O daf conclui a narrativa de Chizkiyahu iniciada em 10a: mesmo depois da profecia de morte, ele não deixa de suplicar, apoiado no princípio de que nunca se deve desistir da misericórdia. Segue-se um retrato do rei em seis atos — três aprovados pelos sábios, três reprovados — e um ensino sobre apoiar-se no próprio mérito ou no de terceiros, exemplificado por Moshé e pelo próprio Chizkiyahu. A Guemará então recua e detalha o quarto de hóspedes que a Shunamit preparou para Elisha, com discussões sobre sua estrutura, o princípio de aceitar ou recusar hospitalidade, e o discernimento da mulher sobre a santidade do profeta. O daf fecha a sugya sobre o horário do Shemá matinal com ensinos de Rabi Yosei bar Chanina em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov sobre postura na oração, e termina com a nova Mishná do segundo capítulo: a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre a postura para recitar o Shemá, e o episódio de Rabi Tarfon que se pôs em perigo por segui-la.
Disse Rabi Chanan: ainda que o dono dos sonhos (o intérprete) diga a um homem que amanhã ele morrerá, não deve impedir-se de (suplicar por) misericórdia, conforme está dito: "pois na multidão de sonhos há vaidades, e muitas palavras; mas tu, teme a D'us" (Eclesiastes 5:6).
Dando continuidade ao princípio de Chizkiyahu e de Rabi Yochanan e Rabi Eliezer, com que se encerrou 10a — nunca desistir da súplica por misericórdia, mesmo com a espada sobre o pescoço —, Rabi Chanan estende o mesmo ensino a um cenário menos extremo, mas psicologicamente pesado: mesmo o anúncio de morte iminente por um intérprete de sonhos, que muitos temeriam como presságio certo, não deve paralisar a oração, pois os sonhos, segundo o versículo de Eclesiastes, são cheios de vaidade e não determinam o destino.
Imediatamente: "e Chizkiyahu voltou o seu rosto para o muro, e orou ao Eterno" (Isaías 38:2).
Aplicando o princípio recém-ensinado, a Guemará retoma a narrativa de Chizkiyahu exatamente onde 10a a deixara: apesar da sentença de morte anunciada por Yeshayahu, o rei não desiste — volta-se imediatamente para o muro e ora, conforme relata o versículo de Isaías.
O que significa "o muro"? Disse Rabi Shimon ben Lakish: dos muros de seu coração, conforme está dito: "minhas entranhas, minhas entranhas, eu me contorço; os muros do meu coração, etc." (Jeremias 4:19).
Reish Lakish interpreta "o muro" não como uma parede literal, mas metaforicamente como os "muros do coração" de Chizkiyahu — expressão retirada de Jeremias, que descreve angústia visceral. A oração de Chizkiyahu teria brotado, assim, de uma súplica interior e profundamente aflita, não de um simples ato voltado a uma parede física.
Rabi Levi disse: (o muro é) literal — a respeito do assunto do muro. Disse (Chizkiyahu) diante d'Ele: Senhor do universo, se à Shunamit, que fez apenas um pequeno muro, Tu devolveste a vida a seu filho, quanto mais a mim, cujo avô (Shlomo) revestiu o Templo inteiro de prata e ouro! "Lembra-Te, agora, de que andei diante de Ti com verdade e coração íntegro, e fiz o que era bom aos Teus olhos" (Isaías 38:3).
Rabi Levi propõe leitura diversa: "o muro" é literal, referindo-se ao pequeno quarto que a mulher Shunamita construiu para o profeta Elisha (episódio que a Guemará detalhará adiante, a partir da unidade 14). Chizkiyahu teria argumentado por analogia de menor para maior (kal vachomer): se um mérito tão modesto quanto construir um muro trouxe à Shunamit a ressurreição de seu filho, quanto mais o mérito de seu avô Shlomo, que revestiu de prata e ouro o Templo inteiro, deveria bastar para salvá-lo — argumento que conclui com a súplica registrada em Isaías 38:3.
O que significa "e fiz o que era bom aos Teus olhos"? Disse Rav Yehuda, disse Rav: que ele uniu a (bênção da) redenção à oração (da Amidá). Rabi Levi disse: que ele escondeu o livro de curas.
Divergem os sábios sobre a que mérito específico Chizkiyahu se refere ao dizer "fiz o que era bom aos Teus olhos": Rav Yehuda, em nome de Rav, entende que se trata da instituição de recitar a bênção da redenção imediatamente antes da Amidá, sem interrupção; Rabi Levi entende que se refere a um dos seis atos do rei que serão listados a seguir — o de ter escondido (ou suprimido) um livro de curas milagrosas, tema desenvolvido na próxima unidade.
Ensinaram os sábios: seis atos fez o rei Chizkiyahu; por três lhe deram razão, e por três não lhe deram razão.
A Guemará traz um ensino formal (baraita) que resume a atuação do rei Chizkiyahu em seis atos concretos, dividindo-os igualmente entre os que receberam aprovação dos sábios e os que foram rejeitados — os três primeiros detalhados na próxima unidade.
Por três lhe deram razão: escondeu o livro de curas — e lhe deram razão. Despedaçou a serpente de cobre — e lhe deram razão. Arrastou os ossos de seu pai sobre um catre de cordas — e lhe deram razão.
"Arrastou os ossos de seu pai" — porque (seu pai, o rei Achaz) era ímpio, desonrou-o e não lhe prestou honra em seu sepultamento, retirando-o (do local de honra) de forma apropriada, sobre leitos de ouro e prata.
Os três atos aprovados: primeiro, esconder o "livro de curas" — segundo Rabi Levi (unidade 5), um texto que continha remédios milagrosos, cuja disponibilidade fácil desencorajava o povo de rezar diante da doença; segundo, destruir a serpente de cobre que Moshé erguera no deserto (Números 21:9), pois o povo passara a idolatrá-la; terceiro, arrastar com desonra — sobre um catre de cordas, e não em leito de honra — os ossos de seu pai, o rei ímpio Achaz, como Rashi explica, por este não ter merecido sepultamento digno.
E por três não lhe deram razão: tapou as águas de Guichon — e não lhe deram razão. Cortou as portas do Templo e as enviou ao rei da Assíria — e não lhe deram razão. Intercalou (o ano, acrescentando) Nissan sobre Nissan — e não lhe deram razão.
"Tapou as águas de Guichon" — as águas de Shilôach, em Divrei HaYamim (II Crônicas 32). E por quê? Para que os reis da Assíria não viessem e encontrassem água para beber. E não se trata do Guichon, o grande rio, pois este não está em Eretz Israel, mas de uma pequena fonte próxima a Jerusalém, conforme está dito: "e o fareis descer a Guichon" (I Reis 1:33), que traduzimos como "e o fareis descer a Shilôach". "Intercalou Nissan sobre Nissan" — a suposição inicial é que, depois de o mês já ter sido santificado em nome de Nissan, ele reconsiderou e intercalou o ano, transformando-o em Adar, conforme está dito em Divrei HaYamim: "e o rei (Chizkiyahu) aconselhou-se para fazer o Pêssach no segundo mês" (II Crônicas 30).
Os três atos reprovados: tapar as águas de Guichon (identificadas por Rashi com a fonte de Shilôach, próxima a Jerusalém), medida estratégica contra o cerco assírio, mas considerada excessiva ou de fé insuficiente; cortar as portas do próprio Templo, revestidas de ouro, para pagar tributo ao rei da Assíria; e intercalar um segundo mês de Nissan depois de o primeiro já ter sido santificado como tal — irregularidade no calendário que a Guemará passa a examinar nas unidades seguintes.
E acaso Chizkiyahu não aceitava (o versículo) "este mês será para vós o principal dos meses" (Êxodo 12:2) — este é Nissan, e nenhum outro é Nissan?!
A Guemará questiona como um rei tão versado na Torá poderia ter cometido erro tão básico: o próprio versículo da Torá que institui Nissan como o primeiro mês do calendário parece excluir explicitamente a possibilidade de declarar um segundo Nissan, o que motiva a busca por uma explicação mais sutil no que segue.
Antes, ele se equivocou seguindo (a opinião) de Shmuel, pois disse Shmuel: não se intercala o ano no trigésimo dia de Adar, porquanto (esse dia) é apto para ser fixado como Nissan. (Chizkiyahu) entendeu que não se aplica (o princípio de) "porquanto é apto".
"No trigésimo dia de Adar" — ainda que o mês não tenha sido (formalmente) santificado, pois as testemunhas ainda não haviam chegado.
A Guemará explica o erro de Chizkiyahu como um equívoco técnico de halachá: segundo Shmuel, o trigésimo dia de Adar não pode ser retroativamente incluído num ano intercalado, porque esse dia já é, por si só, "apto" a ser declarado Rosh Chodesh Nissan (mesmo que as testemunhas ainda não tenham vindo confirmar a lua nova, como esclarece Rashi). Chizkiyahu, ao que parece, discordava desse princípio de "porquanto é apto", e agiu de acordo com sua própria posição — um erro de julgamento halachico, não uma transgressão deliberada da Torá.
Disse Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yossei ben Zimra: todo aquele que se apoia no próprio mérito — apoiam-no no mérito de outros. E todo aquele que se apoia no mérito de outros — apoiam-no no próprio mérito.
A Guemará muda de tema, mas mantém a figura de Chizkiyahu como fio condutor. Rabi Yossei ben Zimra ensina um princípio paradoxal sobre a economia do mérito diante de D'us: quem invoca seus próprios méritos em oração recebe, na verdade, ajuda por méritos alheios; e quem invoca méritos alheios recebe ajuda por méritos próprios — princípio ilustrado a seguir com os exemplos de Moshé e de Chizkiyahu.
Moshé apoiou-se no mérito de outros, conforme está dito: "lembra-Te de Avraham, de Yitzchak e de Israel, Teus servos" (Êxodo 32:13). Apoiaram-no no seu próprio mérito, conforme está dito: "e disse que os destruiria, se Moshé, Seu escolhido, não se pusesse na brecha diante d'Ele, para desviar Seu furor da destruição" (Salmos 106:23).
O primeiro exemplo: ao interceder pelo povo depois do pecado do bezerro de ouro, Moshé invocou o mérito dos patriarcas (Avraham, Yitzchak e Israel/Yaakov), e não o seu próprio. Em recompensa, o próprio Moshé foi reconhecido pelo salmista como o mérito decisivo que impediu a destruição de Israel — "se Moshé, Seu escolhido, não se pusesse na brecha".
Chizkiyahu apoiou-se no próprio mérito, conforme está escrito: "lembra-Te, agora, de que andei diante de Ti" (Isaías 38:3). Apoiaram-no no mérito de outros, conforme está dito: "e defenderei esta cidade, para salvá-la, por Minha causa e por causa de David, Meu servo" (Isaías 37:35; II Reis 19:34). E isso é o que disse Rabi Yehoshua ben Levi: o que significa o que está escrito "eis que para paz me foi amargo, amargo" (Isaías 38:17)? Mesmo na hora em que o Santo, bendito seja, lhe enviou paz, ela lhe foi amarga.
O segundo exemplo, em contraste: Chizkiyahu, ao suplicar por sua vida, invocou seu próprio mérito ("lembra-Te de que andei diante de Ti"). Em vez disso, sua salvação (e a de Jerusalém do cerco assírio) veio atribuída ao mérito de outro — seu antepassado David. Rabi Yehoshua ben Levi acrescenta que, mesmo depois de salvo, o próprio Chizkiyahu reconheceu essa "amargura": a salvação lhe veio não por mérito próprio, mas alheio, o que ele sentiu como um golpe à sua dignidade, conforme sua queixa em Isaías 38:17.
"Façamos, agora, um pequeno quarto de muro" (II Reis 4:10).
Retomando a referência de Rabi Levi ao "muro" da Shunamit (unidade 4), a Guemará cita o versículo de II Reis onde a mulher Shunamita propõe a seu marido construir um pequeno aposento para hospedar o profeta Elisha, dando início a uma longa análise desse episódio.
Rav e Shmuel — um disse: era um quarto superior descoberto, e o cobriram (com muros). E o outro disse: era um grande saguão, e o dividiram em dois.
"Descoberto" — exposto, do qual havia sido removido o teto.
Os amoraim Rav e Shmuel discordam sobre a natureza exata da construção descrita no versículo: para um, tratava-se de um cômodo superior sem cobertura, ao qual se acrescentaram muros (dando origem à expressão "quarto de muro"); para o outro, tratava-se de um grande saguão aberto (achsadrá), que foi dividido em dois ambientes menores. As duas próximas unidades testam cada leitura contra os termos exatos do versículo.
Está bem para quem diz "saguão" — por isso está escrito "muro". Mas para quem diz "quarto superior", o que significa "muro"?
A Guemará questiona a opinião de que se tratava de um quarto superior descoberto: se assim fosse, por que o versículo usaria especificamente a palavra "muro" (kir), termo que se explicaria naturalmente na leitura do "saguão dividido por um muro"?
Porque o cobriram (com muros, dando-lhe teto).
Resposta breve: mesmo na leitura de "quarto superior descoberto", a palavra "muro" se justifica, pois o casal ergueu muros para cobrir e fechar o espaço antes aberto, tornando-o um quarto propriamente dito.
Está bem para quem diz "quarto superior" — por isso está escrito "elevado" (aliyat). Mas para quem diz "saguão", o que significa "elevado"?
A dificuldade simétrica: se o texto falasse apenas em "saguão", a palavra "elevado" (aliyat, também associada a andar superior) pareceria supérflua ou inadequada.
"O mais elevado (o melhor)" entre os aposentos (da casa).
Resposta: nessa leitura, "elevado" não indica localização física no andar de cima, mas qualidade — o mais nobre e bem preparado dos aposentos da casa, dedicado à hospedagem do profeta.
"E ponhamos ali para ele uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candelabro" (II Reis 4:10).
O versículo detalha o mobiliário essencial que a Shunamit prepara para Elisha — os quatro itens básicos de um aposento de hóspede honrado, ponto de partida para a discussão seguinte sobre aceitar hospitalidade.
Disse Abaie — e há quem diga que foi Rabi Yitzchak: quem quer beneficiar-se (de outros), que se beneficie, como Elisha. E quem não quer beneficiar-se, que não se beneficie, como Shmuel de Ramá. Conforme está dito: "e seu retorno era a Ramá, pois ali estava sua casa" (I Samuel 7:17). E disse Rabi Yochanan: que a todo lugar aonde ia, sua casa (seus utensílios) ia com ele.
"Quem quer beneficiar-se" — de outros. "Que se beneficie" — e não há proibição nisso. "Como Elisha" — como encontramos a respeito de Elisha, que se beneficiou. "E quem não quer beneficiar-se" — de outros. "Que não se beneficie" — e não há nisso nem soberba, nem desprezo. "Como Shmuel de Ramá" — como encontramos a respeito de Shmuel de Ramá, que não quis beneficiar-se. "Pois ali estava sua casa" — antes disso está escrito: "e ano após ano ele circulava (por) Beit El, Guilgal e Mitzpá, e julgava a Israel", e a isso se segue "e seu retorno era a Ramá, pois ali estava sua casa" — acaso eu não sei que ali estava sua casa? Antes, refere-se a todos os lugares mencionados no versículo anterior: que a todo lugar aonde ia, levava consigo todos os utensílios domésticos e sua tenda de acampamento, para não se beneficiar de outros.
Abaie (ou Rabi Yitzchak) estabelece que ambas as condutas são legítimas e igualmente louváveis, cada uma a seu modo: Elisha aceitou de bom grado a hospitalidade oferecida pela Shunamit, sem que isso lhe fosse reprovado; já o profeta Shmuel, em contraste, evitava sistematicamente beneficiar-se de outros, levando consigo, aonde quer que fosse em suas viagens de juiz itinerante, seus próprios utensílios e tenda — conforme a leitura de Rabi Yochanan e a explicação detalhada de Rashi.
"E ela disse a seu marido: eis que, agora, sei que é um homem de D'us, santo, o que passa continuamente por nós" (II Reis 4:9). Disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: daqui (se aprende) que a mulher reconhece os hóspedes melhor do que o homem.
A Guemará volta ao início do relato bíblico: foi a própria Shunamit quem primeiro percebeu a santidade excepcional de Elisha e propôs a seu marido prepará-lo um aposento. Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, extrai daí um princípio geral sobre a maior perspicácia feminina em avaliar o caráter de visitantes.
"É santo" — de onde ela sabia? Rav e Shmuel — um disse: porque não via mosca passar sobre sua mesa. E o outro disse: (porque) estendera sobre sua cama um lençol de linho, e não via emissão sobre ele.
Novo debate entre Rav e Shmuel sobre a base concreta do discernimento da Shunamit: um sugere que ela observou a ausência de moscas sobre a mesa de Elisha — sinal de pureza extraordinária; o outro sugere que, ao trocar os lençóis de linho de sua cama, nunca encontrava neles vestígio de emissão seminal noturna, evidência de completo controle sobre seus próprios impulsos físicos.
"É santo" — disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: ele é santo, mas seu servo (Guechazi) não é santo. Conforme está dito: "e Guechazi se aproximou para empurrá-la" (II Reis 4:27). Disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: que a segurou pelo esplendor de sua beleza.
Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, contrasta a santidade de Elisha com a conduta de seu servo Guechazi: quando a Shunamit, aflita, correu ao encontro de Elisha (após a morte de seu filho), Guechazi tentou impedi-la de um modo que, segundo a leitura interpretativa, envolveu tocá-la de forma imprópria, agarrando-a "pelo esplendor de sua beleza" — indício de que a santidade do profeta não se estendia automaticamente a seu assistente.
"Que passa continuamente por nós" (II Reis 4:9). Disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: todo aquele que hospeda um sábio (talmid chacham) em sua casa, e o beneficia com seus bens, o Texto lhe atribui como se oferecesse sacrifícios contínuos (temidin).
A partir da expressão "que passa continuamente" usada pela Shunamit a respeito de Elisha, Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov, extrai um ensino sobre o valor de hospedar sábios: quem o faz com seus próprios recursos é equiparado a quem oferece os sacrifícios diários (temidin) do Templo — associação lexical entre "contínuo" (hospitalidade recorrente) e "contínuos" (sacrifícios).
E disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: não se ponha o homem em pé num lugar alto para rezar, mas sim num lugar baixo, e reze; conforme está dito: "das profundezas eu Te chamei, Eterno" (Salmos 130:1).
Sob a mesma cadeia de transmissão, inicia-se aqui a série final de ensinos sobre a postura correta na oração, que fecha a sugya do horário do Shemá matinal: a oração deve ser feita, preferencialmente, de um lugar fisicamente baixo — postura de humildade diante de D'us —, apoiada no versículo de Tehilim que fala em clamar "das profundezas".
Foi ensinado também assim: não se ponha o homem em pé sobre uma cadeira, nem sobre um banquinho, nem em lugar alto, para rezar; mas sim em lugar baixo, e reze. Porque não há arrogância diante d'Aquele que está em todo Lugar (HaMakom). Conforme está dito: "das profundezas eu Te chamei, Eterno". E está escrito: "oração de um pobre, quando se enfraquece" (Salmos 102:1).
Uma baraita confirma e amplia o mesmo ensino, especificando explicitamente que nem cadeiras nem banquinhos servem de plataforma elevada para a oração, e explicitando a razão: diante d'Aquele que está em todo Lugar não cabe arrogância. Acrescenta-se um segundo versículo, do Salmo que se abre com "oração de um pobre", reforçando a associação entre oração e humildade física e espiritual.
E disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: aquele que reza precisa alinhar seus pés, conforme está dito: "e seus pés eram um pé reto" (Ezequiel 1:7).
"Alinhar seus pés" — um junto ao outro. "E seus pés eram um pé reto" — pareciam um único pé.
Novo ensino da mesma cadeia: durante a oração, os pés devem ficar juntos, alinhados um ao lado do outro, a ponto de parecerem um único pé — postura inspirada na descrição das criaturas celestiais na visão inaugural de Ezequiel, cujos pés retos e unidos servem de modelo para a postura humana na Amidá.
(Disse Rabi Yitzchak, disse Rabi Yochanan,) e disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: o que significa o que está escrito, "não comereis sobre o sangue" (Levítico 19:26)? Não comais antes de terdes orado por vosso sangue (por vossa vida).
Continuando a mesma cadeia de ensinos, reinterpreta-se um versículo de Levítico, tradicionalmente lido como proibição alimentar (relativa ao consumo de sangue ou a práticas idólatras associadas a ele), como preceito sobre a prioridade da oração matinal: não se deve comer antes de ter orado pela própria vida — antecipando a exigência de recitar o Shemá e a Amidá antes da primeira refeição do dia.
Há quem diga: disse Rabi Yitzchak, disse Rabi Yochanan, disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: todo aquele que come e bebe, e depois reza — a respeito dele o Texto diz: "e a Mim lançaste atrás de teu corpo (gavecha)" (I Reis 14:9); não leias "teu corpo" (gavecha), mas sim "tua soberba" (geecha). Disse o Santo, bendito seja: depois que este se engrandeceu (com comida e bebida), aceitou sobre si o reino dos Céus.
Uma versão alternativa da tradição transmite o mesmo ensino de forma ainda mais contundente: comer e beber antes de orar é lido, por meio de um jogo de palavras entre "teu corpo" e "tua soberba", como um ato de arrogância perante D'us — como se a pessoa colocasse sua própria satisfação física à frente da aceitação do jugo do Céu, invertendo a ordem devida de prioridades.
Rabi Yehoshua diz: até três horas (do dia). Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: a halachá segue Rabi Yehoshua.
A Guemará retoma, para encerrar, a própria Mishná 1:2 (citada em 9b), que registrava a opinião de Rabi Yehoshua sobre o prazo final para a recitação do Shemá matinal — até a terceira hora do dia. Rav Yehuda, em nome de Shmuel, decide a halachá conforme essa opinião, encerrando formalmente a disputa que ocupou os dapim anteriores.
Quem lê (o Shemá) daí em diante, não perdeu.
Complemento da própria Mishná: mesmo passado o prazo ideal das três horas, quem ainda recita o Shemá "não perdeu" — mantém algum valor em sua leitura, ainda que fora do horário preceituado para o cumprimento pleno da mitzvá. O sentido exato dessa expressão é discutido nas unidades seguintes.
Disse Rav Chisda, disse Mar Ukva: contanto que não diga (a bênção) "Yotzer Or" (que forma a luz).
Rav Chisda, em nome de Mar Ukva, restringe o alcance da afirmação "não perdeu": ela se aplica apenas a quem lê o texto do Shemá sem as bênçãos que o circundam — pois a bênção "Yotzer Or", por mencionar a criação da luz, só é apropriada dentro do horário adequado da manhã.
Objetaram: quem lê (o Shemá) daí em diante, não perdeu — (é) como um homem que lê na Torá; mas abençoa duas (bênçãos) antes dele e uma depois dele. Refutação de Rav Chisda — é uma refutação.
Uma baraita contradiz explicitamente Rav Chisda: ela afirma que quem lê o Shemá fora do horário, ainda que seja "como quem lê um trecho da Torá" (sem o pleno valor da mitzvá), continua a recitar todas as bênçãos, incluindo, implicitamente, "Yotzer Or". A Guemará conclui com o termo técnico "teiuvta" — refutação decisiva — contra a posição de Rav Chisda.
Há quem diga: disse Rav Chisda, disse Mar Ukva: o que significa "não perdeu"? Que não perdeu as bênçãos. Foi ensinado também assim: quem lê (o Shemá) daí em diante, não perdeu, (mas fica) como um homem que lê na Torá; porém abençoa duas (bênçãos) antes dele e uma depois dele.
Uma versão alternativa reformula a própria afirmação atribuída a Rav Chisda, de modo a torná-la compatível com a baraita: "não perdeu" significaria, nessa leitura, que a pessoa não perde o direito de recitar as bênçãos — resolvendo a contradição da unidade anterior sem necessidade de refutação.
Disse Rabi Mani: maior é aquele que lê o Shemá em seu horário do que aquele que se ocupa da Torá. De que se ensina: "quem lê daí em diante, não perdeu, como um homem que lê na Torá" — infere-se que ler (o Shemá) em seu horário é preferível.
Rabi Mani encerra a sugya com uma conclusão homilética: já que quem recita o Shemá fora do horário é rebaixado à categoria de quem apenas "lê Torá" (sem o pleno valor da mitzvá específica), infere-se que ler o Shemá dentro do horário devido é superior ao próprio estudo genérico da Torá — encerrando com esse elogio a discussão sobre o horário do Shemá matinal, que se estendeu por vários dapim.
Beit Shamai dizem: à noite, todo homem deve se reclinar e ler (o Shemá); e pela manhã, deve ficar em pé, conforme está dito: "e ao deitares e ao levantares" (Deuteronômio 6:7).
"Deve se reclinar" — sobre seu lado. "Deve ficar em pé" — pois está escrito "e ao levantares". "Ao deitares" — no modo de deitar.
Com esta Mishná abre-se o segundo capítulo de Berachot (Perek Bet), e encerra-se, ao mesmo tempo, toda a extensa sugya do capítulo anterior sobre o horário do Shemá. Beit Shamai lê literalmente a expressão "ao deitares e ao levantares" como instrução de postura corporal: à noite, a recitação deve ser feita fisicamente reclinado; de manhã, em pé — refletindo a postura típica de cada período do dia. Ver também no Talmud Yerushalmi (Berachot 1:3), que discute a mesma disputa.
E Beit Hilel dizem: todo homem lê (o Shemá) à sua maneira, conforme está dito: "e ao caminhares pelo caminho" (Deuteronômio 6:7).
"À sua maneira" — seja em pé, seja deitado, seja sentado, seja andando.
Beit Hilel discorda: como o versículo também menciona "ao caminhares pelo caminho" — situação em que não há como se ajustar rigidamente a uma postura de "deitado" ou "em pé" —, conclui-se que a Torá não exige postura corporal específica, e cada pessoa pode recitar o Shemá do modo em que naturalmente se encontrar, seja em pé, sentado, deitado ou andando.
Se assim é, por que se diz "e ao deitares e ao levantares"? (Refere-se) à hora em que as pessoas se deitam, e à hora em que as pessoas se levantam.
A própria Mishná antecipa e responde a uma objeção: se a postura corporal não é exigida, por que a Torá menciona especificamente "deitar" e "levantar"? A resposta de Beit Hilel é que essas expressões não prescrevem postura, mas apenas demarcam os dois horários do dia em que a mitzvá se aplica — o período noturno (quando as pessoas costumam se deitar) e o período matinal (quando costumam se levantar).
Disse Rabi Tarfon: eu vinha pelo caminho, e me reclinei para ler (o Shemá) segundo as palavras de Beit Shamai, e me pus em perigo por causa dos bandidos.
A Mishná encerra-se com um relato pessoal de Rabi Tarfon: ao viajar, ele tentou cumprir literalmente a opinião de Beit Shamai, reclinando-se fisicamente à beira do caminho para recitar o Shemá — e, ao fazê-lo, expôs-se ao perigo real de assalto por bandidos, episódio que serve de crítica prática à posição de Beit Shamai. Ver também no Talmud Yerushalmi (Berachot 1:4), que relata o mesmo episódio de Rabi Tarfon.
Disseram-lhe: eras merecedor de responsabilizar-te a ti mesmo (pelo perigo), pois transgrediste as palavras de Beit Hilel.
A resposta final da Mishná é severa: os sábios não veem o episódio de Rabi Tarfon como infortúnio, mas como consequência de sua própria escolha — já que a halachá segue Beit Hilel, ele mesmo teria se colocado em risco desnecessário ao seguir Beit Shamai, encerrando o daf com uma lição prática sobre a prioridade da halachá estabelecida sobre a piedade individual excessiva.