Talmud Bavli · Massechet Berachot · Fim do Perek Alef e início do Perek Bet
כִּי דֶרֶךְ

A mudança de nome de Yaakov e a de Avram e Sarai, o fim do Perek Bên Zomá, e a Mishná do Perek Haiá Korê sobre interromper a leitura da Torá

Berachot 13a

O daf abre concluindo o paralelo entre a mudança de nome de Yaakov para Yisrael e a substituição, na era messiânica, da menção do Êxodo pela menção da redenção final — trazendo a prova de que o nome "Yaakov" nunca foi de fato abolido. Em seguida, a Guemará aplica o mesmo raciocínio às mudanças de nome de Avram para Avraham e de Sarai para Sará, discutindo se chamar Avraham de "Avram" viola uma ordem positiva ou uma proibição, e por que o caso de Sarai é diferente do de Yaakov. Com isso se encerra o Perek Bên Zomá. O daf então abre o terceiro capítulo de Berachot, "Haiá Korê", com sua Mishná sobre quem está lendo a Torá quando chega a hora da Keriat Shemá, e sobre quando é permitido interromper a leitura para saudar por respeito ou por temor; a Guemará começa a analisar essa Mishná, extraindo dela o princípio de que os mandamentos requerem intenção, e discutindo se o Shemá deve ser lido exatamente como está escrito ou pode ser dito em qualquer língua.

A mudança de nome de Yaakov para Yisrael · לֹא שֶׁיֵּעָקֵר יַעֲקֹב

01Não que "Yaakov" seja desarraigado, mas "Yisrael" é o principal; assim também "não recordareis as coisas passadas"
Bavli · 13a
לֹא שֶׁיֵּעָקֵר ״יַעֲקֹב״ מִמְּקוֹמוֹ, אֶלָּא ״יִשְׂרָאֵל״ עִיקָּר וְ״יַעֲקֹב״ טָפֵל לוֹ. וְכֵן הוּא אוֹמֵר ״אַל תִּזְכְּרוּ רִאשֹׁנוֹת וְקַדְמֹנִיּוֹת אַל תִּתְבֹּנָנוּ״: אַל תִּזְכְּרוּ רִאשֹׁנוֹת״ — זֶה שִׁעְבּוּד מַלְכֻיוֹת, ״וְקַדְמֹנִיּוֹת אַל תִּתְבֹּנָנוּ״ — זוֹ יְצִיאַת מִצְרַיִם.

Não que o (nome) "Yaakov" seja desarraigado de seu lugar, mas sim que "Yisrael" é o principal, e "Yaakov" é secundário a ele. E assim ele diz: "não vos lembreis das coisas passadas, e as antigas não considereis" (Yeshayahu 43:18): "não vos lembreis das coisas passadas" — isto é a sujeição aos reinos (estrangeiros); "e as antigas não considereis" — isto é o Êxodo do Egito.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
לא שיעקר יעקב ממקומו – שהרי מצינו שקראו הקב"ה יעקב אחר זאת ברדתו למצרים שנאמר ויאמר אלהים לישראל ויאמר יעקב יעקב ויאמר הנני (בראשית מו):

"Não que 'Yaakov' seja desarraigado de seu lugar" — pois encontramos que o Santo, Bendito Seja, o chamou de "Yaakov" depois disso, quando desceu ao Egito, como está dito: "e disse D-us a Yisrael... e disse: Yaakov, Yaakov; e ele disse: eis-me aqui" (Bereshit 46:2).

Nota

O daf abre concluindo o argumento iniciado no fim de 12b: a resposta dos sábios a Ben Zomá se completa aqui, trazendo a prova de que o nome "Yaakov" nunca deixou de ser usado — mesmo depois de D-us anunciar a mudança para "Yisrael", Ele mesmo voltou a chamá-lo de "Yaakov" ao descer ao Egito, como nota Rashi. Do mesmo modo, o versículo de Yeshayahu sobre "não recordar as coisas passadas" não elimina a memória do Êxodo, mas estabelece a libertação final da sujeição aos impérios como o evento principal a ser lembrado, ficando o Êxodo em segundo plano.

02"Eis que farei coisa nova, agora brotará": ensinou Rav Yossef, é a guerra de Gog e Magog
Bavli · 13a
״הִנְנִי עֹשֶׂה חֲדָשָׁה עַתָּה תִצְמָח״, תָּנֵי רַב יוֹסֵף: זוֹ מִלְחֶמֶת גּוֹג וּמָגוֹג.

"Eis que farei coisa nova, agora brotará" (Yeshayahu 43:19) — ensinou Rav Yossef: esta é a guerra de Gog e Magog.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
הנני עושה חדשה – בתר אל תזכרו ראשונות כתיב:

"Eis que farei coisa nova" — está escrito logo após "não vos lembreis das coisas passadas".

Nota

A Guemará prossegue no mesmo versículo de Yeshayahu, agora expondo sua continuação: a "coisa nova" que D-us fará, ainda maior do que a libertação da sujeição aos impérios já mencionada, é identificada por Rav Yossef com a guerra escatológica de Gog e Magog, evento culminante da redenção final.

03Parábola: o homem que escapou do lobo, do leão e da serpente — as últimas tribulações fazem esquecer as primeiras
Bavli · 13a
מָשָׁל לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה — לְאָדָם שֶׁהָיָה מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ וּפָגַע בּוֹ זְאֵב וְנִיצַּל מִמֶּנּוּ, וְהָיָה מְסַפֵּר וְהוֹלֵךְ מַעֲשֵׂה זְאֵב. פָּגַע בּוֹ אֲרִי וְנִיצַּל מִמֶּנּוּ, וְהָיָה מְסַפֵּר וְהוֹלֵךְ מַעֲשֵׂה אֲרִי. פָּגַע בּוֹ נָחָשׁ וְנִיצַּל מִמֶּנּוּ, שָׁכַח מַעֲשֵׂה שְׁנֵיהֶם, וְהָיָה מְסַפֵּר וְהוֹלֵךְ מַעֲשֵׂה נָחָשׁ. אַף כָּךְ יִשְׂרָאֵל — צָרוֹת אַחֲרוֹנוֹת מְשַׁכְּחוֹת אֶת הָרִאשׁוֹנוֹת.

A que se assemelha isto? A um homem que caminhava pelo caminho, e o encontrou um lobo, e escapou dele; e ele ia contando o episódio do lobo. Encontrou-o um leão, e escapou dele; e ele ia contando o episódio do leão. Encontrou-o uma serpente, e escapou dela; esqueceu-se dos dois episódios anteriores, e ia contando (apenas) o episódio da serpente. Assim também Yisrael: as últimas tribulações fazem esquecer as primeiras.

Nota

A Guemará ilustra o princípio com uma parábola vívida: cada perigo mais recente e mais intenso ofusca a lembrança dos anteriores na narrativa espontânea de quem os viveu. Da mesma forma, a redenção final — mais gloriosa e definitiva do que a saída do Egito — tornará esta última secundária na memória coletiva de Israel, sem no entanto apagá-la por completo.

As mudanças de nome de Avram e de Sarai · אַבְרָם הוּא אַבְרָהָם

04"Avram, ele é Avraham"
Bavli · 13a
״אַבְרָם הוּא אַבְרָהָם״:

"Avram, ele é Avraham" (Divrei HaYamim I 1:27):

Nota

A Guemará passa a examinar, pelo mesmo padrão exegético, outro caso bíblico de mudança de nome: o de Avram para Avraham. O versículo citado, de Divrei HaYamim, afirma explicitamente a identidade entre os dois nomes.

05No início, ele foi pai de Aram; no final, pai de todo o mundo
Bavli · 13a
בַּתְּחִלָּה נַעֲשָׂה אָב לַאֲרָם, וּלְבַסּוֹף נַעֲשָׂה אָב לְכָל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ.

No início, ele se tornou pai (apenas) de Aram; e no final, ele se tornou pai de todo o mundo inteiro.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
בתחלה אב לארם – לאנשי מדינתו שמארץ ארם היה שנאמר בעבר הנהר ישבו אבותיכם (יהושע כד) ואומר אל ארם נהרים אל עיר נחור (בראשית כד): אב לכל העולם – אב המון גוים (שם יז):

"No início, pai de Aram" — dos homens de sua terra natal, pois ele era da terra de Aram, como está dito: "além do rio habitaram vossos pais" (Yehoshua 24:2), e diz: "a Aram Naharaim, à cidade de Nachor" (Bereshit 24:10). "Pai de todo o mundo" — "pai de multidão de nações" (Bereshit 17:5).

Nota

A Guemará explica o sentido da dupla identidade "Avram, ele é Avraham": o nome original, "Avram", ligava-o apenas a seu povo de origem, a terra de Aram, como esclarece Rashi; já o novo nome, "Avraham", decorre da promessa de que ele se tornaria "pai de multidão de nações" — pai espiritual de toda a humanidade, através dos que a ele se convertessem ou nele cressem.

06"Sarai, ela é Sará"
Bavli · 13a
״שָׂרַי הִיא שָׂרָה״.

"Sarai, ela é Sará" (Divrei HaYamim, cf. Bereshit 17:15):

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
שרי – לשון יחיד משמע שרתי:

"Sarai" — no sentido gramatical, indica (o possessivo) "minha senhora" (sarati), (uma senhora) para um só povo.

Nota

A Guemará aplica o mesmo padrão exegético ao nome da esposa de Avraham: o nome "Sarai", segundo Rashi, tem sentido de "minha senhora", indicando domínio restrito a um único povo; o nome "Sará", sem o sufixo possessivo, indicará domínio universal, como se verá a seguir.

07No início, ela foi senhora de sua nação; no final, senhora de todo o mundo
Bavli · 13a
בַּתְּחִלָּה נַעֲשֵׂית שָׂרַי לְאוּמָּתָהּ, וּלְבַסּוֹף נַעֲשֵׂית שָׂרָה לְכָל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ.

No início, ela se tornou "Sarai" (senhora apenas) para sua nação; e no final, ela se tornou "Sará" (senhora) para todo o mundo inteiro.

Nota

Assim como Avram/Avraham, também Sarai/Sará passa de um domínio particular — sua própria nação — para um domínio universal, refletido na perda do sufixo possessivo "-ai" (meu/minha) em favor da forma absoluta "Sará".

08Bar Kapara: chamar Avraham de "Avram" viola um mandamento positivo; Rabi Eliezer: viola uma proibição
Bavli · 13a
תָּנֵי בַּר קַפָּרָא: כָּל הַקּוֹרֵא לְאַבְרָהָם ״אַבְרָם״ — עוֹבֵר בַּעֲשֵׂה. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה שִׁמְךָ אַבְרָהָם״. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: עוֹבֵר בְּלָאו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלֹא יִקָּרֵא עוֹד [אֶת] שִׁמְךָ אַבְרָם״.

Ensinou Bar Kapara: todo aquele que chama Avraham de "Avram" — transgride um mandamento positivo; pois está dito: "e será teu nome Avraham" (Bereshit 17:5). Rabi Eliezer diz: transgride uma proibição; pois está dito: "e não se chamará mais o teu nome Avram" (Bereshit 17:5).

Nota

A Guemará traz uma consequência normativa da mudança de nome de Avraham: para Bar Kapara, chamá-lo pelo antigo nome viola a ordem positiva de que seu nome "será Avraham"; para Rabi Eliezer, o mesmo versículo contém também uma proibição explícita — "não se chamará mais" — de modo que quem o chama de "Avram" transgride antes uma proibição do que deixa de cumprir um mandamento positivo.

09Então também quem chama Sará de "Sarai" seria o mesmo?
Bavli · 13a
אֶלָּא מֵעַתָּה הַקּוֹרֵא לְשָׂרָה ״שָׂרַי״ הָכִי נָמֵי?

Mas então, aquele que chama Sará de "Sarai" — seria também assim (transgressor)?

Nota

A Guemará testa se o mesmo princípio se aplicaria à mudança de nome de Sará, questionando se chamá-la pelo nome antigo constituiria igualmente uma transgressão.

10Resposta: ali D-us disse a Avraham que não a chamasse mais de "Sarai"
Bavli · 13a
הָתָם, קוּדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא אָמַר לְאַבְרָהָם: ״שָׂרַי אִשְׁתְּךָ לֹא תִקְרָא אֶת שְׁמָהּ שָׂרָי כִּי שָׂרָה שְׁמָהּ״.

Ali, o Santo, Bendito Seja, disse a Avraham: "Sarai, tua esposa, não chamarás o seu nome Sarai, pois Sará é o seu nome" (Bereshit 17:15).

Nota

A Guemará responde afirmativamente: o próprio versículo, dirigido diretamente a Avraham, contém a mesma estrutura de proibição explícita — "não chamarás o seu nome Sarai" — de modo que o mesmo princípio de Rabi Eliezer se aplica igualmente a Sará.

11Então também quem chama Yaakov de "Yaakov" seria o mesmo?!
Bavli · 13a
אֶלָּא מֵעַתָּה הַקּוֹרֵא לְיַעֲקֹב ״יַעֲקֹב״ הָכִי נָמֵי?!

Mas então, aquele que chama Yaakov de "Yaakov" — seria também assim (transgressor)?!

Nota

A Guemará estende a pergunta ao caso de Yaakov, discutido no início do daf: se o padrão for absoluto, também usar o nome antigo "Yaakov" — nunca formalmente abolido, mas relegado a secundário — deveria constituir transgressão.

12Ali é diferente, pois o próprio versículo voltou a usar "Yaakov"
Bavli · 13a
שָׁאנֵי הָתָם דַּהֲדַר אַהְדְּרֵיהּ קְרָא, דִּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים לְיִשְׂרָאֵל בְּמַרְאוֹת הַלַּיְלָה וַיֹּאמֶר יַעֲקֹב יַעֲקֹב״.

Ali é diferente, pois o próprio versículo voltou a usá-lo (o nome "Yaakov"); pois está dito: "e disse D-us a Yisrael, em visões da noite, e disse: Yaakov, Yaakov" (Bereshit 46:2).

Nota

A Guemará responde que o caso de Yaakov é qualitativamente diferente: enquanto os versículos sobre Avraham e Sará proíbem explicitamente o uso do nome antigo, no caso de Yaakov o próprio texto bíblico, após a mudança de nome, volta a chamá-lo de "Yaakov" — prova de que ali nunca houve proibição de usar o nome original, apenas a designação de "Yisrael" como principal.

13Objeção de Rabi Yossei bar Avin: "Tu és o Eterno D-us que escolheste a Avram"!
Bavli · 13a
מֵתִיב רַבִּי יוֹסֵי בַּר אָבִין, וְאִיתֵּימָא רַבִּי יוֹסֵי בַּר זְבִידָא: ״אַתָּה הוּא ה׳ הָאֱלֹהִים אֲשֶׁר בָּחַרְתָּ בְּאַבְרָם״!

Objetou Rabi Yossei bar Avin — e alguns dizem, Rabi Yossei bar Zevidá: "Tu és o Eterno D-us que escolheste Avram" (Nechemyá 9:7)!

Nota

É levantada uma objeção: o versículo de Nechemyá, ao louvar D-us, chama o patriarca de "Avram" mesmo depois da mudança de nome — o que pareceria contradizer o princípio de que usar o nome antigo constitui transgressão.

14Resposta: ali é um profeta narrando os louvores de D-us, relatando o que se passou desde o início
Bavli · 13a
אָמַר לֵיהּ הָתָם נָבִיא הוּא דְּקָא מְסַדַּר לְשִׁבְחֵיהּ דְּרַחֲמָנָא מַאי דַּהֲוָה מֵעִיקָּרָא.

Disse-lhe: ali é um profeta que está ordenando os louvores do Misericordioso, (narrando) o que havia sido desde o início.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
מסדר שבחיה – דמעיקרא אשר בחרת בו בהיות שמו אברם ושמת שמו אברהם:

"Ordenando os Seus louvores" — (narrando) que, no início, quando seu nome ainda era Avram, D-us o escolheu, e (depois) colocou seu nome como Avraham.

Nota

A Guemará resolve a objeção: o profeta Nechemyá, ao recontar a história de Avraham em tom de louvor, refere-se corretamente ao momento em que D-us o escolheu — quando ele ainda se chamava Avram, antes da mudança de nome —, sem que isso constitua uso indevido do nome antigo em uma referência presente. Com esta resposta, encerra-se o Perek Bên Zomá, o segundo capítulo de Berachot.

הדרן עלך מאימתי

Mishná: interromper a leitura da Torá para a Keriat Shemá · הָיָה קוֹרֵא בַּתּוֹרָה

15Mishná: quem está lendo a Torá quando chega o horário do Shemá — se dirigiu o coração, cumpriu a obrigação
Bavli · 13a — Mishná
מַתְנִי׳ הָיָה קוֹרֵא בַּתּוֹרָה וְהִגִּיעַ זְמַן הַמִּקְרָא, אִם כִּוֵּון לִבּוֹ — יָצָא.

MISHNÁ. Se alguém estava lendo na Torá, e chegou o horário da leitura (do Shemá) — se dirigiu o coração, cumpriu a obrigação.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 13a
היה קורא בתורה – פרשת ק"ש: והגיע זמן המקרא – זמן ק"ש:

"Se estava lendo na Torá" — a seção do Shemá (no rolo da Torá). "E chegou o horário da leitura" — o horário da Keriat Shemá.

Nota

Abre-se aqui o terceiro capítulo de Berachot, "Haiá Korê". A Mishná trata de quem, por acaso, já está lendo no rolo da Torá justamente a passagem do Shemá quando chega o horário fixado para sua recitação ritual: segundo Rashi, isso significa que ele está lendo a própria parashá do Shemá; se, ao passar por ela, dirigiu sua intenção para cumprir o mandamento (e não apenas estudar o texto), cumpre sua obrigação, sem precisar interromper e recomeçar formalmente.

16Entre as seções, interrompe-se por respeito e por temor; no meio, apenas por temor — palavras de Rabi Meir
Bavli · 13a — Mishná
בַּפְּרָקִים, שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַכָּבוֹד וּמֵשִׁיב. וּבְאֶמְצַע, שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַיִּרְאָה וּמֵשִׁיב, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר.

Entre as seções, pode-se saudar por respeito, e responder (a uma saudação); e no meio (de uma seção), pode-se saudar por temor, e responder — palavras de Rabi Meir.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 13a
בפרקים – בין ההפסקות ולקמן מפרש להו במתניתין בין פרשה ראשונה לשניה בין שניה לשמע כו': שואל מפני הכבוד – שואל בשלום אדם נכבד שראוי להקדים לו שלום: ומשיב – שלום אם הקדימו לו ובגמרא פריך כיון דשואל פשיטא דמשיב: ובאמצע – באמצע הברכה או הפרשה: מפני היראה – אדם שהוא ירא מפניו שלא יהרגהו אבל מפני הכבוד לא:

"Entre as seções" — entre as interrupções (naturais do Shemá); mais adiante a própria Mishná as especifica: entre a primeira bênção e a segunda, entre a segunda e o Shemá, etc. "Saúda por respeito" — saúda uma pessoa respeitável, a quem seria adequado saudar primeiro. "E responde" — a saudação, se o outro o saudou primeiro; e na Guemará se pergunta: já que pode saudar, por que dizer também que responde (não é óbvio)? "E no meio" — no meio de uma bênção ou de uma seção. "Por temor" — de uma pessoa a quem teme, para que não o mate; mas não por respeito.

Nota

A Mishná estabelece as regras de interrupção durante a Keriat Shemá segundo Rabi Meir: nas pausas naturais entre as seções, permite-se tanto iniciar uma saudação por respeito a alguém importante quanto responder a uma saudação recebida; mas no meio de uma seção ou bênção, só se permite interromper por temor de perigo real, nunca por mero respeito social.

17Rabi Yehudá discorda: no meio, apenas por temor pode saudar e por respeito pode responder; entre as seções, responde a todos
Bavli · 13a — Mishná
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בָּאֶמְצַע, שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַיִּרְאָה וּמֵשִׁיב מִפְּנֵי הַכָּבוֹד. וּבַפְּרָקִים, שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַכָּבוֹד וּמֵשִׁיב שָׁלוֹם לְכָל אָדָם.

Rabi Yehudá diz: no meio, pode-se saudar por temor, e responder por respeito; e entre as seções, pode-se saudar por respeito, e responder a saudação de paz a qualquer pessoa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 13a
ר"י – בגמרא מפרש פלוגתייהו:

"Rabi Yehudá" — na Guemará se explica em que consiste a divergência entre eles.

Nota

Rabi Yehudá discorda em parte de Rabi Meir: para ele, mesmo no meio de uma seção, além de saudar por temor, é permitido responder a uma saudação por mero respeito; e entre as seções, é permitido não apenas iniciar uma saudação por respeito, mas responder a saudação de paz de qualquer pessoa, sem distinção de status.

18Quais são as pausas entre as seções: entre as bênçãos, entre elas e o Shemá, e entre as demais seções da leitura
Bavli · 13a — Mishná
אֵלּוּ הֵן בֵּין הַפְּרָקִים: בֵּין בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה לַשְּׁנִיָּה, בֵּין שְׁנִיָּה לִ״שְׁמַע״, בֵּין ״שְׁמַע״ לִ״וְהָיָה אִם שָׁמוֹעַ״, בֵּין ״וְהָיָה אִם שָׁמוֹעַ״ לְ״וַיֹּאמֶר״, בֵּין ״וַיֹּאמֶר״ לֶ״אֱמֶת וְיַצִּיב״.

Estas são as (pausas) entre as seções: entre a primeira bênção e a segunda; entre a segunda e o "Shemá"; entre o "Shemá" e "Vehayá Im Shamoa"; entre "Vehayá Im Shamoa" e "Vayomer"; entre "Vayomer" e "Emet VeYatziv".

Nota

A Mishná enumera as cinco pausas naturais dentro da estrutura da Keriat Shemá e suas bênçãos circundantes, definindo os pontos exatos em que — segundo Rabi Meir — é permitido saudar por respeito e responder a saudações.

19Rabi Yehudá: entre "Vayomer" e "Emet VeYatziv" não se interrompe
Bavli · 13a — Mishná
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בֵּין ״וַיֹּאמֶר״ לֶ״אֱמֶת וְיַצִּיב״ — לֹא יַפְסִיק.

Rabi Yehudá diz: entre "Vayomer" e "Emet VeYatziv" — não se interrompe.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 13a
בין ויאמר לאמת ויציב לא יפסיק – בגמרא (ד' יד) מפרש טעמייהו:

"Entre 'Vayomer' e 'Emet VeYatziv' não se interrompe" — na Guemará (folha 14) se explica o motivo de ambas as opiniões.

Nota

Rabi Yehudá restringe ainda mais a lista de Rabi Meir: a ligação entre a terceira seção do Shemá ("Vayomer") e a bênção seguinte ("Emet VeYatziv") é considerada tão estreita que nem sequer se conta como uma pausa legítima para interrupção.

20Rabi Yehoshua ben Korchá: por que o Shemá precede o Vehayá Im Shamoa, e este precede o Vayomer
Bavli · 13a — Mishná
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה: לָמָּה קָדְמָה פָּרָשַׁת ״שְׁמַע״ לְ״וְהָיָה אִם שָׁמוֹעַ״ — כְּדֵי שֶׁיְּקַבֵּל עָלָיו עוֹל מַלְכוּת שָׁמַיִם תְּחִלָּה, וְאַחַר כָּךְ מְקַבֵּל עָלָיו עוֹל מִצְוֹת. ״וְהָיָה אִם שָׁמוֹעַ״ לְ״וַיֹּאמֶר״ — שֶׁ״וְהָיָה אִם שָׁמוֹעַ״ נוֹהֵג בֵּין בַּיּוֹם וּבֵין בַּלַּיְלָה, ״וַיֹּאמֶר״ אֵינוֹ נוֹהֵג אֶלָּא בַּיּוֹם בִּלְבַד.

Disse Rabi Yehoshua ben Korchá: por que a parashá "Shemá" precede "Vehayá Im Shamoa"? Para que (a pessoa) aceite sobre si o jugo do Reino dos Céus primeiro, e depois aceite sobre si o jugo dos mandamentos. (E por que) "Vehayá Im Shamoa" (precede) "Vayomer"? Porque "Vehayá Im Shamoa" se aplica tanto de dia quanto de noite, (enquanto) "Vayomer" não se aplica senão de dia.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 13a
והיה אם שמוע נוהג בין ביום בין בלילה – דמשתעי בתלמוד תורה דכתיב (דברים י״א:י״ט) ולמדתם אותם את בניכם: ויאמר אינו נוהג אלא ביום – דמשתעי בציצית שאינה נוהגת אלא ביום דכתיב וראיתם אותו פרט לכסות לילה (שבת כז:):

"'Vehayá Im Shamoa' se aplica tanto de dia quanto de noite" — pois trata do estudo da Torá, como está escrito: "e as ensinareis a vossos filhos" (Devarim 11:19). "'Vayomer' não se aplica senão de dia" — pois trata das tzitzit, que não se aplicam senão de dia, como está escrito: "e o vereis" — o que exclui a vestimenta noturna.

Nota

A Mishná encerra com o ensinamento de Rabi Yehoshua ben Korchá sobre a lógica da ordem das três seções do Shemá: primeiro vem a aceitação do jugo do Reino dos Céus (unicidade de D-us), só depois o jugo dos mandamentos em geral; e, entre os dois blocos de mandamentos, primeiro o que se aplica sempre — dia e noite, o estudo da Torá — e só depois o que se aplica apenas de dia, o mandamento das tzitzit, como detalha Rashi.

Guemará: mandamentos requerem intenção · מִצְוֹת צְרִיכוֹת כַּוָּונָה

21Depreende-se disso que os mandamentos requerem intenção
Bavli · 13a — Guemará
גְּמָ׳ שְׁמַע מִינַּהּ מִצְוֹת צְרִיכוֹת כַּוָּונָה.

GUEMARÁ. Depreende-se disso que os mandamentos requerem intenção.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
גמ' ש"מ מצות צריכות כוונה – שיהא מתכוין לשם מצוה ותקשה לרבה דאמר במסכת ראש השנה (כח.) התוקע לשיר יצא:

"Depreende-se disso que os mandamentos requerem intenção" — que a pessoa deve ter a intenção específica de cumprir o mandamento; e isso constitui uma dificuldade para Rabá, que disse no tratado Rosh HaShaná (28a) que quem toca o shofar apenas para fazer música cumpre a obrigação.

Nota

A Guemará abre sua análise da Mishná extraindo dela um princípio halárico de grande alcance: já que a Mishná exige que quem estava lendo a Torá "dirija o coração" para que a leitura conte como cumprimento do Shemá, conclui-se que, em geral, os mandamentos exigem intenção consciente de cumpri-los — e não bastam por realizar-se de modo automático ou incidental, como nota Rashi ao apontar a tensão com outra sugia talmúdica.

22O que significa "dirigiu o coração"? Para ler; mas ele já estava lendo!
Bavli · 13a — Guemará
מַאי ״אִם כִּוֵּון לִבּוֹ״ — לִקְרוֹת. לִקְרוֹת?! וְהָא קָא קָרֵי!

O que significa "se dirigiu o coração"? Para ler. Para ler?! Mas ele já estava lendo!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
כוון לקרות – אבל לצאת ידי מצוה לא בעינן שיהא מתכוין אלא לקרות בתורה בעלמא: הא קא קרי – הא בקורא קא עסיק תנא ואתי דקתני היה קורא בתורה:

"Dirigiu (o coração) para ler" — mas não se exige que tenha a intenção de cumprir o mandamento (do Shemá), apenas de ler a Torá em geral. "Mas ele já estava lendo!" — pois o Tana está tratando justamente de quem está lendo, como ensina: "estava lendo na Torá".

Nota

A Guemará questiona o sentido exato da expressão "dirigiu o coração" na Mishná. Uma primeira leitura sugere que basta a intenção de estar lendo atentamente (e não apenas recitando de memória distraidamente) — o que, segundo Rashi, é uma exigência mais branda do que a intenção específica de cumprir o mandamento do Shemá. Mas essa leitura é questionada: se a pessoa já estava lendo a Torá, por definição já estava atenta ao texto, tornando a condição redundante.

23Trata-se de quem lê para corrigir o texto
Bavli · 13a — Guemará
בְּקוֹרֵא לְהַגִּיהַּ.

Trata-se de quem lê para corrigir (o rolo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
בקורא להגיה – את הספר אם יש בו טעות דאפילו לקריאה נמי לא מתכוין:

"Lê para corrigir" — o rolo, caso haja nele algum erro; pois nesse caso ele nem sequer tem a intenção de ler propriamente, (mas apenas de revisar o texto).

Nota

A Guemará resolve a dificuldade: a Mishná trata do caso específico de um sofer (escriba) ou revisor que está lendo o rolo apenas para verificar e corrigir possíveis erros de grafia — uma atividade em que, como explica Rashi, ele nem sequer tem a intenção de "ler" no sentido pleno, apenas de examinar as letras. É precisamente nesse caso que se exige que ele "dirija o coração" para efetivamente ler e compreender o conteúdo, a fim de que a passagem conte como cumprimento do Shemá.

24Baraita: a lei tanaítica é que o Shemá deve ser lido tal como está escrito — palavras de Rabi; os sábios dizem: em qualquer língua
Bavli · 13a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: קְרִיאַת שְׁמַע כִּכְתָבָהּ, דִּבְרֵי רַבִּי. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: בְּכָל לָשׁוֹן.

Ensinaram os sábios: a leitura do Shemá (deve ser) tal como está escrita — palavras de Rabi (Yehudá HaNassi). E os sábios dizem: em qualquer língua.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
ככתבה – בלשון הקדש:

"Tal como está escrita" — na língua sagrada (o hebraico).

Nota

A Guemará traz uma baraita sobre outro aspecto da leitura do Shemá: se ela deve necessariamente ser recitada em hebraico, "tal como está escrita" na Torá, segundo Rabi Yehudá HaNassi; ou se pode ser dita em qualquer língua que o indivíduo compreenda, segundo a opinião dos sábios.

25Qual o motivo de Rabi? O verso diz "e serão", isto é, tal como são
Bavli · 13a — Guemará
מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי? אָמַר קְרָא ״וְהָיוּ״ בַּהֲוָיָיתָן יְהוּ.

Qual é o motivo de Rabi? Disse o versículo: "e serão" (Devarim 6:6) — que permaneçam em seu estado original (o hebraico em que foram escritas).

Nota

A Guemará busca a fonte bíblica da opinião de Rabi: a palavra "vehayu" ("e serão"), no versículo que introduz o Shemá, é interpretada como exigindo que as palavras permaneçam em seu estado original — isto é, no hebraico em que foram dadas — e não sejam traduzidas.

26E qual o motivo dos sábios? O verso diz "ouve", em qualquer língua que ouças
Bavli · 13a — Guemará
וְרַבָּנַן, מַאי טַעְמַיְיהוּ? אָמַר קְרָא: ״שְׁמַע״ — בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁאַתָּה שׁוֹמֵעַ.

E os sábios, qual é o motivo deles? Disse o versículo: "ouve" (Shemá) — em qualquer língua que tu ouças (compreendas).

Nota

Os sábios fundamentam sua posição na própria palavra inicial, "Shemá" — "ouve" —, entendida como exigência de compreensão: o que importa é que a pessoa entenda o que recita, podendo fazê-lo em qualquer língua que domine.

27Mas para Rabi também está escrito "ouve"! Isso serve para "faze ouvir aos teus ouvidos o que sai de tua boca"
Bavli · 13a — Guemará
וּלְרַבִּי נָמֵי, הָא כְּתִיב ״שְׁמַע״! הַהוּא מִבְּעֵי לֵיהּ: הַשְׁמַע לְאָזְנֶיךָ מַה שֶּׁאַתָּה מוֹצִיא מִפִּיךָ.

Mas também para Rabi está escrito "ouve"! Aquele (verso) é necessário para (ensinar): "faze ouvir a teus ouvidos o que tu fazes sair de tua boca".

Nota

A Guemará questiona a posição de Rabi: se ele exige o hebraico, como explica a palavra "ouve", que os sábios usam para permitir qualquer língua? A resposta é que, para Rabi, "ouve" ensina uma exigência diferente: que a pessoa pronuncie as palavras em voz suficientemente audível a seus próprios ouvidos, e não apenas em pensamento.

28E para os sábios? Seguem quem disse que não precisa fazer ouvir aos próprios ouvidos e ainda assim cumpre a obrigação
Bavli · 13a — Guemará
וְרַבָּנַן? סָבְרִי לַהּ כְּמַאן דְּאָמַר לֹא הִשְׁמִיעַ לְאָזְנוֹ — יָצָא.

E os sábios? Seguem a opinião de quem disse: mesmo que não tenha feito ouvir a seus (próprios) ouvidos — cumpriu a obrigação.

Nota

A Guemará explica a posição dos sábios sobre essa mesma questão: eles se alinham à opinião de que a audibilidade da própria voz não é uma exigência absoluta para o cumprimento do Shemá, e por isso podem interpretar "ouve" apenas como uma questão de compreensão da língua, não como exigência de pronúncia audível.

29Mas para os sábios também está escrito "e serão"! Isso serve para não ler em ordem inversa
Bavli · 13a — Guemará
וּלְרַבָּנַן נָמֵי הָא כְּתִיב ״וְהָיוּ״? הַהוּא מִבְּעֵי לְהוּ שֶׁלֹּא יִקְרָא לְמַפְרֵעַ.

Mas também para os sábios está escrito "e serão"! Aquele (verso) é necessário para eles para (ensinar) que não se leia em ordem inversa.

Nota

A Guemará questiona agora a posição dos sábios: se eles permitem qualquer língua, como explicam a palavra "vehayu", que Rabi usa para exigir o hebraico? A resposta é que, para eles, essa palavra ensina uma regra diferente: que o Shemá deve ser lido na ordem correta das palavras, sem inversão.

30E de onde Rabi aprende que não se lê em ordem inversa? Da expressão "as palavras", "estas palavras"
Bavli · 13a — Guemará
וְרַבִּי, שֶׁלֹּא יִקְרָא לְמַפְרֵעַ מְנָא לֵיהּ? נָפְקָא לֵיהּ מִ״דְּבָרִים״ ״הַדְּבָרִים״. וְרַבָּנַן, ״דְּבָרִים״ ״הַדְּבָרִים״ — לָא דָּרְשִׁי.

E Rabi, de onde aprende que não se lê em ordem inversa? Ele o deriva de "as palavras" / "estas palavras" (a repetição no versículo). E os sábios não interpretam (essa repetição de) "as palavras" / "estas palavras".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
מדברים הדברים – דהוה ליה למכתב והיו דברים האלה (דברים ו׳:ו׳) למדרש שיקרא הדברים כסדרן ולא למפרע כגון ובשעריך ביתך מזוזות:

"De 'as palavras' / 'estas palavras'" — pois bastaria ter escrito "e serão estas palavras" (de modo mais direto); (a formulação usada) serve para ensinar que se leiam as palavras em sua ordem, e não invertidas, como (a inversão de) "em teus portões" e "em tua casa" nas mezuzot.

Nota

A Guemará mostra que Rabi tem uma fonte textual independente para a regra de não ler em ordem inversa — uma redundância aparente na formulação do versículo —, o que lhe permite reservar a palavra "vehayu" exclusivamente para exigir o hebraico. Os sábios, por não explorarem essa redundância, precisam de "vehayu" justamente para essa regra de ordem, como visto na unidade anterior.

31Isso quer dizer que, para Rabi, toda a Torá foi dita em qualquer língua? Pois, se fosse só em hebraico, por que precisaria de "vehayu"?
Bavli · 13a — Guemará
לְמֵימְרָא דְּסָבַר רַבִּי דְּכָל הַתּוֹרָה כּוּלָּהּ בְּכָל לָשׁוֹן נֶאֶמְרָה. דְּאִי סָלְקָא דַּעְתָּךְ בִּלְשׁוֹן הַקּוֹדֶשׁ נֶאֶמְרָה, ״וְהָיוּ״ דִּכְתַב רַחֲמָנָא לְמָה לִי?

Isso vem dizer que Rabi entende que toda a Torá foi dita em qualquer língua? Pois, se te ocorresse (pensar) que foi dita (exclusivamente) na língua sagrada, por que o Misericordioso precisaria escrever "e serão"?

Nota

A Guemará infere, da necessidade de um verso específico ("vehayu") para exigir o hebraico no caso do Shemá, que a regra geral — na visão de Rabi — deveria ser que toda a Torá pode ser lida (ou pelo menos recitada em outros contextos) em qualquer língua, sendo o Shemá uma exceção que exige menção explícita.

32Resposta: era necessário por causa da palavra "ouve", que sugeria o contrário
Bavli · 13a — Guemará
אִיצְטְרִיךְ מִשּׁוּם דִּכְתִיב ״שְׁמַע״.

Era necessário, por causa do que está escrito, "ouve".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 13a
לימא קסבר ר' וכו' – מדאיצטריך ליה קרא לק"ש שתהא ככתבה סבירא ליה בשאר כל התורה בכל לשון נאמרה לקרות:

"Digamos que Rabi entende, etc." — visto que ele precisa de um versículo específico para (exigir) que o Shemá seja (lido) tal como está escrito, ele entende que, quanto ao resto da Torá, ela pode ser lida em qualquer língua.

Nota

A Guemará responde que a necessidade de "vehayu" não decorre de uma regra geral sobre toda a Torá, mas especificamente da palavra "shemá" ("ouve") no mesmo versículo, que por si só poderia sugerir que basta compreender o conteúdo, em qualquer língua — daí a necessidade de "vehayu" para restringir especificamente o Shemá ao hebraico, sem que isso implique nada sobre o resto da Torá.

33Isso quer dizer que, para os sábios, toda a Torá foi dita apenas em hebraico? Pois, se fosse em qualquer língua, por que precisaria de "shemá"?
Bavli · 13a — Guemará
לְמֵימְרָא דְּסָבְרִי רַבָּנַן דְּכָל הַתּוֹרָה כּוּלָּהּ בִּלְשׁוֹן הַקּוֹדֶשׁ נֶאֶמְרָה. דְּאִי סָלְקָא דַּעְתָּךְ בְּכָל לָשׁוֹן נֶאֶמְרָה, ״שְׁמַע״ דִּכְתַב רַחֲמָנָא לְמָה לִי?!

Isso vem dizer que os sábios entendem que toda a Torá foi dita (exclusivamente) na língua sagrada? Pois, se te ocorresse (pensar) que foi dita em qualquer língua, por que o Misericordioso precisaria escrever "ouve"?!

Nota

Pelo raciocínio simétrico, a Guemará questiona a posição dos sábios: se eles precisam de um verso específico ("shemá") para permitir qualquer língua no Shemá, isso sugeriria que, na visão deles, a regra geral da Torá seria o hebraico exclusivo — o oposto da inferência anterior sobre Rabi.

34Resposta: era necessário por causa da palavra "vehayu", que sugeria o contrário
Bavli · 13a — Guemará
אִיצְטְרִיךְ מִשּׁוּם דִּכְתִיב ״וְהָיוּ״.

Era necessário, por causa do que está escrito, "e serão".

Nota

Pelo mesmo padrão de resposta, a Guemará esclarece que a necessidade de "shemá" para os sábios decorre apenas da presença de "vehayu" no mesmo versículo, que por si só sugeriria hebraico exclusivo — sem que isso implique qualquer posição geral sobre o resto da Torá.

35Baraita: "e serão" ensina a não ler em ordem inversa; "estas palavras" limita a exigência de intenção
Bavli · 13a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: ״וְהָיוּ״ שֶׁלֹּא יִקְרָא לְמַפְרֵעַ. ״הַדְּבָרִים … עַל לְבָבֶךָ״ — יָכוֹל תְּהֵא כָּל הַפָּרָשָׁה צְרִיכָה כַּוָּונָה? — תַּלְמוּד לוֹמַר ״הָאֵלֶּה״. עַד כָּאן צְרִיכָה כַּוָּונָה, מִכָּאן וְאֵילָךְ אֵין צְרִיכָה כַּוָּונָה. דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

Ensinaram os sábios: "e serão" — (ensina) que não se leia em ordem inversa. "As palavras... sobre teu coração" — poderia (eu pensar) que toda a seção requer intenção? Vem o ensinamento (para dizer): "estas". Até aqui requer intenção; daqui em diante não requer intenção — palavras de Rabi Eliezer.

Nota

A Guemará traz outra baraita, retomando o tema da intenção necessária para o cumprimento do Shemá: interpreta-se a expressão "estas palavras... sobre teu coração" (Devarim 6:6) como limitando a exigência de intenção consciente apenas ao primeiro versículo do Shemá ("Shemá Yisrael..."), não a toda a extensa seção que se segue — posição atribuída a Rabi Eliezer.

36Rabi Akiva lhe diz: eis que ele diz...
Bavli · 13a — Guemará
אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא: הֲרֵי הוּא אוֹמֵר:

Disse-lhe Rabi Akiva: eis que ele (o versículo) diz...

Nota

O daf se encerra em suspenso, no momento em que Rabi Akiva se prepara para responder a Rabi Eliezer com um novo versículo. O argumento completo — e a citação que Rabi Akiva está prestes a trazer — prossegue no início do daf 13b.