Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
עֵת רָצוֹן

O "momento de favor" da oração comunitária; o vizinho mau que não vai à sinagoga; os sete significados de "eit matzo"; estudar onde se reza; completar a parashá com a congregação

Berachot 8a

A Guemará explica por que Rav Nachman, apesar de rezar em casa por fraqueza física, ainda assim se sincroniza com a congregação: existe um "momento de favor" na oração comunitária que não se repete em particular. Seguem-se ensinos sobre a gravidade de ter sinagoga na cidade e não frequentá-la, o costume babilônico de chegar cedo e sair tarde da sinagoga, uma cadeia de sete interpretações homiléticas da expressão "eit metzo" (esposa, Torá, morte, sepultura, banheiro), o valor da halachá estudada em qualquer lugar após a destruição do Templo, o costume de Rabi Ami e Rabi Assi de rezar onde estudavam, o valor de viver perto do próprio mestre, e o encerramento com regras sobre quando se pode interromper a leitura da Torá e a recomendação de completar semanalmente a parashá com a congregação.

A Guemará · הַגְּמָרָא

01"Um momento de favor": quando a congregação reza
Bavli · 8a
מַאי דִּכְתִיב ״וַאֲנִי תְפִלָּתִי לְךָ ה׳ עֵת רָצוֹן״. אֵימָתַי עֵת רָצוֹן — בְּשָׁעָה שֶׁהַצִּבּוּר מִתְפַּלְּלִין.

O que significa o que está escrito: "e eu, minha oração é a Ti, D'us, num momento de favor" (Salmos 69:14)? Quando é o "momento de favor"? No momento em que a congregação reza.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
עת רצון – אלמא יש שעה שהיא של רצון.

"Momento de favor" — logo, há um momento que é de favor (Divino especial).

Nota

Este daf abre respondendo à pergunta implícita deixada em aberto ao final de 7b: por que Rav Nachman, incapaz de comparecer à sinagoga, ainda assim pedia para ser avisado do momento exato em que a congregação rezava. A resposta é este ensino: o versículo de Davi em Salmos fala de um "momento de favor" específico para a oração — identificado como precisamente o horário em que a congregação reza junto —, de modo que mesmo rezando sozinho em casa, alinhar-se a esse horário confere à oração individual parte do mérito da oração coletiva.

02Segunda prova: "num momento de favor Te respondi"
Bavli · 8a
רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא אָמַר מֵהָכָא: ״כֹּה אָמַר ה׳ בְּעֵת רָצוֹן עֲנִיתִיךָ״.

Rabi Yosei ben Rabi Chanina disse (que a prova vem) daqui: "assim disse D'us: num momento de favor Te respondi" (Isaías 49:8).

Nota

Uma segunda fonte escriturística, independente da primeira, reforça a mesma ideia de que existe um "momento de favor" designado para a resposta Divina à oração.

03Terceira prova: "D'us é poderoso e não despreza"
Bavli · 8a
רַבִּי אַחָא בְּרַבִּי חֲנִינָא אָמַר מֵהָכָא: ״הֶן אֵל כַּבִּיר וְלֹא יִמְאָס״: וּכְתִיב: ״פָּדָה בְשָׁלוֹם נַפְשִׁי מִקְּרָב לִי כִּי בְרַבִּים הָיוּ עִמָּדִי״.

Rabi Acha ben Rabi Chanina disse (que a prova vem) daqui: "eis que D'us é poderoso e não despreza" (Jó 36:5); e está escrito: "resgatou em paz minha alma da batalha contra mim, pois muitos estavam comigo" (Salmos 55:19).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
כביר לא ימאס – תפלת הרבים לא ימאס. מקרב לי – ממלחמות הבאות עלי. כי ברבים היו עמדי – שהתפללו עמי.

"É poderoso e não despreza" — a oração dos muitos Ele não despreza. "Da batalha contra mim" — das guerras que vinham contra mim. "Pois muitos estavam comigo" — que rezavam junto comigo.

Nota

Rabi Acha ben Rabi Chanina traz uma terceira prova, agora combinando dois versículos: D'us, sendo poderoso, "não despreza" — e Rashi especifica que se trata da oração da multidão —, e o versículo de Davi em Salmos atesta que ele foi resgatado precisamente porque "muitos estavam comigo", isto é, rezavam ao seu lado.

04A baraita de Rabi Natan: quem estuda Torá, pratica bondade e reza com a congregação
Bavli · 8a
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי, רַבִּי נָתָן אוֹמֵר: מִנַּיִן שֶׁאֵין הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מוֹאֵס בִּתְפִלָּתָן שֶׁל רַבִּים שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֶן אֵל כַּבִּיר וְלֹא יִמְאָס״, וּכְתִיב: ״פָּדָה בְשָׁלוֹם נַפְשִׁי מִקְּרָב לִי״ וְגוֹ׳, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: כָּל הָעוֹסֵק בְּתוֹרָה וּבִגְמִילוּת חֲסָדִים וּמִתְפַּלֵּל עִם הַצִּבּוּר — מַעֲלֶה אֲנִי עָלָיו כְּאִילּוּ פְּדָאַנִי, לִי וּלְבָנַי, מִבֵּין אוּמּוֹת הָעוֹלָם.

Foi ensinado também assim numa baraita: Rabi Natan diz: de onde (se prova) que o Santo, Bendito Seja, não despreza a oração dos muitos? Como está dito: "eis que D'us é poderoso e não despreza"; e está escrito: "resgatou em paz minha alma da batalha contra mim" etc. Disse o Santo, Bendito Seja: todo aquele que se ocupa da Torá, de atos de bondade, e reza com a congregação — Eu lhe considero como se tivesse Me resgatado, a Mim e a Meus filhos, dentre as nações do mundo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
פדה בשלום – זה שעסק בדברי שלום דהיינו תורה דכתיב וכל נתיבותיה שלום, וכן גמילות חסדים נמי שלום הוא, שמתוך שגומל חסד בגופו לחבירו הוא מכיר שהוא אוהבו ובא לידי אחוה ושלום.

"Resgatou em paz" — refere-se a quem se ocupa de assuntos de paz, isto é, a Torá, como está escrito: "e todos os seus caminhos são paz" (Provérbios 3:17); e também os atos de bondade são igualmente (caminhos de) paz, pois, ao praticar bondade corporalmente com seu próximo, este reconhece que é amado por ele, e chegam à fraternidade e à paz.

Nota

A baraita de Rabi Natan eleva a afirmação anterior a uma promessa extraordinária: quem combina três práticas — estudo da Torá, atos de bondade e oração comunitária — é considerado por D'us como tendo, pessoalmente, resgatado tanto a Ele quanto "a Seus filhos" (Israel) das nações do mundo. Rashi conecta a palavra "paz" do versículo à Torá (cujos caminhos são chamados de paz) e aos atos de bondade, que geram vínculos de afeto e fraternidade entre as pessoas.

05Quem tem sinagoga na cidade e não vai rezar é chamado "vizinho mau"
Bavli · 8a
אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: כָּל מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ בֵּית הַכְּנֶסֶת בְּעִירוֹ, וְאֵינוֹ נִכְנָס שָׁם לְהִתְפַּלֵּל, נִקְרָא ״שָׁכֵן רַע״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּה אָמַר ה׳ עַל כָּל שְׁכֵנַי הָרָעִים הַנֹּגְעִים בַּנַּחֲלָה אֲשֶׁר הִנְחַלְתִּי אֶת עַמִּי אֶת יִשְׂרָאֵל״. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁגּוֹרֵם גָּלוּת לוֹ וּלְבָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנְנִי נֹתְשָׁם מֵעַל אַדְמָתָם וְאֶת בֵּית יְהוּדָה אֶתּוֹשׁ מִתּוֹכָם״.

Disse Reish Lakish: todo aquele que tem sinagoga em sua cidade e não entra ali para rezar é chamado "vizinho mau", como está dito: "assim disse D'us contra todos os Meus vizinhos maus, que tocam na herança que Eu dei em herança ao Meu povo Israel" (Jeremias 12:14). E não só isso, mas também causa exílio para si e para seus filhos, como está dito: "eis que os arrancarei de sua terra, e a casa de Judá arrancarei do meio deles" (Jeremias 12:14).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
הנני נותשם מעל אדמתם – סיפיה דקרא הוא.

"Eis que os arrancarei de sua terra" — é o final do (mesmo) versículo.

Nota

Reish Lakish transfere o duro epíteto bíblico de "vizinho mau" — originalmente dirigido às nações vizinhas que "tocam" cobiçosamente a herança de Israel — para o judeu que, tendo sinagoga disponível em sua própria cidade, opta por não frequentá-la. A pena para tal atitude, extraída do mesmo versículo, é o próprio exílio, tanto para o indivíduo quanto para seus descendentes — medida por medida com o "arrancar" mencionado no texto.

06Rabi Yochanan se espanta ao saber que há velhos na Babilônia
Bavli · 8a
אֲמַרוּ לֵיהּ לְרַבִּי יוֹחָנָן: אִיכָּא סָבֵי בְּבָבֶל. תְּמַהּ וַאֲמַר: ״לְמַעַן יִרְבּוּ יְמֵיכֶם וִימֵי בְנֵיכֶם עַל הָאֲדָמָה״ כְּתִיב, אֲבָל בְּחוּצָה לָאָרֶץ — לָא? כֵּיוָן דְאָמְרִי לֵיהּ מְקַדְּמִי וּמְחַשְּׁכִי לְבֵי כְנִישְׁתָּא, אֲמַר: הַיְינוּ דְּאַהֲנִי לְהוּ.

Disseram a Rabi Yochanan: há velhos na Babilônia. Espantou-se, e disse: "para que se multipliquem vossos dias e os dias de vossos filhos sobre a terra" (Deuteronômio 11:21) está escrito — mas fora da Terra (de Israel), não (haveria essa promessa de longevidade)? Quando lhe disseram que eles chegavam cedo e saíam tarde da sinagoga, disse: isso é o que os beneficiou.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
מקדמי – שחרית. מחשכי – ערבית, כלומר מאריכין בבית הכנסת.

"Chegavam cedo" — pela manhã. "Saíam tarde" — à noite; isto é, permaneciam longo tempo na sinagoga.

Nota

Rabi Yochanan, surpreso ao ouvir que havia pessoas idosas vivendo na Babilônia — já que a promessa de longevidade em Deuteronômio parece condicionada à vida "sobre a terra" (de Israel) —, encontra a explicação assim que lhe informam que os babilônios tinham o costume de chegar cedo pela manhã e permanecer até tarde da noite na sinagoga. Esse hábito de permanência prolongada no espaço sagrado é identificado como a causa de sua longevidade, mesmo fora da Terra Prometida.

07Rabi Yehoshua ben Levi aconselha os filhos: cheguem cedo e saiam tarde
Bavli · 8a
דְּאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי לִבְנֵיהּ: קַדִּימוּ וְחַשִּׁיכוּ וְעַיִּילוּ לְבֵי כְנִישְׁתָּא, כִּי הֵיכִי דְּתוֹרְכוּ חַיֵּי. אָמַר רַבִּי אַחָא בְּרַבִּי חֲנִינָא: מַאי קְרָא — ״אַשְׁרֵי אָדָם שֹׁמֵעַ לִי לִשְׁקֹד עַל דַּלְתֹתַי יוֹם יוֹם לִשְׁמוֹר מְזוּזֹת פְּתָחָי״, וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״כִּי מֹצְאִי מָצָא חַיִּים״.

Pois disse Rabi Yehoshua ben Levi a seus filhos: cheguem cedo e saiam tarde, e entrem na sinagoga, para que prolonguem a vida. Disse Rabi Acha ben Rabi Chanina: qual é o versículo? "Feliz o homem que Me escuta, vigiando às Minhas portas dia após dia, guardando os umbrais de Minhas entradas" (Provérbios 8:34); e está escrito logo depois: "pois quem Me encontra, encontra a vida" (Provérbios 8:35).

Nota

O ensino de Rabi Yehoshua ben Levi aos próprios filhos confirma e generaliza a lição extraída do costume babilônico: chegar cedo e sair tarde da sinagoga prolonga a vida. Rabi Acha ben Rabi Chanina ancora esse conselho num versículo de Provérbios que descreve a felicidade de quem "vigia às portas" de D'us diariamente — associando a sinagoga metaforicamente às "portas" e "umbrais" mencionados — e cuja recompensa, no versículo seguinte, é literalmente "encontrar a vida".

08Rav Chisda: entrar "dois portais" de distância antes de rezar
Bavli · 8a
אָמַר רַב חִסְדָּא: לְעוֹלָם יִכָּנֵס אָדָם שְׁנֵי פְתָחִים בְּבֵית הַכְּנֶסֶת. שְׁנֵי פְתָחִים סָלְקָא דַעְתָּךְ?! אֶלָּא אֵימָא, שִׁיעוּר שְׁנֵי פְתָחִים, וְאַחַר כָּךְ יִתְפַּלֵּל.

Disse Rav Chisda: sempre deve o homem entrar dois portais na sinagoga (antes de rezar). "Dois portais", ocorre-te (pensar assim, literalmente)?! Mas dize: a distância equivalente a dois portais, e só então reze.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
שיעור של שני פתחים – רוחב יכנס לפנים, שלא ישב סמוך לפתח דנראה עליו כמשוי עכוב בית הכנסת, ויהא מזומן סמוך לפתח לצאת.

"A medida de dois portais" — deve entrar para dentro (o suficiente), para não se sentar próximo à entrada, pois isso pareceria como se estar na sinagoga lhe fosse um peso, pronto para sair assim que possível, junto à porta.

Nota

Rav Chisda ensina uma norma prática de comportamento na sinagoga: a pessoa deve se afastar da entrada por uma distância equivalente à largura de dois portais antes de começar a rezar. A Guemará corrige a leitura literal de "dois portais" (que soaria como um trajeto absurdamente específico), esclarecendo que se trata de uma medida de distância. Rashi explica o motivo: sentar-se perto da porta transmite a impressão de impaciência ou de estar ali por obrigação, pronto para uma saída rápida.

09Sete interpretações de "eit metzo" (I): a esposa
Bavli · 8a
״עַל זֹאת יִתְפַּלֵּל כָּל חָסִיד אֵלֶיךָ לְעֵת מְצֹא״, אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: ״לְעֵת מְצֹא״ זוֹ אִשָּׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מָצָא אִשָּׁה מָצָא טוֹב״.

"Por isto rezará todo piedoso a Ti, num tempo de se achar (eit metzo)" (Salmos 32:6). Disse Rabi Chanina: "num tempo de se achar" refere-se à esposa, como está dito: "quem acha esposa, acha o bem" (Provérbios 18:22).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
יתפלל לעת מצא – יתפלל שיהו מצויין לו כשיצטרך.

"Rezará... num tempo de se achar" — rezará para que essas coisas lhe sejam disponíveis quando precisar delas.

Nota

A Guemará inicia uma série de sete interpretações homiléticas para a expressão enigmática "eit metzo" (literalmente, "tempo de se achar/encontrar") de Salmos 32:6. Rashi explica o princípio geral por trás de toda a série: o versículo ensina que a pessoa deve rezar para que as coisas necessárias — aqui, uma esposa adequada — estejam disponíveis a ela no momento certo. A primeira interpretação, de Rabi Chanina, identifica "eit metzo" com encontrar esposa, citando o versículo paralelo de Provérbios que declara ser esse "achado" um bem.

10O costume da Terra de Israel: "achou" ou "acha"?
Bavli · 8a
בְּמַעְרְבָא כִּי נָסֵיב אִינָשׁ אִתְּתָא, אָמְרִי לֵיהּ הָכִי: ״מָצָא״ אוֹ ״מוֹצֵא״? ״מָצָא״ דִּכְתִיב: ״מָצָא אִשָּׁה מָצָא טוֹב וַיָּפֶק רָצוֹן מֵה׳״, ״מוֹצֵא״ דִּכְתִיב: ״וּמוֹצֶא אֲנִי מָר מִמָּוֶת אֶת הָאִשָּׁה״ וְגוֹ׳.

No Ocidente (Terra de Israel), quando um homem se casava, diziam-lhe assim: "matza" (achou) ou "motzé" (acha, no sentido de "encontra amargura")? "Matza" (achou o bem), como está escrito: "quem acha esposa, acha o bem, e obtém favor de D'us" (Provérbios 18:22); "motzé" (acha amargura), como está escrito: "e eu acho mais amarga que a morte a mulher..." etc. (Eclesiastes 7:26).

Nota

A Guemará relata um costume da Terra de Israel: ao celebrar um casamento, perguntava-se jocosamente se o noivo era do tipo "matza" (que "achou" o bem, conforme Provérbios) ou "motzé" (que "acha" amargura, conforme Eclesiastes) — um jogo de palavras que reconhece, com humor, que nem todo casamento resulta em bênção.

11Sete interpretações de "eit metzo" (II): a Torá
Bavli · 8a
רַבִּי נָתָן אוֹמֵר: ״לְעֵת מְצֹא״ — זוֹ תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי מֹצְאִי מָצָא חַיִּים״ וְגוֹ׳.

Rabi Natan diz: "num tempo de se achar" refere-se à Torá, como está dito: "pois quem Me encontra, encontra a vida" etc. (Provérbios 8:35).

Nota

Rabi Natan propõe uma segunda interpretação: "eit metzo" refere-se ao "achado" da Torá, retomando o mesmo versículo de Provérbios já citado na unidade 7 sobre a recompensa de quem "vigia às portas" de D'us.

12Sete interpretações de "eit metzo" (III): a morte
Bavli · 8a
רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק אָמַר — ״לְעֵת מְצֹא״ זוֹ מִיתָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לַמָּוֶת תּוֹצָאוֹת״.

Rav Nachman bar Yitzchak disse: "num tempo de se achar" refere-se à morte, como está dito: "e de D'us, o Senhor, são as saídas (totzaot) para a morte" (Salmos 68:21).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
לעת מצא זו מיתה – שימות במיתה יפה ונחה.

"Num tempo de se achar" refere-se à morte — que se deve rezar para morrer de uma morte boa e tranquila.

Nota

A terceira interpretação, de Rav Nachman bar Yitzchak, associa "eit metzo" à própria morte, com base na palavra "totzaot" (saídas) de Salmos, foneticamente aparentada à raiz de "metzo". Rashi esclarece que o sentido da oração, aqui, é pedir uma morte boa e serena — tema que a próxima unidade desenvolve em detalhe.

13Os 903 tipos de morte: a mais dura e a mais suave
Bavli · 8a
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: תְּשַׁע מֵאוֹת וּשְׁלֹשָׁה מִינֵי מִיתָה נִבְרְאוּ בָּעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לַמָּוֶת תּוֹצָאוֹת״, ״תּוֹצָאוֹת״ בְּגִימַטְרִיָּא הָכִי הָווּ. קָשָׁה שֶׁבְּכֻלָּן — אַסְכָּרָא, נִיחָא שֶׁבְּכֻלָּן — נְשִׁיקָה. אַסְכָּרָא דָּמְיָא כְּחִיזְרָא בִּגְבָבָא דְעַמְרָא דִּלְאַחוֹרֵי נַשְׁרָא, וְאִיכָּא דְאָמְרִי כְּפִיטּוּרֵי בְּפִי וֶשֶׁט, נְשִׁיקָה דָּמְיָא כְּמִשְׁחַל בִּנִיתָא מֵחֲלָבָא.

Foi ensinado também assim numa baraita: novecentas e três espécies de morte foram criadas no mundo, como está dito: "e de D'us, o Senhor, são as saídas (totzaot) para a morte" — "totzaot", em guematria (valor numérico das letras), equivale a esse número. A mais dura de todas é a askará (difteria/sufocamento); a mais suave de todas é o "beijo" (morte súbita e indolor). A askará é comparável a um espinho preso num tufo de lã puxado por trás para fora (que arranca a lã junto); e há os que dizem: como cordas presas na garganta. O "beijo" é comparável a puxar um fio de cabelo do leite.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
אסכרא – אישטר״אנגולמנט בלע״ז, שבתוך הגוף. כחיזרא בגבבא דעמרא דלאחורי נשרא – כענפי הסירים הנסבכים בגזת הצמר, כשאדם נותק בחזקה ומשליך לאחור, שאי אפשר שלא ינתק הצמר עמה. כפיטורי בפי ושט – ים אוקיינוס יש בו מקומות שאינו מקבל ברזל, ומחברין לוחי הספינה על ידי חבלים ועקלים שתוחבין בנקביו ותוקעין אותו בדוחק, לפי שהם גסין כמדת הנקב. פיטורי – חבלים, דמתרגמינן ״ופטורי ציצים״ אטונין. בפי ושט – הוא הנקב שהוא עגול כפי ושט. כמשחל בניתא מחלבא – כמושך נימת שער מתוך החלב.

"Askará" — "estrangulamento" em francês antigo; (uma dor) no interior do corpo. "Como um espinho num tufo de lã puxado por trás" — como os ramos de espinheiros emaranhados na tosquia de lã, quando alguém os arranca à força e joga para trás, sendo impossível que a lã não se arranque junto. "Como cordas na garganta" — o oceano tem lugares onde não se pode usar ferro (pregos), e por isso unem-se as tábuas do navio por meio de cordas e cavilhas enfiadas em seus orifícios, cravadas à força por serem mais grossas que a medida do orifício. "Pitorei" — cordas, que se traduz (no Targum) como "e franjas de cordas" (I Reis 6:18), amarras. "Na garganta" — o orifício redondo como a garganta. "Como puxar um fio de cabelo do leite" — como quando se puxa um fio de cabelo de dentro do leite (sem resistência alguma).

Nota

Uma baraita amplia dramaticamente a interpretação anterior, calculando por guematria (o valor numérico da palavra "totzaot") que existem 903 tipos de morte. Entre os extremos, a mais dolorosa é a askará, comparada por Rashi a um espinho arrancado à força de um tufo de lã, ou a cordas grossas forçadas por um orifício estreito; a mais suave é a "morte por beijo", comparada à facilidade de puxar um fio de cabelo de dentro do leite — sem qualquer atrito ou dor.

14Sete interpretações de "eit metzo" (IV): a sepultura
Bavli · 8a
רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: ״לְעֵת מְצֹא״ — זוֹ קְבוּרָה. אָמַר רַבִּי חֲנִינָא, מַאי קְרָא ״הַשְּׂמֵחִים אֱלֵי גִיל יָשִׂישׂוּ כִּי יִמְצְאוּ קָבֶר״. אָמַר רַבָּה בַּר רַב שֵׁילָא, הַיְינוּ דְּאָמְרִי אִינָשֵׁי: לִיבְעֵי אִינָשׁ רַחֲמֵי אֲפִילּוּ עַד זִיבּוּלָא בָּתְרָיְיתָא שְׁלָמָא.

Rabi Yochanan disse: "num tempo de se achar" refere-se à sepultura. Disse Rabi Chanina: qual é o versículo? "Os que se alegram até o júbilo, exultam quando encontram um sepulcro" (Jó 3:22). Disse Rabá bar Rav Sheila: é isso que as pessoas dizem: que o homem peça misericórdia (que haja) paz até mesmo na última pá de terra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
זיבולא בתרייתא שלמא – שיהא לו שלום כל ימי חייו, ואף ביום קבורתו עד השלכת עפר האחרונה שבכיסוי קבורתו. זיבולא – פלא״דא בלע״ז.

"Paz até a última pá de terra" — que tenha paz todos os dias de sua vida, e mesmo no dia de seu sepultamento, até o lançar da última porção de terra que cobre sua sepultura. "Zivula" — "pá" em francês antigo.

Nota

A quarta interpretação, de Rabi Yochanan, identifica "eit metzo" com o momento de encontrar sepultura — citando um versículo de Jó sobre a exultação de "encontrar um sepulcro". Rabá bar Rav Sheila conclui com um ditado popular: deve-se pedir que a paz acompanhe a pessoa até a última pá de terra lançada sobre sua sepultura, reforçando que mesmo o ato final do sepultamento deve ser envolto em tranquilidade e ausência de sofrimento.

15Sete interpretações de "eit metzo" (V): a privada
Bavli · 8a
מָר זוּטְרָא אָמַר: ״לְעֵת מְצֹא״ — זֶה בֵּית הַכִּסֵּא. אָמְרִי בְּמַעְרְבָא: הָא דְּמָר זוּטְרָא עֲדִיפָא מִכֻּלְּהוּ.

Mar Zutra disse: "num tempo de se achar" refere-se à privada (banheiro disponível). Diziam no Ocidente (Terra de Israel): esta (interpretação) de Mar Zutra é preferível a todas as outras.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
לעת מצא זה בית הכסא – שיהא דר במקום שיש בית הכסא סמוך לו, לפי שהיתה קרקע של בבל מצולת מים ואין יכולין לחפור שם חפירות, והיו צריכין לצאת בשדות ולהתרחק מאד.

"Num tempo de se achar refere-se à privada" — que a pessoa habite em lugar onde haja privada próxima a ela; pois a terra da Babilônia era um solo saturado de água, e não se podiam cavar escavações ali, sendo necessário sair aos campos e afastar-se muito.

Nota

A quinta e última interpretação registrada, de Mar Zutra, identifica "eit metzo" com a disponibilidade de uma privada próxima — considerada, segundo os sábios da Terra de Israel, a mais valiosa de todas as interpretações. Rashi explica o contexto prático: o solo saturado de água da Babilônia dificultava a escavação de latrinas, obrigando as pessoas a se afastarem muito até os campos, tornando a disponibilidade de um local próximo uma verdadeira bênção a ser pedida em oração.

16Rava pede a Rafram bar Papa que transmita os ensinos de Rav Chisda
Bavli · 8a
אֲמַר לֵיהּ רָבָא לְרַפְרָם בַּר פָּפָּא: לֵימָא לָן מָר מֵהָנֵי מִילֵּי מְעַלְּיָיתָא דְּאָמְרַתְּ מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב חִסְדָּא בְּמִילֵּי דְבֵי כְנִישְׁתָּא.

Disse-lhe Rava a Rafram bar Papa: que nos diga o mestre daqueles belos ensinamentos que dizias em nome de Rav Chisda a respeito de assuntos da sinagoga.

Nota

A Guemará introduz um novo bloco de ensinos sobre a sinagoga através de um pedido direto de Rava a Rafram bar Papa, que havia transmitido anteriormente ditos valiosos de Rav Chisda sobre o tema.

17D'us ama mais os "portões distintos pela halachá" que as sinagogas
Bavli · 8a
אֲמַר לֵיהּ, הָכִי אָמַר רַב חִסְדָּא: מַאי דִּכְתִיב, ״אֹהֵב ה׳ שַׁעֲרֵי צִיּוֹן מִכֹּל מִשְׁכְּנוֹת יַעֲקֹב״: אוֹהֵב ה׳ שְׁעָרִים הַמְצוּיָּינִים בַּהֲלָכָה, יוֹתֵר מִבָּתֵּי כְנֵסִיּוֹת וּמִבָּתֵּי מִדְרָשׁוֹת.

Disse-lhe: assim disse Rav Chisda: o que significa o que está escrito: "D'us ama os portões de Sião mais do que todas as moradas de Jacó" (Salmos 87:2)? D'us ama os portões que se distinguem (metzuyanim) pela halachá, mais do que as sinagogas e as casas de estudo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
המצויינים – ציון ואסיפת צבור.

"Os que se distinguem" — (relacionado a) "sinal" e reunião pública (de estudo).

Nota

Rafram bar Papa transmite o ensino de Rav Chisda: o versículo de Salmos, que fala do amor de D'us pelos "portões de Sião" acima de "todas as moradas de Jacó" (isto é, das sinagogas comuns), é lido como referência aos locais onde se ensina e se distingue a halachá — lugares de estudo prático da lei, preferidos por D'us até mesmo às sinagogas e casas de estudo genéricas.

18Desde a destruição, D'us só tem no mundo as quatro amot da halachá
Bavli · 8a
וְהַיְינוּ דְּאָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַמֵּי מִשְּׁמֵיהּ דְּעוּלָּא: מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ אֵין לוֹ לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּעוֹלָמוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת שֶׁל הֲלָכָה בִּלְבַד.

E é isso que disse Rabi Chiya bar Ami em nome de Ula: desde o dia em que o Templo foi destruído, o Santo, Bendito Seja, não tem em Seu mundo senão as quatro amot (côvados) da halachá apenas.

Nota

A Guemará conecta o ensino anterior a um dito célebre de Rabi Chiya bar Ami em nome de Ula: após a destruição do Templo, o único espaço que resta a D'us "em Seu mundo" — no sentido de manifestação privilegiada de Sua presença — é o espaço mínimo ocupado por quem estuda e pratica a halachá, medido pelas quatro amot tradicionalmente associadas ao espaço pessoal de um indivíduo.

19Abaye muda seu costume: passa a rezar onde estuda
Bavli · 8a
וְאָמַר אַבָּיֵי: מֵרֵישׁ הֲוָה גָּרֵיסְנָא בְּגוֹ בֵּיתָא וּמְצַלֵּינָא בְּבֵי כְנִישְׁתָּא. כֵּיוָן דִּשְׁמַעְנָא לְהָא דְּאָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַמֵּי מִשְּׁמֵיהּ דְּעוּלָּא — מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ אֵין לוֹ לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּעוֹלָמוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת שֶׁל הֲלָכָה בִּלְבַד — לָא הֲוָה מְצַלֵּינָא אֶלָּא הֵיכָא דְּגָרֵיסְנָא.

E disse Abaye: no princípio, eu estudava dentro de casa e rezava na sinagoga. Quando ouvi o que disse Rabi Chiya bar Ami em nome de Ula — desde o dia em que o Templo foi destruído, o Santo, Bendito Seja, não tem em Seu mundo senão as quatro amot da halachá apenas —, passei a rezar apenas onde estudava.

Nota

Abaye ilustra na própria prática o impacto do ensino de Ula: ao compreender que a presença Divina privilegiada, após a destruição do Templo, se concentra no espaço do estudo da halachá, ele abandonou o costume de rezar na sinagoga separadamente de onde estudava, passando a rezar no próprio local de estudo.

20Rabi Ami e Rabi Assi rezavam entre as colunas da casa de estudo
Bavli · 8a
רַבִּי אַמֵּי וְרַבִּי אַסִּי אַף עַל גַּב דַּהֲווֹ לְהוּ תְּלֵיסַר בֵּי כְנִישְׁתָּא בִּטְבֶרְיָא לָא מְצַלּוּ אֶלָּא בֵּינֵי עַמּוּדֵי, הֵיכָא דַּהֲווֹ גָּרְסִי.

Rabi Ami e Rabi Assi, ainda que houvesse treze sinagogas em Tiberíades, não rezavam senão entre as colunas, onde estudavam.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
ביני עמודי – שבית המדרש נכון עליהם מלמעלה.

"Entre as colunas" — pois a casa de estudo estava construída sobre elas, por cima.

Nota

Um exemplo histórico confirma o costume de Abaye em escala ainda maior: apesar de Tiberíades ter treze sinagogas disponíveis, Rabi Ami e Rabi Assi preferiam rezar precisamente no espaço físico — "entre as colunas" — onde estudavam, priorizando o local do estudo da halachá sobre a multiplicidade de sinagogas convencionais.

21Quem desfruta do próprio trabalho é maior que o temente aos céus
Bavli · 8a
וְאָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַמֵּי מִשְּׁמֵיהּ דְּעוּלָּא: גָּדוֹל הַנֶּהֱנֶה מִיגִיעוֹ יוֹתֵר מִיְּרֵא שָׁמַיִם, דְּאִילּוּ גַּבֵּי יְרֵא שָׁמַיִם כְּתִיב ״אַשְׁרֵי אִישׁ יָרֵא אֶת ה׳״, וְאִילּוּ גַּבֵּי נֶהֱנָה מִיגִיעוֹ כְּתִיב: ״יְגִיעַ כַּפֶּיךָ כִּי תֹאכֵל אַשְׁרֶיךָ וְטוֹב לָךְ״. ״אַשְׁרֶיךָ״ — בָּעוֹלָם הַזֶּה, ״וְטוֹב לָךְ״ — לָעוֹלָם הַבָּא, וּלְגַבֵּי יְרֵא שָׁמַיִם, ״וְטוֹב לָךְ״ לָא כְּתִיב בֵּיהּ.

E disse Rabi Chiya bar Ami em nome de Ula: maior é aquele que desfruta do fruto de seu próprio trabalho do que o temente aos céus. Pois quanto ao temente aos céus está escrito: "feliz o homem que teme a D'us" (Salmos 112:1); e quanto ao que desfruta de seu próprio trabalho está escrito: "quando comeres do trabalho de tuas mãos, feliz és tu, e bem estará contigo" (Salmos 128:2). "Feliz és tu" — neste mundo; "e bem estará contigo" — no mundo vindouro; ao passo que, quanto ao temente aos céus, "e bem estará contigo" não está escrito a seu respeito.

Nota

Rabi Chiya bar Ami traz mais um ensino em nome de Ula, agora sobre o valor do trabalho: quem desfruta do fruto de seu próprio esforço recebe, segundo o versículo de Salmos 128, uma dupla bênção — "feliz és tu" (recompensa neste mundo) e "bem estará contigo" (recompensa no mundo vindouro) —, enquanto o versículo sobre o temente aos céus (Salmos 112:1) menciona apenas a primeira expressão, sem a segunda, sugerindo uma superioridade daquele cuja piedade se expressa através do trabalho produtivo e independente.

22Viver perto do próprio mestre: o exemplo de Shlomo e Shimi ben Gueira
Bavli · 8a
וְאָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַמֵּי מִשְּׁמֵיהּ דְּעוּלָּא: לְעוֹלָם יָדוּר אָדָם בִּמְקוֹם רַבּוֹ, שֶׁכָּל זְמַן שֶׁשִּׁמְעִי בֶּן גֵּרָא קַיָּים, לֹא נָשָׂא שְׁלֹמֹה אֶת בַּת פַּרְעֹה.

E disse Rabi Chiya bar Ami em nome de Ula: sempre deve o homem morar no lugar de seu mestre, pois enquanto Shimi ben Gueira estava vivo, Shlomo não desposou a filha de Faraó.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
שכל זמן ששמעי בן גרא קיים כו' – דסמוך למיתת שמעי כתיב ויתחתן שלמה את פרעה.

"Enquanto Shimi ben Gueira estava vivo etc." — pois, próximo à narração da morte de Shimi, está escrito: "e Shlomo aparentou-se por casamento com Faraó" (I Reis 3:1).

Nota

Um terceiro ensino de Ula, sobre um tema diferente, recomenda que a pessoa sempre resida próxima a seu mestre, extraindo a prova do próprio Rei Shlomo: enquanto Shimi ben Gueira (seu mestre, segundo a tradição) estava vivo, ele não ousou desposar a filha de Faraó — sinal do efeito refreador da proximidade de um mestre —, e a Escritura menciona esse casamento logo após relatar a morte de Shimi.

23Objeção: uma baraita ensina o oposto
Bavli · 8a
וְהָתַנְיָא אַל יָדוּר!

Mas não foi ensinado numa baraita: não deve morar (perto de seu mestre)!

Nota

A Guemará levanta de imediato uma objeção a partir de uma baraita que parece dizer exatamente o oposto: que não se deve morar no mesmo lugar que o próprio mestre.

24Resolução: depende se o discípulo se submete à repreensão do mestre
Bavli · 8a
לָא קַשְׁיָא, הָא דִּכְיִיף לֵיהּ, הָא דְּלָא כְּיִיף לֵיהּ.

Não é difícil: este (ensino, que recomenda morar perto) refere-se a quem se submete a ele (ao mestre, aceitando sua repreensão); aquele (que desaconselha) refere-se a quem não se submete a ele.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
הא דכייף ליה – אם כפוף הוא לרבו לקבל תוכחתו ידור אצלו, ואם לאו טוב להתרחק ממנו ויהי שוגג ואל יהי מזיד.

"Este, que se submete a ele" — se o discípulo é submisso ao seu mestre, a ponto de aceitar sua repreensão, deve morar junto dele; mas, se não, é melhor afastar-se dele, para que peque por erro involuntário, e não deliberadamente (por se ressentir das repreensões constantes).

Nota

A Guemará resolve a contradição distinguindo o temperamento do discípulo: quem aceita de bom grado a repreensão de seu mestre deve morar perto dele, beneficiando-se da correção constante; mas quem não suporta ser repreendido deve se afastar, pois o atrito constante poderia levá-lo a transgredir deliberadamente por ressentimento, em vez de errar apenas involuntariamente.

25Quem deixa o Sefer Torá aberto e sai é chamado de quem "abandona D'us"
Bavli · 8a
אָמַר רַב הוּנָא בַּר יְהוּדָה, אָמַר רַבִּי מְנַחֵם, אָמַר רַבִּי אַמֵּי: מַאי דִּכְתִיב, ״וְעוֹזְבֵי ה׳ יִכְלוּ״ — זֶה הַמַּנִּיחַ סֵפֶר תּוֹרָה וְיוֹצֵא.

Disse Rav Huna bar Yehuda, disse Rabi Menachem, disse Rabi Ami: o que significa o que está escrito: "e os que abandonam a D'us serão consumidos" (Isaías 1:28)? Refere-se a quem deixa o Sefer Torá (aberto, durante a leitura pública) e sai.

Nota

A Guemará passa a um novo tema: a conduta correta durante a leitura pública da Torá. Este primeiro ensino qualifica severamente quem sai da sinagoga deixando o Sefer Torá aberto (sem que outra pessoa continue a leitura ou o cuide) como incluído entre "os que abandonam D'us", segundo o duro versículo de Isaías.

26Rabi Avahu saía entre um leitor e outro
Bavli · 8a
רַבִּי אֲבָהוּ נָפֵיק בֵּין גַּבְרָא לְגַבְרָא.

Rabi Avahu saía (da sinagoga, quando precisava) entre um homem (leitor da Torá) e outro.

Nota

Rabi Avahu demonstra na prática a norma implícita no ensino anterior: se for necessário sair durante a leitura pública da Torá, o momento apropriado é entre a chamada de um leitor e a do seguinte — nunca no meio da leitura de uma pessoa, com o rolo aberto e sem supervisão adequada.

27Dúvida de Rav Papa: e entre um versículo e outro?
Bavli · 8a
בָּעֵי רַב פָּפָּא: בֵּין פְּסוּקָא לִפְסוּקָא מַהוּ?

Perguntou Rav Papa: e entre um versículo e outro (dentro da leitura de um mesmo leitor), qual é a lei?

Nota

Rav Papa levanta uma dúvida mais refinada: será também permitido sair no intervalo entre dois versículos consecutivos, dentro da leitura do mesmo leitor, e não apenas na transição entre leitores diferentes?

28Sem resposta: teiku
Bavli · 8a
תֵּיקוּ.

Teiku (a questão permanece sem resolução).

Nota

A dúvida de Rav Papa permanece sem solução na Guemará, marcada pelo termo técnico teiku, reservado às questões que a tradição talmúdica deixa formalmente em aberto.

29Rav Sheshet virava o rosto e estudava durante a leitura pública
Bavli · 8a
רַב שֵׁשֶׁת מַהְדַּר אַפֵּיהּ וְגָרֵיס. אָמַר: אֲנַן בְּדִידַן וְאִינְהוּ בְּדִידְהוּ.

Rav Sheshet virava o rosto e estudava (sua própria matéria, durante a leitura pública da Torá). Disse: nós (fazemos) o nosso, e eles (fazem) o deles.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
מהדר אפיה וגריס – משנתו כשקורין בספר תורה.

"Virava o rosto e estudava" — sua Mishná, enquanto liam no Sefer Torá.

Nota

Rav Sheshet, sendo cego (segundo tradições sobre sua vida), virava-se durante a leitura pública da Torá para se concentrar em seu próprio estudo (a Mishná), justificando sua conduta com a declaração de que cada atividade — a leitura pública da congregação e seu estudo pessoal — tinha valor próprio e independente, sem que uma prejudicasse a outra.

30Completar a parashá semanal com a congregação: duas vezes o texto, uma vez o Targum
Bavli · 8a
אָמַר רַב הוּנָא בַּר יְהוּדָה, אָמַר רַבִּי אַמֵּי: לְעוֹלָם יַשְׁלִים אָדָם פָּרָשִׁיּוֹתָיו עִם הַצִּבּוּר. שְׁנַיִם מִקְרָא וְאֶחָד תַּרְגּוּם.

Disse Rav Huna bar Yehuda, disse Rabi Ami: sempre deve o homem completar suas porções semanais (da Torá) junto com a congregação: duas vezes o texto (hebraico) e uma vez o Targum (a tradução aramaica).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8a
ישלים פרשיותיו – של כל שבת ושבת.

"Complete suas porções" — de cada Shabat, respectivamente.

Nota

O daf se encerra com um ensino de grande alcance prático e duradouro: todo indivíduo deve acompanhar semanalmente a leitura pública da Torá completando, em particular, a porção (parashá) correspondente àquele Shabat, lendo o texto hebraico duas vezes e sua tradução aramaica (o Targum) uma vez — o costume que ficaria conhecido como "shnayim mikra ve-echad targum", ainda praticado até hoje.