O daf abre concluindo o paralelo entre a mudança de nome de Yaakov para Yisrael e a substituição, na era messiânica, da menção do Êxodo pela menção da redenção final — trazendo a prova de que o nome "Yaakov" nunca foi de fato abolido. Em seguida, a Guemará aplica o mesmo raciocínio às mudanças de nome de Avram para Avraham e de Sarai para Sará, discutindo se chamar Avraham de "Avram" viola uma ordem positiva ou uma proibição, e por que o caso de Sarai é diferente do de Yaakov. Com isso se encerra o Perek Bên Zomá. O daf então abre o terceiro capítulo de Berachot, "Haiá Korê", com sua Mishná sobre quem está lendo a Torá quando chega a hora da Keriat Shemá, e sobre quando é permitido interromper a leitura para saudar por respeito ou por temor; a Guemará começa a analisar essa Mishná, extraindo dela o princípio de que os mandamentos requerem intenção, e discutindo se o Shemá deve ser lido exatamente como está escrito ou pode ser dito em qualquer língua.
Não que o (nome) "Yaakov" seja desarraigado de seu lugar, mas sim que "Yisrael" é o principal, e "Yaakov" é secundário a ele. E assim ele diz: "não vos lembreis das coisas passadas, e as antigas não considereis" (Yeshayahu 43:18): "não vos lembreis das coisas passadas" — isto é a sujeição aos reinos (estrangeiros); "e as antigas não considereis" — isto é o Êxodo do Egito.
"Não que 'Yaakov' seja desarraigado de seu lugar" — pois encontramos que o Santo, Bendito Seja, o chamou de "Yaakov" depois disso, quando desceu ao Egito, como está dito: "e disse D-us a Yisrael... e disse: Yaakov, Yaakov; e ele disse: eis-me aqui" (Bereshit 46:2).
O daf abre concluindo o argumento iniciado no fim de 12b: a resposta dos sábios a Ben Zomá se completa aqui, trazendo a prova de que o nome "Yaakov" nunca deixou de ser usado — mesmo depois de D-us anunciar a mudança para "Yisrael", Ele mesmo voltou a chamá-lo de "Yaakov" ao descer ao Egito, como nota Rashi. Do mesmo modo, o versículo de Yeshayahu sobre "não recordar as coisas passadas" não elimina a memória do Êxodo, mas estabelece a libertação final da sujeição aos impérios como o evento principal a ser lembrado, ficando o Êxodo em segundo plano.
"Eis que farei coisa nova, agora brotará" (Yeshayahu 43:19) — ensinou Rav Yossef: esta é a guerra de Gog e Magog.
"Eis que farei coisa nova" — está escrito logo após "não vos lembreis das coisas passadas".
A Guemará prossegue no mesmo versículo de Yeshayahu, agora expondo sua continuação: a "coisa nova" que D-us fará, ainda maior do que a libertação da sujeição aos impérios já mencionada, é identificada por Rav Yossef com a guerra escatológica de Gog e Magog, evento culminante da redenção final.
A que se assemelha isto? A um homem que caminhava pelo caminho, e o encontrou um lobo, e escapou dele; e ele ia contando o episódio do lobo. Encontrou-o um leão, e escapou dele; e ele ia contando o episódio do leão. Encontrou-o uma serpente, e escapou dela; esqueceu-se dos dois episódios anteriores, e ia contando (apenas) o episódio da serpente. Assim também Yisrael: as últimas tribulações fazem esquecer as primeiras.
A Guemará ilustra o princípio com uma parábola vívida: cada perigo mais recente e mais intenso ofusca a lembrança dos anteriores na narrativa espontânea de quem os viveu. Da mesma forma, a redenção final — mais gloriosa e definitiva do que a saída do Egito — tornará esta última secundária na memória coletiva de Israel, sem no entanto apagá-la por completo.
"Avram, ele é Avraham" (Divrei HaYamim I 1:27):
A Guemará passa a examinar, pelo mesmo padrão exegético, outro caso bíblico de mudança de nome: o de Avram para Avraham. O versículo citado, de Divrei HaYamim, afirma explicitamente a identidade entre os dois nomes.
No início, ele se tornou pai (apenas) de Aram; e no final, ele se tornou pai de todo o mundo inteiro.
"No início, pai de Aram" — dos homens de sua terra natal, pois ele era da terra de Aram, como está dito: "além do rio habitaram vossos pais" (Yehoshua 24:2), e diz: "a Aram Naharaim, à cidade de Nachor" (Bereshit 24:10). "Pai de todo o mundo" — "pai de multidão de nações" (Bereshit 17:5).
A Guemará explica o sentido da dupla identidade "Avram, ele é Avraham": o nome original, "Avram", ligava-o apenas a seu povo de origem, a terra de Aram, como esclarece Rashi; já o novo nome, "Avraham", decorre da promessa de que ele se tornaria "pai de multidão de nações" — pai espiritual de toda a humanidade, através dos que a ele se convertessem ou nele cressem.
"Sarai, ela é Sará" (Divrei HaYamim, cf. Bereshit 17:15):
"Sarai" — no sentido gramatical, indica (o possessivo) "minha senhora" (sarati), (uma senhora) para um só povo.
A Guemará aplica o mesmo padrão exegético ao nome da esposa de Avraham: o nome "Sarai", segundo Rashi, tem sentido de "minha senhora", indicando domínio restrito a um único povo; o nome "Sará", sem o sufixo possessivo, indicará domínio universal, como se verá a seguir.
No início, ela se tornou "Sarai" (senhora apenas) para sua nação; e no final, ela se tornou "Sará" (senhora) para todo o mundo inteiro.
Assim como Avram/Avraham, também Sarai/Sará passa de um domínio particular — sua própria nação — para um domínio universal, refletido na perda do sufixo possessivo "-ai" (meu/minha) em favor da forma absoluta "Sará".
Ensinou Bar Kapara: todo aquele que chama Avraham de "Avram" — transgride um mandamento positivo; pois está dito: "e será teu nome Avraham" (Bereshit 17:5). Rabi Eliezer diz: transgride uma proibição; pois está dito: "e não se chamará mais o teu nome Avram" (Bereshit 17:5).
A Guemará traz uma consequência normativa da mudança de nome de Avraham: para Bar Kapara, chamá-lo pelo antigo nome viola a ordem positiva de que seu nome "será Avraham"; para Rabi Eliezer, o mesmo versículo contém também uma proibição explícita — "não se chamará mais" — de modo que quem o chama de "Avram" transgride antes uma proibição do que deixa de cumprir um mandamento positivo.
Mas então, aquele que chama Sará de "Sarai" — seria também assim (transgressor)?
A Guemará testa se o mesmo princípio se aplicaria à mudança de nome de Sará, questionando se chamá-la pelo nome antigo constituiria igualmente uma transgressão.
Ali, o Santo, Bendito Seja, disse a Avraham: "Sarai, tua esposa, não chamarás o seu nome Sarai, pois Sará é o seu nome" (Bereshit 17:15).
A Guemará responde afirmativamente: o próprio versículo, dirigido diretamente a Avraham, contém a mesma estrutura de proibição explícita — "não chamarás o seu nome Sarai" — de modo que o mesmo princípio de Rabi Eliezer se aplica igualmente a Sará.
Mas então, aquele que chama Yaakov de "Yaakov" — seria também assim (transgressor)?!
A Guemará estende a pergunta ao caso de Yaakov, discutido no início do daf: se o padrão for absoluto, também usar o nome antigo "Yaakov" — nunca formalmente abolido, mas relegado a secundário — deveria constituir transgressão.
Ali é diferente, pois o próprio versículo voltou a usá-lo (o nome "Yaakov"); pois está dito: "e disse D-us a Yisrael, em visões da noite, e disse: Yaakov, Yaakov" (Bereshit 46:2).
A Guemará responde que o caso de Yaakov é qualitativamente diferente: enquanto os versículos sobre Avraham e Sará proíbem explicitamente o uso do nome antigo, no caso de Yaakov o próprio texto bíblico, após a mudança de nome, volta a chamá-lo de "Yaakov" — prova de que ali nunca houve proibição de usar o nome original, apenas a designação de "Yisrael" como principal.
Objetou Rabi Yossei bar Avin — e alguns dizem, Rabi Yossei bar Zevidá: "Tu és o Eterno D-us que escolheste Avram" (Nechemyá 9:7)!
É levantada uma objeção: o versículo de Nechemyá, ao louvar D-us, chama o patriarca de "Avram" mesmo depois da mudança de nome — o que pareceria contradizer o princípio de que usar o nome antigo constitui transgressão.
Disse-lhe: ali é um profeta que está ordenando os louvores do Misericordioso, (narrando) o que havia sido desde o início.
"Ordenando os Seus louvores" — (narrando) que, no início, quando seu nome ainda era Avram, D-us o escolheu, e (depois) colocou seu nome como Avraham.
A Guemará resolve a objeção: o profeta Nechemyá, ao recontar a história de Avraham em tom de louvor, refere-se corretamente ao momento em que D-us o escolheu — quando ele ainda se chamava Avram, antes da mudança de nome —, sem que isso constitua uso indevido do nome antigo em uma referência presente. Com esta resposta, encerra-se o Perek Bên Zomá, o segundo capítulo de Berachot.
MISHNÁ. Se alguém estava lendo na Torá, e chegou o horário da leitura (do Shemá) — se dirigiu o coração, cumpriu a obrigação.
"Se estava lendo na Torá" — a seção do Shemá (no rolo da Torá). "E chegou o horário da leitura" — o horário da Keriat Shemá.
Abre-se aqui o terceiro capítulo de Berachot, "Haiá Korê". A Mishná trata de quem, por acaso, já está lendo no rolo da Torá justamente a passagem do Shemá quando chega o horário fixado para sua recitação ritual: segundo Rashi, isso significa que ele está lendo a própria parashá do Shemá; se, ao passar por ela, dirigiu sua intenção para cumprir o mandamento (e não apenas estudar o texto), cumpre sua obrigação, sem precisar interromper e recomeçar formalmente.
Entre as seções, pode-se saudar por respeito, e responder (a uma saudação); e no meio (de uma seção), pode-se saudar por temor, e responder — palavras de Rabi Meir.
"Entre as seções" — entre as interrupções (naturais do Shemá); mais adiante a própria Mishná as especifica: entre a primeira bênção e a segunda, entre a segunda e o Shemá, etc. "Saúda por respeito" — saúda uma pessoa respeitável, a quem seria adequado saudar primeiro. "E responde" — a saudação, se o outro o saudou primeiro; e na Guemará se pergunta: já que pode saudar, por que dizer também que responde (não é óbvio)? "E no meio" — no meio de uma bênção ou de uma seção. "Por temor" — de uma pessoa a quem teme, para que não o mate; mas não por respeito.
A Mishná estabelece as regras de interrupção durante a Keriat Shemá segundo Rabi Meir: nas pausas naturais entre as seções, permite-se tanto iniciar uma saudação por respeito a alguém importante quanto responder a uma saudação recebida; mas no meio de uma seção ou bênção, só se permite interromper por temor de perigo real, nunca por mero respeito social.
Rabi Yehudá diz: no meio, pode-se saudar por temor, e responder por respeito; e entre as seções, pode-se saudar por respeito, e responder a saudação de paz a qualquer pessoa.
"Rabi Yehudá" — na Guemará se explica em que consiste a divergência entre eles.
Rabi Yehudá discorda em parte de Rabi Meir: para ele, mesmo no meio de uma seção, além de saudar por temor, é permitido responder a uma saudação por mero respeito; e entre as seções, é permitido não apenas iniciar uma saudação por respeito, mas responder a saudação de paz de qualquer pessoa, sem distinção de status.
Estas são as (pausas) entre as seções: entre a primeira bênção e a segunda; entre a segunda e o "Shemá"; entre o "Shemá" e "Vehayá Im Shamoa"; entre "Vehayá Im Shamoa" e "Vayomer"; entre "Vayomer" e "Emet VeYatziv".
A Mishná enumera as cinco pausas naturais dentro da estrutura da Keriat Shemá e suas bênçãos circundantes, definindo os pontos exatos em que — segundo Rabi Meir — é permitido saudar por respeito e responder a saudações.
Rabi Yehudá diz: entre "Vayomer" e "Emet VeYatziv" — não se interrompe.
"Entre 'Vayomer' e 'Emet VeYatziv' não se interrompe" — na Guemará (folha 14) se explica o motivo de ambas as opiniões.
Rabi Yehudá restringe ainda mais a lista de Rabi Meir: a ligação entre a terceira seção do Shemá ("Vayomer") e a bênção seguinte ("Emet VeYatziv") é considerada tão estreita que nem sequer se conta como uma pausa legítima para interrupção.
Disse Rabi Yehoshua ben Korchá: por que a parashá "Shemá" precede "Vehayá Im Shamoa"? Para que (a pessoa) aceite sobre si o jugo do Reino dos Céus primeiro, e depois aceite sobre si o jugo dos mandamentos. (E por que) "Vehayá Im Shamoa" (precede) "Vayomer"? Porque "Vehayá Im Shamoa" se aplica tanto de dia quanto de noite, (enquanto) "Vayomer" não se aplica senão de dia.
"'Vehayá Im Shamoa' se aplica tanto de dia quanto de noite" — pois trata do estudo da Torá, como está escrito: "e as ensinareis a vossos filhos" (Devarim 11:19). "'Vayomer' não se aplica senão de dia" — pois trata das tzitzit, que não se aplicam senão de dia, como está escrito: "e o vereis" — o que exclui a vestimenta noturna.
A Mishná encerra com o ensinamento de Rabi Yehoshua ben Korchá sobre a lógica da ordem das três seções do Shemá: primeiro vem a aceitação do jugo do Reino dos Céus (unicidade de D-us), só depois o jugo dos mandamentos em geral; e, entre os dois blocos de mandamentos, primeiro o que se aplica sempre — dia e noite, o estudo da Torá — e só depois o que se aplica apenas de dia, o mandamento das tzitzit, como detalha Rashi.
GUEMARÁ. Depreende-se disso que os mandamentos requerem intenção.
"Depreende-se disso que os mandamentos requerem intenção" — que a pessoa deve ter a intenção específica de cumprir o mandamento; e isso constitui uma dificuldade para Rabá, que disse no tratado Rosh HaShaná (28a) que quem toca o shofar apenas para fazer música cumpre a obrigação.
A Guemará abre sua análise da Mishná extraindo dela um princípio halárico de grande alcance: já que a Mishná exige que quem estava lendo a Torá "dirija o coração" para que a leitura conte como cumprimento do Shemá, conclui-se que, em geral, os mandamentos exigem intenção consciente de cumpri-los — e não bastam por realizar-se de modo automático ou incidental, como nota Rashi ao apontar a tensão com outra sugia talmúdica.
O que significa "se dirigiu o coração"? Para ler. Para ler?! Mas ele já estava lendo!
"Dirigiu (o coração) para ler" — mas não se exige que tenha a intenção de cumprir o mandamento (do Shemá), apenas de ler a Torá em geral. "Mas ele já estava lendo!" — pois o Tana está tratando justamente de quem está lendo, como ensina: "estava lendo na Torá".
A Guemará questiona o sentido exato da expressão "dirigiu o coração" na Mishná. Uma primeira leitura sugere que basta a intenção de estar lendo atentamente (e não apenas recitando de memória distraidamente) — o que, segundo Rashi, é uma exigência mais branda do que a intenção específica de cumprir o mandamento do Shemá. Mas essa leitura é questionada: se a pessoa já estava lendo a Torá, por definição já estava atenta ao texto, tornando a condição redundante.
Trata-se de quem lê para corrigir (o rolo).
"Lê para corrigir" — o rolo, caso haja nele algum erro; pois nesse caso ele nem sequer tem a intenção de ler propriamente, (mas apenas de revisar o texto).
A Guemará resolve a dificuldade: a Mishná trata do caso específico de um sofer (escriba) ou revisor que está lendo o rolo apenas para verificar e corrigir possíveis erros de grafia — uma atividade em que, como explica Rashi, ele nem sequer tem a intenção de "ler" no sentido pleno, apenas de examinar as letras. É precisamente nesse caso que se exige que ele "dirija o coração" para efetivamente ler e compreender o conteúdo, a fim de que a passagem conte como cumprimento do Shemá.
Ensinaram os sábios: a leitura do Shemá (deve ser) tal como está escrita — palavras de Rabi (Yehudá HaNassi). E os sábios dizem: em qualquer língua.
"Tal como está escrita" — na língua sagrada (o hebraico).
A Guemará traz uma baraita sobre outro aspecto da leitura do Shemá: se ela deve necessariamente ser recitada em hebraico, "tal como está escrita" na Torá, segundo Rabi Yehudá HaNassi; ou se pode ser dita em qualquer língua que o indivíduo compreenda, segundo a opinião dos sábios.
Qual é o motivo de Rabi? Disse o versículo: "e serão" (Devarim 6:6) — que permaneçam em seu estado original (o hebraico em que foram escritas).
A Guemará busca a fonte bíblica da opinião de Rabi: a palavra "vehayu" ("e serão"), no versículo que introduz o Shemá, é interpretada como exigindo que as palavras permaneçam em seu estado original — isto é, no hebraico em que foram dadas — e não sejam traduzidas.
E os sábios, qual é o motivo deles? Disse o versículo: "ouve" (Shemá) — em qualquer língua que tu ouças (compreendas).
Os sábios fundamentam sua posição na própria palavra inicial, "Shemá" — "ouve" —, entendida como exigência de compreensão: o que importa é que a pessoa entenda o que recita, podendo fazê-lo em qualquer língua que domine.
Mas também para Rabi está escrito "ouve"! Aquele (verso) é necessário para (ensinar): "faze ouvir a teus ouvidos o que tu fazes sair de tua boca".
A Guemará questiona a posição de Rabi: se ele exige o hebraico, como explica a palavra "ouve", que os sábios usam para permitir qualquer língua? A resposta é que, para Rabi, "ouve" ensina uma exigência diferente: que a pessoa pronuncie as palavras em voz suficientemente audível a seus próprios ouvidos, e não apenas em pensamento.
E os sábios? Seguem a opinião de quem disse: mesmo que não tenha feito ouvir a seus (próprios) ouvidos — cumpriu a obrigação.
A Guemará explica a posição dos sábios sobre essa mesma questão: eles se alinham à opinião de que a audibilidade da própria voz não é uma exigência absoluta para o cumprimento do Shemá, e por isso podem interpretar "ouve" apenas como uma questão de compreensão da língua, não como exigência de pronúncia audível.
Mas também para os sábios está escrito "e serão"! Aquele (verso) é necessário para eles para (ensinar) que não se leia em ordem inversa.
A Guemará questiona agora a posição dos sábios: se eles permitem qualquer língua, como explicam a palavra "vehayu", que Rabi usa para exigir o hebraico? A resposta é que, para eles, essa palavra ensina uma regra diferente: que o Shemá deve ser lido na ordem correta das palavras, sem inversão.
E Rabi, de onde aprende que não se lê em ordem inversa? Ele o deriva de "as palavras" / "estas palavras" (a repetição no versículo). E os sábios não interpretam (essa repetição de) "as palavras" / "estas palavras".
"De 'as palavras' / 'estas palavras'" — pois bastaria ter escrito "e serão estas palavras" (de modo mais direto); (a formulação usada) serve para ensinar que se leiam as palavras em sua ordem, e não invertidas, como (a inversão de) "em teus portões" e "em tua casa" nas mezuzot.
A Guemará mostra que Rabi tem uma fonte textual independente para a regra de não ler em ordem inversa — uma redundância aparente na formulação do versículo —, o que lhe permite reservar a palavra "vehayu" exclusivamente para exigir o hebraico. Os sábios, por não explorarem essa redundância, precisam de "vehayu" justamente para essa regra de ordem, como visto na unidade anterior.
Isso vem dizer que Rabi entende que toda a Torá foi dita em qualquer língua? Pois, se te ocorresse (pensar) que foi dita (exclusivamente) na língua sagrada, por que o Misericordioso precisaria escrever "e serão"?
A Guemará infere, da necessidade de um verso específico ("vehayu") para exigir o hebraico no caso do Shemá, que a regra geral — na visão de Rabi — deveria ser que toda a Torá pode ser lida (ou pelo menos recitada em outros contextos) em qualquer língua, sendo o Shemá uma exceção que exige menção explícita.
Era necessário, por causa do que está escrito, "ouve".
"Digamos que Rabi entende, etc." — visto que ele precisa de um versículo específico para (exigir) que o Shemá seja (lido) tal como está escrito, ele entende que, quanto ao resto da Torá, ela pode ser lida em qualquer língua.
A Guemará responde que a necessidade de "vehayu" não decorre de uma regra geral sobre toda a Torá, mas especificamente da palavra "shemá" ("ouve") no mesmo versículo, que por si só poderia sugerir que basta compreender o conteúdo, em qualquer língua — daí a necessidade de "vehayu" para restringir especificamente o Shemá ao hebraico, sem que isso implique nada sobre o resto da Torá.
Isso vem dizer que os sábios entendem que toda a Torá foi dita (exclusivamente) na língua sagrada? Pois, se te ocorresse (pensar) que foi dita em qualquer língua, por que o Misericordioso precisaria escrever "ouve"?!
Pelo raciocínio simétrico, a Guemará questiona a posição dos sábios: se eles precisam de um verso específico ("shemá") para permitir qualquer língua no Shemá, isso sugeriria que, na visão deles, a regra geral da Torá seria o hebraico exclusivo — o oposto da inferência anterior sobre Rabi.
Era necessário, por causa do que está escrito, "e serão".
Pelo mesmo padrão de resposta, a Guemará esclarece que a necessidade de "shemá" para os sábios decorre apenas da presença de "vehayu" no mesmo versículo, que por si só sugeriria hebraico exclusivo — sem que isso implique qualquer posição geral sobre o resto da Torá.
Ensinaram os sábios: "e serão" — (ensina) que não se leia em ordem inversa. "As palavras... sobre teu coração" — poderia (eu pensar) que toda a seção requer intenção? Vem o ensinamento (para dizer): "estas". Até aqui requer intenção; daqui em diante não requer intenção — palavras de Rabi Eliezer.
A Guemará traz outra baraita, retomando o tema da intenção necessária para o cumprimento do Shemá: interpreta-se a expressão "estas palavras... sobre teu coração" (Devarim 6:6) como limitando a exigência de intenção consciente apenas ao primeiro versículo do Shemá ("Shemá Yisrael..."), não a toda a extensa seção que se segue — posição atribuída a Rabi Eliezer.
Disse-lhe Rabi Akiva: eis que ele (o versículo) diz...
O daf se encerra em suspenso, no momento em que Rabi Akiva se prepara para responder a Rabi Eliezer com um novo versículo. O argumento completo — e a citação que Rabi Akiva está prestes a trazer — prossegue no início do daf 13b.
O Talmud Yerushalmi, na Mishná 2:1 de Berachot, trata do mesmo tema central deste daf: quem está ocupado com outra leitura ou tarefa quando chega o horário da Keriat Shemá, e a exigência de intenção no cumprimento do mandamento.
Ver também no Talmud Yerushalmi →