Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Bet
בַּפְּרָקִים שׁוֹאֵל

A baraita completa sobre saudar entre e no meio das seções do Shemá, interromper no Halel e na Meguilá, provar comida em jejum, não saudar nem cuidar de afazeres antes de orar, dormir sem sonhos, e a razão de Rabi Yehudá para não interromper antes de "Emet veYatsiv"

Berachot 14a

O daf abre completando a baraita paralela à Mishná sobre saudações durante a Keriat Shemá, agora com a formulação plena de Rabi Meir e Rabi Yehudá. Seguem-se três perguntas práticas a Rabi Chiya e a Rabi Ami sobre interromper no Halel e na Meguilá e sobre provar comida em jejum, e depois um conjunto de ensinamentos de Rav, Shmuel, Rabi Zeirá e outros sobre a gravidade de saudar ou cuidar de negócios antes de orar, e sobre o significado de uma noite sem sonhos. O daf se encerra citando novamente a Mishná sobre os pontos "entre as seções" e trazendo, em nome de Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan, a decisão de que a lei segue Rabi Yehudá — não se interrompe entre "Elohechem" e a bênção "Emet veYatsiv" — e o início da razão dessa regra, que se completa no daf seguinte.

A baraita completa sobre saudar e responder · וּבַפְּרָקִים שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַכָּבוֹד

01Conclusão da reformulação: "e entre as seções, saúda-se por respeito e responde-se a saudação de paz a qualquer pessoa"
Bavli · 14a — Guemará
וּבַפְּרָקִים — שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַכָּבוֹד וּמֵשִׁיב שָׁלוֹם לְכׇל אָדָם.

"E entre as seções, saúda-se por respeito e responde-se a saudação de paz a qualquer pessoa."

Nota

Este versículo conclui, já no início do daf 14a, a reformulação da Mishná deixada em suspenso ao final de 13b: a cláusula final atribuída a Rabi Yehudá — que, entre as seções, permite saudar por respeito e responder a saudação de paz a qualquer pessoa, respeitável ou não.

02A mesma lei foi ensinada também assim: a baraita completa com as opiniões de Rabi Meir e Rabi Yehudá
Bavli · 14a — Guemará
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: הַקּוֹרֵא אֶת שְׁמַע וּפָגַע בּוֹ רַבּוֹ אוֹ גָּדוֹל הֵימֶנּוּ, בַּפְּרָקִים — שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַכָּבוֹד וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר שֶׁהוּא מֵשִׁיב, וּבָאֶמְצַע — שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַיִּרְאָה וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר שֶׁהוּא מֵשִׁיב. דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בָּאֶמְצַע — שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַיִּרְאָה וּמֵשִׁיב מִפְּנֵי הַכָּבוֹד, וּבַפְּרָקִים — שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַכָּבוֹד וּמֵשִׁיב שָׁלוֹם לְכׇל אָדָם.

Foi ensinado também assim: aquele que lê o Shemá e encontrou-o seu mestre, ou alguém maior do que ele, entre as seções — saúda por respeito, e nem é necessário dizer que ele responde; e no meio — saúda por temor, e nem é necessário dizer que ele responde. Palavras de Rabi Meir. Rabi Yehudá diz: no meio — saúda por temor e responde por respeito; e entre as seções — saúda por respeito e responde a saudação de paz a qualquer pessoa.

Nota

A Guemará traz a versão completa e independente desta baraita, confirmando exatamente a leitura reformulada estabelecida ao final de 13b: Rabi Meir considera óbvia a permissão de responder onde já se permite saudar, tanto entre as seções quanto no meio; Rabi Yehudá, por sua vez, distingue os motivos — no meio, saúda-se por temor mas responde-se por respeito (um acréscimo real), e entre as seções, saúda-se por respeito e responde-se a qualquer saudação de paz.

Interromper no Halel, na Meguilá, e provar comida em jejum · בְּהַלֵּל וּבַמְגִילָּה מַהוּ שֶׁיַּפְסִיק

03Pergunta a Rabi Chiya: pode-se interromper no Halel e na Meguilá para saudar? Cavál vachômer, ou a divulgação do milagre prevalece?
Bavli · 14a — Guemará
בְּעָא מִינֵּיהּ אַחַי תַּנָּא דְבֵי רַבִּי חִיָּיא מֵרַבִּי חִיָּיא: בְּהַלֵּל וּבַמְגִילָּה מַהוּ שֶׁיַּפְסִיק? אָמְרִינַן קַל וָחוֹמֶר: קְרִיאַת שְׁמַע דְּאוֹרָיְיתָא — פּוֹסֵק, הַלֵּל דְּרַבָּנַן מִבַּעְיָא?! אוֹ דִלְמָא פַּרְסוֹמֵי נִיסָּא עֲדִיף.

Perguntou-lhe Achai, o tanaíta da escola de Rabi Chiya, a Rabi Chiya: no Halel e na Meguilá, o que vale quanto a interromper? Dizemos por argumento a fortiori: se a Keriat Shemá, que é de origem bíblica, permite interrupção — o Halel, que é de origem rabínica, não seria mais óbvio? Ou talvez a divulgação do milagre seja preferível (e por isso não se deva interromper)?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
אחי – כך שמו: תנא דבי רבי חייא – שהיה שונה בבית רבי חייא: מהו שיפסיק – לשאלת שלום:

"Achai" — assim era o seu nome. "O tanaíta da escola de Rabi Chiya" — pois ele ensinava (a tradição oral) na casa de Rabi Chiya. "O que vale quanto a interromper" — para a saudação de paz.

Nota

A Guemará passa a três novas perguntas, formuladas por diferentes discípulos a seus mestres, sobre interromper atividades religiosas para saudar. A primeira, feita a Rabi Chiya, questiona se o Halel e a leitura da Meguilá de Ester — que também comportam pausas na Mishná recém-discutida para a Keriat Shemá — permitiriam interrupção pelo mesmo raciocínio, ou se a exigência de divulgar publicamente o milagre (parsumei nissa) tornaria essa interrupção mais grave.

04Resposta: interrompe-se, sem problema; a distinção de Rabá entre dias de Halel obrigatório e não obrigatório
Bavli · 14a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ: פּוֹסֵק, וְאֵין בְּכָךְ כְּלוּם. אָמַר רַבָּה: יָמִים שֶׁהַיָּחִיד גּוֹמֵר בָּהֶן אֶת הַהַלֵּל, בֵּין פֶּרֶק לְפֶרֶק פּוֹסֵק, בְּאֶמְצַע הַפֶּרֶק — אֵינוֹ פּוֹסֵק, וְיָמִים שֶׁאֵין הַיָּחִיד גּוֹמֵר בָּהֶן אֶת הַהַלֵּל — אֲפִילּוּ בְּאֶמְצַע הַפֶּרֶק פּוֹסֵק.

Disse-lhe: interrompe-se, e não há problema nisso. Disse Rabá: nos dias em que o indivíduo completa o Halel (recita-o por inteiro, por ser obrigatório), entre um capítulo e outro interrompe-se; no meio de um capítulo, não se interrompe. E nos dias em que o indivíduo não completa o Halel (recita-o de forma abreviada, sendo apenas costume), mesmo no meio de um capítulo interrompe-se.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
ימים שהיחיד גומר בהן את ההלל – שהוא חובה לכל אדם והם אחד ועשרים יום בשנה כדאמרינן במסכת ערכין (ד' י.):

"Nos dias em que o indivíduo completa o Halel" — pois é obrigatório para toda pessoa, e são vinte e um dias no ano, como dizemos no tratado Arachin (10a).

Nota

Rabi Chiya responde afirmativamente e sem reservas: pode-se interromper também no Halel. Rabá, porém, refina a regra, distinguindo entre os dias em que o Halel completo é obrigatório — nos quais a interrupção só é permitida entre capítulos, e não em seu interior — e os dias em que se recita apenas o Halel abreviado, de caráter costumeiro, nos quais a interrupção é permitida mesmo no meio de um capítulo.

05Objeção: Rav bar Sheva visitou Ravina em dia de Halel não obrigatório e não houve interrupção!
Bavli · 14a — Guemará
אִינִי?! וְהָא רַב בַּר שְׁבָא אִיקְּלַע לְגַבֵּיהּ דְּרָבִינָא, וְיָמִים שֶׁאֵין הַיָּחִיד גּוֹמֵר אֶת הַהַלֵּל הֲוָה, וְלָא פְּסֵיק לֵיהּ!

É assim mesmo?! Mas eis que Rav bar Sheva chegou à casa de Ravina, e eram dias em que o indivíduo não completa o Halel, e ele (Ravina) não interrompeu para ele!

Nota

A Guemará traz um caso concreto que parece contradizer a regra de Rabá: em um dia de Halel abreviado — quando, segundo a regra, seria permitido interromper até no meio de um capítulo —, Ravina não interrompeu sua recitação para saudar Rav bar Sheva, que o visitava.

06Resposta: Rav bar Sheva era diferente, pois Ravina não o considerava importante
Bavli · 14a — Guemará
שָׁאנֵי רַב בַּר שְׁבָא דְּלָא חֲשִׁיב עֲלֵיהּ דְּרָבִינָא.

Diferente é o caso de Rav bar Sheva, pois ele não era importante aos olhos de Ravina.

Nota

A Guemará resolve a dificuldade explicando que o caso não refuta a regra geral: Ravina simplesmente não considerava Rav bar Sheva alguém suficientemente importante para justificar a interrupção — não porque a regra de Rabá estivesse errada, mas porque a permissão de interromper pressupõe uma saudação a alguém digno de respeito.

07Pergunta a Rabi Ami: pode-se provar comida em jejum? A dúvida é sobre o que exatamente se aceitou
Bavli · 14a — Guemará
בְּעָא מִינֵּיהּ אַשְׁיָאן תַּנָּא דְבֵי רַבִּי אַמֵּי מֵרַבִּי אַמֵּי: הַשָּׁרוּי בְּתַעֲנִית מַהוּ שֶׁיִּטְעוֹם? אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה קַבֵּיל עֲלֵיהּ — וְהָא לֵיכָּא. אוֹ דִילְמָא: הֲנָאָה קַבֵּיל עֲלֵיהּ — וְהָא אִיכָּא.

Perguntou-lhe Ashyan, o tanaíta da escola de Rabi Ami, a Rabi Ami: aquele que está em jejum, o que vale quanto a provar (um pouco de comida, sem engolir)? Talvez seja permitido, pois ele aceitou sobre si a abstenção de comer e beber — e isso (provar) não é nem comer nem beber. Ou talvez: ele aceitou sobre si a abstenção de prazer (qualquer satisfação do paladar) — e isso (provar)(prazer).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
מהו שיטעום – את התבשיל לדעת אם צריך מלח או תבלין:

"O que vale quanto a provar" — o guisado, para saber se precisa de sal ou de tempero.

Nota

Uma terceira pergunta, agora a Rabi Ami, aborda um tema distinto, mas relacionado pela estrutura da dúvida: aquele que está em jejum pode provar um pouco de comida — como um cozinheiro que verifica o tempero de um guisado, conforme explica Rashi — sem engoli-la? A dúvida depende de definir exatamente o que a aceitação do jejum abrange: apenas comer e beber propriamente, ou também qualquer prazer gustativo.

08Resposta: prova-se, sem problema; baraita confirmatória sobre provar sem bênção
Bavli · 14a — Guemará
אָמַר לֵיהּ: טוֹעֵם וְאֵין בְּכָךְ כְּלוּם. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: מַטְעֶמֶת אֵינָהּ טְעוּנָה בְּרָכָה, וְהַשָּׁרוּי בְּתַעֲנִית טוֹעֵם וְאֵין בְּכָךְ כְּלוּם.

Disse-lhe: prova-se, e não há problema nisso. Foi ensinado também assim: a prova (de comida) não requer bênção, e aquele que está em jejum prova, e não há problema nisso.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
מטעמת – טעימת תבשיל:

"A prova" — a prova de um guisado.

Nota

Rabi Ami resolve a dúvida a favor da leniência: provar comida, mesmo em jejum, é permitido e não constitui violação do voto. Uma baraita confirma essa conclusão, acrescentando ainda que tal prova, por não constituir uma refeição propriamente dita, sequer requer o recital de uma bênção antes de ser feita.

09Até que quantidade?
Bavli · 14a — Guemará
עַד כַּמָּה?

Até que quantidade se pode provar sem que isso conte como comer?

Nota

A Guemará levanta uma questão adicional: sendo permitido provar, é preciso ainda estabelecer um limite quantitativo além do qual o ato deixaria de ser mera "prova" para se tornar uma refeição real, proibida durante o jejum.

10Rabi Ami e Rabi Assi provavam até a medida de um "revi'it"
Bavli · 14a — Guemará
רַבִּי אַמֵּי וְרַבִּי אַסִּי טָעֲמִי עַד שִׁיעוּר רְבִיעֲתָא.

Rabi Ami e Rabi Assi provavam até a medida de um revi'it (um quarto de um log).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
רביעתא – רביעית הלוג:

"Um revi'it" — um quarto de log (medida de volume).

Nota

A Guemará responde com a prática concreta de dois sábios: Rabi Ami e Rabi Assi costumavam provar comida, mesmo em jejum, até a medida de um revi'it — quantidade que se tornou o limite prático aceito para essa leniência.

Saudar e cuidar dos próprios afazeres antes de orar · כָּל הַנּוֹתֵן שָׁלוֹם לַחֲבֵירוֹ קוֹדֶם שֶׁיִּתְפַּלֵּל

11Rav: quem saúda antes de orar é como se tivesse feito dele um altar pagão
Bavli · 14a — Guemará
אָמַר רַב: כָּל הַנּוֹתֵן שָׁלוֹם לַחֲבֵירוֹ קוֹדֶם שֶׁיִּתְפַּלֵּל כְּאִילּוּ עֲשָׂאוֹ בָּמָה. שֶׁנֶּאֱמַר: ״חִדְלוּ לָכֶם מִן הָאָדָם אֲשֶׁר נְשָׁמָה בְּאַפּוֹ כִּי בַמֶּה נֶחְשָׁב הוּא״. אַל תִּקְרֵי, ״בַּמֶּה״ אֶלָּא ״בָּמָה״.

Disse Rav: todo aquele que dá saudação de paz a seu companheiro antes de orar é como se o tivesse feito em um altar pagão (bamá), pois está dito: "Cessai de confiar no homem, cujo sopro está em suas narinas, pois em que (bameh) é ele estimado?" (Yeshayahu 2:22). Não leias "bameh" (em que), mas sim "bamá" (altar).

Nota

A Guemará passa a um novo bloco de ensinamentos sobre a gravidade de antepor assuntos humanos à oração. Rav ensina, por meio de um jogo de palavras entre "bameh" (em que) e "bamá" (altar/lugar de culto), que saudar alguém antes de orar equivale, em gravidade simbólica, a erguer para essa pessoa um altar — pois se estaria dando à honra humana precedência sobre a honra devida a D-us.

12Shmuel: leitura alternativa — "por que o estimaste a ele e não a D-us?"
Bavli · 14a — Guemará
וּשְׁמוּאֵל אָמַר: בַּמֶּה חֲשַׁבְתּוֹ לָזֶה וְלֹא לָאֱלוֹהַּ?

E Shmuel disse: o versículo deve ser lido literalmente, no sentido de: por que o estimaste, a este (o homem), e não a D-us?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
ושמואל – לא דריש לשון במה אלא כמשמעו במה חשבתו לזה שהקדמת כבודו לכבודי:

"E Shmuel" — não interpreta a expressão "bameh" (em que) como se fosse "bamá" (altar), mas conforme seu sentido literal: "em que o estimaste, a este" — que antepuseste a honra dele à Minha honra.

Nota

Shmuel oferece uma explicação alternativa ao mesmo versículo, sem recorrer ao trocadilho de Rav: lido em seu sentido literal, o versículo já repreende diretamente aquele que, ao saudar o companheiro antes de orar, deu à honra do homem precedência sobre a honra devida ao próprio D-us.

13Objeção de Rav Sheshet: mas a Mishná ensina que se saúda por respeito e se responde!
Bavli · 14a — Guemará
מֵתִיב רַב שֵׁשֶׁת: בַּפְּרָקִים שׁוֹאֵל מִפְּנֵי הַכָּבוֹד וּמֵשִׁיב!

Levantou uma objeção Rav Sheshet: "entre as seções, saúda-se por respeito e responde-se"!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
שואל מפני הכבוד – והא ק"ש קודם תפלה הוא וקתני שואל:

"Saúda-se por respeito" — mas eis que a Keriat Shemá é anterior à oração, e a Mishná ensina que se saúda.

Nota

Rav Sheshet objeta a partir da própria Mishná analisada nos dafim anteriores: se ela permite saudar por respeito durante a Keriat Shemá — que é lida antes da Amidá —, como pode Rav (ou Shmuel) afirmar que saudar antes de orar equivale a erguer um altar pagão?

14Resposta de Rabi Aba: a proibição vale para quem se antecipa e vai à porta do outro
Bavli · 14a — Guemará
תַּרְגְּמַהּ רַבִּי אַבָּא: בְּמַשְׁכִּים לְפִתְחוֹ.

Explicou-a Rabi Aba: trata-se de quem se antecipa e vai à porta dele (do companheiro, para saudá-lo antes da oração).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
תרגמה רבי אבא – להא דרב ושמואל דאסרי: במשכים לפתחו – אבל פגעו בדרך שואל:

"Explicou-a Rabi Aba" — a isto que Rav e Shmuel proibiram. "Quem se antecipa à porta dele" — mas se o encontrou pelo caminho, saúda-o.

Nota

A Guemará resolve a contradição distinguindo dois casos: a proibição severa de Rav e Shmuel refere-se apenas a quem sai deliberadamente de seu caminho para ir à porta de outra pessoa e saudá-la antes de orar, buscando ativamente essa honra; mas o caso da Mishná, de encontrar alguém casualmente pelo caminho durante a Keriat Shemá, permanece permitido, sem essa gravidade.

15Rabi Yoná em nome de Rabi Zeirá: quem cuida de seus afazeres antes de orar é como se tivesse construído um altar; corrigido para "é proibido"
Bavli · 14a — Guemará
אָמַר רַבִּי יוֹנָה אָמַר רַבִּי זֵירָא: כָּל הָעוֹשֶׂה חֲפָצָיו קוֹדֶם שֶׁיִּתְפַּלֵּל — כְּאִלּוּ בָּנָה בָּמָה. אָמְרוּ לוֹ ״בָּמָה״ אָמְרַתְּ? אָמַר לְהוּ: לָא, ״אָסוּר״ קָא אָמֵינָא.

Disse Rabi Yoná, disse Rabi Zeirá: todo aquele que cuida de seus próprios afazeres antes de orar é como se tivesse construído um altar pagão. Disseram-lhe: disseste "altar"? Disse-lhes: não, eu disse "é proibido".

Nota

A Guemará estende o princípio de Rav de "cuidar de saudações" para "cuidar dos próprios afazeres" antes de orar, com Rabi Zeirá empregando inicialmente a mesma imagem drástica do altar pagão; mas, ao ser questionado, ele mesmo modera sua formulação, esclarecendo que pretendia dizer apenas que tal prática é proibida, sem necessariamente equivaler à gravidade de uma transgressão de idolatria.

16Rav Idi bar Avin em nome de Rav Yitzchak bar Ashian: é proibido cuidar de afazeres antes de orar, pela justiça que vai adiante
Bavli · 14a — Guemará
(וְכִדְרַב אִידִי בַּר אָבִין דְּאָמַר) רַב אִידִי בַּר אָבִין אָמַר רַב יִצְחָק בַּר אַשְׁיָאן: אָסוּר לוֹ לָאָדָם לַעֲשׂוֹת חֲפָצָיו קוֹדֶם שֶׁיִּתְפַּלֵּל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צֶדֶק לְפָנָיו יְהַלֵּךְ וְיָשֵׂם לְדֶרֶךְ פְּעָמָיו״.

E isto está conforme o que Rav Idi bar Avin disse: Rav Idi bar Avin disse, em nome de Rav Yitzchak bar Ashian: é proibido ao homem cuidar de seus próprios afazeres antes de orar, pois está dito: "A justiça irá adiante dele, e porá no caminho os seus passos" (Tehilim 85:14).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 14a
ה"ג – אמר רב אידי בר אבין אמר רבי יצחק בר אשיאן אסור לאדם לעשות חפציו קודם שיתפלל: צדק – תפלה שמצדיקו לבוראו והדר וישם פעמיו לדרכי חפציו:

Assim é a versão correta (do texto): "disse Rav Idi bar Avin, disse Rabi Yitzchak bar Ashian: é proibido ao homem cuidar de seus próprios afazeres antes de orar." "Justiça" — a oração, que o justifica perante seu Criador; e só depois "porá... os seus passos" nos caminhos dos seus afazeres.

Nota

Confirma-se a leniência anterior com uma nova fonte, agora explicitamente proibindo cuidar dos próprios afazeres antes de orar (sem a imagem do altar): o versículo dos Salmos é lido por Rashi como ensinando que a "justiça" — a própria oração, que justifica a pessoa diante de seu Criador — deve vir antes de qualquer providência para os assuntos pessoais.

17O mesmo Rav Idi: quem ora e depois sai a caminho, D-us cuida de seus afazeres
Bavli · 14a — Guemará
וְאָמַר רַב אִידִי בַּר אָבִין אָמַר רַב יִצְחָק בַּר אַשְׁיָאן: כָּל הַמִּתְפַּלֵּל וְאַחַר כָּךְ יוֹצֵא לַדֶּרֶךְ, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹשֶׂה לוֹ חֲפָצָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צֶדֶק לְפָנָיו יְהַלֵּךְ וְיָשֵׂם לְדֶרֶךְ פְּעָמָיו״.

E disse Rav Idi bar Avin, disse Rav Yitzchak bar Ashian: todo aquele que ora e, depois, sai a caminho — o Santo, bendito seja, cuida de seus afazeres, pois está dito: "A justiça irá adiante dele, e porá no caminho os seus passos".

Nota

O mesmo sábio acrescenta a recompensa correspondente: aquele que tem o cuidado de orar antes de sair para tratar de seus afazeres recebe, em troca, a garantia de que o próprio D-us se ocupará de seus assuntos — leitura complementar do mesmo versículo.

Dormir sete dias sem sonhar · כָּל הַלָּן שִׁבְעַת יָמִים בְּלֹא חֲלוֹם

18Rabi Yoná em nome de Rabi Zeirá: quem passa sete dias sem sonhar é chamado "mau"
Bavli · 14a — Guemará
וְאָמַר רַבִּי יוֹנָה אָמַר רַבִּי זֵירָא: כָּל הַלָּן שִׁבְעַת יָמִים בְּלֹא חֲלוֹם נִקְרָא ״רַע״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְשָׂבֵעַ יָלִין בַּל יִפָּקֶד רָע״, אַל תִּקְרֵי ״שָׂבֵעַ״ אֶלָּא ״שֶׁבַע״.

E disse Rabi Yoná, disse Rabi Zeirá: todo aquele que dorme sete noites sem sonho algum é chamado "mau", pois está dito: "e satisfeito passará a noite, não será visitado pelo mal" (Mishlei 19:23). Não leias "sabéa" (satisfeito), mas sim "sheva" (sete).

Nota

A Guemará muda de assunto para outro ensinamento de Rabi Zeirá, ligado ao versículo anterior apenas pela cadeia de transmissão: por meio de outro jogo de palavras entre "sabéa" (satisfeito) e "sheva" (sete), ensina-se que uma pessoa que passa sete noites seguidas de sono sem sonho algum recebe, por essa razão, a designação de "má" — talvez por indicar insensibilidade excessiva ou ausência de vida interior ativa.

19Rav Achá bar Rabi Chiya bar Aba em nome de Rabi Chiya em nome de Rabi Yochanan: quem se sacia de palavras de Torá e dorme não recebe más notícias
Bavli · 14a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב אַחָא בְּרֵיהּ דְּרַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא: הָכִי אָמַר רַבִּי חִיָּיא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כָּל הַמַּשְׂבִּיעַ עַצְמוֹ מִדִּבְרֵי תּוֹרָה וְלָן — אֵין מְבַשְּׂרִין אוֹתוֹ בְּשׂוֹרוֹת רָעוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְשָׂבֵעַ יָלִין בַּל יִפָּקֶד רָע״.

Disse-lhe Rav Achá, filho de Rabi Chiya bar Aba: assim disse Rabi Chiya, disse Rabi Yochanan: todo aquele que se sacia a si mesmo de palavras de Torá e então dorme não lhe são anunciadas más notícias, pois está dito: "e satisfeito passará a noite, não será visitado pelo mal".

Nota

A Guemará traz uma leitura complementar, e mais benigna, do mesmo versículo: em vez de "sabéa" ser lido como "sheva" (relativo a noites sem sonho), pode-se lê-lo em seu sentido literal — "satisfeito" — referindo-se a quem se sacia de estudo de Torá antes de dormir, garantindo-lhe, por mérito próprio, proteção contra más notícias.

Retorno à Mishná: a lei como Rabi Yehudá e o início de sua razão · הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

20A Mishná é citada de novo: "estes são os pontos entre as seções etc."
Bavli · 14a — Guemará
אֵלּוּ הֵן בֵּין הַפְּרָקִים וְכוּ׳.

"Estes são os pontos chamados 'entre as seções' etc." (citação da Mishná, para nova análise).

Nota

A Guemará retoma a Mishná que enumera, um a um, os pontos exatos "entre os parágrafos" da Keriat Shemá e das bênçãos que o cercam — entre a primeira bênção e a segunda, entre a segunda e o Shemá, entre os três parágrafos do Shemá, e entre o terceiro parágrafo e a bênção "Emet veYatsiv" — para discutir a opinião de Rabi Yehudá, que isola este último ponto e proíbe a interrupção ali.

21Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: a lei é como Rabi Yehudá — não se interrompe entre "Elohechem" e "Emet veYatsiv"; a razão começa a ser explicada
Bavli · 14a — Guemará
אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה דְּאָמַר בֵּין ״אֱלֹהֵיכֶם״ לֶ״אֱמֶת וְיַצִּיב״ לֹא יַפְסִיק. אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מַאי טַעְמֵיהּ דְּרַבִּי יְהוּדָה — דִּכְתִיב:

Disse Rabi Abahu, disse Rabi Yochanan: a lei é como Rabi Yehudá, que disse: entre "Elohechem" (a última palavra do terceiro parágrafo do Shemá) e "Emet veYatsiv" (a bênção que se segue) não se interrompe. Disse Rabi Abahu, disse Rabi Yochanan: qual é a razão de Rabi Yehudá? Porque está escrito: (a Guemará prossegue no daf seguinte, citando o versículo de Yirmeyahu que se une à última palavra do Shemá).

Nota

Chega-se aqui ao ponto central do daf: a Guemará decide, em nome de Rabi Yochanan, que a lei segue Rabi Yehudá — não se pode interromper entre a última palavra do Shemá, "vosso D-us", e a bênção seguinte, "Emet veYatsiv" ("verdadeiro e íntegro"). A frase que introduz a razão dessa regra — "porque está escrito" — é retomada e completada logo no início do daf 14b, com a citação do versículo "mas o Eterno D-us é verdade" (Yirmeyahu 10:10), que se une à palavra final do Shemá para formar uma única expressão contínua.