Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
לְעוֹלָם יְמָמָא

Fecha-se a discussão sobre a leitura dupla do Shemá; o caso dos filhos embriagados de Rabi Yehoshua ben Levi; a mishná de Raban Gamliel "até a coluna da alvorada"; a controvérsia sobre o horário de comer o Pêssach e a hora do "apressamento" no Êxodo

Berachot 9a

A Guemará resolve, por fim, a segunda versão da contradição deixada em aberto em 8b, decidindo que o período antes do nascer do sol continua sendo "dia" — e a halachá segue Rabi Shimon (em nome de Rabi Akiva), com a ressalva de Rabi Zeira de não recitar "Hashkivenu" nesse horário limítrofe. Segue-se o episódio dos alunos embriagados no casamento do filho de Rabi Yehoshua ben Levi, que abre caminho para a Guemará expor por completo a mishná de Raban Gamliel sobre o prazo do Shemá noturno "até a coluna da alvorada" — incluindo o debate entre Raban Gamliel e seus próprios filhos, a extensão desse prazo a outras leis (a queima dos sebos e membros, e a comida do Pêssach), e uma longa controvérsia tanaítica, com apoio em versículos sobre o Êxodo do Egito, entre Rabi Elazar ben Azaria e Rabi Akiva a respeito da "hora do apressamento" e dos limites exatos entre a noite da saída do Egito e o dia seguinte. O daf termina com um ensino de Rabi Yanai sobre o sentido da palavra "na" (por favor) no pedido de D'us a Moshé para que os israelitas solicitassem objetos de prata e ouro aos egípcios.

A Guemará · הַגְּמָרָא

01Resolução final: na verdade é dia, e o chamam de "noite" por quem ainda dorme
Bavli · 9a
לָא, לְעוֹלָם יְמָמָא הוּא, וְהַאי דְּקָרוּ לֵיהּ ״לֵילְיָא״ — דְּאִיכָּא אִינָשֵׁי דְּגָנוּ בְּהַהִיא שַׁעְתָּא.

Não (há dificuldade) — na verdade, é dia; e o fato de (a baraita) chamá-lo de "noite" é porque há pessoas que ainda dormem àquela hora.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
והאי דקרו ליה ליליא – דקאמר יוצא בו ק"ש של לילה: משום דאיכא דגנו – וקרינא ביה ובשכבך.

"E o fato de chamá-lo de 'noite'" — pois (a baraita) diz que com ele se cumpre o Shemá da noite. "Por causa de que há os que ainda dormem" — e se lhes aplica (o versículo) "e ao te deitares" (Deuteronômio 6:7).

Nota

O daf 9a abre resolvendo a segunda contradição deixada em aberto no final de 8b, referente à baraita formulada em termos de "dia": ao contrário da primeira baraita (resolvida em 8b como sendo tecnicamente "noite"), aqui a Guemará conclui o oposto — tecnicamente esse período já é "dia", e a baraita o chama de "noite" apenas porque, segundo Rashi, ainda há pessoas dormindo àquela hora, aplicando-se a elas o versículo "e ao te deitares".

02A halachá segue Rabi Shimon em nome de Rabi Akiva, com a ressalva de Rabi Zeira
Bavli · 9a
אָמַר רַבִּי אַחָא בְּרַבִּי חֲנִינָא, אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן שֶׁאָמַר מִשּׁוּם רַבִּי עֲקִיבָא. אָמַר רַבִּי זֵירָא: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֹאמַר ״הַשְׁכִּיבֵנוּ״.

Disse Rabi Acha, filho de Rabi Chanina, disse Rabi Yehoshua ben Levi: a halachá segue Rabi Shimon, que disse em nome de Rabi Akiva. Disse Rabi Zeira: contanto que não diga "Hashkivenu" (a bênção que pede para "nos fazer deitar em paz").

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
ובלבד שלא יאמר השכיבנו – הקורא ק"ש של לילה שחרית סמוך לעמוד השחר לא יאמר השכיבנו שאין עוד זמן תחלת שכיבה אלא זמן סוף שכיבה.

"Contanto que não diga 'Hashkivenu'" — aquele que lê o Shemá da noite pela manhã, próximo à coluna da alvorada, não deve dizer "Hashkivenu", pois já não é mais o início do tempo de deitar-se, mas sim o fim do tempo de deitar-se.

Nota

Rabi Yehoshua ben Levi decide a halachá conforme a versão da baraita transmitida por Rabi Shimon em nome de Rabi Akiva (a que fala em "dia" — unidade 22 de 8b). Rabi Zeira acrescenta uma ressalva prática: quem aproveita esse horário limítrofe para cumprir retroativamente o Shemá da noite não deve recitar a bênção "Hashkivenu", já associada ao início da noite, pois àquela altura já se está no fim do período de deitar-se, não em seu começo.

03Rav Yitzchak bar Yossef: a decisão não foi dita explicitamente, mas deduzida
Bavli · 9a
כִּי אֲתָא רַב יִצְחָק בַּר יוֹסֵף, אֲמַר: הָא דְּרַבִּי אַחָא בְּרַבִּי חֲנִינָא אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי, לָאו בְּפֵירוּשׁ אִיתְּמַר, אֶלָּא מִכְּלָלָא אִיתְּמַר.

Quando veio Rav Yitzchak bar Yossef (da Terra de Israel para a Babilônia), disse: este (ensino) de Rabi Acha, filho de Rabi Chanina, (transmitido) em nome de Rabi Yehoshua ben Levi, não foi dito explicitamente, mas foi dito por dedução (a partir de um caso concreto).

Nota

Rav Yitzchak bar Yossef esclarece a origem da decisão halachica anterior: Rabi Yehoshua ben Levi não a formulou como um pronunciamento direto e explícito, mas ela foi inferida por seus discípulos a partir de sua reação a um caso concreto, que a Guemará passa a narrar na unidade seguinte.

04O caso dos dois sábios embriagados no casamento do filho de Rabi Yehoshua ben Levi
Bavli · 9a
דְּהָהוּא זוּגָא דְּרַבָּנַן דְּאִשְׁתַּכּוּר בְּהִלּוּלָא דִּבְרֵיהּ דְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. אֲתוֹ לְקַמֵּיהּ דְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי, אֲמַר: כְּדַאי הוּא רַבִּי שִׁמְעוֹן לִסְמוֹךְ עָלָיו בִּשְׁעַת הַדְּחָק.

Pois (houve o caso de) um certo par de sábios que se embriagou na festa de núpcias do filho de Rabi Yehoshua ben Levi. Vieram diante de Rabi Yehoshua ben Levi (perguntar o que fazer, tendo perdido o horário do Shemá). Disse (ele): digno é Rabi Shimon de que se confie nele em hora de aperto.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
דאשתכור – וישנו ונרדמו עד לאחר עמוד השחר: בשעת הדחק – אבל שלא בשעת הדחק לא.

"Que se embriagou" — e dormiram e adormeceram até depois da coluna da alvorada. "Em hora de aperto" — mas não fora de uma hora de aperto (isto é, sem necessidade extrema, não se deve confiar nessa opinião).

Nota

A Guemará narra o episódio concreto: dois sábios embriagaram-se na festa de casamento do filho de Rabi Yehoshua ben Levi e adormeceram, perdendo por completo o horário costumeiro do Shemá noturno, só acordando depois de já ter surgido a coluna da alvorada. Ao consultá-lo, Rabi Yehoshua ben Levi respondeu que, em caso de necessidade (como aquele), pode-se apoiar na opinião de Rabi Shimon — permitindo ainda a leitura do Shemá da noite mesmo àquela hora tardia —, mas Rashi frisa que essa permissão vale apenas em situação de aperto, não como prática regular.

05A mishná: "Aconteceu que vieram seus filhos etc."
Bavli · 9a
מַעֲשֶׂה שֶׁבָּאוּ בָּנָיו וְכוּ׳.

"Aconteceu que vieram seus filhos etc." (citação retomada da mishná).

Nota

A Guemará passa agora a citar e discutir, palavra por palavra, o restante da mishná de Berachot 1:1: o relato de que os filhos de Raban Gamliel vieram lhe dizer que não haviam lido o Shemá (por terem voltado tarde de uma festa), ao que ele lhes respondeu que, enquanto não tivesse surgido a coluna da alvorada, ainda estariam obrigados a lê-lo — pois, para ele, o prazo do Shemá noturno se estende até a alvorada, e não apenas até a meia-noite.

06Pergunta: até agora não tinham ouvido o ensino de Raban Gamliel?
Bavli · 9a
וְעַד הַשְׁתָּא לָא שְׁמִיעַ לְהוּ הָא דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל?!

Mas até agora não tinham ouvido este (ensino) de Raban Gamliel (de que o prazo vai até a alvorada)?!

Nota

A Guemará estranha a própria narrativa da mishná: se os filhos de Raban Gamliel conheciam a opinião do próprio pai — que o prazo do Shemá noturno se estende até a coluna da alvorada —, por que se preocuparam ao voltar tarde e lhe disseram "não lemos o Shemá", como se temessem ter perdido a oportunidade?

07Resposta: a dúvida era se a halachá seguia os sábios (a maioria) ou o próprio Raban Gamliel
Bavli · 9a
הָכִי קָאָמְרִי לֵיהּ: רַבָּנַן פְּלִיגִי עִילָּווֹךְ, וְיָחִיד וְרַבִּים, הֲלָכָה כְּרַבִּים, אוֹ דִּלְמָא רַבָּנַן כְּווֹתָךְ סְבִירָא לְהוּ, וְהַאי דְּקָאָמְרִי ״עַד חֲצוֹת״ — כְּדֵי לְהַרְחִיק אָדָם מִן הָעֲבֵירָה. אָמַר לְהוּ: רַבָּנָן כְּווֹתִי סְבִירָא לְהוּ, וְחַיָּיבִין אַתֶּם. וְהַאי דְּקָאָמְרִי ״עַד חֲצוֹת״ — כְּדֵי לְהַרְחִיק אָדָם מִן הָעֲבֵירָה.

Assim lhe disseram: os sábios discordam de ti, e (sendo) um único (contra) muitos, a halachá segue a maioria; ou, quem sabe, os sábios pensam como tu, e o fato de dizerem "até a meia-noite" é para afastar o homem da transgressão (impondo um limite mais cauteloso). Disse-lhes: os sábios pensam como eu, e estais obrigados (a ler agora); e o fato de dizerem "até a meia-noite" é para afastar o homem da transgressão.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
הכי קא אמרי ליה – לרבן גמליאל ולא גרס אלא: רבנן פליגי עילווך – כלומר מי פליגי רבנן עליך דהא דאמרי עד חצות דוקא קאמרי דלא משמע להו ובשכבך כל זמן שכיבה אלא כל זמן שדרך בני אדם להתעסק לילך ולשכב ומיהו בהא פליגי אדר' אליעזר דאלו רבי אליעזר סבירא ליה זמן עסק שכיבה אינו אלא עד האשמורה הראשונה ולרבנן עד חצות. ואת סבירא לך ובשכבך כל זמן שבני אדם שוכבים והיינו כל הלילה ויחיד ורבים הלכה כרבים: או דילמא כוותך סבירא להו – ומשמע להו ובשכבך כל זמן שכיבה והא דקאמרי עד חצות הרחקה הוא כדי לזרז ומיהו היכא דאתניס ולא קרא קודם חצות עדיין זמן חיובא הוא ומחייבי ונפקי ידי ק"ש בזמנו: כוותי סבירא להו – וחייבין אתם לקרות גרסינן ולא גרסינן מותרים דאפילו שלא בזמנו תנן (עמוד ב) הקורא מכאן ואילך לא הפסיד כאדם הקורא בתורה.

"Assim lhe disseram" — a Raban Gamliel; e não se lê senão: "os sábios discordam de ti" — ou seja: será que os sábios de fato discordam de ti, pois quando dizem "até a meia-noite" é isso mesmo que querem dizer, pois não entendem "e ao te deitares" como todo o tempo de deitar-se, mas sim apenas o tempo em que as pessoas costumam se ocupar em ir deitar-se (o começo da noite) — nisso discordariam de Rabi Eliezer, para quem o tempo de "ocupar-se em deitar" vai apenas até o fim da primeira vigília, e para os sábios até a meia-noite; e tu (Raban Gamliel) entendes "e ao te deitares" como todo o tempo em que as pessoas estão deitadas, isto é, a noite inteira; e sendo um (contra) muitos, a halachá segue a maioria. "Ou quem sabe pensam como tu" — e entendem "e ao te deitares" como todo o tempo de estar deitado, e o fato de dizerem "até a meia-noite" é apenas uma precaução, para apressar (o cumprimento); mas caso alguém tenha sido impedido por força maior e não tenha lido antes da meia-noite, ainda está dentro do tempo de obrigação, e (tais pessoas) ficam obrigadas e cumprem o Shemá em seu horário próprio. "Pensam como eu" — "e estais obrigados a ler" é a versão correta do texto, e não se lê "estais permitidos" (mas não obrigados), pois ensinamos (adiante, 10b): aquele que lê depois desse horário não perde (o mérito), como quem lê na Torá.

Nota

A Guemará explica a real preocupação dos filhos: eles sabiam da opinião pessoal do pai, mas duvidavam se ela era compartilhada pelos demais sábios (caso em que, sendo minoria, sua opinião não prevaleceria) ou se, na verdade, os sábios concordavam com o próprio Raban Gamliel quanto ao prazo real (até a alvorada), tendo apenas fixado a meia-noite como uma cerca protetora contra o esquecimento. Raban Gamliel resolve a dúvida a favor da segunda possibilidade: os sábios pensam como ele, e portanto seus filhos ainda estavam obrigados a ler.

08A mishná: "E não somente isso disseram, mas... etc."
Bavli · 9a
וְלֹא זוֹ בִּלְבַד אָמְרוּ, אֶלָּא וְכוּ׳.

"E não somente isso disseram, mas... etc." (citação retomada da mishná).

Nota

A Guemará avança para a próxima cláusula da mishná, que estende o princípio de Raban Gamliel: não apenas o Shemá, mas tudo aquilo que os sábios limitaram "até a meia-noite" tem, na verdade, seu prazo de cumprimento até a coluna da alvorada.

09Pergunta: mas foi Raban Gamliel quem disse "até a meia-noite"?
Bavli · 9a
וְרַבָּן גַּמְלִיאֵל מִי קָאָמַר ״עַד חֲצוֹת״ דְּקָתָנֵי ״וְלֹא זוֹ בִּלְבַד אָמְרוּ״?

Mas acaso foi Raban Gamliel quem disse "até a meia-noite", que se ensina "e não somente isso disseram" (como se ele estivesse ampliando sua própria afirmação anterior)?

Nota

A Guemará observa uma dificuldade textual: a expressão "e não somente isso disseram" pressupõe que o próprio autor já havia dito "até a meia-noite" antes — mas foi Raban Gamliel quem discordou desse limite, afirmando que o prazo vai até a alvorada; foram os sábios (não ele) que disseram "até a meia-noite". Como, então, entender a continuidade da mishná?

10Resposta: mesmo segundo os sábios, o prazo real vai até a alvorada
Bavli · 9a
הָכִי קָאָמַר לְהוּ רַבָּן גַּמְלִיאֵל לִבְנֵיהּ: אֲפִילּוּ לְרַבָּנַן דְּקָאָמְרִי ״עַד חֲצוֹת״, מִצְוָתָהּ עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר. וְהַאי דְּקָא אָמְרִי עַד חֲצוֹת — כְּדֵי לְהַרְחִיק אָדָם מִן הָעֲבֵירָה.

Assim disse Raban Gamliel a seus filhos: mesmo segundo os sábios, que dizem "até a meia-noite", seu preceito (na verdade) vale até que suba a coluna da alvorada; e o fato de dizerem "até a meia-noite" é para afastar o homem da transgressão.

Nota

A resposta reformula o que Raban Gamliel havia dito a seus filhos: ele lhes explicava que, mesmo na visão dos sábios (que fixaram "até a meia-noite" como precaução), o momento em que efetivamente se cumpre a mitzvá do Shemá se estende até a alvorada. É essa afirmação — atribuída à posição dos próprios sábios, e não à sua — que a mishná retoma com "e não somente isso disseram", generalizando o princípio para outras leis paralelas.

11A mishná: "A queima dos sebos e membros etc."
Bavli · 9a
הֶקְטֵר חֲלָבִים וְכוּ׳.

"A queima dos sebos e membros (tem seu preceito até que suba a coluna da alvorada) etc." (citação retomada da mishná).

Nota

A Guemará cita a aplicação concreta do princípio: assim como o Shemá, também a queima noturna, sobre o altar, dos sebos e membros dos sacrifícios tem seu prazo estendido até a coluna da alvorada, e não apenas até a meia-noite.

12Observação: a mishná não menciona a comida do Pêssach
Bavli · 9a
וְאִילּוּ אֲכִילַת פְּסָחִים לָא קָתָנֵי.

E, no entanto, a comida do (sacrifício de) Pêssach ela não ensina (como incluída nesse mesmo prazo estendido).

Nota

A Guemará nota uma omissão significativa na mishná: embora ela mencione a queima dos sebos e "tudo o que se come em um só dia" como tendo prazo estendido até a alvorada, ela não inclui explicitamente a comida da carne do sacrifício pascal (Pêssach) — o que a Guemará explorará a seguir como base de uma contradição com outra fonte.

13Contradição: uma baraita inclui a comida do Pêssach no mesmo prazo
Bavli · 9a
וּרְמִינְהִי: קְרִיאַת שְׁמַע עַרְבִית, וְהַלֵּל בְּלֵילֵי פְּסָחִים, וַאֲכִילַת פֶּסַח, מִצְוָתָן עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר!

E colocamos em contradição (uma baraita): a leitura do Shemá da noite, o Halel nas noites de Pêssach, e a comida do Pêssach — seu preceito vale até que suba a coluna da alvorada!

Nota

A Guemará traz uma baraita que contradiz a implicação da mishná: enquanto a mishná pareceu omitir a comida do Pêssach da lista de leis com prazo estendido até a alvorada, esta baraita explicitamente a inclui, juntamente com o Shemá noturno e a recitação do Halel nas noites de Pêssach.

14Rav Yossef resolve: a mishná segue Rabi Elazar ben Azaria, a baraita segue Rabi Akiva
Bavli · 9a
אָמַר רַב יוֹסֵף: לָא קַשְׁיָא: הָא רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, הָא רַבִּי עֲקִיבָא. דְּתַנְיָא: ״וְאָכְלוּ אֶת הַבָּשָׂר בַּלַּיְלָה הַזֶּה״, רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: נֶאֱמַר כָּאן ״בַּלַּיְלָה הַזֶּה״, וְנֶאֱמַר לְהַלָּן: ״וְעָבַרְתִּי בְאֶרֶץ מִצְרַיִם בַּלַּיְלָה הַזֶּה״, מַה לְּהַלָּן עַד חֲצוֹת, אַף כָּאן עַד חֲצוֹת.

Disse Rav Yossef: não há dificuldade: esta (a mishná segue) Rabi Elazar ben Azaria, aquela (a baraita segue) Rabi Akiva. Pois foi ensinado (numa baraita): "E comerão a carne nesta noite" (Êxodo 12:8) — Rabi Elazar ben Azaria diz: foi dito aqui "nesta noite", e foi dito adiante "e passarei pela terra do Egito nesta noite" (Êxodo 12:12); assim como ali (a praga dos primogênitos ocorreu) até a meia-noite, também aqui (a comida do Pêssach vale) até a meia-noite.

Nota

Rav Yossef resolve a contradição atribuindo as duas fontes a tanaítas diferentes: a mishná, que omite o Pêssach da lista estendida até a alvorada, reflete a opinião de Rabi Elazar ben Azaria, que — através de uma analogia verbal (guezerá shavá) entre "nesta noite" na comida do Pêssach e "nesta noite" na praga dos primogênitos — limita o tempo de comer o sacrifício pascal até a meia-noite, tal como a praga ocorreu até a meia-noite. Já a baraita, que inclui o Pêssach no prazo estendido, segue a opinião de Rabi Akiva.

15Rabi Akiva objeta: já está escrito "com pressa"
Bavli · 9a
אָמַר לֵיהּ רַבִּי עֲקִיבָא: וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר ״בְּחִפָּזוֹן״, עַד שְׁעַת חִפָּזוֹן. אִם כֵּן מָה תַּלְמוּד לוֹמַר ״בַּלַּיְלָה״?

Disse-lhe Rabi Akiva: mas não foi já dito "com pressa" (Êxodo 12:11) — (o que indica que a comida vale) até a hora do apressamento (isto é, até o amanhecer, quando os egípcios apressaram a saída de Israel)? Se assim é, o que vem ensinar (o versículo que diz) "à noite"?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
שעת חפזון – שנחפזו לצאת והיינו עמוד השחר כדכתיב לא תצאו איש מפתח ביתו עד בקר (שמות י״ב:כ״ב).

"A hora do apressamento" — quando se apressaram para sair, e isso é (o momento de) a coluna da alvorada, conforme está escrito: "e nenhum de vós saia da porta de sua casa até a manhã" (Êxodo 12:22).

Nota

Rabi Akiva contesta a analogia de Rabi Elazar ben Azaria com outro versículo: a Torá diz que o Pêssach deve ser comido "com pressa" — expressão que, segundo Rashi, remete à pressa da saída do Egito, que só ocorreu ao amanhecer (a coluna da alvorada), e não à meia-noite. Isso sugeriria que o prazo de comer o Pêssach vai até a alvorada, contradizendo diretamente a conclusão de Rabi Elazar ben Azaria.

16Rabi Akiva conclui: comida do Pêssach só à noite, nunca de dia
Bavli · 9a
יָכוֹל יְהֵא נֶאֱכָל כְּקָדָשִׁים בַּיּוֹם תַּלְמוּד לוֹמַר ״בַּלַּיְלָה״, בַּלַּיְלָה הוּא נֶאֱכָל, וְלֹא בַּיּוֹם.

Poder-se-ia (pensar) que seja comido, como (outros) sacrifícios sagrados, de dia; vem o versículo ensinar "à noite": à noite é que se come, e não de dia.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
יכול יהא נאכל – כשאר קדשים ביום שחיטתו כדרך תודה שאף היא זמן אכילתה יום א' ואוכל והולך כל יום שחיטתה והלילה עד הבקר כדין תודה דכתיב ביום קרבנו יאכל (ויקרא ז׳:ט״ו).

"Poder-se-ia pensar que seja comido" — como os demais sacrifícios sagrados, no dia de seu abate, à maneira da oferenda de gratidão (todá), cujo tempo de comer também é de um dia — comendo-se durante todo o dia de seu abate e a noite (seguinte) até a manhã — conforme a lei da todá, pois está escrito: "no dia de sua oferenda será comida" (Levítico 7:15).

Nota

Segundo Rabi Akiva, o propósito real da palavra "à noite" no versículo não é limitar o horário até a meia-noite, mas sim excluir a possibilidade de comer o Pêssach durante o dia (como se faz com outros sacrifícios semelhantes, como a oferenda de gratidão, comida ao longo de todo o dia do abate e da noite seguinte). Assim, para Rabi Akiva, o prazo de comer o Pêssach continua até a alvorada, coerente com a expressão "com pressa".

17Pergunta sobre Rabi Akiva: para que serve a palavra "esta" (noite)?
Bavli · 9a
בִּשְׁלָמָא לְרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה דְּאִית לֵיהּ גְּזֵירָה שָׁוָה, אִצְטְרִיךְ לְמִכְתַּב לֵיהּ ״הַזֶּה״. אֶלָּא לְרַבִּי עֲקִיבָא הַאי ״הַזֶּה״ מַאי עָבֵיד לֵיהּ?

Está bem para Rabi Elazar ben Azaria, que tem a analogia verbal (a fazer): foi necessário escrever-lhe "esta" (noite). Mas para Rabi Akiva, o que faz ele com este "esta"?

Nota

A Guemará questiona por que o versículo especifica "nesta noite" (com o pronome demonstrativo "esta"), e não apenas "à noite": para Rabi Elazar ben Azaria, essa palavra extra é necessária para estabelecer a analogia verbal com a praga dos primogênitos; mas, para Rabi Akiva, que não usa essa analogia, qual seria a função dessa palavra adicional?

18Resposta: excluir que se coma em outra noite
Bavli · 9a
לְמַעוֹטֵי לַיְלָה אַחֵר הוּא דַּאֲתָא, סָלְקָא דַּעְתָּךְ אָמֵינָא: הוֹאִיל וּפֶסַח קָדָשִׁים קַלִּים, וּשְׁלָמִים קָדָשִׁים קַלִּים, מָה שְׁלָמִים נֶאֱכָלִין לִשְׁנֵי יָמִים וְלַיְלָה אֶחָד — אַף פֶּסַח נֶאֱכָל שְׁתֵּי לֵילוֹת בִּמְקוֹם שְׁנֵי יָמִים, וִיהֵא נֶאֱכָל לִשְׁנֵי לֵילוֹת וְיוֹם אֶחָד. קָמַשְׁמַע לָן ״בַּלַּיְלָה הַזֶּה״, בַּלַּיְלָה הַזֶּה הוּא נֶאֱכָל וְאֵינוֹ נֶאֱכָל בְּלַיְלָה אַחֵר.

Para excluir outra noite é que ele vem. Poder-se-ia pensar: já que o Pêssach é uma santidade leve, e as oferendas de paz (shelamim) são uma santidade leve, assim como as (oferendas de) paz são comidas por dois dias e uma noite, também o Pêssach seria comido por duas noites em lugar de dois dias, e seria comido por duas noites e um dia. Vem ensinar-nos "nesta noite": nesta noite é que se come, e não se come em outra noite.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
מה שלמים נאכלין לשני ימים ולילה אחד – שבינתים דכתיב ביום זבחכם יאכל וממחרת (שם יט) אף פסח נמי הואיל ואינו נאכל אלא בלילה נוקים שני לילות במקום שני ימים דשלמים ויהא נאכל בשני לילות ויום א' לא שיאכלנו ביום אלא שיהא שהות זמן שלא יפסל באכילה בשביל המתנת היום ויאכלנו בלילה השנית קמ"ל.

"Assim como as (oferendas de) paz são comidas por dois dias e uma noite" — a que fica no meio, pois está escrito: "no dia de vosso abate será comida, e no dia seguinte" (Levítico 19:6). Também o Pêssach, já que só é comido à noite, colocaríamos duas noites em lugar dos dois dias das (oferendas de) paz, e seria comido em duas noites e um dia — não que o comesse durante o dia, mas que houvesse um intervalo de tempo em que não se invalidasse pela espera do dia, e o comesse na segunda noite. Vem (o versículo) ensinar-nos (que não é assim).

Nota

A Guemará explica a função da palavra "esta" segundo Rabi Akiva: sem ela, poder-se-ia supor, por analogia com as oferendas de paz (que se comem por dois dias e a noite entre eles), que o Pêssach — sendo também de santidade leve, mas comido apenas à noite — pudesse ser comido em duas noites consecutivas com um dia entre elas. A palavra "esta" vem excluir tal possibilidade: o Pêssach só pode ser comido na própria noite de seu abate, nenhuma outra.

19E quanto a Rabi Elazar ben Azaria (essa mesma exclusão)?
Bavli · 9a
וְרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה

E (de onde) Rabi Elazar ben Azaria (deriva essa mesma exclusão de comer o Pêssach em outra noite)?

Nota

A Guemará pergunta a fonte paralela para Rabi Elazar ben Azaria: já que ele usa a palavra "esta" para a analogia verbal com a praga dos primogênitos, de onde ele extrai a exclusão de se comer o Pêssach numa segunda noite?

20Resposta: de "não deixareis sobrar até a manhã"
Bavli · 9a
מִ״לֹּא תוֹתִירוּ עַד בֹּקֶר״ נָפְקָא.

De "não deixareis sobrar até a manhã" (Êxodo 12:10) se deriva (essa exclusão).

Nota

Rabi Elazar ben Azaria deriva a proibição de comer o Pêssach numa segunda noite não da palavra "esta", mas de outro versículo, que proíbe deixar sobras da carne do Pêssach até a manhã — implicando que toda a carne deve ser consumida ou queimada antes do amanhecer, sem possibilidade de guardá-la para uma segunda noite.

21Pergunta sobre Rabi Akiva: por que não usar o mesmo versículo?
Bavli · 9a
וְרַבִּי עֲקִיבָא — אִי מֵהָתָם, הֲוָה אָמֵינָא מַאי ״בֹּקֶר״ — בֹּקֶר שֵׁנִי.

E Rabi Akiva — se (derivasse) dali, eu diria: o que significa "manhã"? A segunda manhã (isto é, a manhã do segundo dia, permitindo guardar até lá).

Nota

A Guemará explica por que Rabi Akiva não podia usar o mesmo versículo ("não deixareis sobrar até a manhã") para essa exclusão: se ele o utilizasse, restaria a possibilidade de interpretar "a manhã" como a segunda manhã (a do dia seguinte), o que permitiria a leitura de que o Pêssach poderia ser comido também durante a segunda noite, contanto que fosse consumido antes dessa segunda manhã — daí a necessidade de recorrer à palavra "esta" para excluir tal leitura de modo inequívoco.

22E Rabi Elazar responde: toda menção de "manhã" é a primeira manhã
Bavli · 9a
וְרַבִּי אֶלְעָזָר אָמַר לָךְ: כָּל ״בֹּקֶר״ — בֹּקֶר רִאשׁוֹן הוּא.

E Rabi Elazar (ben Azaria) te diria: toda (menção de) "manhã" é a primeira manhã.

Nota

Rabi Elazar ben Azaria responderia à objeção da unidade 21 afirmando um princípio interpretativo geral: sempre que a Torá menciona "a manhã" sem outra especificação, refere-se à primeira manhã seguinte, não a uma manhã posterior — por isso ele pode usar esse mesmo versículo sem ambiguidade para excluir uma segunda noite de consumo.

23Uma disputa tanaítica paralela: os três horários do versículo do Pêssach
Bavli · 9a
וְהָנֵי תַּנָּאֵי כְּהָנֵי תַּנָּאֵי. דְּתַנְיָא, ״שָׁם תִּזְבַּח אֶת הַפֶּסַח בָּעָרֶב כְּבוֹא הַשֶּׁמֶשׁ מוֹעֵד צֵאתְךָ מִמִּצְרָיִם״.

E estes tanaítas são como aqueles (outros) tanaítas. Pois foi ensinado (numa baraita): "Ali sacrificarás o Pêssach, à tarde, ao pôr do sol, na época em que saíste do Egito" (Deuteronômio 16:6).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
שם תזבח את הפסח בערב כבא השמש מועד צאתך ממצרים – הרי לך שלשה זמנים שאינם שוים. בערב כי ינטו צללי ערב היינו לאחר חצות שנסתלקה חמה מראש כל אדם ונטתה למערב. כבא השמש משחשכה. מועד צאתך ממצרים בבקר. כיצד יתקיימו כולם. בערב לזמן שחיטה כבא השמש התחלת זמן אכילה מועד צאתך זמן שריפה כלומר בבקר הוא נעשה נותר שהגיע זמן שריפה אלא לפי שאין שורפין קדשים ביום טוב ממתינין לו עד בקר שני.

"Ali sacrificarás o Pêssach, à tarde, ao pôr do sol, na época em que saíste do Egito" — eis que tens três horários que não são iguais entre si: "à tarde" (baérev) — quando as sombras da tarde se inclinam, isto é, depois da meia-noite, quando o sol se afasta do alto de cada pessoa e se inclina para o oeste. "Ao pôr do sol" — desde que escureceu. "Na época em que saíste do Egito" — pela manhã. Como se cumprem todos (esses horários)? "À tarde" é o horário do abate; "ao pôr do sol" é o começo do horário de comer; "na época de tua saída" é o horário de queimar (as sobras) — isto é, pela manhã se torna notar (sobra proibida), pois chega o horário de queimar; mas, como não se queimam santidades em dia de festa, aguarda-se até a segunda manhã.

Nota

A Guemará traça um paralelo entre a disputa de Rabi Elazar ben Azaria e Rabi Akiva e uma controvérsia tanaítica semelhante, agora envolvendo Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua, a partir de um versículo de Deuteronômio que menciona três expressões temporais distintas para o Pêssach — "à tarde", "ao pôr do sol" e "na época de tua saída do Egito" — cada uma correspondendo, segundo Rashi, a uma etapa diferente do processo: abate, início da comida, e o momento em que a carne remanescente se torna proibida.

24Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua distribuem os três horários
Bavli · 9a
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: ״בָּעֶרֶב״ אַתָּה זוֹבֵחַ, וּ״כְבוֹא הַשֶּׁמֶשׁ״ אַתָּה אוֹכֵל, וּ״מוֹעֵד צֵאתְךָ מִמִּצְרָיִם״ אַתָּה שׂוֹרֵף. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר ״בָּעֶרֶב״ אַתָּה זוֹבֵחַ ״כְּבוֹא הַשֶּׁמֶשׁ״ אַתָּה אוֹכֵל וְעַד מָתַי אַתָּה אוֹכֵל וְהוֹלֵךְ — עַד ״מוֹעֵד צֵאתְךָ מִמִּצְרָיִם״.

Rabi Eliezer diz: "à tarde" tu abates, e "ao pôr do sol" tu comes, e "na época de tua saída do Egito" tu queimas. Rabi Yehoshua diz: "à tarde" tu abates, "ao pôr do sol" tu comes — e até quando continuas a comer? Até "a época de tua saída do Egito".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
עד מתי אתה אוכל – היינו כר"ע אבל לתנא קמא עד חצות לילה הוי זמן אכילה ותו לא דאי לא מאי בינייהו.

"Até quando continuas a comer" — isto é (a posição) de Rabi Yehoshua, semelhante à de Rabi Akiva; mas, para o primeiro tanaíta (Rabi Eliezer), o tempo de comer vai só até a meia-noite, e não mais — pois, do contrário, qual seria a diferença entre eles?

Nota

Rabi Eliezer entende os três horários como três marcos sequenciais e distintos: abate à tarde, início da comida ao pôr do sol, e a queima das sobras "na época da saída do Egito" (isto é, pela manhã) — implicando que o tempo de comer termina antes disso, na meia-noite. Rabi Yehoshua, por sua vez, entende que a própria comida se estende até "a época da saída do Egito", isto é, até a manhã — posição paralela à de Rabi Akiva na disputa anterior.

25Rabi Abba: todos concordam sobre o horário da redenção e da saída
Bavli · 9a
אָמַר רַבִּי אַבָּא: הַכֹּל מוֹדִים כְּשֶׁנִּגְאֲלוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם, לֹא נִגְאֲלוּ אֶלָּא בָּעֶרֶב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוֹצִיאֲךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ מִמִּצְרַיִם לָיְלָה״, וּכְשֶׁיָּצְאוּ — לֹא יָצְאוּ אֶלָּא בַּיּוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִמָּחֳרַת הַפֶּסַח יָצְאוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל בְּיָד רָמָה״.

Disse Rabi Abba: todos concordam que, quando Israel foi redimido do Egito, não foi redimido senão à noite, pois está dito: "o Eterno teu D'us te tirou do Egito, de noite" (Deuteronômio 16:1); e quando saíram, não saíram senão de dia, pois está dito: "no dia seguinte ao Pêssach saíram os filhos de Israel com mão erguida" (Números 33:3).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
הכל מודים – רבי עקיבא גופיה מודה שהלילה מחצות ואילך היתה שעת חפזון למצרים לשלחם מן הארץ: מערב נגאלו – נתנו להם רשות לצאת.

"Todos concordam" — o próprio Rabi Akiva concorda que a noite, a partir da meia-noite em diante, foi a hora do apressamento para os egípcios os expulsarem da terra. "Foram redimidos à noite" — deram-lhes permissão para sair.

Nota

Rabi Abba introduz uma distinção conciliadora entre dois momentos diferentes: a redenção propriamente dita (a permissão e libertação legal de Israel, dada por D'us na própria noite da praga dos primogênitos) e a saída física efetiva do Egito (que só ocorreu de fato na manhã seguinte). Esse ponto é aceito por todos os tanaítas, independentemente da disputa sobre o horário de comer o Pêssach.

26O verdadeiro ponto de discordância: o "apressamento" era dos egípcios ou de Israel?
Bavli · 9a
עַל מָה נֶחְלְקוּ — עַל שְׁעַת חִפָּזוֹן, רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה סָבַר: מַאי ״חִפָּזוֹן״ — חִפָּזוֹן דְּמִצְרַיִם.

Sobre o que discordam? Sobre a hora do apressamento. Rabi Elazar ben Azaria entende: o que é "apressamento"? O apressamento dos egípcios.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
חפזון דמצרים – מכת הבכורים שעל ידם נחפזו למהר לשלחם.

"O apressamento dos egípcios" — a praga dos primogênitos, por causa da qual eles se apressaram a mandá-los embora depressa.

Nota

A Guemará esclarece que, apesar do acordo geral da unidade anterior, permanece uma discordância real sobre o significado exato da palavra "apressamento" (chipazon) do versículo "com pressa comê-lo-eis". Para Rabi Elazar ben Azaria, esse apressamento refere-se ao dos próprios egípcios, aterrorizados pela praga dos primogênitos à meia-noite — daí seu limite do Pêssach até a meia-noite.

27Rabi Akiva: o apressamento era de Israel
Bavli · 9a
וְרַבִּי עֲקִיבָא סָבַר: מַאי ״חִפָּזוֹן״ — חִפָּזוֹן דְּיִשְׂרָאֵל.

E Rabi Akiva entende: o que é "apressamento"? O apressamento de Israel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 9a
חפזון דישראל – לא שמעו להם לצאת עד בקר.

"O apressamento de Israel" — (Israel) não lhes deu ouvidos para sair antes da manhã.

Nota

Para Rabi Akiva, em contraste, o "apressamento" do versículo refere-se ao próprio povo de Israel: ainda que os egípcios os pressionassem a sair imediatamente após a meia-noite, foi Israel quem, por prudência ou por ordem divina, não obedeceu de imediato, aguardando até a manhã para efetivamente partir — daí o prazo do Pêssach se estender até a alvorada, o momento real da pressa israelita.

28Uma baraita confirma: a redenção começou à tarde, mas a saída foi de dia
Bavli · 9a
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: ״הוֹצִיאֲךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ מִמִּצְרַיִם לָיְלָה״: וְכִי בַּלַּיְלָה יָצְאוּ? וַהֲלֹא לֹא יָצְאוּ אֶלָּא בַּיּוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִמָּחֳרַת הַפֶּסַח יָצְאוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל בְּיָד רָמָה״! אֶלָּא, מְלַמֵּד שֶׁהִתְחִילָה לָהֶם גְּאוּלָּה מִבָּעֶרֶב.

Também foi ensinado assim (numa baraita): "o Eterno teu D'us te tirou do Egito, de noite" — mas acaso saíram de noite? Não é que não saíram senão de dia, como está dito: "no dia seguinte ao Pêssach saíram os filhos de Israel com mão erguida"? Antes, (o versículo) ensina que a redenção começou para eles desde a tarde.

Nota

Uma baraita paralela confirma e desenvolve o ensino de Rabi Abba (unidade 25): o versículo que fala em sair "de noite" não descreve o momento físico da partida (que ocorreu de fato de dia), mas sim o início do processo de redenção, que já havia começado espiritualmente e legalmente desde a noite anterior — reforçando a distinção entre o início da libertação e a saída física efetiva.

29"Fala, eu te peço, aos ouvidos do povo": o sentido da palavra "na"
Bavli · 9a
״דַּבֶּר נָא בְּאָזְנֵי הָעָם״ וְגוֹ׳. אָמְרִי דְּבֵי רַבִּי יַנַּאי: אֵין ״נָא״ אֶלָּא לְשׁוֹן בַּקָּשָׁה, אָמַר לֵיהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: בְּבַקָּשָׁה מִמְּךָ, לֵךְ וֶאֱמוֹר לָהֶם לְיִשְׂרָאֵל: בְּבַקָּשָׁה מִכֶּם, שַׁאֲלוּ מִמִּצְרַיִם כְּלֵי כֶסֶף וּכְלֵי זָהָב, שֶׁלֹּא יֹאמַר...

"Fala, eu te peço (na), aos ouvidos do povo" (Êxodo 11:2), etc. Dizem na escola de Rabi Yanai: "na" não é senão uma expressão de súplica. Disse-lhe o Santo, bendito seja, a Moshé: eu te suplico, vai e dize a Israel: eu vos suplico, pedi ao Egito objetos de prata e objetos de ouro, para que não diga...

Nota

O daf 9a termina com o início de um novo ensino da escola de Rabi Yanai sobre o versículo em que D'us instrui Moshé a dizer ao povo de Israel que peçam objetos de prata e ouro aos egípcios antes de partir. Segundo esse ensino, a partícula "na" (traduzida aqui como "eu te peço") sempre denota um pedido, uma súplica — e não uma ordem —, indicando que D'us fez a Moshé, e por meio dele a Israel, um verdadeiro rogo pessoal (cujo motivo — para que o justo Avraham não dissesse que a promessa da Berit bein HaBetarim não se cumprira por completo — a Guemará explica na continuação, já no daf 9b). O texto desta unidade continua diretamente no início de 9b, sem interrupção de tema.