Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
שְׁנַיִם מִקְרָא

Completar a parashá até Iom Kipur; os avisos de Rava e Rabi Yehoshua ben Levi aos filhos; os três elogios aos persas; a baraita de Rabi Shimon bar Yochai sobre ler o Shemá duas vezes

Berachot 8b

A Guemará fecha o tema da parashá semanal completada com a congregação, discutindo prazos (inclusive o costume de terminar o ano todo até véspera de Iom Kipur) e depois reúne uma série de conselhos práticos e éticos de Rava e Rabi Yehoshua ben Levi a seus filhos — cuidados com corte de carne, com a cama da mulher aramaica, com passar atrás da sinagoga durante a oração, e com o ancião que esqueceu seu estudo por força maior. Segue-se uma baraita elogiando três costumes discretos dos medos e dos persas, e o daf termina com uma extensa discussão sobre a baraita de Rabi Shimon bar Yochai, segundo a qual às vezes se lê o Shemá duas vezes seguidas na mesma "noite" ou no mesmo "dia" ao redor do amanhecer.

A Guemará · הַגְּמָרָא

01Mesmo "Atarot e Divon", que não têm Targum
Bavli · 8b
וַאֲפִילּוּ ״עֲטָרוֹת וְדִיבֹן״. שֶׁכָּל הַמַּשְׁלִים פָּרָשִׁיּוֹתָיו עִם הַצִּבּוּר מַאֲרִיכִין לוֹ יָמָיו וּשְׁנוֹתָיו.

E mesmo (as palavras) "Atarot e Divon" (Números 32:3, um mero versículo de nomes de lugares) — pois todo aquele que completa suas porções (semanais da Torá) junto com a congregação tem seus dias e seus anos prolongados.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
ואפ' עטרות ודיבון – שאין בו תרגום.

"E mesmo Atarot e Divon" — porque não há Targum (tradução aramaica) para esse versículo (sendo apenas uma lista de nomes de lugares).

Nota

O daf 8b abre dando continuidade ao ensino final de 8a: mesmo para um versículo como "Atarot e Divon", que Rashi observa não possuir tradução no Targum (por ser apenas uma enumeração de topônimos), ainda assim se deve completá-lo junto com a congregação — lendo-o duas vezes em hebraico, já que não há aramaico correspondente para a terceira leitura. A recompensa reafirmada é o prolongamento da vida.

02Rav Bivi bar Abaye queria completar o ano todo na véspera de Iom Kipur
Bavli · 8b
רַב בִּיבִי בַּר אַבָּיֵי סָבַר לְאַשְׁלוֹמִינְהוּ לְפָרָשְׁיָיתָא דְּכֹלָּא שַׁתָּא בְּמַעֲלֵי יוֹמָא דְכִפּוּרֵי, תְּנָא לֵיהּ חִיָּיא בַּר רַב מִדִּפְתִּי: כְּתִיב: ״וְעִנִּיתֶם אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם בְּתִשְׁעָה לַחֹדֶשׁ בָּעֶרֶב״.

Rav Bivi bar Abaye pensou em completar as porções (que faltavam) de todo o ano na véspera do Dia do Perdão (Iom Kipur). Ensinou-lhe Chiya bar Rav de Difti: está escrito: "e afligireis vossas almas no nono dia do mês, à tarde" (Levítico 23:32).

Nota

Rav Bivi bar Abaye planejava aproveitar a véspera de Iom Kipur para colocar em dia, de uma só vez, todas as porções semanais que havia deixado de completar durante o ano. Chiya bar Rav de Difti lhe traz uma objeção a partir do versículo que ordena o jejum "no nono dia à tarde" — o jejum de Iom Kipur começa já no dia nove, à tarde, deixando pouco tempo disponível para tal acúmulo de leitura.

03Quem come e bebe no nono dia é considerado como se tivesse jejuado dois dias
Bavli · 8b
וְכִי בְּתִשְׁעָה מִתְעַנִּין?! וַהֲלֹא בַּעֲשָׂרָה מִתְעַנִּין! אֶלָּא לוֹמַר לְךָ כָּל הָאוֹכֵל וְשׁוֹתֶה בִּתְשִׁיעִי, מַעֲלֶה עָלָיו הַכָּתוּב כְּאִילּוּ מִתְעַנֶּה תְּשִׁיעִי וַעֲשִׂירִי.

Mas acaso se jejua no dia nove?! Não é no dia dez que se jejua! Antes, (o versículo vem) para te dizer: todo aquele que come e bebe no dia nove, a Escritura lhe considera como se tivesse jejuado (tanto) o nono quanto o décimo (dia).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
מעלה עליו הכתוב כו' – והכי קאמר קרא הכינו עצמכם בתשעה לחדש לענוי המחרת והרי הוא בעיני כענוי היום.

"A Escritura lhe considera etc." — e é isto o que o versículo está dizendo: preparai-vos no dia nove do mês para o jejum do dia seguinte, e isso é, aos (Meus) olhos, como o próprio jejum daquele dia.

Nota

A Guemará resolve a aparente contradição do versículo, que fala em "afligir-se" já no dia nove, quando na verdade o jejum de Iom Kipur ocorre no dia dez: o versículo ensina que comer e beber fartamente no dia nove — preparando-se para o jejum — é contado pela Escritura como se essa própria refeição fosse parte do jejum, unindo os dois dias num só mérito.

04Não adiantar as parashiot: nem antecipar, nem atrasar
Bavli · 8b
סָבַר לְאַקְדּוֹמִינְהוּ, אָמַר לֵיהּ הָהוּא סָבָא, תְּנֵינָא: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יַקְדִּים וְשֶׁלֹּא יְאַחֵר.

Pensou (então) em adiantá-las (as porções, lendo-as antes do tempo). Disse-lhe um certo ancião: aprendemos (numa mishná): contanto que não antecipe e não atrase.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
לאקדומינהו – לסדר כל הפרשיות בשבת אחת או בשתי שבתות.

"Adiantá-las" — organizar todas as porções (pendentes) num único Shabat, ou em dois Shabatot (de uma só vez, antes do tempo devido).

Nota

Barrado o caminho de acumular tudo na véspera de Iom Kipur, Rav Bivi bar Abaye considerou a alternativa oposta: adiantar a leitura das porções futuras, concentrando várias semanas de uma vez. Um ancião lhe recorda um princípio já ensinado: cada porção deve ser lida em seu próprio tempo, sem antecipação nem atraso.

05Rabi Yehoshua ben Levi repete aos filhos: completem com a congregação
Bavli · 8b
כְּדַאֲמַר לְהוּ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי לִבְנֵיהּ: אַשְׁלִימוּ פָּרָשְׁיוֹתַיְיכוּ עִם הַצִּבּוּר שְׁנַיִם מִקְרָא וְאֶחָד תַּרְגּוּם.

Assim como disse Rabi Yehoshua ben Levi a seus filhos: completai vossas porções junto com a congregação, duas vezes o texto e uma vez o Targum.

Nota

A Guemará retoma o costume de "shnayim mikra ve-echad targum" através de um dos conselhos que Rabi Yehoshua ben Levi transmitia a seus próprios filhos, abrindo uma série mais ampla de instruções pessoais que ele lhes dava — a primeira de uma sequência de avisos práticos que ocupará as próximas unidades.

06Cuidado com as veias, como Rabi Yehuda
Bavli · 8b
וְהִזָּהֲרוּ בִּוְרִידִין כְּרַבִּי יְהוּדָה, דִּתְנַן: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: עַד שֶׁיִּשְׁחוֹט אֶת הַוְּרִידִין.

E tende cuidado com as veias, conforme Rabi Yehuda; pois aprendemos (numa mishná): Rabi Yehuda diz: até que degole as veias (ao abater uma ave).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
עד שישחוט את הורידין – כדי שיצא כל הדם ולא אמר כן אלא בעוף הואיל וצולהו כולו כאחד.

"Até que degole as veias" — para que saia todo o sangue; e isso só se disse a respeito de ave, já que se assa toda de uma vez (inteira, e o sangue remanescente ficaria retido).

Nota

O segundo conselho de Rabi Yehoshua ben Levi trata do abate ritual de aves: seguir a opinião de Rabi Yehuda, que exige degolar também as veias do pescoço, garantindo o escoamento completo do sangue — cuidado especialmente relevante para aves, que costumam ser assadas inteiras, sem serem cortadas em pedaços que permitiriam ao sangue escorrer durante o preparo.

07Cuidado com o ancião que esqueceu seu estudo por força maior
Bavli · 8b
וְהִזָּהֲרוּ בְּזָקֵן שֶׁשָּׁכַח תַּלְמוּדוֹ מֵחֲמַת אוֹנְסוֹ. דְּאָמְרִינַן: לוּחוֹת וְשִׁבְרֵי לוּחוֹת מוּנָּחוֹת בָּאָרוֹן.

E tende cuidado com o ancião que esqueceu seu estudo por força maior (contra sua vontade); pois dizemos: as Tábuas (da Lei) e os fragmentos das Tábuas (quebradas) estavam depositados juntos na Arca.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
מחמת אונסו – שחלה או שנטרד בדוחק מזונות הזהרו בו לכבדו: שברי לוחות מונחות בארון – דכתיב אשר שברת ושמתם בארון אף השברים תשים בארון.

"Por força maior" — porque adoeceu, ou foi atormentado por dificuldade de sustento: cuidai de honrá-lo. "Os fragmentos das Tábuas estavam depositados na Arca" — pois está escrito: "que quebraste, e as depositarás na Arca" (Deuteronômio 10:2) — também os fragmentos deverás depositar na Arca.

Nota

O terceiro conselho recomenda honrar o sábio idoso que, por doença ou aperto financeiro — circunstâncias fora de seu controle —, esqueceu o que havia estudado. A prova vem do próprio destino das Tábuas da Lei: mesmo quebradas, os fragmentos foram guardados com honra dentro da Arca Sagrada, ao lado das Tábuas íntegras, ensinando que também o sábio "fragmentado" pelo esquecimento involuntário mantém sua honra e seu lugar.

08Rava aos filhos: não cortar carne sobre a palma da mão
Bavli · 8b
אָמַר לְהוּ רָבָא לִבְנֵיהּ: כְּשֶׁאַתֶּם חוֹתְכִין בָּשָׂר, אַל תַּחְתְּכוּ עַל גַּב הַיָּד. אִיכָּא דְאָמְרִי: מִשּׁוּם סַכָּנָה. וְאִיכָּא דְאָמְרִי: מִשּׁוּם קִלְקוּל סְעוּדָה.

Disse-lhes Rava a seus filhos: quando cortardes carne, não corteis sobre o dorso da mão. Há os que dizem: por causa de perigo; e há os que dizem: por causa de estragar a refeição.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
משום סכנה – שלא יקוץ ידו: משום קלקול סעודה – אף בחבורה קטנה יצא דם וילכלך את המאכל וימאיס את המסובין.

"Por causa de perigo" — para que não corte a própria mão. "Por causa de estragar a refeição" — pois mesmo com um pequeno ferimento sairia sangue, sujaria a comida, e causaria repugnância aos comensais.

Nota

A Guemará passa a uma nova série de instruções, agora de Rava a seus próprios filhos. A primeira delas adverte contra o hábito de cortar carne apoiando-a sobre o dorso da própria mão, prática arriscada por duas razões possíveis: o perigo físico de se ferir, ou a possibilidade de o sangue de um pequeno corte sujar o alimento e desagradar os presentes à mesa.

09Não sentar na cama da aramaica; não passar atrás da sinagoga em oração
Bavli · 8b
וְאַל תֵּשְׁבוּ עַל מִטַּת אֲרַמִּית, וְאַל תַּעַבְרוּ אֲחוֹרֵי בֵּית הַכְּנֶסֶת בְּשָׁעָה שֶׁהַצִּבּוּר מִתְפַּלְּלִין. וְאַל תֵּשְׁבוּ עַל מִטַּת אֲרַמִּית, אִיכָּא דְאָמְרִי לָא תִּגְנוֹ בְּלָא קְרִיאַת שְׁמַע, וְאִיכָּא דְאָמְרִי דְּלָא תִּנְסְבוּ גִּיּוֹרְתָא. וְאִיכָּא דְאָמְרִי, אֲרַמִּית מַמָּשׁ.

E não vos senteis na cama de uma (mulher) aramaica; e não passeis atrás da sinagoga na hora em que a congregação está rezando. "Não vos senteis na cama de uma aramaica" — há os que dizem: não durmais sem (recitar) a leitura do Shemá; e há os que dizem: não desposeis uma convertida; e há os que dizem: (trata-se de) uma aramaica mesmo, literalmente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
בלא ק"ש – שתהא מטתך דומה למטת ארמית: ארמית ממש – על מטת ארמית.

"Sem (recitar) o Shemá" — para que tua cama não se assemelhe à cama de uma aramaica (isto é, um leito sem santidade nem proteção). "Uma aramaica mesmo" — refere-se literalmente à cama de uma mulher aramaica.

Nota

Rava transmite dois avisos mais: não sentar-se na cama de uma mulher aramaica, e não passar atrás da sinagoga enquanto a congregação reza. A Guemará registra três interpretações para a primeira expressão enigmática: (1) uma metáfora para dormir sem antes recitar o Shemá, deixando o leito "desprotegido" como o de uma pagã; (2) uma advertência contra casar-se com uma convertida (por seu passado); ou (3) simplesmente, no sentido literal, a cama de uma mulher aramaica de fato.

10O caso de Rav Papa e a criança morta sob a cama
Bavli · 8b
וּמִשּׁוּם מַעֲשֶׂה דְרַב פָּפָּא. דְּרַב פָּפָּא אֲזַל לְגַבֵּי אֲרַמִּית, הוֹצִיאָה לוֹ מִטָּה. אָמְרָה לוֹ: שֵׁב! אָמַר לָהּ: אֵינִי יוֹשֵׁב, עַד שֶׁתַּגְבִּיהִי אֶת הַמִּטָּה. הִגְבִּיהָה אֶת הַמִּטָּה וּמָצְאוּ שָׁם תִּינוֹק מֵת. מִכָּאן אָמְרוּ חֲכָמִים: אָסוּר לֵישֵׁב עַל מִטַּת אֲרַמִּית.

E por causa do caso de Rav Papa. Que Rav Papa foi até uma (mulher) aramaica; ela trouxe-lhe uma cama. Disse-lhe: senta-te! Disse-lhe: não me sento até que levantes a cama. Ela levantou a cama, e encontraram ali uma criança morta. Daqui disseram os sábios: é proibido sentar-se na cama de uma aramaica.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
מעשה דרב פפא – שאמרה לו שב על המטה והיה בנה מת מוטל עליה והיתה רוצה להעליל עליו ולומר שישב עליו והרגו.

"O caso de Rav Papa" — que ela lhe disse para sentar-se na cama, e havia seu filho morto colocado debaixo dela, e ela queria incriminá-lo, dizendo que ele se sentara sobre a criança e a matara.

Nota

A Guemará explica a terceira interpretação (a literal) narrando o episódio que a originou: uma mulher aramaica tentou armar uma cilada contra Rav Papa, escondendo o cadáver de uma criança sob a cama que lhe oferecera, na esperança de acusá-lo falsamente de homicídio caso ele se sentasse sem antes verificar. Sua desconfiança salvou-o, e os sábios daí em diante proibiram, por precaução, sentar-se em camas de mulheres aramaicas.

11Apoio a Rabi Yehoshua ben Levi sobre passar atrás da sinagoga
Bavli · 8b
וְאַל תַּעַבְרוּ אֲחוֹרֵי בֵּית הַכְּנֶסֶת בְּשָׁעָה שֶׁהַצִּבּוּר מִתְפַּלְּלִין — מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. דְּאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: אָסוּר לוֹ לְאָדָם שֶׁיַּעֲבוֹר אֲחוֹרֵי בֵּית הַכְּנֶסֶת בְּשָׁעָה שֶׁהַצִּבּוּר מִתְפַּלְּלִין.

"E não passeis atrás da sinagoga na hora em que a congregação está rezando" — isto apoia (o ensino) de Rabi Yehoshua ben Levi. Pois disse Rabi Yehoshua ben Levi: é proibido ao homem passar atrás da sinagoga na hora em que a congregação está rezando.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
אסור לעבור וכו' – שנראה כמבריח עצמו מפתח בית הכנסת שבמזרח.

"É proibido passar etc." — pois parece como quem foge para longe da porta da sinagoga, que fica a leste.

Nota

A Guemará observa que o segundo aviso de Rava — não passar atrás da sinagoga durante a oração comunitária — coincide com um ensino independente de Rabi Yehoshua ben Levi, citado aqui como apoio (não como fonte original). Rashi explica a razão de fundo: como a entrada da sinagoga ficava tradicionalmente a leste, passar por trás dela dá a impressão de estar fugindo apressadamente do local, evitando entrar para rezar.

12Exceções de Abaye: outra porta, outra sinagoga, ou sinais visíveis de compromisso
Bavli · 8b
אָמַר אַבָּיֵי: וְלָא אֲמַרַן אֶלָּא דְּלֵיכָּא פִּתְחָא אַחֲרִינָא, אֲבָל אִיכָּא פִּתְחָא אַחֲרִינָא — לֵית לָן בַּהּ. וְלָא אֲמַרַן אֶלָּא דְּלֵיכָּא בֵּי כְנִישְׁתָּא אַחֲרִינָא, אֲבָל אִיכָּא בֵּי כְנִישְׁתָּא אַחֲרִינָא — לֵית לָן בַּהּ. וְלָא אֲמַרַן אֶלָּא דְּלָא דָּרֵי טוּנָא, וְלָא רָהֵיט, וְלָא מַנַּח תְּפִילִּין, אֲבָל אִיכָּא חַד מֵהָנָךְ — לֵית לַן בַּהּ.

Disse Abaye: e não dissemos (isto) senão quando não há outra porta; mas se há outra porta, não há problema. E não dissemos (isto) senão quando não há outra sinagoga; mas se há outra sinagoga, não há problema. E não dissemos (isto) senão quando não carrega fardo, nem corre, nem usa tefilin (visíveis); mas se há um desses (sinais), não há problema.

Nota

Abaye limita o alcance da proibição com três exceções: se existe outra porta na sinagoga (então quem passa atrás pode estar apenas indo até essa outra entrada); se existe outra sinagoga próxima (podendo estar a caminho dela); ou se a pessoa exibe sinais visíveis de estar ocupada com outra obrigação legítima — carregando um fardo, correndo (com pressa evidente de outro compromisso), ou usando os tefilin à mostra (sinal de que já rezou ou está indo rezar em outro lugar). Nesses casos, não há suspeita de desrespeito à sinagoga.

13Rabi Akiva: três coisas que ama nos medos
Bavli · 8b
תַּנְיָא, אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא: בִּשְׁלֹשָׁה דְבָרִים אוֹהֵב אֲנִי אֶת הַמָּדִיִּים, כְּשֶׁחוֹתְכִין אֶת הַבָּשָׂר — אֵין חוֹתְכִין אֶלָּא עַל גַּבֵּי הַשּׁוּלְחָן, כְּשֶׁנּוֹשְׁקִין — אֵין נוֹשְׁקִין אֶלָּא עַל גַּב הַיָּד, וּכְשֶׁיּוֹעֲצִין — אֵין יוֹעֲצִין אֶלָּא בַּשָּׂדֶה.

Foi ensinado numa baraita: disse Rabi Akiva: por três coisas eu amo os medos: quando cortam a carne, não a cortam senão sobre a mesa; quando se beijam, não se beijam senão sobre o dorso da mão; e quando deliberam (sobre assuntos sigilosos), não deliberam senão no campo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
על גב היד – את יד חברו הוא נושק ודרך חשיבות הוא זה מפני הרוק: אלא בשדה – דאמרי אינשי אזנים לכותל.

"Sobre o dorso da mão" — beija a mão de seu companheiro, e este é um modo de respeito, por causa da saliva. "Senão no campo" — pois as pessoas dizem: as paredes têm ouvidos.

Nota

A menção ao corte de carne sobre a mão (unidade 8) leva a Guemará a uma baraita paralela de Rabi Akiva, que elogia três costumes discretos e prudentes dos medos: cortar a carne sempre sobre a mesa (nunca sobre a mão), beijar apenas o dorso da mão (por respeito e higiene, evitando a saliva no rosto) e deliberar assuntos delicados apenas ao ar livre, no campo — longe de paredes que, como diz o ditado popular, "têm ouvidos".

14Prova: Yaacov chamou Rachel e Leá ao campo
Bavli · 8b
אָמַר רַב אַדָּא בַּר אַהֲבָה: מַאי קְרָאָה ״וַיִּשְׁלַח יַעֲקֹב וַיִּקְרָא לְרָחֵל וּלְלֵאָה הַשָּׂדֶה אֶל צֹאנוֹ״.

Disse Rav Ada bar Ahava: qual é o versículo (que prova o cuidado de deliberar no campo)? "E Yaacov enviou, e chamou a Rachel e a Leá ao campo, ao seu rebanho" (Gênesis 31:4).

Nota

Rav Ada bar Ahava sustenta com uma fonte bíblica o costume elogiado por Rabi Akiva: Yaacov, ao precisar comunicar a suas esposas sua decisão de deixar a casa de Lavan — assunto sensível e sigiloso —, as chamou especificamente ao campo, seguindo o mesmo princípio de prudência quanto a "ouvidos" indesejados.

15Raban Gamliel: três coisas que ama nos persas
Bavli · 8b
תַּנְיָא אָמַר רַבָּן גַּמְלִיאֵל: בִּשְׁלֹשָׁה דְבָרִים אוֹהֵב אֲנִי אֶת הַפַּרְסִיִּים: הֵן צְנוּעִין בַּאֲכִילָתָן, וּצְנוּעִין בְּבֵית הַכִּסֵּא, וּצְנוּעִין בְּדָבָר אַחֵר.

Foi ensinado numa baraita: disse Raban Gamliel: por três coisas eu amo os persas: eles são discretos em sua alimentação, discretos na privada, e discretos em outra coisa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
בדבר אחר – תשמיש.

"Em outra coisa" — refere-se à relação conjugal.

Nota

Uma baraita paralela traz o elogio de Raban Gamliel aos persas, também por três virtudes de discrição e pudor: comem sem ostentação, mantêm privacidade nas necessidades fisiológicas e, conforme Rashi esclarece o eufemismo "outra coisa", também na relação conjugal — todas expressões do valor rabínico da modéstia (tzniut), mesmo entre povos não-judeus.

16"Ordenei aos Meus consagrados": os persas destinados à Guehinom
Bavli · 8b
״אֲנִי צִוֵּיתִי לִמְקֻדָּשָׁי״, תָּנֵי רַב יוֹסֵף: אֵלּוּ הַפַּרְסִיִּים הַמְקוּדָּשִׁין וּמְזוּמָּנִין לְגֵיהִנָּם.

"Eu ordenei aos Meus consagrados" (Isaías 13:3) — ensinou Rav Yossef: estes são os persas, consagrados e preparados para a Guehinom (destinados a servir de instrumento de castigo às nações, e por fim também condenados).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
אני צויתי למקודשי – במפלת בבל כתיב אני צויתי את מלכי פרס ומדי לבא ולהשחיתה.

"Eu ordenei aos Meus consagrados" — está escrito a respeito da queda da Babilônia: Eu ordenei aos reis da Pérsia e da Média que viessem e a destruíssem.

Nota

Apesar do elogio às virtudes de pudor, a Guemará acrescenta uma nota de ressalva: o versículo de Isaías sobre "os consagrados" de D'us, no contexto da queda da Babilônia, é aplicado por Rav Yossef aos próprios persas — "consagrados" no sentido de terem sido designados como instrumento Divino de castigo contra outra nação, mas eles mesmos, por fim, também destinados ao julgamento.

17A halachá segue Raban Gamliel
Bavli · 8b
רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר וְכוּ׳: אָמַר רַב יְהוּדָה, אָמַר שְׁמוּאֵל: הֲלָכָה כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל.

"Raban Gamliel diz etc." — disse Rav Yehuda, disse Shmuel: a halachá segue Raban Gamliel.

Nota

Esta unidade retoma, na verdade, uma mishná anterior sobre a disputa entre Raban Gamliel e os sábios a respeito de quando se recita o Shemá da noite; Shmuel decide a halachá a favor de Raban Gamliel, servindo de ponte para a extensa discussão sobre a leitura dupla do Shemá que ocupa o restante do daf.

18Baraita de Rabi Shimon bar Yochai: ler o Shemá duas vezes à noite
Bavli · 8b
תַּנְיָא: רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי אוֹמֵר פְּעָמִים שֶׁאָדָם קוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע שְׁתֵּי פְּעָמִים בַּלַּיְלָה, אַחַת קוֹדֶם שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר וְאַחַת לְאַחַר שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר, וְיוֹצֵא בָּהֶן יְדֵי חוֹבָתוֹ אַחַת שֶׁל יוֹם וְאַחַת שֶׁל לַיְלָה.

Foi ensinado numa baraita: Rabi Shimon ben (bar) Yochai diz: às vezes o homem lê a leitura do Shemá duas vezes durante a noite — uma antes de subir a coluna da alvorada, e outra depois de subir a coluna da alvorada —, e cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite.

Nota

Uma baraita de Rabi Shimon bar Yochai introduz um cenário peculiar: uma pessoa que lê o Shemá duas vezes seguidas, ambas ainda dentro do que ele chama de "noite" (antes e depois do surgimento da coluna da alvorada), pode com isso cumprir tanto sua obrigação do Shemá noturno quanto a do diurno. A formulação, como a Guemará notará a seguir, contém uma tensão interna a ser resolvida.

19Objeção: a própria baraita se contradiz sobre dia e noite
Bavli · 8b
הָא גוּפָא קַשְׁיָא, אָמְרַתְּ: פְּעָמִים שֶׁאָדָם קוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע שְׁתֵּי פְּעָמִים בַּלַּיְלָה, אַלְמָא לְאַחַר שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר לֵילְיָא הוּא, וַהֲדַר תָּנֵי: יוֹצֵא בָּהֶן יְדֵי חוֹבָתוֹ אַחַת שֶׁל יוֹם וְאַחַת שֶׁל לַיְלָה, אַלְמָא יְמָמָא הוּא!

Isto mesmo é difícil: disseste: "às vezes o homem lê o Shemá duas vezes durante a noite" — logo, depois de subir a coluna da alvorada ainda é noite; e depois ensina: "cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite" — logo, é dia (o período após a alvorada)!

Nota

A Guemará aponta a contradição interna da própria baraita: sua primeira cláusula chama de "noite" o período após o surgimento da coluna da alvorada (pois descreve as duas leituras como ocorrendo "durante a noite"), mas sua cláusula final trata a segunda leitura como cumprindo a obrigação "do dia" — implicando que aquele mesmo período já seria diurno.

20Resolução: é noite, mas chamada "dia" por quem já está de pé
Bavli · 8b
לָא — לְעוֹלָם לֵילְיָא הוּא. וְהָא דְּקָרֵי לֵיהּ ״יוֹם״ — דְּאִיכָּא אִינָשֵׁי דְּקָיְימִי בְּהַהִיא שַׁעְתָּא.

Não (há dificuldade) — na verdade, é noite; e o fato de (a baraita) chamá-lo de "dia" é porque há pessoas que já estão de pé àquela hora.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 8b
ליליא הוא – עד הנץ החמה: דקיימי בההיא שעתא – הלכך זמן ק"ש דיום הוא דגבי קרית שמע ובקומך כתיב והא קיימי.

"É noite" — até o nascer do sol. "Que já estão de pé àquela hora" — por isso é (chamado também) o tempo do Shemá do dia, pois, a respeito da leitura do Shemá, está escrito "e ao te levantares" (Deuteronômio 6:7), e eis que já estão de pé.

Nota

A Guemará resolve a contradição: tecnicamente, todo o período até o nascer do sol continua sendo "noite" — inclusive depois da coluna da alvorada. Mas a baraita o chama também de tempo do Shemá "do dia" porque, segundo Rashi, o versículo que ordena a leitura "ao te levantares" já se aplica a esse momento, uma vez que há pessoas que já se levantaram e iniciaram suas atividades diárias, tornando esse instante apropriado tanto para a leitura noturna quanto para a diurna.

21A halachá segue Rabi Shimon bar Yochai
Bavli · 8b
אָמַר רַב אַחָא בַּר חֲנִינָא, אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי.

Disse Rav Acha bar Chanina, disse Rabi Yehoshua ben Levi: a halachá segue Rabi Shimon ben (bar) Yochai.

Nota

Rabi Yehoshua ben Levi decide a lei conforme a opinião de Rabi Shimon bar Yochai apresentada na baraita, validando a possibilidade de cumprir ambas as obrigações do Shemá (noturna e diurna) através de duas leituras próximas ao amanhecer.

22Uma versão alternativa: outra baraita, agora sobre o dia
Bavli · 8b
אִיכָּא דְּמַתְנֵי לְהָא דְּרַב אַחָא בַּר חֲנִינָא אַהָא. דְּתַנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבִּי עֲקִיבָא: פְּעָמִים שֶׁאָדָם קוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע שְׁתֵּי פְּעָמִים בַּיּוֹם, אַחַת קוֹדֶם הָנֵץ הַחַמָּה, וְאַחַת לְאַחַר הַנֵּץ הַחַמָּה, וְיוֹצֵא בָּהֶן יְדֵי חוֹבָתוֹ, אַחַת שֶׁל יוֹם וְאַחַת שֶׁל לַיְלָה.

Há os que ensinam este (dito) de Rav Acha bar Chanina em referência a isto (outra baraita). Pois foi ensinado: Rabi Shimon ben (bar) Yochai diz em nome de Rabi Akiva: às vezes o homem lê a leitura do Shemá duas vezes durante o dia — uma antes do nascer do sol, e outra depois do nascer do sol —, e cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite.

Nota

Uma versão alternativa da tradição situa a decisão halachica de Rabi Yehoshua ben Levi não sobre a primeira baraita (unidade 18, formulada em termos de "noite"), mas sobre uma segunda baraita, agora transmitida por Rabi Shimon bar Yochai em nome de Rabi Akiva e formulada em termos de "dia": as duas leituras ocorrem uma antes e outra depois do nascer do sol (não da coluna da alvorada), e mesmo assim cumprem ambas as obrigações.

23A mesma contradição se repete nesta segunda versão
Bavli · 8b
הָא גוּפָא קַשְׁיָא. אָמְרַתְּ פְּעָמִים שֶׁאָדָם קוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע שְׁתֵּי פְּעָמִים בַּיּוֹם, אַלְמָא קוֹדֶם הָנֵץ הַחַמָּה יְמָמָא הוּא, וַהֲדַר תָּנֵי יוֹצֵא בָּהֶן יְדֵי חוֹבָתוֹ אַחַת שֶׁל יוֹם וְאַחַת שֶׁל לַיְלָה, אַלְמָא לֵילְיָא הוּא!

Isto mesmo é difícil: disseste "às vezes o homem lê o Shemá duas vezes durante o dia" — logo, antes do nascer do sol já é dia; e depois ensina "cumpre com elas sua obrigação, uma referente ao dia e outra referente à noite" — logo, (aquele mesmo período) é noite!

Nota

A mesma tensão lógica da unidade 19 reaparece agora na versão formulada em termos de "dia": se a baraita chama de "dia" o período antes do nascer do sol, como pode em seguida dizer que a leitura feita nesse mesmo período cumpre a obrigação "da noite"? A Guemará conclui o daf com esta dificuldade em aberto, a ser retomada na continuação da sugia em 9a — parte da mesma extensa discussão sobre os limites exatos entre a noite e o dia para efeitos da leitura do Shemá, que ecoa a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre a postura corporal na leitura do Shemá à noite.