Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
בֶּן זוֹמָא

O modo de curvar-se de Rav Sheshet, as fórmulas da Amidá nos Dez Dias de Penitência, o dever de rezar por outro e de envergonhar-se do pecado, o perdão de Shaul, as parashiot de Balak e de tzitzit, e a Mishná de Ben Zoma sobre o Êxodo à noite

Berachot 12b

O daf abre com o modo peculiar de Rav Sheshet curvar-se e erguer-se na oração, e prossegue com ensinamentos de Rabá bar Chinaná em nome de Rav sobre as fórmulas alternativas da Amidá durante os Dez Dias de Penitência. Em seguida, trata do dever de pedir misericórdia por outro — inclusive adoecendo de preocupação, se for um sábio — e do princípio de que quem se envergonha de sua transgressão tem seus pecados perdoados, ilustrado pelo caso de Shaul e o massacre de Nov. A Guemará então explica por que a parashá de Balak não foi fixada na leitura diária do Shemá, apesar de conter um verso precioso, e por que a parashá de tzitzit foi fixada, por conter cinco elementos essenciais. O daf fecha com a Mishná que registra a disputa entre Rabi Elazar ben Azaria — que só aceitou a posição depois que Ben Zoma a expôs — e os sábios, sobre se a lembrança do Êxodo do Egito deve ser mencionada também à noite, ou apenas nos dias, e sobre o alcance da expressão "todos os dias de tua vida".

O modo de curvar-se de Rav Sheshet · כִּי כָּרַע

01Rav Sheshet curvava-se de uma vez, como um bastão, e erguia-se aos poucos, como uma serpente
Bavli · 12b
רַב שֵׁשֶׁת, כִּי כָּרַע — כָּרַע כְּחִיזְרָא. כִּי קָא זָקֵיף — זָקֵיף כְּחִיוְיָא.

Rav Sheshet, quando se curvava, curvava-se como um bastão; quando se erguia, erguia-se como uma serpente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
כחיזרא – שבט ביד אדם וחובטו כלפי מטה בבת אחת: זקיף כחויא – בנחת ראשו תחלה ואח"כ גופו שלא תראה כריעתו עליו כמשוי: כחויא – כנחש הזה כשהוא זוקף עצמו מגביה הראש תחלה ונזקף מעט מעט:

"Como um bastão" — como um bastão na mão de um homem, que ele bate para baixo de uma só vez. "Ergue-se como uma serpente" — com calma, primeiro a cabeça e depois o corpo, para que sua curvatura não pareça sobre ele como um fardo. "Como uma serpente" — como esta serpente, que ao se erguer levanta primeiro a cabeça e se ergue pouco a pouco.

Nota

O daf abre com um costume pessoal de Rav Sheshet, retomando o tema do daf anterior sobre curvar-se e erguer-se na oração: ele se curvava rapidamente, de uma só vez, como um bastão que se bate para baixo, mas se erguia lentamente, começando pela cabeça, como uma serpente que se levanta aos poucos — evitando que a curvatura parecesse um peso imposto sobre ele.

As fórmulas da Amidá nos Dez Dias de Penitência · הָאֵל הַקָּדוֹשׁ

02Rabá bar Chinaná em nome de Rav: nos dez dias entre Rosh HaShaná e Yom Kipur, diz-se "o Rei Santo" e "o Rei do Juízo"
Bavli · 12b
וְאָמַר רַבָּה בַּר חִינָּנָא סָבָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב כָּל הַשָּׁנָה כּוּלָּהּ אָדָם מִתְפַּלֵּל ״הָאֵל הַקָּדוֹשׁ״, ״מֶלֶךְ אוֹהֵב צְדָקָה וּמִשְׁפָּט״, חוּץ מֵעֲשָׂרָה יָמִים שֶׁבֵּין רֹאשׁ הַשָּׁנָה וְיוֹם הַכִּפּוּרִים, שֶׁמִּתְפַּלֵּל ״הַמֶּלֶךְ הַקָּדוֹשׁ״, וְ״הַמֶּלֶךְ הַמִּשְׁפָּט״.

E disse Rabá bar Chinaná, o Ancião, em nome de Rav: durante todo o ano, a pessoa reza (dizendo) "o D-us Santo" (HaEl HaKadosh), "Rei que ama justiça e juízo", exceto nos dez dias entre Rosh HaShaná e Yom Kipur, quando reza "o Rei Santo" (HaMelech HaKadosh) e "o Rei do Juízo".

Nota

A Guemará passa a outro ensinamento de Rabá bar Chinaná em nome de Rav, agora sobre o texto exato de duas bênçãos da Amidá — a terceira ("Santidade de D-us") e a décima primeira ("Restauração da Justiça"). Durante o ano todo, elas se encerram mencionando "D-us" como santo e amante da justiça; mas nos Dez Dias de Penitência, quando a soberania divina no julgamento do mundo está em evidência, encerram-se mencionando "o Rei" — enfatizando a realeza de D-us como Juiz.

03Rabi Elazar: mesmo dizendo "o D-us Santo" nesses dias, cumpre a obrigação
Bavli · 12b
וְרַבִּי אֶלְעָזָר אָמַר אֲפִילּוּ אָמַר ״הָאֵל הַקָּדוֹשׁ״ — יָצָא. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּגְבַּה ה׳ צְבָאוֹת בַּמִּשְׁפָּט וְהָאֵל הַקָּדוֹשׁ נִקְדָּשׁ בִּצְדָקָה״. אֵימָתַי ״וַיִּגְבַּה ה׳ צְבָאוֹת בַּמִּשְׁפָּט״ — אֵלּוּ עֲשָׂרָה יָמִים שֶׁמֵּרֹאשׁ הַשָּׁנָה וְעַד יוֹם הַכִּפּוּרִים, וְקָאָמַר ״הָאֵל הַקָּדוֹשׁ״.

E Rabi Elazar disse: mesmo que tenha dito "o D-us Santo" (nesses dias) — cumpriu sua obrigação; pois está dito: "E se elevou o Eterno dos Exércitos no juízo, e o D-us Santo se santificou na justiça" (Isaías 5:16). Quando (ocorre) "E se elevou o Eterno dos Exércitos no juízo"? Estes são os dez dias entre Rosh HaShaná e Yom Kipur; e (o versículo) diz "o D-us Santo".

Nota

Rabi Elazar discorda em parte: embora concorde que o ideal seja dizer "o Rei Santo" nos Dez Dias, sustenta que quem disser a fórmula habitual "o D-us Santo" ainda assim cumpre sua obrigação — trazendo prova do próprio versículo de Isaías 5:16, que aplica precisamente a expressão "o D-us Santo" ao período em que "o Eterno dos Exércitos Se eleva no juízo", identificado com os Dez Dias de Penitência.

04Qual é a conclusão sobre isso?
Bavli · 12b
מַאי הֲוָה עֲלַהּ?

Qual foi a conclusão sobre isso?

Nota

A Guemará pergunta qual é a halachá final entre as duas posições — a de Rav, que exige a fórmula "o Rei Santo" nos Dez Dias, e a de Rabi Elazar, que aceita também a fórmula habitual.

05Rav Yossef mantém a fórmula habitual; Rabá exige a mudança, e a lei segue Rabá
Bavli · 12b
אָמַר רַב יוֹסֵף: ״הָאֵל הַקָּדוֹשׁ״ וּ״מֶלֶךְ אוֹהֵב צְדָקָה וּמִשְׁפָּט״. רַבָּה אָמַר: ״הַמֶּלֶךְ הַקָּדוֹשׁ״ וְ״הַמֶּלֶךְ הַמִּשְׁפָּט״. וְהִלְכְתָא כְּרַבָּה.

Disse Rav Yossef: "o D-us Santo" e "Rei que ama justiça e juízo". Rabá disse: "o Rei Santo" e "o Rei do Juízo". E a lei é como Rabá.

Nota

Dois amoraim posteriores discordam sobre a prática: Rav Yossef segue a posição de Rabi Elazar, mantendo a fórmula habitual mesmo nos Dez Dias; Rabá exige a mudança para "o Rei Santo" e "o Rei do Juízo", concordando com Rav. A Guemará conclui que a halachá segue Rabá — a fórmula deve ser alterada nesses dias.

Rezar por outro e envergonhar-se do pecado · לְבַקֵּשׁ רַחֲמִים

06Rabá bar Chinaná em nome de Rav: quem pode pedir misericórdia por outro e não pede é chamado pecador
Bavli · 12b
וְאָמַר רַבָּה בַּר חִינָּנָא סָבָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב: כֹּל שֶׁאֶפְשָׁר לוֹ לְבַקֵּשׁ רַחֲמִים עַל חֲבֵירוֹ וְאֵינוֹ מְבַקֵּשׁ — נִקְרָא ״חוֹטֵא״. שֶׁנֶּאֱמַר: ״גַּם אָנֹכִי חָלִילָה לִּי מֵחֲטֹא לַה׳ מֵחֲדֹל לְהִתְפַּלֵּל בַּעַדְכֶם״.

E disse Rabá bar Chinaná, o Ancião, em nome de Rav: todo aquele que pode pedir misericórdia por seu próximo e não pede — é chamado "pecador"; pois está dito: "Também eu, longe de mim pecar contra o Eterno, deixando de rezar por vós" (Shemuel I 12:23).

Nota

A Guemará traz mais um ensinamento de Rabá bar Chinaná em nome de Rav: negligenciar a oração por outra pessoa, quando se tem condições de fazê-lo, constitui em si um pecado — apoiado nas palavras de Shemuel, o profeta, que considerou que deixar de rezar pelo povo de Israel seria, para ele, um pecado contra D-us.

07Rava: se for um sábio, deve adoecer de preocupação por ele
Bavli · 12b
אָמַר רָבָא: אִם תַּלְמִיד חָכָם הוּא, צָרִיךְ שֶׁיַּחֲלֶה עַצְמוֹ עָלָיו.

Disse Rava: se ele for um sábio da Torá, é necessário que se faça adoecer por ele (de preocupação).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
ה"ג ואם תלמיד חכם הוא וצריך לרחמים צריך שיחלה עצמו עליו – אם ת"ח הוא זה שצריך לרחמים צריך שיחלה חבירו עצמו עליו:

Esta é a versão correta: "e se ele for um sábio da Torá e necessitar de misericórdia, é necessário que se faça adoecer por ele" — se este que necessita de misericórdia for um sábio, é necessário que seu companheiro se faça adoecer de preocupação por ele.

Nota

Rava intensifica o ensinamento anterior: quando a pessoa necessitada de misericórdia é um sábio da Torá, não basta rezar por ela de modo comum — é preciso envolver-se com tal intensidade emocional que a preocupação chegue a afetar a própria saúde de quem reza, como explica Rashi.

08De onde se prova isso? Do rei Davi: "Eu, em sua doença, minha veste..."
Bavli · 12b
מַאי טַעְמָא? אִילֵּימָא מִשּׁוּם דִּכְתִיב: ״וְאֵין חֹלֶה מִכֶּם עָלַי וְאֵין גּוֹלֶה אֶת אָזְנִי״ — דִּילְמָא מֶלֶךְ שָׁאנֵי. אֶלָּא מֵהָכָא: ״וַאֲנִי בַּחֲלוֹתָם לְבוּשִׁי וְגוֹ׳״.

Qual é o motivo? Se dizes que é porque está escrito: "e nenhum de vós adoece por mim, nem revela a meu ouvido" (Shemuel I 22:8) — talvez (o caso de) um rei seja diferente. Mas (a prova vem) daqui: "e eu, na doença deles, minha veste (era saco), etc." (Salmos 35:13).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
בחלותם – על דואג ואחיתופל הוא אומר שהיו ת"ח:

"Na doença deles" — refere-se a Doeg e Achitofel, que eram sábios da Torá.

Nota

A Guemará busca a fonte bíblica para a exigência de Rava. Uma primeira tentativa cita as palavras de Shaul, repreendendo seus servos por nenhum deles "adoecer" por ele — mas essa prova é rejeitada, pois um rei pode ser um caso excepcional, digno de maior preocupação. A prova correta vem do rei Davi, no Salmo 35, que descreve ter vestido saco e se afligido pela doença de seus adversários Doeg e Achitofel — que, apesar de tudo, eram sábios da Torá.

09Rabá bar Chinaná em nome de Rav: quem transgride e se envergonha tem todos os pecados perdoados
Bavli · 12b
וְאָמַר רַבָּה בַּר חִינָּנָא סָבָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב: כָּל הָעוֹשֶׂה דְּבַר עֲבֵירָה וּמִתְבַּיֵּישׁ בּוֹ — מוֹחֲלִין לוֹ עַל כָּל עֲוֹנוֹתָיו. שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְמַעַן תִּזְכְּרִי וָבֹשְׁתְּ וְלֹא יִהְיֶה לָּךְ עוֹד פִּתְחוֹן פֶּה מִפְּנֵי כְּלִמָּתֵךְ בְּכַפְּרִי לָךְ לְכָל אֲשֶׁר עָשִׂית נְאֻם ה׳ אֱלֹהִים״.

E disse Rabá bar Chinaná, o Ancião, em nome de Rav: todo aquele que comete uma transgressão e se envergonha dela — perdoam-lhe todos os seus pecados; pois está dito: "Para que te lembres e te envergonhes, e não tenhas mais abertura de boca por causa de tua vergonha, quando eu te perdoar por tudo o que fizeste, diz o Eterno D-us" (Ezequiel 16:63).

Nota

A Guemará traz mais um ensinamento de Rabá bar Chinaná em nome de Rav, agora sobre o valor da vergonha genuína após o pecado: quem se envergonha verdadeiramente de sua transgressão recebe o perdão de todos os seus pecados — não apenas daquele específico —, apoiado no versículo de Ezequiel que associa a vergonha ao perdão divino completo.

10Talvez isso se aplique só à coletividade; prova de Shaul, que se envergonhou por não ser respondido pelos Urim veTumim
Bavli · 12b
דִּילְמָא צִבּוּר שָׁאנֵי. אֶלָּא מֵהָכָא: ״וַיֹּאמֶר שְׁמוּאֵל אֶל שָׁאוּל לָמָּה הִרְגַּזְתַּנִי לְהַעֲלוֹת אֹתִי וַיֹּאמֶר שָׁאוּל צַר לִי מְאֹד וּפְלִשְׁתִּים נִלְחָמִים בִּי וַה׳ סָר מֵעָלַי וְלֹא עָנָנִי עוֹד גַּם בְּיַד הַנְּבִיאִים גַּם בַּחֲלֹמוֹת וָאֶקְרָאֶה לְךָ לְהוֹדִיעֵנִי מָה אֶעֱשֶׂה״. וְאִילּוּ ״אוּרִים וְתֻמִּים״ לָא קָאָמַר.

Talvez a coletividade seja diferente (do indivíduo). Mas (a prova vem) daqui: "E disse Shemuel a Shaul: por que me perturbaste, fazendo-me subir? E disse Shaul: estou muito angustiado, e os filisteus guerreiam contra mim, e D-us se afastou de mim e não mais me responde, nem por meio dos profetas, nem por sonhos; e te chamei para que me faças saber o que devo fazer" (Shemuel I 28:15). E, no entanto, "Urim veTumim" ele não mencionou.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
גם בחלומות גם בנביאים – ולא א"ל גם באורים לפי שנתבייש ממנו שלא יאמר לו אתה גרמת לעצמך שלא נענית באורים ותומים לפי שהרגת את הכהנים:

"Nem por sonhos, nem pelos profetas" — e não lhe disse "nem pelos Urim", pois se envergonhava diante dele (de Shemuel), para que este não lhe dissesse: "tu mesmo causaste que não fosses respondido pelos Urim veTumim, por teres matado os sacerdotes".

Nota

A Guemará busca uma prova mais forte, pois o versículo anterior poderia se referir a Israel como coletividade, e não a um indivíduo. Ela encontra a prova no episódio de Shaul consultando o espírito de Shemuel: Shaul menciona ter sido ignorado pelos profetas e pelos sonhos, mas silencia deliberadamente sobre os Urim veTumim, o meio de consulta específico dos sacerdotes — precisamente por vergonha, como explica Rashi, de que Shemuel lhe recordasse ser ele mesmo o culpado por essa falta de resposta.

11Por que Shaul não era respondido pelos Urim: por ter matado os habitantes de Nov, cidade dos sacerdotes
Bavli · 12b
מִשּׁוּם דְּקַטְלֵיהּ לְנוֹב עִיר הַכֹּהֲנִים.

Porque ele matou (os habitantes de) Nov, a cidade dos sacerdotes.

Nota

A Guemará explica a causa do silêncio dos Urim veTumim para Shaul: ele havia ordenado a matança dos sacerdotes da cidade de Nov (relatada em Shemuel I 22), e por essa transgressão perdeu o acesso a essa forma de comunicação divina — vergonha que ele próprio reconhecia, ao omitir a menção dos Urim diante de Shemuel.

12De onde se sabe que Shaul foi perdoado pelo Céu? Do versículo "amanhã tu e teus filhos estareis comigo"
Bavli · 12b
וּמִנַּיִן דְּאַחִילוּ לֵיהּ מִן שְׁמַיָּא — שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר שְׁמוּאֵל אֶל שָׁאוּל (מָחָר) [וּמָחָר] אַתָּה וּבָנֶיךָ עִמִּי״, וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן ״עִמִּי״ — בִּמְחִיצָתִי.

E de onde (se sabe) que lhe perdoaram do Céu? Pois está dito: "E disse Shemuel a Shaul: amanhã, tu e teus filhos (estareis) comigo" (Shemuel I 28:19); e disse Rabi Yochanan: "comigo" — em minha divisão (no Mundo Vindouro).

Nota

A Guemará conclui a demonstração: já que a vergonha de Shaul lhe rendeu perdão total, ele haveria de compartilhar do destino final de Shemuel, o justo. Isso se prova pelo próprio versículo em que Shemuel anuncia a Shaul sua morte iminente, dizendo que estará "comigo" — interpretado por Rabi Yochanan como "na minha própria divisão" no Mundo Vindouro, sinal claro de que Shaul foi perdoado e alcançaria o mesmo lugar espiritual elevado de Shemuel.

13Os sábios trazem prova diferente: a voz celestial que chamou Shaul de "escolhido do Eterno"
Bavli · 12b
וְרַבָּנַן אָמְרִי, מֵהָכָא: ״וְהוֹקַעְנוּם לַה׳ בְּגִבְעַת שָׁאוּל בְּחִיר ה׳״. יָצְתָה בַּת קוֹל וְאָמְרָה ״בְּחִיר ה׳״.

E os sábios dizem, (a prova vem) daqui: "e os enforcaremos para o Eterno em Guiva de Shaul, o escolhido do Eterno" (Shemuel II 21:6). Saiu uma voz celestial (Bat Kol) e disse: "escolhido do Eterno".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
ורבנן – סברי מהכא שמעינן דאחילו לו: והוקענום – גבעונים אמרו לדוד בסוף ימיו שהיה רעב ג' שנים וישאל דוד בה' ויאמר ה' אל שאול ואל בית הדמים על אשר המית את הגבעונים שהרג את הכהנים שהיו מספיקים להם מים ומזון:

"E os sábios" — entendem que daqui ouvimos que lhe perdoaram. "E os enforcaremos" — os guibonitas disseram a Davi, no final de seus dias, quando houve fome de três anos, e Davi consultou o Eterno, e o Eterno disse: "por causa de Shaul e da casa sanguinária", por ter matado os guibonitas, que lhes forneciam água e sustento.

Nota

Os sábios apresentam uma prova alternativa: quando os guibonitas pedem que sete descendentes de Shaul sejam enforcados como expiação, referem-se a ele, mesmo após sua morte violenta e seu pecado, como "o escolhido do Eterno" — título que, segundo a Guemará, só poderia ter sido pronunciado por uma voz celestial, confirmando que Shaul havia sido perdoado e permanecia, aos olhos do Céu, o legítimo ungido de D-us.

Por que a parashá de Balak não entrou no Shemá · פָּרָשַׁת בָּלָק

14Rabi Avahu ben Zutarti em nome de Rabi Yehudá bar Zevidá: quiseram fixar a parashá de Balak no Shemá, mas não o fizeram por sobrecarregar a comunidade
Bavli · 12b
אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ בֶּן זוּטַרְתִּי אָמַר רַבִּי יְהוּדָה בַּר זְבִידָא: בִּקְּשׁוּ לִקְבּוֹעַ פָּרָשַׁת בָּלָק בִּקְרִיאַת שְׁמַע, וּמִפְּנֵי מָה לֹא קְבָעוּהָ — מִשּׁוּם טוֹרַח צִבּוּר.

Disse Rabi Avahu ben Zutarti, disse Rabi Yehudá bar Zevidá: quiseram fixar a parashá de Balak na leitura do Shemá; e por que não a fixaram? Por causa do fardo (excessivo) sobre a comunidade.

Nota

A Guemará passa a um novo tema: por que a longa parashá de Balak (Bamidbar 22-24), que narra a história de Bilam, não foi incluída na leitura diária do Shemá, apesar de ter sido cogitada. A razão dada aqui é puramente prática — sua extensão sobrecarregaria demais a congregação, que já lê diariamente as três seções do Shemá.

15Por que quiseram fixá-la? Não pela menção do Êxodo, pois isso também ocorre em outras parashiot não fixadas
Bavli · 12b
מַאי טַעְמָא? אִילֵּימָא מִשּׁוּם דִּכְתִיב בָּהּ: ״אֵל מֹצִיאָם מִמִּצְרַיִם״ — לֵימָא פָּרָשַׁת רִבִּית וּפָרָשַׁת מִשְׁקָלוֹת דִּכְתִיב בָּהֶן יְצִיאַת מִצְרַיִם.

Qual é o motivo (de terem querido fixá-la)? Se dizes que é porque nela está escrito "D-us que os tirou do Egito" (Bamidbar 23:22) — então que se diga também a parashá do juro e a parashá dos pesos, nas quais também está escrito o Êxodo do Egito.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
פרשת רבית – אל תקח מאתו נשך ותרבית וגו' (ויקרא כ״ה:ל״ו) וסמיך ליה יציאת מצרים: ופרשת משקלות – אבני צדק וגו' (ויקרא י״ט:ל״ו) סיפיה דקרא אשר הוצאתי אתכם וגו':

"A parashá do juro" — "Não tomes dele juro nem lucro, etc." (Vayikrá 25:36), e a isso se segue (a menção d)o Êxodo do Egito. "E a parashá dos pesos" — "Pesos justos, etc." (Vayikrá 19:36), cujo final do versículo é "que vos tirei (da terra do Egito)".

Nota

A Guemará questiona qual seria, afinal, o mérito da parashá de Balak que motivou a proposta de incluí-la no Shemá. Uma primeira hipótese — que ela menciona o Êxodo do Egito — é refutada: se esse fosse o critério, também as leis sobre o juro (Vayikrá 25) e sobre pesos justos (Vayikrá 19), que igualmente mencionam o Êxodo, deveriam ter sido incluídas, e não foram.

16Rabi Yossei bar Avin: o motivo é o versículo "agachou-se, deitou-se como leão"
Bavli · 12b
אֶלָּא אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בַּר אָבִין, מִשּׁוּם דִּכְתִיב בָּהּ הַאי קְרָא: ״כָּרַע שָׁכַב כַּאֲרִי וּכְלָבִיא מִי יְקִימֶנּוּ״.

Mas disse Rabi Yossei bar Avin: (o motivo de terem querido fixá-la é) porque nela está escrito este versículo: "agachou-se, deitou-se como leão, e como leoa — quem o levantará?" (Bamidbar 24:9).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
כרע שכב – דדמי לבשכבך ובקומך שהקדוש ב"ה שומרנו בשכבנו ובקומנו לשכב שלוים ושקטים כארי וכלביא:

"Agachou-se, deitou-se" — pois se assemelha a "ao deitares e ao levantares" (Devarim 6:7), (indicando) que o Santo, Bendito Seja, nos guarda ao deitarmos e ao nos levantarmos, para deitarmos tranquilos e sossegados como leão e leoa.

Nota

Rabi Yossei bar Avin oferece a razão verdadeira: o mérito da parashá de Balak está no versículo de Bilam que descreve Israel deitando-se com segurança, como um leão — imagem que ecoa a expressão "ao deitares e ao levantares" do próprio Shemá, sugerindo que D-us protege Israel tanto ao dormir quanto ao acordar, tema central da leitura noturna e matinal do Shemá.

17Objeção: então que se dissesse apenas esse versículo, e nada mais
Bavli · 12b
וְלֵימָא הַאי פְּסוּקָא וְתוּ לָא.

Então que se dissesse esse versículo, e nada mais.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
ולימא האי פסוקא – וליכא טורח צבור:

"Então que se dissesse esse versículo" — e não haveria fardo sobre a comunidade.

Nota

A Guemará objeta: se o mérito está apenas nesse único versículo, bastaria incluir só ele na leitura do Shemá, sem o fardo de toda a extensa parashá de Balak — o que resolveria o problema da sobrecarga mencionado anteriormente.

18Resposta: aprendeu-se por tradição que só se divide onde Moshé dividiu
Bavli · 12b
גְּמִירִי: כֹּל פָּרָשָׁה דְּפַסְקַהּ מֹשֶׁה רַבֵּינוּ — פָּסְקִינַן, דְּלָא פַּסְקַהּ מֹשֶׁה רַבֵּינוּ — לָא פָּסְקִינַן.

Aprendeu-se por tradição: toda parashá que Moshé, nosso mestre, dividiu (separadamente) — nós (também) a dividimos; a que Moshé, nosso mestre, não dividiu — não a dividimos.

Nota

A Guemará responde com uma regra de transmissão tradicional: não é permitido extrair um único versículo do meio de uma parashá bíblica e lê-lo isoladamente; só se pode ler separadamente aquilo que já constitui uma unidade textual própria, delimitada por Moshé na própria Torá. Como o versículo do "leão" está no meio da parashá de Balak e não constitui, por si só, uma divisão independente, não se pode extraí-lo sozinho — daí a impossibilidade prática de incluir apenas esse trecho.

Por que a parashá de tzitzit entrou no Shemá · פָּרָשַׁת צִיצִית

19Por que fixaram a parashá de tzitzit?
Bavli · 12b
פָּרָשַׁת צִיצִית מִפְּנֵי מָה קְבָעוּהָ?

A parashá de tzitzit, por que motivo a fixaram (na leitura do Shemá)?

Nota

A Guemará passa a examinar a terceira seção do Shemá, a parashá de tzitzit (Bamidbar 15:37-41), questionando qual seria o mérito que justificou sua inclusão na leitura diária.

20Rabi Yehudá bar Chaviva: porque contém cinco elementos essenciais
Bavli · 12b
אָמַר רַבִּי יְהוּדָה בַּר חֲבִיבָא, מִפְּנֵי שֶׁיֵּשׁ בָּהּ חֲמִשָּׁה דְּבָרִים: מִצְוַת צִיצִית, יְצִיאַת מִצְרַיִם, עוֹל מִצְוֹת, וְדַעַת מִינִים, הִרְהוּר עֲבֵירָה, וְהִרְהוּר עֲבוֹדָה זָרָה.

Disse Rabi Yehudá bar Chaviva: porque nela há cinco coisas: o mandamento das tzitzit, o Êxodo do Egito, o jugo dos mandamentos, e (a rejeição d)a opinião dos hereges, o devaneio de transgressão, e o devaneio de idolatria.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
עול מצות – ועשיתם את כל מצותי:

"O jugo dos mandamentos" — (do versículo) "e cumprireis todos os Meus mandamentos" (Bamidbar 15:40).

Nota

Rabi Yehudá bar Chaviva responde: a parashá de tzitzit reúne cinco elementos essenciais em um único trecho — o próprio mandamento das franjas rituais, a lembrança do Êxodo do Egito, a aceitação do jugo dos mandamentos, e a rejeição de três desvios: a heresia, o devaneio de transgressão sexual, e o devaneio de idolatria — justificando plenamente sua inclusão diária.

21Três desses elementos são explícitos; de onde se aprendem os outros três?
Bavli · 12b
בִּשְׁלָמָא הָנֵי תְּלָת מְפָרְשָׁן. עוֹל מִצְוֹת, דִּכְתִיב: ״וּרְאִיתֶם אֹתוֹ וּזְכַרְתֶּם אֶת כָּל מִצְוֹת ה׳״. צִיצִית, דִּכְתִיב: ״וְעָשׂוּ לָהֶם צִיצִית וְגוֹ׳״. יְצִיאַת מִצְרַיִם, דִּכְתִיב: ״אֲשֶׁר הוֹצֵאתִי וְגוֹ׳״. אֶלָּא: דַּעַת מִינִים, הִרְהוּר עֲבֵירָה, וְהִרְהוּר עֲבוֹדָה זָרָה — מְנָלַן?

Está bem quanto a esses três, que são explícitos: o jugo dos mandamentos, pois está escrito: "e o vereis, e vos lembrareis de todos os mandamentos do Eterno" (Bamidbar 15:39); as tzitzit, pois está escrito: "e farão para si franjas, etc." (Bamidbar 15:38); o Êxodo do Egito, pois está escrito: "que vos tirei, etc." (Bamidbar 15:41). Mas a opinião dos hereges, o devaneio de transgressão, e o devaneio de idolatria — de onde os aprendemos?

Nota

A Guemará observa que três dos cinco elementos citados são explícitos no próprio texto bíblico da parashá; mas os outros três — a rejeição da heresia, e os devaneios de transgressão e de idolatria — não aparecem de forma óbvia, exigindo uma explicação mais elaborada.

22Baraita: "após vosso coração" é heresia; "após vossos olhos" é devaneio de transgressão; "vós que se prostituem" é devaneio de idolatria
Bavli · 12b
דְּתַנְיָא: ״אַחֲרֵי לְבַבְכֶם״ — זוֹ מִינוּת, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״אָמַר נָבָל בְּלִבּוֹ אֵין אֱלֹהִים״. ״אַחֲרֵי עֵינֵיכֶם״ — זֶה הִרְהוּר עֲבֵירָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר שִׁמְשׁוֹן אֶל אָבִיו אוֹתָהּ קַח לִי, כִּי הִיא יָשְׁרָה בְעֵינָי״. ״אַתֶּם זוֹנִים״ — זֶה הִרְהוּר עֲבוֹדָה זָרָה, וְכֵן הוּא אוֹמֵר ״וַיִּזְנוּ אַחֲרֵי הַבְּעָלִים״.

Pois ensinou-se numa baraita: "após vosso coração" (Bamidbar 15:39) — isto é a heresia; e assim ele diz: "disse o néscio em seu coração: não há D-us" (Salmos 14:1). "Após vossos olhos" — isto é o devaneio de transgressão, pois está dito: "e disse Shimshon a seu pai: toma-a para mim, pois ela é reta a meus olhos" (Shoftim 14:3). "Vós que se prostituem" — isto é o devaneio de idolatria, e assim ele diz: "e se prostituíram após os Baalim" (Shoftim 8:33).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 12b
מינות – אותם ההופכים טעמי התורה למדרש טעות ואליל: וכן הוא אומר אמר נבל בלבו אין אלהים – ואין לך נבל מן ההופך דברי אלהים חיים:

"Heresia" — aqueles que transformam os fundamentos da Torá em interpretação errônea e vazia. "E assim ele diz: disse o néscio em seu coração: não há D-us" — e não há maior néscio do que aquele que distorce as palavras do D-us vivo.

Nota

Uma baraita fornece a exegese que faltava, ligando cada expressão negativa do versículo "e não seguireis após vosso coração e após vossos olhos, após os quais vos prostituís" (Bamidbar 15:39) a um dos três desvios: "coração" corresponde à heresia — a negação intelectual de D-us, como no versículo sobre o néscio; "olhos" corresponde ao devaneio de transgressão sexual, como no caso de Shimshon; e "prostituir-se" corresponde ao devaneio de idolatria, como no episódio dos Baalim em Shoftim. Com isso, completam-se os cinco elementos que justificam a inclusão da parashá de tzitzit no Shemá diário.

Mishná: lembrar o Êxodo do Egito também à noite · מַזְכִּירִין יְצִיאַת מִצְרַיִם

23Mishná: menciona-se o Êxodo do Egito também à noite; Rabi Elazar ben Azaria só aceitou isso depois que Ben Zoma o expôs
Bavli · 12b — Mishná
מַתְנִי׳ מַזְכִּירִין יְצִיאַת מִצְרַיִם בַּלֵּילוֹת. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה: הֲרֵי אֲנִי כְּבֶן שִׁבְעִים שָׁנָה, וְלֹא זָכִיתִי שֶׁתֵּאָמֵר יְצִיאַת מִצְרַיִם בַּלֵּילוֹת, עַד שֶׁדְּרָשָׁהּ בֶּן זוֹמָא.

MISHNÁ. Menciona-se o Êxodo do Egito também à noite. Disse Rabi Elazar ben Azaria: eis que eu sou como um homem de setenta anos, e não obtive o mérito (de entender por que) se diz o Êxodo do Egito à noite, até que Ben Zoma o expôs.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 12b
מתני' מזכירין יציאת מצרים בלילות – פרשת ציצית בק"ש ואע"פ שאין לילה זמן ציצית דכתיב וראיתם אותו וזכרתם אומרים אותה בלילה מפני יציאת מצרים שבה: כבן שבעים שנה – כבר הייתי נראה זקן ולא זקן ממש שבאת עליו שיבה יום שהעבירו רבן גמליאל מנשיאותו ומינו רבי אלעזר בן עזריה נשיא כדאיתא לקמן בפרק תפלת השחר.

"MISHNÁ. Menciona-se o Êxodo do Egito também à noite" — (refere-se à leitura d)a parashá de tzitzit no Shemá; e ainda que a noite não seja o horário (do mandamento) das tzitzit, pois está escrito "e o vereis" (que exclui a noite), diz-se essa parashá à noite por causa da menção do Êxodo do Egito que ela contém. "Como um homem de setenta anos" — eu já parecia idoso, e não idoso de fato, pois (os cabelos) brancos vieram sobre ele no dia em que destituíram Rabán Gamliel de seu cargo de Nasi e nomearam Rabi Elazar ben Azaria como Nasi, como se relata adiante, no capítulo "Tefilat HaShachar".

Nota

Inicia-se aqui uma nova Mishná, uma das mais célebres de todo o Talmud — citada até hoje na Hagadá de Pessach. Ela estabelece que a menção do Êxodo do Egito, contida na terceira seção do Shemá (a parashá de tzitzit), deve ser feita também à noite, apesar de o próprio mandamento das tzitzit não se aplicar durante a noite, como explica Rashi. Rabi Elazar ben Azaria relata, em tom pessoal, que apesar de sua idade e experiência, só compreendeu plenamente o fundamento dessa prática quando Ben Zoma a expôs com sua interpretação.

24Ben Zoma: "todos os dias de tua vida" inclui as noites
Bavli · 12b — Mishná
שֶׁנֶּאֱמַר ״לְמַעַן תִּזְכֹּר אֶת יוֹם צֵאתְךָ מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם כֹּל יְמֵי חַיֶּיךָ״. ״יְמֵי חַיֶּיךָ״ — הַיָּמִים, ״כֹּל יְמֵי חַיֶּיךָ״ — הַלֵּילוֹת.

Pois está dito: "para que te lembres do dia em que saíste da terra do Egito, todos os dias de tua vida" (Devarim 16:3). "Os dias de tua vida" — (referem-se aos) dias; "todos os dias de tua vida" — (inclui) as noites.

Nota

A Mishná apresenta a exegese de Ben Zoma: o versículo de Devarim poderia ter dito simplesmente "os dias de tua vida", o que se referiria apenas aos dias; a palavra adicional "todos" (kol) vem, segundo ele, para incluir também as noites — fundamento textual para a obrigação de mencionar o Êxodo do Egito na leitura noturna do Shemá.

25Os sábios: "os dias de tua vida" é este mundo; "todos" inclui os dias do Messias
Bavli · 12b — Mishná
וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: ״יְמֵי חַיֶּיךָ״ — הָעוֹלָם הַזֶּה. ״כֹּל״ — לְהָבִיא לִימוֹת הַמָּשִׁיחַ.

E os sábios dizem: "os dias de tua vida" — (referem-se a) este mundo; "todos" — vem incluir os dias do Messias.

Nota

A Mishná registra a posição divergente dos sábios: para eles, a expressão básica "os dias de tua vida" já abrange tanto os dias quanto as noites deste mundo (não havendo, portanto, necessidade bíblica específica de mencionar o Êxodo à noite); a palavra "todos" serve, isto sim, para incluir os dias do Messias — ou seja, ensinar que mesmo na era messiânica continuará sendo obrigatório recordar o Êxodo do Egito.

26Guemará: baraita traz a continuação — Ben Zoma questiona os sábios com o versículo sobre os "dias que vêm"
Bavli · 12b — Guemará
גְּמָ׳ תַּנְיָא, אָמַר לָהֶם בֶּן זוֹמָא לַחֲכָמִים: וְכִי מַזְכִּירִין יְצִיאַת מִצְרַיִם לִימוֹת הַמָּשִׁיחַ! וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר ״הִנֵּה יָמִים בָּאִים נְאֻם ה׳ וְלֹא יֹאמְרוּ עוֹד חַי ה׳ אֲשֶׁר הֶעֱלָה אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם כִּי אִם חַי ה׳ אֲשֶׁר הֶעֱלָה וַאֲשֶׁר הֵבִיא אֶת זֶרַע בֵּית יִשְׂרָאֵל מֵאֶרֶץ צָפוֹנָה וּמִכֹּל הָאֲרָצוֹת אֲשֶׁר הִדַּחְתִּים שָׁם״.

GUEMARÁ. Ensinou-se numa baraita: disse-lhes Ben Zoma aos sábios: acaso se menciona o Êxodo do Egito nos dias do Messias? Não foi já dito: "eis que vêm dias, diz o Eterno, em que não se dirá mais: vive o Eterno, que fez subir os filhos de Israel da terra do Egito; mas sim: vive o Eterno, que fez subir e que trouxe a semente da casa de Israel da terra do norte, e de todas as terras para onde os havia dispersado" (Yirmeiahu 23:7-8)?

Nota

A Guemará traz a continuação da disputa, transmitida numa baraita: Ben Zoma desafia diretamente os sábios com um versículo de Yirmeiahu que parece prever que, nos dias do Messias, a menção do Êxodo do Egito será substituída pela menção da futura reunião dos exilados — sugerindo que a lembrança do Egito será, então, deixada de lado.

27Resposta dos sábios: o Êxodo não será desarraigado, mas se tornará secundário diante da redenção final
Bavli · 12b — Guemará
אָמְרוּ לוֹ: לֹא שֶׁתֵּעָקֵר יְצִיאַת מִצְרַיִם מִמְּקוֹמָהּ, אֶלָּא שֶׁתְּהֵא שִׁעְבּוּד מַלְכֻיוֹת עִיקָּר, וִיצִיאַת מִצְרַיִם טָפֵל לוֹ.

Disseram-lhe: não (significa) que o Êxodo do Egito será desarraigado de seu lugar, mas sim que a sujeição aos reinos (estrangeiros, da qual seremos libertados na redenção final) será o principal, e o Êxodo do Egito será secundário a ele.

Nota

Os sábios respondem à objeção de Ben Zoma: o versículo de Yirmeiahu não anula a menção do Êxodo do Egito, mas apenas reordena as prioridades — na era messiânica, a libertação da sujeição aos impérios estrangeiros passará a ser o evento central e mais celebrado, enquanto o Êxodo do Egito, sem deixar de ser mencionado, ocupará um lugar secundário diante dessa redenção final, ainda maior.

28Paralelo: a mudança do nome de Yaakov para Yisrael
Bavli · 12b — Guemará
כַּיּוֹצֵא בּוֹ אַתָּה אוֹמֵר: ״לֹא יִקָּרֵא שִׁמְךָ עוֹד יַעֲקֹב כִּי אִם יִשְׂרָאֵל יִהְיֶה שְׁמֶךָ״,

De modo semelhante a isso, tu dizes: "não se dirá mais teu nome Yaakov, mas sim Yisrael será teu nome" (Bereshit 35:10),

Nota

Os sábios trazem um paralelo bíblico para sustentar sua leitura: assim como o versículo sobre a mudança do nome de Yaakov para Yisrael não elimina o nome "Yaakov" (que continua a ser usado ao longo de toda a Torá), mas apenas estabelece "Yisrael" como o nome principal, também a expressão "não se dirá mais" do versículo de Yirmeiahu não elimina a menção do Êxodo do Egito, apenas a coloca em segundo plano. O argumento — e a citação do versículo de Bereshit — prossegue no início do daf 13a.