צַדִּיק מִמֶּנּוּ — בּוֹלֵעַ, צַדִּיק גָּמוּר — אֵינוֹ בּוֹלֵעַ.

E, se quiseres, dize: ambos tratam de um ímpio a quem a hora sorri, e não é difícil: este (a cautela) refere-se a um justo completo (que deve evitar o confronto por prudência); aquele (a permissão) refere-se a um justo incompleto. Pois disse Rav Huna: o que significa o que está escrito: "por que olhas para os traidores, e te calas quando o ímpio devora o que é mais justo do que ele?" (Habacuque 1:13)? Acaso o ímpio devora o justo? Não está escrito: "D'us não o abandonará em sua mão" (Salmos 37:33), e está escrito: "nenhum mal sucederá ao justo" (Provérbios 12:21)? Antes, (o versículo significa): aquele que é "mais justo do que ele" (isto é, apenas relativamente justo), ele devora; um justo completo, não devora.

Nota

A terceira e última resolução recorre à tipologia do justo completo e incompleto, já introduzida em 7a a propósito de Moshé. Rav Huna resolve uma aparente contradição em Habacuque — que parece afirmar que o ímpio devora o justo, contra a garantia bíblica de que D'us nunca abandona o justo — distinguindo entre o justo "mais justo do que ele" (isto é, apenas relativamente superior ao ímpio, um justo incompleto) e o justo completo: apenas o primeiro pode ser "devorado", nunca o segundo.

16Quarta resolução: a hora que sorri é diferente
Bavli · 7b
וְאִיבָּעֵית אֵימָא, שָׁעָה מְשַׂחֶקֶת לוֹ — שָׁאנֵי.

E, se quiseres, dize: quando a hora sorri (ao ímpio), a situação é diferente (de modo geral, exigindo maior cautela, sem necessidade das distinções anteriores).

Nota

Uma quarta e última resolução, mais sucinta, encerra a sequência de respostas possíveis à contradição: basta reconhecer que a prosperidade momentânea do ímpio ("a hora que lhe sorri") constitui, por si só, uma circunstância especial que justifica cautela redobrada, sem necessidade de recorrer às distinções mais elaboradas propostas anteriormente.

17Quem fixa um lugar para sua oração: seus inimigos caem diante dele
Bavli · 7b
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: כָּל הַקּוֹבֵעַ מָקוֹם לִתְפִלָּתוֹ אוֹיְבָיו נוֹפְלִים תַּחְתָּיו. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְשַׂמְתִּי מָקוֹם לְעַמִּי לְיִשְׂרָאֵל וּנְטַעְתִּיו וְשָׁכַן תַּחְתָּיו וְלֹא יִרְגַּז עוֹד וְלֹא יֹסִיפוּ בְנֵי עַוְלָה לְעַנּוֹתוֹ כַּאֲשֶׁר בָּרִאשׁוֹנָה״.

E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: todo aquele que fixa um lugar para sua oração, seus inimigos caem diante dele, como está dito: "e designarei um lugar para o Meu povo Israel, e o plantarei, e ele habitará em seu (próprio) lugar, e não mais se perturbará, e os filhos da iniquidade não continuarão a afligi-lo como no princípio" (II Samuel 7:10).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
ושמתי מקום – סיפיה דקרא ולא יוסיפו בני עולה לענותו.

"E designarei um lugar" — o final do versículo diz: "e os filhos da iniquidade não continuarão a afligi-lo".

Nota

A Guemará retorna ao tema da oração com um novo ensino de Rabi Yochanan: fixar um lugar habitual para a própria oração traz, como recompensa, a queda dos inimigos diante de quem ora. A prova vem de uma promessa Divina a Israel através de Natan — um "lugar designado" onde o povo habitará sem mais ser afligido pelos "filhos da iniquidade" —, lida aqui não apenas como promessa territorial, mas como paradigma da estabilidade que a oração fixa proporciona ao indivíduo.

18"Afligi-lo" e "aniquilá-lo": a contradição de Rav Huna
Bavli · 7b
רַב הוּנָא רָמֵי כְּתִיב ״לְעַנּוֹתוֹ״, וּכְתִיב: ״לְכַלּוֹתוֹ״.

Rav Huna contrapõe: está escrito "afligi-lo" (em Samuel), e está escrito "aniquilá-lo" (na passagem paralela de Crônicas).

בַּתְּחִילָּה — לְעַנּוֹתוֹ, וּלְבַסּוֹף — לְכַלּוֹתוֹ.

No princípio, (o decreto era) "afligi-lo"; mas no final, (tornou-se) "aniquilá-lo".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
כתיב לענותו – בספר שמואל. וכתיב לכלותו – בדברי הימים. בתחלה – כשנבנה הבית נבנה על מנת שלא לענות עוד אויבים לישראל. ולבסוף – כשחטאו נגזר עליהם ענוי ותפלתם מגינה עליהם מן הכליון.

"Está escrito 'afligi-lo'" — no Livro de Samuel. "E está escrito 'aniquilá-lo'" — em Crônicas (I Crônicas 17:9). "No princípio" — quando o Templo foi construído, foi construído com a condição de que os inimigos não mais afligissem Israel. "Mas no final" — quando pecaram, foi decretado sobre eles aflição, e sua oração os protege da aniquilação total.

Nota

Rav Huna nota uma discrepância textual entre as duas versões paralelas da mesma promessa profética — "afligi-lo" em Samuel, "aniquilá-lo" em Crônicas — e resolve com uma leitura histórica: a promessa original, quando o Templo foi edificado, era de completa ausência de aflição; mas após o pecado de Israel, o decreto endureceu para "aniquilação", e é justamente a fixação de um lugar de oração — o tema deste bloco — que impede que a aflição se converta em aniquilação total.

19Servir a Torá é maior que estudá-la
Bavli · 7b
וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: גְּדוֹלָה שִׁמּוּשָׁהּ שֶׁל תּוֹרָה יוֹתֵר מִלִּמּוּדָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״פֹּה אֱלִישָׁע בֶּן שָׁפָט אֲשֶׁר יָצַק מַיִם עַל יְדֵי אֵלִיָּהוּ״. ״לָמַד״ לֹא נֶאֱמַר, אֶלָּא ״יָצַק״ — מְלַמֵּד שֶׁגְּדוֹלָה שִׁמּוּשָׁהּ יוֹתֵר מִלִּמּוּדָהּ.

E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: maior é o serviço (prático) da Torá do que seu estudo, como está dito: "aqui está Elisha ben Shafat, que derramava água sobre as mãos de Eliyahu" (II Reis 3:11). Não está dito "estudava", mas "derramava (água)" — isso ensina que maior é o (seu) serviço do que o (seu) estudo.

Nota

O último ensino da série de Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon bar Yochai neste daf valoriza o serviço prático e pessoal a um mestre da Torá acima do próprio estudo formal de seus ensinamentos. A prova vem de como o profeta Elisha é identificado — não por ter estudado sob Eliyahu, mas por "derramar água sobre suas mãos", um ato de serviço humilde e cotidiano — sugerindo que a proximidade e o serviço ao mestre transmitem uma dimensão da Torá que o estudo isolado não alcança.

20Rabi Yitzchak pergunta a Rav Nachman por que não vai à sinagoga rezar
Bavli · 7b
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי יִצְחָק לְרַב נַחְמָן: מַאי טַעְמָא לָא אָתֵי מָר לְבֵי כְּנִישְׁתָּא לְצַלּוֹיֵי? אֲמַר לֵיהּ: לָא יָכֵילְנָא. אֲמַר לֵיהּ: לִכַּנְפִי לְמָר עַשְׂרָה וְלִיצַלֵּי. אֲמַר לֵיהּ: טְרִיחָא לִי מִלְּתָא. וְלֵימָא לֵיהּ מָר לִשְׁלוּחָא דְצִבּוּרָא, בְּעִידָּנָא דִּמְצַלֵּי צִבּוּרָא לֵיתֵי וְלוֹדְעֵיהּ לְמָר.

Disse-lhe Rabi Yitzchak a Rav Nachman: por que motivo o mestre não vem à sinagoga rezar? Disse-lhe: não posso (não tenho forças). Disse-lhe: que reúnam para o mestre dez homens, e que reze (em casa, com um quórum trazido até ele). Disse-lhe: é trabalhoso demais para mim (impor esse esforço aos outros). E que o mestre diga ao emissário da congregação que, no momento em que a congregação estiver rezando, venha e avise ao mestre (para que reze junto, mesmo à distância).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 7b
לא יכילנא – תש כחי.

"Não posso" — minhas forças estão enfraquecidas.

Nota

O daf se encerra com um episódio pessoal que ilustra na prática o ensino anterior sobre o valor da oração comunitária e do lugar fixo: Rabi Yitzchak questiona Rav Nachman sobre sua ausência da sinagoga, e este explica sua fraqueza física. Diante da sugestão de reunir um quórum em sua própria casa — recusada por ser trabalhosa demais para os outros —, a solução proposta é que o emissário da congregação o avise no exato momento em que a assembleia reza, permitindo-lhe alinhar sua oração pessoal, ainda que fisicamente ausente, ao momento comunitário. Rav Nachman explica a Rabi Yitzchak, no início do daf seguinte, que essa sincronia decorre do ensino de Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon bar Yochai sobre o valor da oração no "momento de favor" da congregação — elo que o daf 7b deixa em aberto, a ser resolvido em 8a.