Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
חִזְקִיָּהוּ

O fim da súplica de Chizkiyahu: sonhos, o "muro" de sua oração, os seis atos do rei, mérito próprio e alheio, a Shunamit e Elisha, e a Mishná sobre deitar-se ou pôr-se em pé para o Shemá

Berachot 10b

O daf conclui a narrativa de Chizkiyahu iniciada em 10a: mesmo depois da profecia de morte, ele não deixa de suplicar, apoiado no princípio de que nunca se deve desistir da misericórdia. Segue-se um retrato do rei em seis atos — três aprovados pelos sábios, três reprovados — e um ensino sobre apoiar-se no próprio mérito ou no de terceiros, exemplificado por Moshé e pelo próprio Chizkiyahu. A Guemará então recua e detalha o quarto de hóspedes que a Shunamit preparou para Elisha, com discussões sobre sua estrutura, o princípio de aceitar ou recusar hospitalidade, e o discernimento da mulher sobre a santidade do profeta. O daf fecha a sugya sobre o horário do Shemá matinal com ensinos de Rabi Yosei bar Chanina em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov sobre postura na oração, e termina com a nova Mishná do segundo capítulo: a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre a postura para recitar o Shemá, e o episódio de Rabi Tarfon que se pôs em perigo por segui-la.

Rabi Chanan: nem o sonho mais sombrio deve deter a súplica · בַּעַל הַחֲלוֹמוֹת

01Mesmo que o intérprete de sonhos anuncie a morte para amanhã
Bavli · 10b
אָמַר רַבִּי חָנָן: אֲפִילּוּ בַּעַל הַחֲלוֹמוֹת אוֹמֵר לוֹ לְאָדָם לְמָחָר הוּא מֵת — אַל יִמְנַע עַצְמוֹ מִן הָרַחֲמִים. שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי בְרֹב חֲלֹמוֹת וַהֲבָלִים וּדְבָרִים הַרְבֵּה כִּי אֶת הָאֱלֹהִים יְרָא״.

Disse Rabi Chanan: ainda que o dono dos sonhos (o intérprete) diga a um homem que amanhã ele morrerá, não deve impedir-se de (suplicar por) misericórdia, conforme está dito: "pois na multidão de sonhos há vaidades, e muitas palavras; mas tu, teme a D'us" (Eclesiastes 5:6).

Nota

Dando continuidade ao princípio de Chizkiyahu e de Rabi Yochanan e Rabi Eliezer, com que se encerrou 10a — nunca desistir da súplica por misericórdia, mesmo com a espada sobre o pescoço —, Rabi Chanan estende o mesmo ensino a um cenário menos extremo, mas psicologicamente pesado: mesmo o anúncio de morte iminente por um intérprete de sonhos, que muitos temeriam como presságio certo, não deve paralisar a oração, pois os sonhos, segundo o versículo de Eclesiastes, são cheios de vaidade e não determinam o destino.

Chizkiyahu volta o rosto para o muro · וַיַּסֵּב אֶת פָּנָיו אֶל הַקִּיר

02Imediatamente, Chizkiyahu volta o rosto para o muro e reza
Bavli · 10b
מִיָּד ״וַיַּסֵּב חִזְקִיָּהוּ פָּנָיו אֶל הַקִּיר וַיִּתְפַּלֵּל אֶל ה׳״.

Imediatamente: "e Chizkiyahu voltou o seu rosto para o muro, e orou ao Eterno" (Isaías 38:2).

Nota

Aplicando o princípio recém-ensinado, a Guemará retoma a narrativa de Chizkiyahu exatamente onde 10a a deixara: apesar da sentença de morte anunciada por Yeshayahu, o rei não desiste — volta-se imediatamente para o muro e ora, conforme relata o versículo de Isaías.

03Reish Lakish: "o muro" são os muros do próprio coração
Bavli · 10b
מַאי ״קִיר״? אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: מִקִּירוֹת לִבּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מֵעַי מֵעַי אוֹחִילָה קִירוֹת לִבִּי וְגוֹ׳״.

O que significa "o muro"? Disse Rabi Shimon ben Lakish: dos muros de seu coração, conforme está dito: "minhas entranhas, minhas entranhas, eu me contorço; os muros do meu coração, etc." (Jeremias 4:19).

Nota

Reish Lakish interpreta "o muro" não como uma parede literal, mas metaforicamente como os "muros do coração" de Chizkiyahu — expressão retirada de Jeremias, que descreve angústia visceral. A oração de Chizkiyahu teria brotado, assim, de uma súplica interior e profundamente aflita, não de um simples ato voltado a uma parede física.

04Rabi Levi: Chizkiyahu argumenta a partir do mérito do muro da Shunamit
Bavli · 10b
רַבִּי לֵוִי אָמַר: עַל עִסְקֵי הַקִּיר, אָמַר לְפָנָיו: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, וּמָה שׁוּנַמִּית שֶׁלֹּא עָשְׂתָה אֶלָּא קִיר אַחַת קְטַנָּה הֶחֱיֵיתָ אֶת בְּנָהּ, אֲבִי אַבָּא שֶׁחִפָּה אֶת הַהֵיכָל כּוּלּוֹ בְּכֶסֶף וּבְזָהָב עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה. ״זְכָר נָא אֵת אֲשֶׁר הִתְהַלַּכְתִּי לְפָנֶיךָ בֶּאֱמֶת וּבְלֵב שָׁלֵם וְהַטּוֹב בְּעֵינֶיךָ עָשִׂיתִי״.

Rabi Levi disse: (o muro é) literal — a respeito do assunto do muro. Disse (Chizkiyahu) diante d'Ele: Senhor do universo, se à Shunamit, que fez apenas um pequeno muro, Tu devolveste a vida a seu filho, quanto mais a mim, cujo avô (Shlomo) revestiu o Templo inteiro de prata e ouro! "Lembra-Te, agora, de que andei diante de Ti com verdade e coração íntegro, e fiz o que era bom aos Teus olhos" (Isaías 38:3).

Nota

Rabi Levi propõe leitura diversa: "o muro" é literal, referindo-se ao pequeno quarto que a mulher Shunamita construiu para o profeta Elisha (episódio que a Guemará detalhará adiante, a partir da unidade 14). Chizkiyahu teria argumentado por analogia de menor para maior (kal vachomer): se um mérito tão modesto quanto construir um muro trouxe à Shunamit a ressurreição de seu filho, quanto mais o mérito de seu avô Shlomo, que revestiu de prata e ouro o Templo inteiro, deveria bastar para salvá-lo — argumento que conclui com a súplica registrada em Isaías 38:3.

05"O que era bom a Teus olhos": guardou o livro de curas ou uniu redenção à oração
Bavli · 10b
מַאי ״וְהַטּוֹב בְּעֵינֶיךָ עָשִׂיתִי״? אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: שֶׁסָּמַךְ גְּאוּלָּה לִתְפִלָּה. רַבִּי לֵוִי אָמַר: שֶׁגָּנַז סֵפֶר רְפוּאוֹת.

O que significa "e fiz o que era bom aos Teus olhos"? Disse Rav Yehuda, disse Rav: que ele uniu a (bênção da) redenção à oração (da Amidá). Rabi Levi disse: que ele escondeu o livro de curas.

Nota

Divergem os sábios sobre a que mérito específico Chizkiyahu se refere ao dizer "fiz o que era bom aos Teus olhos": Rav Yehuda, em nome de Rav, entende que se trata da instituição de recitar a bênção da redenção imediatamente antes da Amidá, sem interrupção; Rabi Levi entende que se refere a um dos seis atos do rei que serão listados a seguir — o de ter escondido (ou suprimido) um livro de curas milagrosas, tema desenvolvido na próxima unidade.

Os seis atos de Chizkiyahu · שִׁשָּׁה דְבָרִים

06Seis atos do rei: três aprovados, três reprovados
Bavli · 10b
תָּנוּ רַבָּנַן: שִׁשָּׁה דְבָרִים עָשָׂה חִזְקִיָּהוּ הַמֶּלֶךְ, עַל שְׁלֹשָׁה הוֹדוּ לוֹ, וְעַל שְׁלֹשָׁה לֹא הוֹדוּ לוֹ.

Ensinaram os sábios: seis atos fez o rei Chizkiyahu; por três lhe deram razão, e por três não lhe deram razão.

Nota

A Guemará traz um ensino formal (baraita) que resume a atuação do rei Chizkiyahu em seis atos concretos, dividindo-os igualmente entre os que receberam aprovação dos sábios e os que foram rejeitados — os três primeiros detalhados na próxima unidade.

07Os três aprovados: o livro de curas, a serpente de cobre, os ossos de seu pai
Bavli · 10b
עַל שְׁלֹשָׁה הוֹדוּ לוֹ: גָּנַז סֵפֶר רְפוּאוֹת — וְהוֹדוּ לוֹ. כִּתֵּת נְחַשׁ הַנְּחשֶׁת — וְהוֹדוּ לוֹ. גֵּירַר עַצְמוֹת אָבִיו עַל מִטָּה שֶׁל חֲבָלִים — וְהוֹדוּ לוֹ.

Por três lhe deram razão: escondeu o livro de curas — e lhe deram razão. Despedaçou a serpente de cobre — e lhe deram razão. Arrastou os ossos de seu pai sobre um catre de cordas — e lhe deram razão.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 10b
גירר עצמות אביו – לפי שהיה רשע בזהו ולא נהג בו כבוד בקבורתו להוציאו כהוגן במטות זהב וכסף:

"Arrastou os ossos de seu pai" — porque (seu pai, o rei Achaz) era ímpio, desonrou-o e não lhe prestou honra em seu sepultamento, retirando-o (do local de honra) de forma apropriada, sobre leitos de ouro e prata.

Nota

Os três atos aprovados: primeiro, esconder o "livro de curas" — segundo Rabi Levi (unidade 5), um texto que continha remédios milagrosos, cuja disponibilidade fácil desencorajava o povo de rezar diante da doença; segundo, destruir a serpente de cobre que Moshé erguera no deserto (Números 21:9), pois o povo passara a idolatrá-la; terceiro, arrastar com desonra — sobre um catre de cordas, e não em leito de honra — os ossos de seu pai, o rei ímpio Achaz, como Rashi explica, por este não ter merecido sepultamento digno.

08Os três reprovados: as águas de Guichon, as portas do Templo, o mês adicional
Bavli · 10b
וְעַל שְׁלֹשָׁה לֹא הוֹדוּ לוֹ: סָתַם מֵי גִיחוֹן — וְלֹא הוֹדוּ לוֹ. קִצֵּץ דַּלְתוֹת הֵיכָל וְשִׁגְּרָם לְמֶלֶךְ אַשּׁוּר — וְלֹא הוֹדוּ לוֹ. עִבֵּר נִיסָן בְּנִיסָן — וְלֹא הוֹדוּ לוֹ.

E por três não lhe deram razão: tapou as águas de Guichon — e não lhe deram razão. Cortou as portas do Templo e as enviou ao rei da Assíria — e não lhe deram razão. Intercalou (o ano, acrescentando) Nissan sobre Nissan — e não lhe deram razão.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 10b
סתם מי גיחון – מי שלוח בדברי הימים ולמה כדי שלא יבאו מלכי אשור וימצאו מים לשתות ולא זהו גיחון הנהר הגדול דההוא לאו בא"י הוא אלא מעין קטן הוא סמוך לירושלים שנאמר והורדתם אותו אל גיחון ומתרגמינן ותחתון יתיה לשילוחא: עבר ניסן בניסן – קס"ד משנתקדש החדש לשם ניסן נמלך לעבר את השנה ועשאו אדר כמו שנאמר בדברי הימים ויועץ המלך (חזקיהו) לעשות הפסח בחדש השני:

"Tapou as águas de Guichon" — as águas de Shilôach, em Divrei HaYamim (II Crônicas 32). E por quê? Para que os reis da Assíria não viessem e encontrassem água para beber. E não se trata do Guichon, o grande rio, pois este não está em Eretz Israel, mas de uma pequena fonte próxima a Jerusalém, conforme está dito: "e o fareis descer a Guichon" (I Reis 1:33), que traduzimos como "e o fareis descer a Shilôach". "Intercalou Nissan sobre Nissan" — a suposição inicial é que, depois de o mês já ter sido santificado em nome de Nissan, ele reconsiderou e intercalou o ano, transformando-o em Adar, conforme está dito em Divrei HaYamim: "e o rei (Chizkiyahu) aconselhou-se para fazer o Pêssach no segundo mês" (II Crônicas 30).

Nota

Os três atos reprovados: tapar as águas de Guichon (identificadas por Rashi com a fonte de Shilôach, próxima a Jerusalém), medida estratégica contra o cerco assírio, mas considerada excessiva ou de fé insuficiente; cortar as portas do próprio Templo, revestidas de ouro, para pagar tributo ao rei da Assíria; e intercalar um segundo mês de Nissan depois de o primeiro já ter sido santificado como tal — irregularidade no calendário que a Guemará passa a examinar nas unidades seguintes.

09A objeção: não está escrito que "este mês" é Nissan e nenhum outro?
Bavli · 10b
וּמִי לֵית לֵיהּ לְחִזְקִיָּהוּ, ״הַחֹדֶשׁ הַזֶּה לָכֶם רֹאשׁ חֳדָשִׁים״: זֶה נִיסָן וְאֵין אַחֵר נִיסָן?!

E acaso Chizkiyahu não aceitava (o versículo) "este mês será para vós o principal dos meses" (Êxodo 12:2) — este é Nissan, e nenhum outro é Nissan?!

Nota

A Guemará questiona como um rei tão versado na Torá poderia ter cometido erro tão básico: o próprio versículo da Torá que institui Nissan como o primeiro mês do calendário parece excluir explicitamente a possibilidade de declarar um segundo Nissan, o que motiva a busca por uma explicação mais sutil no que segue.

10Ele se equivocou seguindo Shmuel: "porquanto é apto" não basta
Bavli · 10b
אֶלָּא, טְעָה בְּדִשְׁמוּאֵל דְּאָמַר שְׁמוּאֵל, אֵין מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה בְּיוֹם שְׁלֹשִׁים שֶׁל אֲדָר, הוֹאִיל וְרָאוּי לְקוֹבְעוֹ נִיסָן. סָבַר: ״הוֹאִיל וְרָאוּי״ — לָא אָמְרִינַן.

Antes, ele se equivocou seguindo (a opinião) de Shmuel, pois disse Shmuel: não se intercala o ano no trigésimo dia de Adar, porquanto (esse dia) é apto para ser fixado como Nissan. (Chizkiyahu) entendeu que não se aplica (o princípio de) "porquanto é apto".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 10b
ביום שלשים של אדר – ואע"פ שלא נתקדש החדש שעדיין לא באו עדים:

"No trigésimo dia de Adar" — ainda que o mês não tenha sido (formalmente) santificado, pois as testemunhas ainda não haviam chegado.

Nota

A Guemará explica o erro de Chizkiyahu como um equívoco técnico de halachá: segundo Shmuel, o trigésimo dia de Adar não pode ser retroativamente incluído num ano intercalado, porque esse dia já é, por si só, "apto" a ser declarado Rosh Chodesh Nissan (mesmo que as testemunhas ainda não tenham vindo confirmar a lua nova, como esclarece Rashi). Chizkiyahu, ao que parece, discordava desse princípio de "porquanto é apto", e agiu de acordo com sua própria posição — um erro de julgamento halachico, não uma transgressão deliberada da Torá.

Apoiar-se no próprio mérito ou no de outros · הַתּוֹלֶה בִּזְכוּת

11Rabi Yossei ben Zimra: quem se apoia no próprio mérito recebe o de outros, e vice-versa
Bavli · 10b
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי יוֹסֵי בֶּן זִמְרָא: כָּל הַתּוֹלֶה בִּזְכוּת עַצְמוֹ — תּוֹלִין לוֹ בִּזְכוּת אֲחֵרִים. וְכָל הַתּוֹלֶה בִּזְכוּת אֲחֵרִים — תּוֹלִין לוֹ בִּזְכוּת עַצְמוֹ.

Disse Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yossei ben Zimra: todo aquele que se apoia no próprio mérito — apoiam-no no mérito de outros. E todo aquele que se apoia no mérito de outros — apoiam-no no próprio mérito.

Nota

A Guemará muda de tema, mas mantém a figura de Chizkiyahu como fio condutor. Rabi Yossei ben Zimra ensina um princípio paradoxal sobre a economia do mérito diante de D'us: quem invoca seus próprios méritos em oração recebe, na verdade, ajuda por méritos alheios; e quem invoca méritos alheios recebe ajuda por méritos próprios — princípio ilustrado a seguir com os exemplos de Moshé e de Chizkiyahu.

12Moshé se apoiou no mérito dos patriarcas, e foi socorrido por seu próprio mérito
Bavli · 10b
מֹשֶׁה תָּלָה בִּזְכוּת אֲחֵרִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״זְכֹר לְאַבְרָהָם לְיִצְחָק וּלְיִשְׂרָאֵל עֲבָדֶיךָ״. תָּלוּ לוֹ בִּזְכוּת עַצְמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר לְהַשְׁמִידָם לוּלֵי מֹשֶׁה בְחִירוֹ עָמַד בַּפֶּרֶץ לְפָנָיו לְהָשִׁיב חֲמָתוֹ מֵהַשְׁחִית״.

Moshé apoiou-se no mérito de outros, conforme está dito: "lembra-Te de Avraham, de Yitzchak e de Israel, Teus servos" (Êxodo 32:13). Apoiaram-no no seu próprio mérito, conforme está dito: "e disse que os destruiria, se Moshé, Seu escolhido, não se pusesse na brecha diante d'Ele, para desviar Seu furor da destruição" (Salmos 106:23).

Nota

O primeiro exemplo: ao interceder pelo povo depois do pecado do bezerro de ouro, Moshé invocou o mérito dos patriarcas (Avraham, Yitzchak e Israel/Yaakov), e não o seu próprio. Em recompensa, o próprio Moshé foi reconhecido pelo salmista como o mérito decisivo que impediu a destruição de Israel — "se Moshé, Seu escolhido, não se pusesse na brecha".

13Chizkiyahu se apoiou em si mesmo, e foi socorrido pelo mérito de David
Bavli · 10b
חִזְקִיָּהוּ תָּלָה בִּזְכוּת עַצְמוֹ, דִּכְתִיב: ״זְכָר נָא אֵת אֲשֶׁר הִתְהַלַּכְתִּי לְפָנֶיךָ״, תָּלוּ לוֹ בִּזְכוּת אֲחֵרִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְגַנּוֹתִי אֶל הָעִיר הַזֹּאת לְהוֹשִׁיעָהּ לְמַעֲנִי וּלְמַעַן דָּוִד עַבְדִּי״. וְהַיְינוּ דְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. דְּאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: מַאי דִּכְתִיב ״הִנֵּה לְשָׁלוֹם מָר לִי מָר״ — אֲפִילּוּ בְּשָׁעָה שֶׁשִּׁיגֵּר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׁלוֹם, מָר הוּא לוֹ.

Chizkiyahu apoiou-se no próprio mérito, conforme está escrito: "lembra-Te, agora, de que andei diante de Ti" (Isaías 38:3). Apoiaram-no no mérito de outros, conforme está dito: "e defenderei esta cidade, para salvá-la, por Minha causa e por causa de David, Meu servo" (Isaías 37:35; II Reis 19:34). E isso é o que disse Rabi Yehoshua ben Levi: o que significa o que está escrito "eis que para paz me foi amargo, amargo" (Isaías 38:17)? Mesmo na hora em que o Santo, bendito seja, lhe enviou paz, ela lhe foi amarga.

Nota

O segundo exemplo, em contraste: Chizkiyahu, ao suplicar por sua vida, invocou seu próprio mérito ("lembra-Te de que andei diante de Ti"). Em vez disso, sua salvação (e a de Jerusalém do cerco assírio) veio atribuída ao mérito de outro — seu antepassado David. Rabi Yehoshua ben Levi acrescenta que, mesmo depois de salvo, o próprio Chizkiyahu reconheceu essa "amargura": a salvação lhe veio não por mérito próprio, mas alheio, o que ele sentiu como um golpe à sua dignidade, conforme sua queixa em Isaías 38:17.

O quarto da Shunamit para Elisha · עֲלִיַּת קִיר קְטַנָּה

14"Façamos um pequeno quarto de muro"
Bavli · 10b
״נַעֲשֶׂה נָא עֲלִיַּת קִיר קְטַנָּה״.

"Façamos, agora, um pequeno quarto de muro" (II Reis 4:10).

Nota

Retomando a referência de Rabi Levi ao "muro" da Shunamit (unidade 4), a Guemará cita o versículo de II Reis onde a mulher Shunamita propõe a seu marido construir um pequeno aposento para hospedar o profeta Elisha, dando início a uma longa análise desse episódio.

15Rav e Shmuel discordam: quarto descoberto que se cobriu, ou saguão dividido
Bavli · 10b
רַב וּשְׁמוּאֵל, חַד אָמַר: עֲלִיָּיה פְּרוּעָה הָיְתָה, וְקֵירוּהָ. וְחַד אָמַר: אַכְסַדְרָה גְּדוֹלָה הָיְתָה וְחִלְּקוּהָ לִשְׁנַיִם.

Rav e Shmuel — um disse: era um quarto superior descoberto, e o cobriram (com muros). E o outro disse: era um grande saguão, e o dividiram em dois.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 10b
פרועה – מגולה שניטלה תקרה שלה:

"Descoberto" — exposto, do qual havia sido removido o teto.

Nota

Os amoraim Rav e Shmuel discordam sobre a natureza exata da construção descrita no versículo: para um, tratava-se de um cômodo superior sem cobertura, ao qual se acrescentaram muros (dando origem à expressão "quarto de muro"); para o outro, tratava-se de um grande saguão aberto (achsadrá), que foi dividido em dois ambientes menores. As duas próximas unidades testam cada leitura contra os termos exatos do versículo.

16A dificuldade contra quem diz "quarto superior": por que "muro"?
Bavli · 10b
בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר אַכְסַדְרָה, הַיְינוּ דִּכְתִיב ״קִיר״ אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר עֲלִיָּיה, מַאי ״קִיר״?

Está bem para quem diz "saguão" — por isso está escrito "muro". Mas para quem diz "quarto superior", o que significa "muro"?

Nota

A Guemará questiona a opinião de que se tratava de um quarto superior descoberto: se assim fosse, por que o versículo usaria especificamente a palavra "muro" (kir), termo que se explicaria naturalmente na leitura do "saguão dividido por um muro"?

17Resposta: porque o cobriram com muros
Bavli · 10b
שֶׁקֵּירוּהָ.

Porque o cobriram (com muros, dando-lhe teto).

Nota

Resposta breve: mesmo na leitura de "quarto superior descoberto", a palavra "muro" se justifica, pois o casal ergueu muros para cobrir e fechar o espaço antes aberto, tornando-o um quarto propriamente dito.

18A dificuldade inversa: por que "elevado" para quem diz "saguão"?
Bavli · 10b
בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר עֲלִיָּיה, הַיְינוּ דִּכְתִיב ״עֲלִיַּית״. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר אַכְסַדְרָה, מַאי ״עֲלִיַּית״?

Está bem para quem diz "quarto superior" — por isso está escrito "elevado" (aliyat). Mas para quem diz "saguão", o que significa "elevado"?

Nota

A dificuldade simétrica: se o texto falasse apenas em "saguão", a palavra "elevado" (aliyat, também associada a andar superior) pareceria supérflua ou inadequada.

19Resposta: "elevado" significa o melhor dos aposentos
Bavli · 10b
״מְעוּלָּה״ שֶׁבַּבָּתִּים.

"O mais elevado (o melhor)" entre os aposentos (da casa).

Nota

Resposta: nessa leitura, "elevado" não indica localização física no andar de cima, mas qualidade — o mais nobre e bem preparado dos aposentos da casa, dedicado à hospedagem do profeta.

20O mobiliário: cama, mesa, cadeira e candelabro
Bavli · 10b
״וְנָשִׂים לוֹ שָׁם מִטָּה וְשֻׁלְחָן וְכִסֵּא וּמְנוֹרָה״.

"E ponhamos ali para ele uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candelabro" (II Reis 4:10).

Nota

O versículo detalha o mobiliário essencial que a Shunamit prepara para Elisha — os quatro itens básicos de um aposento de hóspede honrado, ponto de partida para a discussão seguinte sobre aceitar hospitalidade.

21Abaie: quem quer se beneficiar de outros, que se beneficie, como Elisha
Bavli · 10b
אָמַר אַבָּיֵי, וְאִיתֵּימָא רַבִּי יִצְחָק: הָרוֹצֶה לֵהָנוֹת — יֵהָנֶה, כֶּאֱלִישָׁע. וְשֶׁאֵינוֹ רוֹצֶה לֵהָנוֹת — אַל יֵהָנֶה, כִּשְׁמוּאֵל הָרָמָתִי. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּתְשׁוּבָתוֹ הָרָמָתָה כִּי שָׁם בֵּיתוֹ״, וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁכָּל מָקוֹם שֶׁהָלַךְ שָׁם — בֵּיתוֹ עִמּוֹ.

Disse Abaie — e há quem diga que foi Rabi Yitzchak: quem quer beneficiar-se (de outros), que se beneficie, como Elisha. E quem não quer beneficiar-se, que não se beneficie, como Shmuel de Ramá. Conforme está dito: "e seu retorno era a Ramá, pois ali estava sua casa" (I Samuel 7:17). E disse Rabi Yochanan: que a todo lugar aonde ia, sua casa (seus utensílios) ia com ele.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 10b
הרוצה להנות – משל אחרים: יהנה – ואין איסור בדבר: כאלישע – כמו שמצינו באלישע שנהנה: והרוצה שלא להנות – משל אחרים: אל יהנה – ואין בדבר לא משום גסות רוח ולא משום שנאה: כשמואל הרמתי – כמו שמצינו בשמואל הרמתי שלא רצה להנות: כי שם ביתו – לעיל מיניה כתיב והיה מדי שנה בשנה וסבב בית אל והמצפה ושפט את ישראל וסמיך ליה ותשובתו הרמתה כי שם ביתו וכי איני יודע ששם ביתו אלא אכולהו מקומות דקרא דלעיל מיניה קאי שכל מקום שהיה הולך שם היה נושא כל כלי תשמישי בית עמו ואהל חנייתו שלא להנות מן אחרים:

"Quem quer beneficiar-se" — de outros. "Que se beneficie" — e não há proibição nisso. "Como Elisha" — como encontramos a respeito de Elisha, que se beneficiou. "E quem não quer beneficiar-se" — de outros. "Que não se beneficie" — e não há nisso nem soberba, nem desprezo. "Como Shmuel de Ramá" — como encontramos a respeito de Shmuel de Ramá, que não quis beneficiar-se. "Pois ali estava sua casa" — antes disso está escrito: "e ano após ano ele circulava (por) Beit El, Guilgal e Mitzpá, e julgava a Israel", e a isso se segue "e seu retorno era a Ramá, pois ali estava sua casa" — acaso eu não sei que ali estava sua casa? Antes, refere-se a todos os lugares mencionados no versículo anterior: que a todo lugar aonde ia, levava consigo todos os utensílios domésticos e sua tenda de acampamento, para não se beneficiar de outros.

Nota

Abaie (ou Rabi Yitzchak) estabelece que ambas as condutas são legítimas e igualmente louváveis, cada uma a seu modo: Elisha aceitou de bom grado a hospitalidade oferecida pela Shunamit, sem que isso lhe fosse reprovado; já o profeta Shmuel, em contraste, evitava sistematicamente beneficiar-se de outros, levando consigo, aonde quer que fosse em suas viagens de juiz itinerante, seus próprios utensílios e tenda — conforme a leitura de Rabi Yochanan e a explicação detalhada de Rashi.

22"Eis que sei que é um homem santo de D'us": a mulher percebe mais que o marido
Bavli · 10b
״וַתֹּאמֶר אֶל אִישָׁהּ הִנֵּה נָא יָדַעְתִּי כִּי אִישׁ אֱלֹהִים קָדוֹשׁ הוּא״, אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: מִכָּאן שֶׁהָאִשָּׁה מַכֶּרֶת בְּאוֹרְחִין יוֹתֵר מִן הָאִישׁ.

"E ela disse a seu marido: eis que, agora, sei que é um homem de D'us, santo, o que passa continuamente por nós" (II Reis 4:9). Disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: daqui (se aprende) que a mulher reconhece os hóspedes melhor do que o homem.

Nota

A Guemará volta ao início do relato bíblico: foi a própria Shunamit quem primeiro percebeu a santidade excepcional de Elisha e propôs a seu marido prepará-lo um aposento. Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, extrai daí um princípio geral sobre a maior perspicácia feminina em avaliar o caráter de visitantes.

23Como ela soube: nem mosca sobre sua mesa, nem polução sobre seus lençóis
Bavli · 10b
״קָדוֹשׁ הוּא״: מְנָא יָדְעָה? רַב וּשְׁמוּאֵל. חַד אָמַר: שֶׁלֹּא רָאֲתָה זְבוּב עוֹבֵר עַל שֻׁלְחָנוֹ, וְחַד אָמַר: סָדִין שֶׁל פִּשְׁתָּן הִצִּיעָה עַל מִטָּתוֹ וְלֹא רָאֲתָה קֶרִי עָלָיו.

"É santo" — de onde ela sabia? Rav e Shmuel — um disse: porque não via mosca passar sobre sua mesa. E o outro disse: (porque) estendera sobre sua cama um lençol de linho, e não via emissão sobre ele.

Nota

Novo debate entre Rav e Shmuel sobre a base concreta do discernimento da Shunamit: um sugere que ela observou a ausência de moscas sobre a mesa de Elisha — sinal de pureza extraordinária; o outro sugere que, ao trocar os lençóis de linho de sua cama, nunca encontrava neles vestígio de emissão seminal noturna, evidência de completo controle sobre seus próprios impulsos físicos.

24"Ele é santo", mas seu servo Guechazi não; o episódio com a mulher
Bavli · 10b
״קָדוֹשׁ הוּא״ אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: הוּא קָדוֹשׁ וּמְשָׁרְתוֹ אֵינוֹ קָדוֹשׁ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּגַּשׁ גֵּיחֲזִי לְהָדְפָהּ״, אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: שֶׁאֲחָזָהּ בְּהוֹד יָפְיָהּ.

"É santo" — disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: ele é santo, mas seu servo (Guechazi) não é santo. Conforme está dito: "e Guechazi se aproximou para empurrá-la" (II Reis 4:27). Disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: que a segurou pelo esplendor de sua beleza.

Nota

Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, contrasta a santidade de Elisha com a conduta de seu servo Guechazi: quando a Shunamit, aflita, correu ao encontro de Elisha (após a morte de seu filho), Guechazi tentou impedi-la de um modo que, segundo a leitura interpretativa, envolveu tocá-la de forma imprópria, agarrando-a "pelo esplendor de sua beleza" — indício de que a santidade do profeta não se estendia automaticamente a seu assistente.

Hospedar sábios e a postura na oração · מָקוֹם נָמוּךְ

25Quem hospeda um sábio é como quem oferece sacrifícios contínuos
Bavli · 10b
״עוֹבֵר עָלֵינוּ תָּמִיד״, אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: כָּל הַמְאָרֵחַ תַּלְמִיד חָכָם בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ וּמְהַנֵּהוּ מִנְּכָסָיו — מַעֲלֶה עָלָיו הַכָּתוּב כְּאִילּוּ מַקְרִיב תְּמִידִין.

"Que passa continuamente por nós" (II Reis 4:9). Disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: todo aquele que hospeda um sábio (talmid chacham) em sua casa, e o beneficia com seus bens, o Texto lhe atribui como se oferecesse sacrifícios contínuos (temidin).

Nota

A partir da expressão "que passa continuamente" usada pela Shunamit a respeito de Elisha, Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov, extrai um ensino sobre o valor de hospedar sábios: quem o faz com seus próprios recursos é equiparado a quem oferece os sacrifícios diários (temidin) do Templo — associação lexical entre "contínuo" (hospitalidade recorrente) e "contínuos" (sacrifícios).

26Não se deve rezar em lugar alto, mas em lugar baixo
Bavli · 10b
וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: אַל יַעֲמוֹד אָדָם בְּמָקוֹם גָּבוֹהַּ וְיִתְפַּלֵּל, אֶלָּא בְּמָקוֹם נָמוּךְ וְיִתְפַּלֵּל. שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִמַּעֲמַקִּים קְרָאתִיךָ ה׳״.

E disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: não se ponha o homem em pé num lugar alto para rezar, mas sim num lugar baixo, e reze; conforme está dito: "das profundezas eu Te chamei, Eterno" (Salmos 130:1).

Nota

Sob a mesma cadeia de transmissão, inicia-se aqui a série final de ensinos sobre a postura correta na oração, que fecha a sugya do horário do Shemá matinal: a oração deve ser feita, preferencialmente, de um lugar fisicamente baixo — postura de humildade diante de D'us —, apoiada no versículo de Tehilim que fala em clamar "das profundezas".

27Baraita paralela: nem sobre cadeira, nem sobre banquinho
Bavli · 10b
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: לֹא יַעֲמוֹד אָדָם לֹא עַל גַּבֵּי כִּסֵּא, וְלֹא עַל גַּבֵּי שְׁרַפְרַף, וְלֹא בְּמָקוֹם גָּבוֹהַּ, וְיִתְפַּלֵּל, אֶלָּא בְּמָקוֹם נָמוּךְ, וְיִתְפַּלֵּל. לְפִי שֶׁאֵין גַּבְהוּת לִפְנֵי הַמָּקוֹם. שֶׁנֶּאֱמַר ״מִמַּעֲמַקִּים קְרָאתִיךָ ה׳״. וּכְתִיב: ״תְּפִלָּה לְעָנִי כִי יַעֲטֹף״.

Foi ensinado também assim: não se ponha o homem em pé sobre uma cadeira, nem sobre um banquinho, nem em lugar alto, para rezar; mas sim em lugar baixo, e reze. Porque não há arrogância diante d'Aquele que está em todo Lugar (HaMakom). Conforme está dito: "das profundezas eu Te chamei, Eterno". E está escrito: "oração de um pobre, quando se enfraquece" (Salmos 102:1).

Nota

Uma baraita confirma e amplia o mesmo ensino, especificando explicitamente que nem cadeiras nem banquinhos servem de plataforma elevada para a oração, e explicitando a razão: diante d'Aquele que está em todo Lugar não cabe arrogância. Acrescenta-se um segundo versículo, do Salmo que se abre com "oração de um pobre", reforçando a associação entre oração e humildade física e espiritual.

28Quem reza deve alinhar os pés
Bavli · 10b
וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: הַמִּתְפַּלֵּל צָרִיךְ שֶׁיְּכַוֵּין אֶת רַגְלָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְרַגְלֵיהֶם רֶגֶל יְשָׁרָה״.

E disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: aquele que reza precisa alinhar seus pés, conforme está dito: "e seus pés eram um pé reto" (Ezequiel 1:7).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 10b
יכוין את רגליו – זו אצל זו: ורגליהם רגל ישרה – נראין כרגל אחד:

"Alinhar seus pés" — um junto ao outro. "E seus pés eram um pé reto" — pareciam um único pé.

Nota

Novo ensino da mesma cadeia: durante a oração, os pés devem ficar juntos, alinhados um ao lado do outro, a ponto de parecerem um único pé — postura inspirada na descrição das criaturas celestiais na visão inaugural de Ezequiel, cujos pés retos e unidos servem de modelo para a postura humana na Amidá.

29"Não comereis sobre o sangue": não comer antes de orar por sua vida
Bavli · 10b
(אָמַר רַבִּי יִצְחָק אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן) וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: מַאי דִּכְתִיב, ״לֹא תֹאכְלוּ עַל הַדָּם״ — לֹא תֹאכְלוּ קוֹדֶם שֶׁתִּתְפַּלְּלוּ עַל דִּמְכֶם.

(Disse Rabi Yitzchak, disse Rabi Yochanan,) e disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: o que significa o que está escrito, "não comereis sobre o sangue" (Levítico 19:26)? Não comais antes de terdes orado por vosso sangue (por vossa vida).

Nota

Continuando a mesma cadeia de ensinos, reinterpreta-se um versículo de Levítico, tradicionalmente lido como proibição alimentar (relativa ao consumo de sangue ou a práticas idólatras associadas a ele), como preceito sobre a prioridade da oração matinal: não se deve comer antes de ter orado pela própria vida — antecipando a exigência de recitar o Shemá e a Amidá antes da primeira refeição do dia.

30Quem come e bebe antes de orar se engrandece perante D'us
Bavli · 10b
אִיכָּא דְאָמְרִי: אָמַר רַבִּי יִצְחָק, אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן, אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: כָּל הָאוֹכֵל וְשׁוֹתֶה, וְאַחַר כָּךְ מִתְפַּלֵּל עָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״וְאֹתִי הִשְׁלַכְתָּ אַחֲרֵי גַוֶּךָ״, אַל תִּקְרֵי ״גַּוֶּיךָ״ אֶלָּא ״גֵּאֶיךָ״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: לְאַחַר שֶׁנִּתְגָּאָה זֶה קִבֵּל עָלָיו מַלְכוּת שָׁמַיִם.

Há quem diga: disse Rabi Yitzchak, disse Rabi Yochanan, disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina, em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: todo aquele que come e bebe, e depois reza — a respeito dele o Texto diz: "e a Mim lançaste atrás de teu corpo (gavecha)" (I Reis 14:9); não leias "teu corpo" (gavecha), mas sim "tua soberba" (geecha). Disse o Santo, bendito seja: depois que este se engrandeceu (com comida e bebida), aceitou sobre si o reino dos Céus.

Nota

Uma versão alternativa da tradição transmite o mesmo ensino de forma ainda mais contundente: comer e beber antes de orar é lido, por meio de um jogo de palavras entre "teu corpo" e "tua soberba", como um ato de arrogância perante D'us — como se a pessoa colocasse sua própria satisfação física à frente da aceitação do jugo do Céu, invertendo a ordem devida de prioridades.

Encerramento da sugya do horário matinal · עַד שָׁלֹשׁ שָׁעוֹת

31A halachá segue Rabi Yehoshua: até três horas
Bavli · 10b
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שָׁלֹשׁ שָׁעוֹת. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

Rabi Yehoshua diz: até três horas (do dia). Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: a halachá segue Rabi Yehoshua.

Nota

A Guemará retoma, para encerrar, a própria Mishná 1:2 (citada em 9b), que registrava a opinião de Rabi Yehoshua sobre o prazo final para a recitação do Shemá matinal — até a terceira hora do dia. Rav Yehuda, em nome de Shmuel, decide a halachá conforme essa opinião, encerrando formalmente a disputa que ocupou os dapim anteriores.

32Quem lê depois desse horário não perde (a recompensa da leitura da Torá)
Bavli · 10b
הַקּוֹרֵא מִכָּאן וְאֵילָךְ, לֹא הִפְסִיד.

Quem lê (o Shemá) daí em diante, não perdeu.

Nota

Complemento da própria Mishná: mesmo passado o prazo ideal das três horas, quem ainda recita o Shemá "não perdeu" — mantém algum valor em sua leitura, ainda que fora do horário preceituado para o cumprimento pleno da mitzvá. O sentido exato dessa expressão é discutido nas unidades seguintes.

33Rav Chisda: contanto que não diga "Yotzer Or"
Bavli · 10b
אָמַר רַב חִסְדָּא אָמַר מָר עוּקְבָא: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֹאמַר יוֹצֵר אוֹר.

Disse Rav Chisda, disse Mar Ukva: contanto que não diga (a bênção) "Yotzer Or" (que forma a luz).

Nota

Rav Chisda, em nome de Mar Ukva, restringe o alcance da afirmação "não perdeu": ela se aplica apenas a quem lê o texto do Shemá sem as bênçãos que o circundam — pois a bênção "Yotzer Or", por mencionar a criação da luz, só é apropriada dentro do horário adequado da manhã.

34Objeção de uma baraita: refuta-se Rav Chisda
Bavli · 10b
מֵיתִיבִי: הַקּוֹרֵא מִכָּאן וְאֵילָךְ לֹא הִפְסִיד, כְּאָדָם שֶׁהוּא קוֹרֵא בַּתּוֹרָה, אֲבָל מְבָרֵךְ הוּא שְׁתַּיִם לְפָנֶיהָ וְאַחַת לְאַחֲרֶיהָ. תְּיוּבְתָּא דְרַב חִסְדָּא, תְּיוּבְתָּא.

Objetaram: quem lê (o Shemá) daí em diante, não perdeu — (é) como um homem que lê na Torá; mas abençoa duas (bênçãos) antes dele e uma depois dele. Refutação de Rav Chisda — é uma refutação.

Nota

Uma baraita contradiz explicitamente Rav Chisda: ela afirma que quem lê o Shemá fora do horário, ainda que seja "como quem lê um trecho da Torá" (sem o pleno valor da mitzvá), continua a recitar todas as bênçãos, incluindo, implicitamente, "Yotzer Or". A Guemará conclui com o termo técnico "teiuvta" — refutação decisiva — contra a posição de Rav Chisda.

35Versão alternativa: "não perdeu" refere-se às bênçãos
Bavli · 10b
אִיכָּא דְאָמְרִי אָמַר רַב חִסְדָּא אָמַר מָר עוּקְבָא: מַאי ״לֹא הִפְסִיד״ — שֶׁלֹּא הִפְסִיד בְּרָכוֹת. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: הַקּוֹרֵא מִכָּאן וְאֵילָךְ לֹא הִפְסִיד כְּאָדָם שֶׁקּוֹרֵא בַּתּוֹרָה, אֲבָל מְבָרֵךְ הוּא שְׁתַּיִם לְפָנֶיהָ וְאַחַת לְאַחֲרֶיהָ.

Há quem diga: disse Rav Chisda, disse Mar Ukva: o que significa "não perdeu"? Que não perdeu as bênçãos. Foi ensinado também assim: quem lê (o Shemá) daí em diante, não perdeu, (mas fica) como um homem que lê na Torá; porém abençoa duas (bênçãos) antes dele e uma depois dele.

Nota

Uma versão alternativa reformula a própria afirmação atribuída a Rav Chisda, de modo a torná-la compatível com a baraita: "não perdeu" significaria, nessa leitura, que a pessoa não perde o direito de recitar as bênçãos — resolvendo a contradição da unidade anterior sem necessidade de refutação.

36Rabi Mani: ler o Shemá no horário certo é maior que estudar Torá
Bavli · 10b
אָמַר רַבִּי מָנִי: גָּדוֹל הַקּוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע בְּעוֹנָתָהּ יוֹתֵר מֵהָעוֹסֵק בַּתּוֹרָה. מִדְּקָתָנֵי: הַקּוֹרֵא מִכָּאן וְאֵילָךְ לֹא הִפְסִיד כְּאָדָם הַקּוֹרֵא בַּתּוֹרָה. מִכְּלַל דְּקוֹרֵא בְּעוֹנָתָהּ — עָדִיף.

Disse Rabi Mani: maior é aquele que lê o Shemá em seu horário do que aquele que se ocupa da Torá. De que se ensina: "quem lê daí em diante, não perdeu, como um homem que lê na Torá" — infere-se que ler (o Shemá) em seu horário é preferível.

Nota

Rabi Mani encerra a sugya com uma conclusão homilética: já que quem recita o Shemá fora do horário é rebaixado à categoria de quem apenas "lê Torá" (sem o pleno valor da mitzvá específica), infere-se que ler o Shemá dentro do horário devido é superior ao próprio estudo genérico da Torá — encerrando com esse elogio a discussão sobre o horário do Shemá matinal, que se estendeu por vários dapim.

Nova Mishná: deitado, em pé, ou cada um a seu jeito · בֵּית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל

37Mishná: Beit Shamai — à noite, todos se deitam; pela manhã, ficam em pé
Mishná 2:1
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: בָּעֶרֶב — כָּל אָדָם יַטֶּה וְיִקְרָא. וּבַבֹּקֶר יַעֲמוֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְשָׁכְבְּךָ וּבְקוּמֶךָ״.

Beit Shamai dizem: à noite, todo homem deve se reclinar e ler (o Shemá); e pela manhã, deve ficar em pé, conforme está dito: "e ao deitares e ao levantares" (Deuteronômio 6:7).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 10b
מתני' יטה – על צדו: יעמוד – דכתיב ובקומך: בשכבך – דרך שכיבה:

"Deve se reclinar" — sobre seu lado. "Deve ficar em pé" — pois está escrito "e ao levantares". "Ao deitares" — no modo de deitar.

Nota

Com esta Mishná abre-se o segundo capítulo de Berachot (Perek Bet), e encerra-se, ao mesmo tempo, toda a extensa sugya do capítulo anterior sobre o horário do Shemá. Beit Shamai lê literalmente a expressão "ao deitares e ao levantares" como instrução de postura corporal: à noite, a recitação deve ser feita fisicamente reclinado; de manhã, em pé — refletindo a postura típica de cada período do dia. Ver também no Talmud Yerushalmi (Berachot 1:3), que discute a mesma disputa.

38Beit Hilel: cada um a seu modo, "ao caminhares pelo caminho"
Bavli · 10b
וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: כָּל אָדָם קוֹרֵא כְּדַרְכּוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר ״וּבְלֶכְתְּךָ בַדֶּרֶךְ״.

E Beit Hilel dizem: todo homem lê (o Shemá) à sua maneira, conforme está dito: "e ao caminhares pelo caminho" (Deuteronômio 6:7).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 10b
כדרכו – או בקימה או בשכיבה או בישיבה או מהלך:

"À sua maneira" — seja em pé, seja deitado, seja sentado, seja andando.

Nota

Beit Hilel discorda: como o versículo também menciona "ao caminhares pelo caminho" — situação em que não há como se ajustar rigidamente a uma postura de "deitado" ou "em pé" —, conclui-se que a Torá não exige postura corporal específica, e cada pessoa pode recitar o Shemá do modo em que naturalmente se encontrar, seja em pé, sentado, deitado ou andando.

39Então por que dizer "ao deitares e ao levantares"?
Bavli · 10b
אִם כֵּן לָמָּה נֶאֱמַר ״וּבְשָׁכְבְּךָ וּבְקוּמֶךָ״ — בְּשָׁעָה שֶׁבְּנֵי אָדָם שׁוֹכְבִים וּבְשָׁעָה שֶׁבְּנֵי אָדָם עוֹמְדִים.

Se assim é, por que se diz "e ao deitares e ao levantares"? (Refere-se) à hora em que as pessoas se deitam, e à hora em que as pessoas se levantam.

Nota

A própria Mishná antecipa e responde a uma objeção: se a postura corporal não é exigida, por que a Torá menciona especificamente "deitar" e "levantar"? A resposta de Beit Hilel é que essas expressões não prescrevem postura, mas apenas demarcam os dois horários do dia em que a mitzvá se aplica — o período noturno (quando as pessoas costumam se deitar) e o período matinal (quando costumam se levantar).

40Rabi Tarfon: segui Beit Shamai e me pus em perigo por causa dos bandidos
Bavli · 10b
אָמַר רַבִּי טַרְפוֹן: אֲנִי הָיִיתִי בָּא בַּדֶּרֶךְ וְהִטֵּתִי לִקְרוֹת כְּדִבְרֵי בֵּית שַׁמַּאי. וְסִכַּנְתִּי בְּעַצְמִי מִפְּנֵי הַלִּסְטִים.

Disse Rabi Tarfon: eu vinha pelo caminho, e me reclinei para ler (o Shemá) segundo as palavras de Beit Shamai, e me pus em perigo por causa dos bandidos.

Nota

A Mishná encerra-se com um relato pessoal de Rabi Tarfon: ao viajar, ele tentou cumprir literalmente a opinião de Beit Shamai, reclinando-se fisicamente à beira do caminho para recitar o Shemá — e, ao fazê-lo, expôs-se ao perigo real de assalto por bandidos, episódio que serve de crítica prática à posição de Beit Shamai. Ver também no Talmud Yerushalmi (Berachot 1:4), que relata o mesmo episódio de Rabi Tarfon.

41Responderam-lhe: merecias o perigo, pois transgrediste Beit Hilel
Bavli · 10b
אָמְרוּ לוֹ: כְּדַי הָיִיתָ לָחוּב בְּעַצְמְךָ, שֶׁעָבַרְתָּ עַל דִּבְרֵי בֵּית הִלֵּל.

Disseram-lhe: eras merecedor de responsabilizar-te a ti mesmo (pelo perigo), pois transgrediste as palavras de Beit Hilel.

Nota

A resposta final da Mishná é severa: os sábios não veem o episódio de Rabi Tarfon como infortúnio, mas como consequência de sua própria escolha — já que a halachá segue Beit Hilel, ele mesmo teria se colocado em risco desnecessário ao seguir Beit Shamai, encerrando o daf com uma lição prática sobre a prioridade da halachá estabelecida sobre a piedade individual excessiva.