A Guemará fecha o tema da parashá semanal completada com a congregação, discutindo prazos (inclusive o costume de terminar o ano todo até véspera de Iom Kipur) e depois reúne uma série de conselhos práticos e éticos de Rava e Rabi Yehoshua ben Levi a seus filhos — cuidados com corte de carne, com a cama da mulher aramaica, com passar atrás da sinagoga durante a oração, e com o ancião que esqueceu seu estudo por força maior. Segue-se uma baraita elogiando três costumes discretos dos medos e dos persas, e o daf termina com uma extensa discussão sobre a baraita de Rabi Shimon bar Yochai, segundo a qual às vezes se lê o Shemá duas vezes seguidas na mesma "noite" ou no mesmo "dia" ao redor do amanhecer.
E mesmo (as palavras) "Atarot e Divon" (Números 32:3, um mero versículo de nomes de lugares) — pois todo aquele que completa suas porções (semanais da Torá) junto com a congregação tem seus dias e seus anos prolongados.
"E mesmo Atarot e Divon" — porque não há Targum (tradução aramaica) para esse versículo (sendo apenas uma lista de nomes de lugares).
O daf 8b abre dando continuidade ao ensino final de 8a: mesmo para um versículo como "Atarot e Divon", que Rashi observa não possuir tradução no Targum (por ser apenas uma enumeração de topônimos), ainda assim se deve completá-lo junto com a congregação — lendo-o duas vezes em hebraico, já que não há aramaico correspondente para a terceira leitura. A recompensa reafirmada é o prolongamento da vida.
Rav Bivi bar Abaye pensou em completar as porções (que faltavam) de todo o ano na véspera do Dia do Perdão (Iom Kipur). Ensinou-lhe Chiya bar Rav de Difti: está escrito: "e afligireis vossas almas no nono dia do mês, à tarde" (Levítico 23:32).
Rav Bivi bar Abaye planejava aproveitar a véspera de Iom Kipur para colocar em dia, de uma só vez, todas as porções semanais que havia deixado de completar durante o ano. Chiya bar Rav de Difti lhe traz uma objeção a partir do versículo que ordena o jejum "no nono dia à tarde" — o jejum de Iom Kipur começa já no dia nove, à tarde, deixando pouco tempo disponível para tal acúmulo de leitura.
Mas acaso se jejua no dia nove?! Não é no dia dez que se jejua! Antes, (o versículo vem) para te dizer: todo aquele que come e bebe no dia nove, a Escritura lhe considera como se tivesse jejuado (tanto) o nono quanto o décimo (dia).
"A Escritura lhe considera etc." — e é isto o que o versículo está dizendo: preparai-vos no dia nove do mês para o jejum do dia seguinte, e isso é, aos (Meus) olhos, como o próprio jejum daquele dia.
A Guemará resolve a aparente contradição do versículo, que fala em "afligir-se" já no dia nove, quando na verdade o jejum de Iom Kipur ocorre no dia dez: o versículo ensina que comer e beber fartamente no dia nove — preparando-se para o jejum — é contado pela Escritura como se essa própria refeição fosse parte do jejum, unindo os dois dias num só mérito.
Pensou (então) em adiantá-las (as porções, lendo-as antes do tempo). Disse-lhe um certo ancião: aprendemos (numa mishná): contanto que não antecipe e não atrase.
"Adiantá-las" — organizar todas as porções (pendentes) num único Shabat, ou em dois Shabatot (de uma só vez, antes do tempo devido).
Barrado o caminho de acumular tudo na véspera de Iom Kipur, Rav Bivi bar Abaye considerou a alternativa oposta: adiantar a leitura das porções futuras, concentrando várias semanas de uma vez. Um ancião lhe recorda um princípio já ensinado: cada porção deve ser lida em seu próprio tempo, sem antecipação nem atraso.
Assim como disse Rabi Yehoshua ben Levi a seus filhos: completai vossas porções junto com a congregação, duas vezes o texto e uma vez o Targum.
A Guemará retoma o costume de "shnayim mikra ve-echad targum" através de um dos conselhos que Rabi Yehoshua ben Levi transmitia a seus próprios filhos, abrindo uma série mais ampla de instruções pessoais que ele lhes dava — a primeira de uma sequência de avisos práticos que ocupará as próximas unidades.
E tende cuidado com as veias, conforme Rabi Yehuda; pois aprendemos (numa mishná): Rabi Yehuda diz: até que degole as veias (ao abater uma ave).
"Até que degole as veias" — para que saia todo o sangue; e isso só se disse a respeito de ave, já que se assa toda de uma vez (inteira, e o sangue remanescente ficaria retido).
O segundo conselho de Rabi Yehoshua ben Levi trata do abate ritual de aves: seguir a opinião de Rabi Yehuda, que exige degolar também as veias do pescoço, garantindo o escoamento completo do sangue — cuidado especialmente relevante para aves, que costumam ser assadas inteiras, sem serem cortadas em pedaços que permitiriam ao sangue escorrer durante o preparo.
E tende cuidado com o ancião que esqueceu seu estudo por força maior (contra sua vontade); pois dizemos: as Tábuas (da Lei) e os fragmentos das Tábuas (quebradas) estavam depositados juntos na Arca.
"Por força maior" — porque adoeceu, ou foi atormentado por dificuldade de sustento: cuidai de honrá-lo. "Os fragmentos das Tábuas estavam depositados na Arca" — pois está escrito: "que quebraste, e as depositarás na Arca" (Deuteronômio 10:2) — também os fragmentos deverás depositar na Arca.
O terceiro conselho recomenda honrar o sábio idoso que, por doença ou aperto financeiro — circunstâncias fora de seu controle —, esqueceu o que havia estudado. A prova vem do próprio destino das Tábuas da Lei: mesmo quebradas, os fragmentos foram guardados com honra dentro da Arca Sagrada, ao lado das Tábuas íntegras, ensinando que também o sábio "fragmentado" pelo esquecimento involuntário mantém sua honra e seu lugar.
Disse-lhes Rava a seus filhos: quando cortardes carne, não corteis sobre o dorso da mão. Há os que dizem: por causa de perigo; e há os que dizem: por causa de estragar a refeição.
"Por causa de perigo" — para que não corte a própria mão. "Por causa de estragar a refeição" — pois mesmo com um pequeno ferimento sairia sangue, sujaria a comida, e causaria repugnância aos comensais.
A Guemará passa a uma nova série de instruções, agora de Rava a seus próprios filhos. A primeira delas adverte contra o hábito de cortar carne apoiando-a sobre o dorso da própria mão, prática arriscada por duas razões possíveis: o perigo físico de se ferir, ou a possibilidade de o sangue de um pequeno corte sujar o alimento e desagradar os presentes à mesa.
E não vos senteis na cama de uma (mulher) aramaica; e não passeis atrás da sinagoga na hora em que a congregação está rezando. "Não vos senteis na cama de uma aramaica" — há os que dizem: não durmais sem (recitar) a leitura do Shemá; e há os que dizem: não desposeis uma convertida; e há os que dizem: (trata-se de) uma aramaica mesmo, literalmente.
"Sem (recitar) o Shemá" — para que tua cama não se assemelhe à cama de uma aramaica (isto é, um leito sem santidade nem proteção). "Uma aramaica mesmo" — refere-se literalmente à cama de uma mulher aramaica.
Rava transmite dois avisos mais: não sentar-se na cama de uma mulher aramaica, e não passar atrás da sinagoga enquanto a congregação reza. A Guemará registra três interpretações para a primeira expressão enigmática: (1) uma metáfora para dormir sem antes recitar o Shemá, deixando o leito "desprotegido" como o de uma pagã; (2) uma advertência contra casar-se com uma convertida (por seu passado); ou (3) simplesmente, no sentido literal, a cama de uma mulher aramaica de fato.
E por causa do caso de Rav Papa. Que Rav Papa foi até uma (mulher) aramaica; ela trouxe-lhe uma cama. Disse-lhe: senta-te! Disse-lhe: não me sento até que levantes a cama. Ela levantou a cama, e encontraram ali uma criança morta. Daqui disseram os sábios: é proibido sentar-se na cama de uma aramaica.
"O caso de Rav Papa" — que ela lhe disse para sentar-se na cama, e havia seu filho morto colocado debaixo dela, e ela queria incriminá-lo, dizendo que ele se sentara sobre a criança e a matara.
A Guemará explica a terceira interpretação (a literal) narrando o episódio que a originou: uma mulher aramaica tentou armar uma cilada contra Rav Papa, escondendo o cadáver de uma criança sob a cama que lhe oferecera, na esperança de acusá-lo falsamente de homicídio caso ele se sentasse sem antes verificar. Sua desconfiança salvou-o, e os sábios daí em diante proibiram, por precaução, sentar-se em camas de mulheres aramaicas.
"E não passeis atrás da sinagoga na hora em que a congregação está rezando" — isto apoia (o ensino) de Rabi Yehoshua ben Levi. Pois disse Rabi Yehoshua ben Levi: é proibido ao homem passar atrás da sinagoga na hora em que a congregação está rezando.
"É proibido passar etc." — pois parece como quem foge para longe da porta da sinagoga, que fica a leste.
A Guemará observa que o segundo aviso de Rava — não passar atrás da sinagoga durante a oração comunitária — coincide com um ensino independente de Rabi Yehoshua ben Levi, citado aqui como apoio (não como fonte original). Rashi explica a razão de fundo: como a entrada da sinagoga ficava tradicionalmente a leste, passar por trás dela dá a impressão de estar fugindo apressadamente do local, evitando entrar para rezar.
Disse Abaye: e não dissemos (isto) senão quando não há outra porta; mas se há outra porta, não há problema. E não dissemos (isto) senão quando não há outra sinagoga; mas se há outra sinagoga, não há problema. E não dissemos (isto) senão quando não carrega fardo, nem corre, nem usa tefilin (visíveis); mas se há um desses (sinais), não há problema.
Abaye limita o alcance da proibição com três exceções: se existe outra porta na sinagoga (então quem passa atrás pode estar apenas indo até essa outra entrada); se existe outra sinagoga próxima (podendo estar a caminho dela); ou se a pessoa exibe sinais visíveis de estar ocupada com outra obrigação legítima — carregando um fardo, correndo (com pressa evidente de outro compromisso), ou usando os tefilin à mostra (sinal de que já rezou ou está indo rezar em outro lugar). Nesses casos, não há suspeita de desrespeito à sinagoga.
Foi ensinado numa baraita: disse Rabi Akiva: por três coisas eu amo os medos: quando cortam a carne, não a cortam senão sobre a mesa; quando se beijam, não se beijam senão sobre o dorso da mão; e quando deliberam (sobre assuntos sigilosos), não deliberam senão no campo.
"Sobre o dorso da mão" — beija a mão de seu companheiro, e este é um modo de respeito, por causa da saliva. "Senão no campo" — pois as pessoas dizem: as paredes têm ouvidos.
A menção ao corte de carne sobre a mão (unidade 8) leva a Guemará a uma baraita paralela de Rabi Akiva, que elogia três costumes discretos e prudentes dos medos: cortar a carne sempre sobre a mesa (nunca sobre a mão), beijar apenas o dorso da mão (por respeito e higiene, evitando a saliva no rosto) e deliberar assuntos delicados apenas ao ar livre, no campo — longe de paredes que, como diz o ditado popular, "têm ouvidos".
Disse Rav Ada bar Ahava: qual é o versículo (que prova o cuidado de deliberar no campo)? "E Yaacov enviou, e chamou a Rachel e a Leá ao campo, ao seu rebanho" (Gênesis 31:4).
Rav Ada bar Ahava sustenta com uma fonte bíblica o costume elogiado por Rabi Akiva: Yaacov, ao precisar comunicar a suas esposas sua decisão de deixar a casa de Lavan — assunto sensível e sigiloso —, as chamou especificamente ao campo, seguindo o mesmo princípio de prudência quanto a "ouvidos" indesejados.
Foi ensinado numa baraita: disse Raban Gamliel: por três coisas eu amo os persas: eles são discretos em sua alimentação, discretos na privada, e discretos em outra coisa.
"Em outra coisa" — refere-se à relação conjugal.
Uma baraita paralela traz o elogio de Raban Gamliel aos persas, também por três virtudes de discrição e pudor: comem sem ostentação, mantêm privacidade nas necessidades fisiológicas e, conforme Rashi esclarece o eufemismo "outra coisa", também na relação conjugal — todas expressões do valor rabínico da modéstia (tzniut), mesmo entre povos não-judeus.
"Eu ordenei aos Meus consagrados" (Isaías 13:3) — ensinou Rav Yossef: estes são os persas, consagrados e preparados para a Guehinom (destinados a servir de instrumento de castigo às nações, e por fim também condenados).
"Eu ordenei aos Meus consagrados" — está escrito a respeito da queda da Babilônia: Eu ordenei aos reis da Pérsia e da Média que viessem e a destruíssem.
Apesar do elogio às virtudes de pudor, a Guemará acrescenta uma nota de ressalva: o versículo de Isaías sobre "os consagrados" de D'us, no contexto da queda da Babilônia, é aplicado por Rav Yossef aos próprios persas — "consagrados" no sentido de terem sido designados como instrumento Divino de castigo contra outra nação, mas eles mesmos, por fim, também destinados ao julgamento.
"Raban Gamliel diz etc." — disse Rav Yehuda, disse Shmuel: a halachá segue Raban Gamliel.
Esta unidade retoma, na verdade, uma mishná anterior sobre a disputa entre Raban Gamliel e os sábios a respeito de quando se recita o Shemá da noite; Shmuel decide a halachá a favor de Raban Gamliel, servindo de ponte para a extensa discussão sobre a leitura dupla do Shemá que ocupa o restante do daf.
Foi ensinado numa baraita: Rabi Shimon ben (bar) Yochai diz: às vezes o homem lê a leitura do Shemá duas vezes durante a noite — uma antes de subir a coluna da alvorada, e outra depois de subir a coluna da alvorada —, e cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite.
Uma baraita de Rabi Shimon bar Yochai introduz um cenário peculiar: uma pessoa que lê o Shemá duas vezes seguidas, ambas ainda dentro do que ele chama de "noite" (antes e depois do surgimento da coluna da alvorada), pode com isso cumprir tanto sua obrigação do Shemá noturno quanto a do diurno. A formulação, como a Guemará notará a seguir, contém uma tensão interna a ser resolvida.
Isto mesmo é difícil: disseste: "às vezes o homem lê o Shemá duas vezes durante a noite" — logo, depois de subir a coluna da alvorada ainda é noite; e depois ensina: "cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite" — logo, é dia (o período após a alvorada)!
A Guemará aponta a contradição interna da própria baraita: sua primeira cláusula chama de "noite" o período após o surgimento da coluna da alvorada (pois descreve as duas leituras como ocorrendo "durante a noite"), mas sua cláusula final trata a segunda leitura como cumprindo a obrigação "do dia" — implicando que aquele mesmo período já seria diurno.
Não (há dificuldade) — na verdade, é noite; e o fato de (a baraita) chamá-lo de "dia" é porque há pessoas que já estão de pé àquela hora.
"É noite" — até o nascer do sol. "Que já estão de pé àquela hora" — por isso é (chamado também) o tempo do Shemá do dia, pois, a respeito da leitura do Shemá, está escrito "e ao te levantares" (Deuteronômio 6:7), e eis que já estão de pé.
A Guemará resolve a contradição: tecnicamente, todo o período até o nascer do sol continua sendo "noite" — inclusive depois da coluna da alvorada. Mas a baraita o chama também de tempo do Shemá "do dia" porque, segundo Rashi, o versículo que ordena a leitura "ao te levantares" já se aplica a esse momento, uma vez que há pessoas que já se levantaram e iniciaram suas atividades diárias, tornando esse instante apropriado tanto para a leitura noturna quanto para a diurna.
Disse Rav Acha bar Chanina, disse Rabi Yehoshua ben Levi: a halachá segue Rabi Shimon ben (bar) Yochai.
Rabi Yehoshua ben Levi decide a lei conforme a opinião de Rabi Shimon bar Yochai apresentada na baraita, validando a possibilidade de cumprir ambas as obrigações do Shemá (noturna e diurna) através de duas leituras próximas ao amanhecer.
Há os que ensinam este (dito) de Rav Acha bar Chanina em referência a isto (outra baraita). Pois foi ensinado: Rabi Shimon ben (bar) Yochai diz em nome de Rabi Akiva: às vezes o homem lê a leitura do Shemá duas vezes durante o dia — uma antes do nascer do sol, e outra depois do nascer do sol —, e cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite.
Uma versão alternativa da tradição situa a decisão halachica de Rabi Yehoshua ben Levi não sobre a primeira baraita (unidade 18, formulada em termos de "noite"), mas sobre uma segunda baraita, agora transmitida por Rabi Shimon bar Yochai em nome de Rabi Akiva e formulada em termos de "dia": as duas leituras ocorrem uma antes e outra depois do nascer do sol (não da coluna da alvorada), e mesmo assim cumprem ambas as obrigações.
Isto mesmo é difícil: disseste "às vezes o homem lê o Shemá duas vezes durante o dia" — logo, antes do nascer do sol já é dia; e depois ensina "cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite" — logo, (aquele mesmo período) é noite!
A mesma tensão lógica da unidade 19 reaparece agora na versão formulada em termos de "dia": se a baraita chama de "dia" o período antes do nascer do sol, como pode em seguida dizer que a leitura feita nesse mesmo período cumpre a obrigação "da noite"? A Guemará conclui o daf com esta dificuldade em aberto, a ser retomada na continuação da sugia em 9a — parte da mesma extensa discussão sobre os limites exatos entre a noite e o dia para efeitos da leitura do Shemá, que ecoa a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre a postura corporal na leitura do Shemá à noite.
O tema da leitura dupla do Shemá ao redor do amanhecer, e a fronteira exata entre "noite" e "dia" para essa mitzvá, dialoga com a discussão paralela do Talmud Yerushalmi sobre o horário do Shemá noturno e matinal.
Ver também no Talmud Yerushalmi 1:1