O daf abre concluindo o tema pendente de 9a: por que D'us pediu, e não ordenou, que Israel solicitasse objetos de prata e ouro aos egípcios antes de sair — para que se cumprisse por completo a promessa feita a Avraham na Berit bein HaBetarim ("e depois sairão com grande riqueza"), já que a escravidão e a aflição haviam sido cumpridas mas a riqueza, não. Encerrado esse tema, a Guemará introduz a Mishná 1:2, que trata do horário do Shemá pela manhã — a partir de quando se distingue entre o azul (techelet) e o branco do tzitzit — e passa a discuti-la cláusula por cláusula: o sentido exato dessa distinção, as opiniões alternativas de Rabi Meir, Rabi Akiva e "outros" quanto ao critério de reconhecimento, a prática dos vatikin de terminar o Shemá exatamente ao nascer do sol para "unir a redenção à oração", o testemunho da comunidade sagrada de Jerusalém de que quem faz essa união não sofre dano o dia todo, o caso pessoal de Rabi Zeira, e uma digressão sobre a bênção "Ishtabach" e o número exato de capítulos de Tehilim que David compôs.
...para que não diga aquele justo (Avraham): "e os escravizarão e os afligirão" (Gênesis 15:13) — cumpriu-se neles; "e depois disso sairão com grande riqueza" (Gênesis 15:14) — não se cumpriu neles.
"Aquele justo" — Avraham.
A unidade conclui a frase deixada pendente no fim de 9a: D'us pediu, e não ordenou, que Moshé transmitisse a Israel o pedido de solicitar prata e ouro aos egípcios, para que não se pudesse dizer que Avraham — a quem D'us prometera na Berit bein HaBetarim tanto a escravidão e a aflição quanto, depois, a saída "com grande riqueza" — visse cumprir-se apenas a primeira parte da promessa (o sofrimento) e não a segunda (a riqueza).
Disseram-lhe (os israelitas a Moshé): quisera D'us que saíssemos apenas com nossa própria pessoa! Uma parábola: a um homem que estava preso numa casa de detenção, e diziam-lhe as pessoas: "amanhã te tirarão da prisão, e te darão muito dinheiro" — e ele lhes dizia: "eu vos suplico, tirai-me hoje, e eu não peço nada".
A Guemará imagina a reação de Israel diante do pedido: ansiosos por deixar o Egito o quanto antes, teriam preferido sair de imediato sem qualquer bem material, tal como o preso que prefere a liberdade imediata a uma recompensa futura acompanhada de mais um dia de cativeiro. A parábola ilustra o peso da urgência da libertação sobre qualquer ganho material.
"E os fizeram emprestar" (Êxodo 12:36) — disse Rabi Ami: ensina que os fizeram emprestar contra a própria vontade. Há quem diga: contra a vontade dos egípcios; e há quem diga: contra a vontade de Israel.
A Guemará interpreta o verbo "fizeram emprestar" (que no hebraico traz uma forma causativa incomum) como indicando coação: uma opinião entende que os egípcios foram forçados, contra sua vontade, a emprestar seus bens a Israel; a outra entende que foi o próprio Israel que, apesar de relutante (conforme a unidade anterior), foi levado a aceitar os objetos.
Quem diz "contra a vontade dos egípcios" — porque está escrito: "e até a dona de casa reparte o despojo" (Juízes 5:30, referindo-se, por extensão, à relutância egípcia). Quem diz "contra a vontade de Israel" — por causa do peso (da carga que teriam de carregar).
A Guemará fundamenta cada uma das duas leituras: a que fala em coação egípcia apoia-se numa alusão bíblica à relutância de se desfazer de bens; a que fala em coação de Israel explica a relutância israelita pelo simples peso prático de carregar tantos objetos de valor durante a travessia.
"E esvaziaram o Egito" (Êxodo 12:36) — disse Rabi Ami: ensina que a deixaram como uma armadilha sem grão. E Reish Lakish disse: a deixaram como um abismo sem peixes.
"Como uma armadilha sem grão" — costume dos caçadores de aves é jogar grão sob as armadilhas, para que venham as aves e sejam capturadas; e quando não há grão nela, nenhuma ave se volta para ela — assim esvaziaram os egípcios de todos os seus bens. "E esvaziaram" — como o traduz o Targum, "e os esvaziaram". "Como um abismo sem peixes" — como as profundezas do mar, isto é, dentro do abismo não se encontram peixes, mas sim à beira do mar, onde há alimento.
Ambas as imagens ilustram, por comparações opostas, o mesmo resultado: o Egito ficou completamente despojado de sua riqueza. Rabi Ami compara o Egito esvaziado a uma armadilha de caça sem a isca de grão, que já não atrai nenhuma ave; Reish Lakish o compara ao fundo do mar, onde, ao contrário da costa rica em alimento, não há peixes — ambas as figuras descrevendo um lugar tornado estéril e sem atrativo.
"Eu serei o que serei" (Êxodo 3:14) — disse-lhe o Santo, bendito seja, a Moshé: vai e dize a Israel: eu estive convosco nesta escravidão, e eu estarei convosco na escravidão dos reinos (futuros).
A Guemará passa a um novo tópico, também ligado ao Êxodo: o significado do nome divino "Eu serei o que serei", revelado a Moshé na sarça ardente. D'us explica que essa dupla expressão de futuro promete Sua presença constante não apenas na escravidão egípcia, mas em todas as futuras escravidões e exílios que Israel viria a sofrer sob outros impérios.
Disse (Moshé) diante d'Ele: Senhor do universo, basta o mal para sua própria hora. Disse-lhe o Santo, bendito seja: vai e dize-lhes "Eu serei me enviou a vós" (apenas uma vez, sem repetir a expressão dupla).
"Basta o mal para sua própria hora" — basta que se lamentem do mal quando ele vier sobre eles; por que entristecê-los agora com uma notícia dura (sobre exílios futuros)?
Moshé pondera que anunciar de antemão futuras escravidões só traria angústia desnecessária a Israel, ainda sofrendo sob o jugo egípcio — cada aflição deve ser enfrentada apenas quando chegar sua própria hora. D'us aceita a ponderação e instrui Moshé a transmitir apenas a promessa referente ao presente cativeiro, omitindo a menção explícita às escravidões futuras.
"Responde-me, ó Eterno, responde-me" (I Reis 18:37). Disse Rabi Abahu: por que Eliyahu disse "responde-me" duas vezes? Ensina que Eliyahu disse diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, "responde-me" — que desça fogo do céu e consuma tudo o que está sobre o altar; e "responde-me" — que desvies o pensamento deles (do povo), para que não digam que é obra de feitiçaria, conforme está dito: "e Tu voltaste o coração deles para trás" (I Reis 18:37).
"Que desvies o pensamento deles" — de que não venha a seu coração a intenção maligna de me desmentir e dizer que por feitiçaria eu trouxe aquele fogo.
Encerrando a série de ensinos ligados ao Êxodo, a Guemará traz, por associação temática com pedidos duplos e súplicas, o episódio do profeta Eliyahu no Monte Carmelo. Rabi Abahu explica a repetição da palavra "responde-me" como dois pedidos distintos: primeiro, que descesse fogo do céu como prova pública de que D'us é o único D'us verdadeiro; segundo, que D'us também garantisse que o povo não atribuísse esse milagre a feitiçaria, mas o reconhecesse verdadeiramente como um ato divino.
Mishná 1:2. A partir de quando se recita o Shemá pela manhã? A partir do momento em que se distingue entre o azul (techelet) e o branco (de um mesmo fio de tzitzit). Rabi Eliezer diz: entre o azul e a cor de alho-porro. E termina-se (a leitura) até o nascer do sol. Rabi Yehoshua diz: até três horas (do dia), pois assim é o costume dos filhos de reis, de se levantarem às três horas. Aquele que lê a partir daí em diante não perde (o mérito), como um homem que lê na Torá.
(Cita-se a) Mishná: "A partir de quando se recita o Shemá pela manhã? A partir do momento em que se distingue entre o azul e o branco. Rabi Eliezer diz: entre o azul e a cor de alho-porro. E termina-se até o nascer do sol. Rabi Yehoshua diz: até três horas, pois assim é o costume dos reis, de se levantarem às três horas."
"Azul" (techelet) — é uma cor esverdeada, próxima da cor de alho-porro, que se chama porri (em francês antigo).
A Guemará cita, por completo, a Mishná 1:2, que desloca a discussão do capítulo para o horário do Shemá matinal. Enquanto a Mishná 1:1 tratava do prazo noturno (à noite, até a alvorada, segundo Raban Gamliel), esta nova mishná estabelece o início do prazo matinal pelo critério de distinguir visualmente as cores de um tzitzit, e discute até quando esse prazo se estende: até o nascer do sol para o tanaíta anônimo, ou até três horas do dia, segundo Rabi Yehoshua.
"Aquele que lê a partir daí em diante não perde (o mérito), como um homem que lê na Torá."
"Aquele que lê a partir daí em diante não perde" — pois é como um homem que lê uma das porções da Torá; e ainda que não cumpra o preceito do Shemá em seu horário, tem recompensa como quem se ocupa da Torá.
Rashi explica que essa cláusula final da mishná — já vista em formulação análoga a respeito do prazo noturno (unidade 22 de 8b) — garante que, mesmo perdido o horário ideal do Shemá matinal, sua leitura continua a ter valor espiritual, embora já não cumpra tecnicamente o preceito específico da recitação do Shemá em seu tempo.
Guemará: o que é (distinguir) entre o azul e o branco? Se dissermos: entre um monte de lã branca e um monte de lã tingida de azul — mas isso já se distingue também de noite! Antes, (o sentido é): entre o azul que há nela (no próprio tzitzit) e o branco que há nela.
"Entre o azul que há nela e o branco que há nela" — um velo de lã que se tingiu de azul, mas há nele lugares onde a cor não pegou bem.
A Guemará esclarece de imediato a ambiguidade da mishná: o critério não pode se referir a distinguir dois montes separados de lã de cores diferentes, pois isso seria perceptível mesmo à noite, sem exigir luz do dia. O verdadeiro critério é mais sutil — segundo Rashi, é reconhecer, dentro de um mesmo fio ou velo tingido de azul, os pontos onde a tintura pegou bem (o "azul") dos pontos onde não pegou (aparecendo ainda como "branco"), distinção que exige de fato a luz da manhã.
Foi ensinado (numa baraita): Rabi Meir diz: a partir do momento em que se distingue entre um lobo e um cão. Rabi Akiva diz: entre um jumento e um asno selvagem. E "outros" dizem: a partir do momento em que se vê o próximo a uma distância de quatro cúbitos, e o reconhece.
"Asno selvagem" (arod) — o jumento do deserto.
A Guemará traz uma baraita com critérios alternativos e mais práticos para determinar o início do horário do Shemá matinal, para quem não dispõe de um tzitzit para examinar: Rabi Meir propõe distinguir um lobo de um cão, Rabi Akiva um jumento doméstico de um asno selvagem, e uma terceira opinião ("outros") propõe simplesmente reconhecer um conhecido a certa distância.
Disse Rav Huna: a halachá segue "outros". Disse Abaye: para (o horário de colocar) os tefilin, segue "outros"; para a leitura do Shemá, segue os vatikin (os piedosos antigos) — pois disse Rabi Yochanan: os vatikin costumavam terminá-la (a leitura do Shemá) junto com o nascer do sol.
"Para os tefilin" — para colocar os tefilin, pois o preceito de colocá-los precede a leitura do Shemá, conforme (se verá) no segundo capítulo (14b). "Vatikin" — homens humildes e devotados aos preceitos.
Rav Huna decide pela opinião de "outros" (reconhecer um conhecido a quatro cúbitos) como o critério halachico para o início do horário matinal do Shemá. Abaye refina essa decisão: para o horário de colocar os tefilin (que precede a leitura do Shemá), aplica-se o critério de "outros"; mas para a própria leitura do Shemá, o ideal — segundo o costume relatado por Rabi Yochanan dos "vatikin" — é terminá-la precisamente no momento do nascer do sol.
Também foi ensinado assim (numa baraita): os vatikin costumavam terminá-la junto com o nascer do sol, para unir a redenção (a bênção final de "Emet veYatziv") à oração (a Amidá), e assim resulta orando (já) de dia.
"Ora de dia" — pois o nascer do sol, segundo a opinião de todos, já é dia.
A prática dos vatikin tinha um propósito duplo: por um lado, terminar exatamente no nascer do sol; por outro, e mais importante, garantir que a bênção de redenção que segue o Shemá ("Emet veYatziv", que menciona a saída do Egito) fosse imediatamente seguida, sem interrupção, pela Amidá — o princípio de "unir a redenção à oração" — e que essa oração já ocorresse inequivocamente de dia, horário sobre o qual não há dúvida alguma.
Disse Rabi Zeira: qual é o versículo (que fundamenta essa prática)? "Temer-Te-ão enquanto houver sol, e diante da lua, por gerações de gerações" (Salmos 72:5).
"Qual é o versículo" — que (fundamenta) o preceito de orar junto com o nascer do sol. "Pois está escrito 'temer-Te-ão enquanto houver sol' etc." — quando Te temem? Quando aceitam sobre si Teu temor, isto é, o jugo do Reino dos céus, que se aceita na leitura do Shemá. "Enquanto houver sol" — isto é, quando o sol sai, ou seja, junto com o nascer do sol. "E diante da lua" — também a oração da tarde (Minchá) tem seu preceito junto ao crepúsculo.
Rabi Zeira busca a base bíblica para a prática dos vatikin: o versículo dos Salmos, ao unir "o sol" e "a lua" ao "temor" de D'us, sugeriria que o momento ideal de aceitar o jugo divino (no Shemá) coincide com o nascer do sol, e, por associação, que também a oração da tarde tem seu horário ideal ligado ao entardecer.
Testemunhou Rabi Yossei ben Elyakim, em nome da comunidade sagrada de Jerusalém: todo aquele que une a redenção à oração não sofre dano o dia todo.
A Guemará traz um testemunho autoritativo sobre o valor espiritual e prático de encadear, sem interrupção, a bênção de redenção logo após o Shemá com o início imediato da Amidá: quem cumpre com precisão essa união recebe, segundo esse ensino da veneranda comunidade de Jerusalém, uma proteção especial contra danos durante todo aquele dia.
Disse Rabi Zeira: é assim mesmo?! Mas eu uni (a redenção à oração) e ainda assim sofri dano! Disseram-lhe: com que sofreste dano? — com que carregaste murta ao palácio real (e isso te custou uma despesa). Também ali te era necessário dar um pagamento por (o privilégio de) ver o rosto do rei, pois disse Rabi Yochanan: sempre deve o homem se esforçar para correr ao encontro dos reis de Israel; e não apenas ao encontro dos reis de Israel, mas até mesmo ao encontro dos reis das nações do mundo, para que, se for merecedor, saiba distinguir entre os reis de Israel e os reis das nações do mundo!
"Para que, se for merecedor" — de (chegar a) ver, no mundo por vir, a grandeza de Israel. "Saiba distinguir" — quão maior é sua grandeza (a de Israel) em comparação com as nações, agora.
Rabi Zeira desafia o testemunho da unidade anterior com sua própria experiência: apesar de ter cumprido a união entre redenção e oração, ainda assim sofreu um prejuízo, ao ter de despender uma quantia para levar murta perfumada a um palácio real. Explica-se, porém, que essa despesa não contradiz a promessa, pois tal gasto era necessário e valioso por si — vinculado ao privilégio de ver a face de um rei, prática recomendada por Rabi Yochanan como forma de aprender a apreciar, por comparação, a grandeza futura de Israel.
Disse-lhe Rabi Ila'a a Ula: quando entrares ali (na Babilônia), pergunta pelo bem-estar de Rav Berona, meu irmão, na presença de todo o grupo, pois é um grande homem, e se alegra com os preceitos. Certa vez uniu a redenção à oração, e não cessou o riso de sua boca o dia todo.
A Guemará traz um exemplo positivo, em contraste com o de Rabi Zeira: Rav Berona, elogiado por sua alegria no cumprimento dos preceitos, experimentou de fato o efeito benéfico prometido pelo testemunho de Jerusalém — ao unir a redenção à oração, teve um dia de contentamento ininterrupto.
Mas como é possível unir (a redenção à oração sem interrupção)? Não disse Rabi Yochanan: no início (da Amidá) se diz "Ó Eterno, abre meus lábios" (Salmos 51:17), e ao final se diz "Sejam do agrado (as palavras da minha boca)" etc. (Salmos 19:15)!
A Guemará levanta uma dificuldade: se a Amidá é emoldurada por versículos adicionais — o de abertura, "Ó Eterno, abre meus lábios", e o de fechamento, "Sejam do agrado" — como se pode falar em unir sem interrupção a bênção de redenção (que termina o Shemá) diretamente à Amidá, já que pelo menos o versículo de abertura se interporia entre as duas?
Disse Rabi Elazar: que seja (essa regra aplicada) à oração da noite.
"Que seja" — este (ensino) de Rabi Yochanan (sobre o versículo de abertura interposto), (aplicado) à oração da noite, pois ali não nos preocupamos em unir a redenção à oração, já que a redenção (do Egito) foi de dia.
Rabi Elazar propõe resolver a dificuldade limitando o ensino de Rabi Yochanan (sobre o versículo intermediário) apenas à oração da noite (Arvit), onde, segundo Rashi, não há a mesma exigência de unir sem interrupção a redenção à oração — já que a redenção histórica do Egito ocorreu de dia, tornando essa união menos crítica à noite.
Mas não disse Rabi Yochanan: quem é um filho do mundo por vir? Aquele que une a redenção da noite à oração da noite!
A Guemará refuta a proposta de Rabi Elazar com outro ensino do próprio Rabi Yochanan, que elogia especificamente quem une a redenção da noite à oração da noite (Arvit) como merecedor do mundo por vir — mostrando que essa união é, sim, valorizada também à noite, contradizendo a distinção sugerida.
Antes, disse Rabi Elazar: que seja (essa regra aplicada) à oração da tarde (Minchá).
Diante da objeção, a posição de Rabi Elazar é reformulada: a exceção quanto ao versículo intermediário aplica-se não à oração da noite, mas à oração da tarde (Minchá), que não é precedida por uma bênção de redenção do Shemá (pois o Shemá não se lê antes de Minchá), tornando irrelevante ali a questão da união.
Rav Ashi disse: podes dizer, até mesmo, que (o ensino de Rabi Yochanan sobre o versículo de abertura vale) para todas (as orações); e, já que os sábios o fixaram dentro da (estrutura da) oração, ele é como uma oração alongada (isto é, considera-se parte integrante dela, e não uma interrupção).
Rav Ashi propõe uma solução mais elegante e abrangente: não há necessidade de restringir o ensino de Rabi Yochanan a uma oração específica. Como o versículo "Ó Eterno, abre meus lábios" foi formalmente incorporado pelos sábios como parte fixa da própria estrutura da Amidá, ele não constitui verdadeira interrupção entre a bênção de redenção e a oração — sendo, na prática, como uma extensão da própria Amidá.
Pois, se não disseres assim, como seria possível unir (a redenção à oração) à noite, já que é necessário dizer "Hashkivenu" (entre elas)? Antes, já que os sábios instituíram "Hashkivenu" (como parte da bênção de redenção), ele é como uma redenção alongada. Assim também, já que os sábios o fixaram (o versículo de abertura) dentro da oração, ele é como uma oração alongada.
Rav Ashi reforça seu argumento com um paralelo: assim como a bênção "Hashkivenu", que se recita à noite entre a bênção de redenção e a Amidá, não é considerada uma interrupção — por ter sido instituída pelos sábios como extensão da própria bênção de redenção —, da mesma forma o versículo de abertura da Amidá, também instituído pelos sábios, deve ser considerado parte integrante da oração, e não uma quebra na união exigida.
Ora bem, este (versículo) "sejam do agrado as palavras da minha boca" tanto se aplica ao final quanto se aplica ao início, quando se deseja começar (a orar). Por que razão os sábios o instituíram depois das dezoito bênçãos? Que o digam já no início!
A Guemará levanta uma nova questão sobre o versículo de fechamento da Amidá: seu conteúdo (pedir que as palavras da boca sejam aceitas) seria igualmente apropriado como abertura de uma oração, antes de proferir qualquer palavra. Por que, então, os sábios optaram por colocá-lo apenas ao final, depois de todas as dezoito bênçãos, e não também no começo?
Disse Rabi Yehuda, filho de Rabi Shimon ben Pazi: já que David não o disse (esse versículo) senão depois de dezoito capítulos (de Tehilim), por isso os sábios o instituíram depois das dezoito bênçãos.
A resposta situa a origem do versículo "sejam do agrado as palavras da minha boca" em seu contexto original: ele é o final do Salmo 19, o décimo oitavo capítulo do livro de Tehilim (segundo a contagem que a Guemará está prestes a estabelecer). Por essa razão, os sábios preservaram sua posição relativa, colocando-o após as dezoito bênçãos da Amidá, em paralelo estrutural aos dezoito capítulos que o precedem em Tehilim.
(Como assim) "dezoito" (bênçãos)?! São dezenove!
A Guemará contesta um detalhe numérico: embora a Amidá seja tradicionalmente chamada de "as dezoito (bênçãos)", ela de fato contém dezenove bênçãos (após o acréscimo posterior da bênção contra os hereges) — o que parece enfraquecer o paralelo proposto com os dezoito capítulos de Tehilim.
"Feliz o homem" (Salmos 1) e "Por que se agitam as nações" (Salmos 2) são um único capítulo.
A Guemará resolve a dificuldade numérica: embora hoje sejam contados como dois salmos separados (o primeiro e o segundo), originalmente "Feliz o homem" e "Por que se agitam as nações" constituíam um único capítulo de Tehilim — o que reduz em um a contagem total, restaurando a correspondência entre as dezenove bênçãos (contando essa fusão) e o cálculo proposto.
Pois disse Rabi Yehuda, filho de Rabi Shimon ben Pazi: cento e três capítulos disse David, e não disse "Halelucá" (louvai a D'us) até que viu a queda dos ímpios, conforme está dito: "acabem-se os pecadores da terra, e os ímpios já não mais existam; bendiz, ó minha alma, ao Eterno, Halelucá" (Salmos 104:35).
A Guemará traz um ensino adicional, atribuído à mesma autoridade, sobre a composição de Tehilim: David compôs cento e três capítulos antes de finalmente empregar a expressão "Halelucá", reservando-a apenas para o momento em que expressou, no Salmo 104, sua visão profética da futura destruição dos ímpios — associando o louvor pleno à justiça final.
(Como assim) "cento e três"? São cento e quatro! Antes, aprende-se disso que "Feliz o homem" e "Por que se agitam as nações" são um único capítulo.
A Guemará aponta uma nova dificuldade numérica: contando os capítulos de Tehilim até o Salmo 104 pela numeração usual, chega-se a cento e quatro, não cento e três. A solução confirma, de forma independente, o mesmo ponto estabelecido na unidade 28: "Feliz o homem" e "Por que se agitam as nações" devem ser contados como um único capítulo, o que reduz a contagem total para cento e três, em conformidade com o ensino de Rabi Yehuda.
Pois disse Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yochanan: (o ensino prossegue no início do daf 10a, explicando por que "Feliz o homem" e "Por que se agitam as nações" formam de fato um único capítulo).
O daf 9b termina em pleno curso de uma nova citação, atribuída a Rabi Shmuel bar Nachmani em nome de Rabi Yochanan, que fundamentará a afirmação de que os Salmos 1 e 2 formam originalmente um único capítulo. O conteúdo dessa fonte é dado apenas no início do daf 10a, sem qualquer quebra de tema entre os dois dapim.
A Mishná 1:2, aqui introduzida — sobre o horário do Shemá pela manhã e a distinção entre o azul e o branco do tzitzit — é a mesma halachá já traduzida no Talmud Yerushalmi, que a discute de forma paralela.
Ver também no Talmud Yerushalmi 1:2