Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Vav (Ketzad Mevarchin)
הַמּוֹצִיא

A conclusão da baraita sobre pão de cutach e o kuva de terra, o mel de tâmaras, a trimá e a shetitá, a objeção do zeitom egípcio, e a nova Mishná sobre a fórmula exata de "hamotzí"

Berachot 38a

Completando a frase interrompida ao final de 37b, o daf conclui a baraita de Rabi Yehudá sobre pão feito para cutach: se as fezes espessas como bolos, obrigadas em chalá; se finas como tábuas, isentas. Segue-se a pergunta de Abaie a Rav Yosef sobre a bênção do kuva de terra ("borê minê mezonot"), o costume de Mar Zutra de fazer dele refeição plena, e a nota de Mar bar Rav Ashi sobre seu uso em Pêssach e sobre o mel de tâmaras (mera transpiração, "shehacol"), apoiada na disputa Rabi Eliezer/Rabi Yehoshua sobre sucos de fruta de teruma. Depois vem o diálogo entre Rava e um sábio, esclarecido por Ravina, sobre o que é "trimá" e sua bênção; a disputa Rav/Shmuel sobre a shetitá, reconciliada por Rav Chisda pela distinção entre preparado espesso (alimento) e ralo (remédio); a objeção de Rav Yosef a partir do costume de beber zeitom egípcio em Shabat, e as duas respostas sucessivas de Abaie unificadas pela necessidade dos dois ensinamentos de Rav e Shmuel. O daf fecha com a nova Mishná sobre a fórmula da bênção do pão — a disputa entre os sábios ("hamotzí") e Rabi Nechemiá ("motzí") quanto ao tempo verbal implícito, fundamentada em versículos sobre o Êxodo — e o episódio de Rabi Zeira com o bar Rav Zevid, cuja fama de erudição em bênçãos falha no primeiro teste prático.

Conclusão do pão de cutach e o kuva de terra · לֶחֶם הֶעָשׂוּי לְכוּתָּח

1Se as fez espessas como bolos — obrigadas; como tábuas — isentas. Disse-lhe Abaie a Rav Yosef: e este kuva de terra, o que se abençoa sobre ele? Disse-lhe: pensas que é pão? É mera massa, e abençoa-se "borê minê mezonot"
Bavli · 38a — Guemará (conclusão da baraita interrompida em 37b)
כְּעָבִין — חַיָּיבִין, כְּלִמּוּדִין — פְּטוּרִים. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי לְרַב יוֹסֵף: הַאי כּוּבָּא דְאַרְעָא מַאי מְבָרְכִין עִלָּוֵיהּ? אֲמַר לֵיהּ: מִי סָבְרַתְּ נַהֲמָא הוּא?! גּוּבְלָא בְּעָלְמָא הוּא וּמְבָרְכִין עִלָּוֵיהּ ״בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״.

Completando a frase de Rabi Yehudá interrompida ao final de 37b — "suas ações o comprovam a respeito dele: se as fez..." —, eis a continuação: se a pessoa as fez espessas (ke'avin), como bolos preparados para consumo comumessas massas são obrigadas em chalá — pois a espessura e o cuidado no formato revelam a intenção de fazer pão de verdade para comer, e não mero tempero para o cutach; mas se as fez como tábuas (kelimudin, isto é, finas e sem o cuidado próprio do pão)são isentas de chalá, pois a forma reles revela que se destinam apenas ao cutach. Disse-lhe Abaie a Rav Yosef (retomando um assunto correlato mencionado em 37b — o kuva de terra, preparado de farinha e água assado numa cavidade no chão do forno): e este kuva de terra, o que se abençoa sobre ele? Disse-lhe Rav Yosef: pensas que é pão de verdade?! É mera massa (guvla) comum, e abençoa-se sobre ele "que cria tipos de sustento" — pois, sendo apenas água e farinha misturadas e assadas de modo tosco, sem a forma própria de pão, cai na categoria de mezonot, e não na de "hamotzí".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
כעבין – ערוכה ומקוטפת כגלוסקאות נאות גלי דעתיה דללחם עשאה: כלמודין – כנסרים בעלמא שלא הקפיד על עריסתם ודוגמתו שנינו במועד קטן (פ"ב דף יב.) עושה לו למודין לוחין לבור של יין לכסותו:

"Espessas (ke'avin)" — massas arranjadas e enfeitadas como bolos (glusekaot) finos e bem-feitosisso revela sua intenção de que as fez para servirem de pão de verdade. "Como tábuas (kelimudin)" — como meras tábuas (nesarim), ou seja, sem forma cuidada, sem que a pessoa se preocupasse com sua modelagem; e um exemplo análogo ensinamos em Moed Katan (12a): "faz-lhe tábuas (limudin), isto é, placas (luchin), para cobrir um poço de vinho, para servir de cobertura".

Nota

A resolução da contradição sobre pão de cutach (levantada ao final de 37b) revela-se, assim, uma distinção conforme o modo de preparo: massas espessas e bem-cuidadas, mesmo destinadas ao cutach, revelam pela própria forma a intenção de servir como pão — obrigando em chalá; massas finas e toscas como tábuas revelam a intenção oposta, e ficam isentas. A pergunta de Abaie sobre o kuva de terra retoma o tema técnico do preparo tosco de farinha e água (mencionado em 37b, unidade 11, a propósito de terokanin), agora do ângulo da bênção: por não ter forma de pão, recebe "borê minê mezonot" como qualquer preparado comum de farinha.

2Mar Zutra fez dele sua refeição, e abençoou sobre ele "hamotzí" e as três bênçãos
Bavli · 38a — Guemará
מָר זוּטְרָא קְבַע סְעוֹדְתֵּיהּ עִלָּוֵיהּ, וּבָרֵךְ עִלָּוֵיהּ ״הַמּוֹצִיא לֶחֶם מִן הָאָרֶץ״, וְשָׁלֹשׁ בְּרָכוֹת.

Mar Zutra certa vez fez sua refeição principal fixando-se sobre ele (o kuva de terra), e abençoou sobre ele "que faz sair o pão da terra" e depois de comer as três bênçãos completas do bircat hamazon — pois, ao consumi-lo como refeição fixa e substancial, tratando-o como pão de verdade, aplicam-se a ele as bênçãos plenas do pão, independentemente de sua bênção inicial padrão ser mezonot quando comido em pequena quantidade.

Nota

O caso de Mar Zutra ilustra o princípio de que a bênção de um alimento pode variar conforme o modo e a quantidade do consumo: mesmo um preparado que normalmente recebe "borê minê mezonot" (por não ter status pleno de pão) passa a exigir "hamotzí" e as três bênçãos completas quando alguém o consome como refeição fixa e principal — princípio análogo ao já visto com o chavitz e a shetitá adiante neste mesmo daf.

3Disse Mar bar Rav Ashi: e cumpre-se com ele a obrigação em Pêssach, pois se lhe chama "pão de aflição"
Bavli · 38a — Guemará
אָמַר מָר בַּר רַב אָשֵׁי: וְאָדָם יוֹצֵא בָּהֶן יְדֵי חוֹבָתוֹ בַּפֶּסַח, מַאי טַעְמָא — ״לֶחֶם עוֹנִי״ קָרֵינַן בֵּיהּ.

Disse Mar bar Rav Ashi: e a pessoa cumpre com eles (os kuva de terra) sua obrigação de comer matzá em Pêssach. Qual é a razão? Porque "pão de aflição (lechem oni)" (Devarim 16:3) chamamos a este preparado — sendo ele, por sua feitura tosca e humilde, exatamente o tipo de pão simples e pobre que a Torá exige para a matzá de Pêssach, ainda que sua bênção cotidiana seja apenas mezonot.

Nota

O mesmo raciocínio já aplicado à mincha triturada em 37b (unidade 7) — de que basta a designação de "pão de aflição" para satisfazer o requisito de matzá em Pêssach, independentemente da bênção cotidiana do alimento — é aqui estendido ao kuva de terra: mesmo recebendo "borê minê mezonot" no dia a dia, ele cumpre a obrigação de matzá porque sua simplicidade e humildade correspondem exatamente ao "pão de aflição" exigido pela Torá.

O mel de tâmaras e a disputa sobre sucos de fruta · דּוּבְשָׁא דְתַמְרֵי

4E disse Mar bar Rav Ashi: este mel de tâmaras, abençoa-se sobre ele "shehacol", pois é mera transpiração
Bavli · 38a — Guemará
וְאָמַר מָר בַּר רַב אָשֵׁי: הַאי דּוּבְשָׁא דְתַמְרֵי מְבָרְכִין עִלָּוֵיהּ ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״. מַאי טַעְמָא? — זֵיעָה בְּעָלְמָא הוּא.

E disse Mar bar Rav Ashi: este mel de tâmaras (duvsha detamrei, o líquido doce que escorre das tâmaras prensadas), abençoa-se sobre ele "que tudo veio a ser por Sua palavra" (a bênção genérica, e não "borê pri ha'etz", a bênção específica para frutos da árvore). Qual é a razão? Porque é mera transpiração (zeiá bealma) — um subproduto exsudado da fruta, e não a fruta em si, e por isso não merece a bênção própria do fruto.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
זיעה בעלמא הוא – ואינו פרי לברך עליו בורא פרי העץ:

"É mera transpiração" — e não se considera propriamente fruto, para que se abençoe sobre ele "que cria o fruto da árvore".

Nota

O princípio de que o suco espremido de uma fruta é considerado mera "transpiração" (zeiá) — e não o fruto propriamente dito — já havia norteado, em 36b, a discussão sobre por que o vinho é exceção (recebendo bênção própria por decreto especial), enquanto os demais sucos de fruta recebem apenas "shehacol". O mel de tâmaras confirma essa regra geral.

5Conforme quem? Conforme aquele tanna que ensinou: mel de tâmaras, vinho de maçãs, vinagre de uvas verdes e demais sucos de frutas de teruma — Rabi Eliezer obriga em keren vachomesh, Rabi Yehoshua isenta
Bavli · 38a — Guemará
כְּמַאן? — כִּי הַאי תַּנָּא דִּתְנַן דְּבַשׁ תְּמָרִים, וְיֵין תַּפּוּחִים, וְחוֹמֶץ סִפְוָנִיּוֹת, וּשְׁאָר מֵי פֵירוֹת שֶׁל תְּרוּמָה — רַבִּי אֱלִיעֶזֶר מְחַיֵּיב קֶרֶן וָחוֹמֶשׁ, וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ פּוֹטֵר.

A Guemará busca a base tannaítica dessa posição: conforme quem é esta opinião de Mar bar Rav Ashi? Conforme aquele tanna que ensinamos numa Mishná: mel de tâmaras, e vinho de maçãs, e vinagre de uvas verdes tardias (sifvaniot, bagos que nunca amadurecem e servem só para vinagre), e os demais sucos de frutas de teruma (a porção sacerdotal, cujo consumo indevido por um não-sacerdote exige reposição com acréscimo)Rabi Eliezer obriga quem os consumiu indevidamente a repor seu valor principal (keren) e um quinto adicional (chomesh, como se faz com a teruma da fruta sólida em si), e Rabi Yehoshua isenta desse acréscimo — considerando que tais sucos não têm mais o pleno status de teruma, por serem meros subprodutos, e não a fruta original.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
וחומץ ספוניות – סופי ענבים שאין מתבשלים עולמית ועושים מהן חומץ: מחייב קרן וחומש – לשותה ממנו בשוגג: ור' יהושע פוטר – דזיעה בעלמא הוא ואין שם תרומה חל עליו ואין לך פרי הניתן למשקה אלא זיתים וענבים בלבד והיינו כמר בר רב אשי:

"E vinagre de uvas verdes tardias (sifvaniot)" — bagos finais das uvas, as que ficam depois da colheita e nunca amadurecem por completo, e delas se faz vinagre. "Obriga em keren vachomesh" — a quem beber dele indevidamente e por engano (a exigir reposição do principal mais um quinto, como para teruma comum). "E Rabi Yehoshua isenta" — porque é mera transpiração, e o nome de teruma não recai sobre ele propriamente; e não há fruto algum ao qual se aplique o próprio nome de teruma quando extraído em forma de bebida, salvo azeitonas e uvas apenas — cujo azeite e vinho retêm o status pleno da fruta original por decreto especial —, e esta é a mesma posição de Mar bar Rav Ashi.

Nota

A Guemará ancora a posição de Mar bar Rav Ashi (unidade 4) na disputa tannaítica entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre sucos de fruta de teruma: Rabi Yehoshua, que isenta do acréscimo de keren vachomesh por considerar tais sucos mera "transpiração" sem o pleno status da fruta original, é a fonte da regra de que apenas azeite (de azeitona) e vinho (de uva) retêm plenamente o nome do fruto quando extraídos como líquido — todos os demais sucos, incluindo o mel de tâmaras, recebem apenas "shehacol".

Trimá: o diálogo entre Rava e Ravina · טְרִימָא

6Perguntou-lhe um dos sábios a Rava: o que é trimá? Rava não entendeu a pergunta. Ravina esclareceu: perguntas sobre a de gergelim, ou a de açafrão, ou a de bagaço de uva?
Bavli · 38a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ הָהוּא מֵרַבָּנַן לְרָבָא: טְרִימָא מַהוּ? לָא הֲוָה אַדַּעְתֵּיהּ דְּרָבָא מַאי קָאָמַר לֵיהּ. יְתֵיב רָבִינָא קַמֵּיהּ דְּרָבָא, אֲמַר לֵיהּ: דְּשׁוּמְשְׁמֵי קָא אָמְרַתְּ, אוֹ דְּקוּרְטְמֵי קָא אָמְרַתְּ, אוֹ דְּפוּרְצָנֵי קָא אָמְרַתְּ?

Perguntou-lhe um daqueles sábios a Rava: o que é trimá (um preparado feito de algo levemente triturado, ainda não completamente esmigalhado)ou seja, qual bênção se recita sobre ele? Rava não entendeu o que o sábio lhe dizia — por não saber a que tipo específico de trimá ele se referia. Ravina estava sentado diante de Rava, e percebendo a dificuldade, disse-lhe ao sábio que perguntara: sobre a trimá de gergelim (shumshemei, para extrair seu óleo) estás perguntando, ou sobre a de açafrão (kurtemei, triturado para dar sabor ao vinho) estás perguntando, ou sobre a de bagaço de uva (purtzanei, esmagado para fazer tamad, uma bebida fraca) estás perguntando?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
טרימא מהו – מה מברכין עליו ושם טרימא כל דבר הכתוש קצת ואינו מרוסק: לא הוה אדעתא דרבא – לא היה מבין מהו שואל: א"ל – רבינא לההוא מרבנן איזו טרימא אתה שואל: דקורטמי – כרכום שכותשים אותו ונותנין בו יין ושותין: או דשומשמי – להוציא שמנן: או דפורצני – כתישת ענבים לתת לתוך החרצנים מים לעשות תמד:

"O que é trimá" — o que se abençoa sobre ele; e o nome trimá designa qualquer coisa levemente triturada e ainda não completamente esmigalhada. "Rava não entendia" — não compreendia o que o sábio perguntava. "Disse-lhe" — Ravina disse àquele dos sábios: qual trimá estás perguntando. "A de açafrão (kurtemei)" — carcum (açafrão) que se tritura e se coloca no vinho, e assim se bebe. "Ou a de gergelim (shumshemei)" — para extrair seu óleo. "Ou a de bagaço de uva (purtzanei)" — o esmagamento das uvas já espremidas, para colocar água sobre os caroços e fazer tamad (bebida fraca de segunda prensagem).

Nota

O termo "trimá" designa genericamente qualquer substância levemente triturada, sem especificar qual — daí a dificuldade inicial de Rava em responder, pois a bênção correta depende do tipo específico de trimá: de gergelim (para óleo), de açafrão (tempero de vinho) ou de bagaço de uva (para o tamad). Ravina desambiguou a pergunta antes que Rava pudesse respondê-la.

7Enquanto isso, Rava se recordou: é a de tâmaras que perguntas. Disse Rav Assi: tâmaras de teruma, pode-se fazer trimá, mas não bebida fermentada; e a halachá: tâmaras feitas trimá — abençoa-se "borê pri ha'etz", pois permanecem em seu estado original
Bavli · 38a — Guemará
אַדְּהָכִי וְהָכִי אַסְּקֵיהּ רָבָא לְדַעְתֵּיהּ, אֲמַר לֵיהּ: חֲשִׁילְתָּא וַדַּאי קָא אָמְרַתְּ, וְאַדְכַּרְתַּן מִלְּתָא הָא דְּאָמַר רַב אַסִּי: הַאי תַּמְרֵי שֶׁל תְּרוּמָה מוּתָּר לַעֲשׂוֹת מֵהֶן טְרִימָא, וְאָסוּר לַעֲשׂוֹת מֵהֶן שֵׁכָר. וְהִלְכְתָא תַּמְרֵי וְעַבְדִינְהוּ טְרִימָא — מְבָרְכִין עִלָּוַיְיהוּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״. מַאי טַעְמָא? — בְּמִלְּתַיְיהוּ קָיְימִי כִּדְמֵעִיקָּרָא.

Enquanto se travava isso e aquilo (a tentativa de esclarecimento de Ravina), Rava se recordou (assekei ledaatei) do que lhe fora perguntado, e disse-lhe ao sábio: a trimá esmagada (chashilta) de tâmaras, certamente, estás perguntando — e não nenhuma das outras que Ravina mencionou, e tu me recordaste com isso aquilo que disse Rav Assi: estas tâmaras de teruma, é permitido fazer delas trimá (esmagando-as levemente), mas é proibido fazer delas bebida fermentada (shechar, pois isso desperdiçaria a teruma ao transformá-la em algo com longa validade fora do controle sacerdotal, ou por outra razão técnica). E a halachá é: tâmaras que se fizeram trimá — abençoa-se sobre elas "que cria o fruto da árvore" (a bênção plena do fruto, e não meramente "shehacol"). Qual é a razão? Porque permanecem em seu estado (milta) original — isto é, o leve esmagamento da trimá não as transforma em subproduto ou "transpiração", como aconteceria com o mel espremido; elas continuam sendo essencialmente a própria tâmara, apenas levemente triturada.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
א"ל רבא חשילתא קא אמרת – מתוך דברי רבינא הבין רבא את השאלה א"ל דבר מעוך שאלתני כמו ביעי חשילתא דשחיטת חולין (דף צג.): מותר לעשות מהן טרימא – שאינו מפסידה אלמא דבמילת' קאי וכיון דהכי הוא מברכין עליה ב"פ העץ: והלכתא – ל"ג ומהלכות גדולות הוא:

"Disse-lhe Rava: a chashilta certamente estás perguntando" — a partir das palavras de Ravina, Rava compreendeu afinal a pergunta, e disse-lhe: coisa esmagada (mauch) me perguntaste, como a expressão "ovos esmagados (beiei chashilta)" em Chulin (93a). "É permitido fazer delas trimá" — pois isso não a estraga (mafsida), o que prova que permanece em seu próprio estado original; e, sendo este o caso, abençoa-se sobre ela "que cria o fruto da árvore". "E a halachá é" — nota de Rashi: não se lê essa expressão aqui — é das adições posteriores das Halachot Guedolot.

Nota

Rava, ao recordar-se, identifica que a pergunta original era sobre a trimá de tâmaras — recordando-lhe a halachá de Rav Assi sobre o uso de tâmaras de teruma para esse fim (permitido), em contraste com fazer delas bebida fermentada (proibido). A conclusão prática é que a trimá de tâmaras, sendo apenas levemente esmagada e não transformada em subproduto líquido, mantém o pleno status de fruto e recebe "borê pri ha'etz" — diferentemente do mel de tâmaras (unidade 4), que, por ser espremido em líquido, é mera "transpiração" e recebe apenas "shehacol".

A shetitá: disputa Rav/Shmuel e a questão do zeitom egípcio · שְׁתִיתָא

8Shetitá: Rav diz "shehacol", Shmuel diz "borê minê mezonot"
Bavli · 38a — Guemará
שְׁתִיתָא, רַב אָמַר ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״, וּשְׁמוּאֵל אָמַר ״בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״.

Shetitá (um alimento feito de farinha de grãos torrados e secos ainda verdes, misturada com água ou mel): Rav diz que se abençoa "que tudo veio a ser por Sua palavra", e Shmuel diz que se abençoa "que cria tipos de sustento".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
שתיתא – מאכל העשוי מקמח קליות שנתיבשו בתנור בעוד שהשבלים לחים:

"Shetitá" — alimento feito de farinha de grãos torrados (keliot), que se secaram no forno enquanto as espigas (shibolim) ainda estavam úmidas (verdes).

Nota

Nova disputa entre os dois grandes amoraítas babilônios sobre a bênção de um preparado à base de farinha de grãos verdes torrados: Rav a rebaixa a "shehacol" (talvez por considerá-la, no seu estado usual, mais próxima de bebida ou mingau do que de alimento sólido de grão), e Shmuel a mantém em "borê minê mezonot", aplicando o princípio geral das cinco espécies de grão já estabelecido anteriormente (36b-37a).

9Disse Rav Chisda: e não discordam — esta é a espessa, aquela é a rala; a espessa fazem para comer, a rala fazem para remédio
Bavli · 38a — Guemará
אָמַר רַב חִסְדָּא, וְלָא פְּלִיגִי: הָא בְּעָבָה, הָא בְּרַכָּה. עָבָה לַאֲכִילָה עָבְדִי לַהּ, רַכָּה לִרְפוּאָה קָא עָבְדִי לַהּ.

Disse Rav Chisda: e na verdade Rav e Shmuel não discordam de fato — cada um fala de um preparado diferente: esta opinião (de Shmuel) refere-se à shetitá espessa (avá), aquela (de Rav) refere-se à rala (raká). A espessa fazem-na para comer como alimento sólido, e por isso recebe "borê minê mezonot"; a rala fazem-na para remédio — sendo bebida fina, não considerada propriamente alimento, e por isso recebe apenas "shehacol".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
עבה לאכילה עבידא – ובמילת' קיימא:

"A espessa fazem para comer" — e por isso permanece em seu próprio estado de alimento pleno.

Nota

Rav Chisda resolve a disputa entre Rav e Shmuel pela via da harmonização, atribuindo cada opinião a um preparado fisicamente distinto de shetitá: a versão espessa, consumida como alimento sólido, mantém o status pleno de mezonot conforme os grãos que a compõem; a versão rala, usada como remédio bebível, cai na categoria genérica de "shehacol" por não ser considerada alimento propriamente dito.

10Objetou Rav Yosef: e concordam que se mexe o shatut em Shabat e se bebe zeitom egípcio; e se achas que é para remédio, remédio em Shabat é permitido?!
Bavli · 38a — Guemará
מֵתִיב רַב יוֹסֵף: וְשָׁוִין שֶׁבּוֹחֲשִׁין אֶת הַשַּׁתּוּת בְּשַׁבָּת וְשׁוֹתִין זֵיתוֹם הַמִּצְרִי. וְאִי סָלְקָא דַעְתָּךְ לִרְפוּאָה קָא מְכַוֵּין, רְפוּאָה בְּשַׁבָּת מִי שְׁרֵי?!

Objetou Rav Yosef contra a explicação de Rav Chisda, a partir de uma Mishná: e concordam (Bet Shamai e Bet Hilel, apesar de discordarem noutro contexto) que se mexe (bochashin) o shatut (preparado semelhante à shetitá rala) em Shabat, e se bebe zeitom egípcio (zeitom hamitzri, uma bebida de cevada, sal e óleo) — ambos permitidos em Shabat apesar de certas restrições ao preparo de alimentos e bebidas nesse dia. E se subisse ao teu pensamento (a explicação de Rav Chisda) que a versão rala é feita com a intenção de servir de remédio, então: remédio em Shabat é, por acaso, permitido?! Certamente não — pois existe proibição rabínica de tomar remédios em Shabat, por receio de que se chegue a triturar ervas medicinais, violação de uma melachá; logo, se o shatut e o zeitom fossem preparados apenas com fins medicinais, sua permissão em Shabat seria incompreensível, contradizendo a explicação de Rav Chisda!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
שבוחשין – מגיסין בכף לערבו יפה במימיו: זיתום המצרי – מפורש במסכת פסחים (דף מב:):

"Que se mexe (bochashin)" — isto é, revolve-se com uma colher (kaf) para misturá-lo bem com sua água. "Zeitom egípcio" — seus ingredientes são explicados no tratado Pêssachim (42b).

Nota

Rav Yosef desafia a solução harmonizadora de Rav Chisda com uma evidência da lei de Shabat: se a versão rala do shatut (análoga à shetitá rala) fosse feita exclusivamente com fins medicinais, sua preparação (mexer) não deveria ser permitida em Shabat, dada a proibição geral de remédios nesse dia por receio de triturar ervas. O fato de ser permitido sugere que não se trata de mero remédio, contradizendo a distinção proposta.

11Disse-lhe Abaie: e tu não pensas assim? Mas não ensinamos: todos os alimentos, a pessoa come para remédio em Shabat, e todas as bebidas, bebe. Antes, o que tens a dizer — o homem tem intenção de comer; aqui também, o homem tem intenção de comer
Bavli · 38a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: וְאַתְּ לָא תִּסְבְּרָא? וְהָא תְּנַן: כׇּל הָאוֹכָלִין אוֹכֵל אָדָם לִרְפוּאָה בְּשַׁבָּת, וְכׇל הַמַּשְׁקִין שׁוֹתֶה. אֶלָּא מָה אִית לָךְ לְמֵימַר — גַּבְרָא לַאֲכִילָה קָא מְכַוֵּין, הָכִי נָמֵי גַּבְרָא לַאֲכִילָה קָא מְכַוֵּין.

Disse-lhe Abaie: e tu mesmo não pensas que há de fato uma dificuldade geral aqui, independente do nosso caso? Mas não ensinamos numa Mishná: todos os alimentos, a pessoa pode comer mesmo quando sua intenção é para remédio, em Shabat, e todas as bebidas, pode beber com essa mesma intenção — sem que isso viole a proibição rabínica de remédios em Shabat, pois essa proibição se restringe a substâncias que não são normalmente consumidas como alimento ou bebida comum. Antes disso, se assim é, também no nosso caso, o que tens a dizer para explicar por que a Mishná daquela lei não considera isso proibido? Terás de dizer que, ali, mesmo bebendo com intenção medicinal, o homem tem, na verdade, intenção de também comer normalmente — pois trata-se de substância que também serve de alimento ou bebida comum, e por isso a intenção medicinal não a torna proibida; pois bem: também aqui (quanto ao shatut e ao zeitom egípcio), o homem tem intenção de comer — sendo eles bebidas e alimentos comuns, ainda que também tragam benefício medicinal, e por isso permitidos em Shabat sem contradizer a explicação de Rav Chisda.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
וכל המשקים שותה – אלמא לאכילה מכוין ורפואה ממילא הויא הכא נמי לאכילה מכוין כו':

"E todas as bebidas, bebe" — o que prova que, mesmo com intenção de remédio, considera-se que tem intenção de comer normalmente, e o benefício de remédio vem por si mesmo (mimeila), como efeito colateral — e aqui, também, o homem tem intenção de comer etc.

Nota

Abaie responde à objeção de Rav Yosef apontando que a própria Mishná sobre remédios em Shabat já permite consumir alimentos e bebidas comuns mesmo com intenção medicinal — pois, tratando-se de itens normalmente consumidos como comida, a intenção real é considerada alimentar, com o efeito medicinal vindo apenas como consequência incidental. O mesmo raciocínio se aplicaria ao shatut rala e ao zeitom egípcio, preservando a distinção de Rav Chisda entre a shetitá espessa (mezonot) e a rala (shehacol), sem contradição quanto à sua permissão em Shabat.

12Outra versão: o homem tem intenção de comer, e o remédio vem por si mesmo; assim também aqui, tem intenção de comer, e o remédio vem por si mesmo
Bavli · 38a — Guemará
לִישָּׁנָא אַחֲרִינָא: אֶלָּא מָה אִית לָךְ לְמֵימַר — גַּבְרָא לַאֲכִילָה קָא מְכַוֵּין, וּרְפוּאָה מִמֵּילָא קָא הָוְיָא? הָכִי נָמֵי לַאֲכִילָה קָא מְכַוֵּין, וּרְפוּאָה מִמֵּילָא קָא הָוְיָא.

Outra versão (da mesma resposta de Abaie, formulada de modo ligeiramente diferente): antes disso, o que tens a dizer para explicar a permissão daquela Mishnáque o homem tem intenção de comer, e o remédio vem por si mesmo (mimeila, como subproduto incidental e não intencional)? Assim também aqui (no shatut e no zeitom egípcio), o homem tem intenção de comer, e o remédio vem por si mesmo.

Nota

Esta segunda formulação da mesma resposta de Abaie enfatiza mais explicitamente que o benefício medicinal é incidental (mimeila) à intenção alimentar primária — reforçando, sem alterar substancialmente, a lógica da primeira versão.

13E fazem-se necessários ambos os ensinamentos de Rav e Shmuel; pois se apenas deste, e apenas daquele
Bavli · 38a — Guemará
וּצְרִיכָא דְּרַב וּשְׁמוּאֵל. דְּאִי מֵהַאי, הֲוָה אָמֵינָא לַאֲכִילָה קָא מְכַוֵּין וּרְפוּאָה מִמֵּילָא קָא הָוְיָא, אֲבָל הָכָא, כֵּיוָן דִּלְכַתְּחִילָּה לִרְפוּאָה קָא מְכַוֵּין — לָא לְבָרֵיךְ עִלָּוֵיהּ כְּלָל. קָא מַשְׁמַע לַן כֵּיוָן דְּאִית לֵיהּ הֲנָאָה מִינֵּיהּ בָּעֵי בָּרוֹכֵי.

A Guemará esclarece por que ambos os ensinamentos — a Mishná sobre remédio em Shabat, e a própria disputa de Rav e Shmuel sobre a shetitá/shatut — são necessários (tzricha), e não bastaria apenas um deles: pois se tivéssemos apenas a Mishná sobre remédio em Shabat e Shmuel , eu diria que ali o homem tem intenção de comer, e o remédio vem por si mesmo — e por isso é permitido em Shabat —, mas aqui (no caso da shetitá/shatut, quanto à questão da bênção), já que desde o início a pessoa tem intenção de remédio ao prepará-lo especificamente para esse fim, mesmo sabendo que também sacia, não se deveria abençoar sobre ele nada — pois talvez, quando a intenção primária e original é medicinal, isso bastasse para isentar totalmente de bênção, mesmo havendo algum benefício alimentar incidental. Por isso a disputa de Rav e Shmuel vem ensinar-nos algo além disso: já que a pessoa tem algum prazer (hanaá) dele (do preparado, ainda que sua intenção inicial fosse medicinal), precisa abençoar sobre ele — pois o benefício alimentar real, mesmo que secundário à intenção, já basta para gerar a obrigação de bênção, apenas variando entre "shehacol" e "borê minê mezonot" conforme a espessura do preparado.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
ה"ג וצריכא דרב ושמואל – ואע"ג דתניא לענין שבת דאוכל הוא ומותר לאכלו בשבת איצטריך למימר דטעון ברכה: ה"ג דסד"א כיון דלרפואה קא מכוין לא לבעי ברכה קמ"ל כיון דמתהני מיניה. שהרי מאכל הוא בעי ברוכי: והלכתא – ל״ג ומהלכות גדולות הוא:

Esta é a versão correta do texto: "e são necessários (tzricha)" o ensinamento de Rav e Shmuel — pois ainda que se ensine, quanto a Shabat, que é considerado alimento e é permitido comê-lo em Shabat, ainda assim foi necessário dizer que ele requer bênção. Esta é a versão correta: pois se poderia pensar que, já que a pessoa tem intenção de remédio, não precisaria de bênção — isso vem ensinar-nos que, já que ela se beneficia dele, pois é de fato considerado alimento, precisa de bênção. "E a halachá é" — nota de Rashi: não se lê essa expressão aqui — é das adições posteriores das Halachot Guedolot.

Nota

A Guemará explica por que era necessário ensinar tanto a permissão de Shabat quanto a obrigação de bênção separadamente: sem a disputa de Rav/Shmuel, poder-se-ia pensar que a intenção medicinal originária isentaria totalmente de bênção, apesar da permissão em Shabat; a disputa esclarece que o benefício alimentar real, mesmo que a intenção primária fosse de remédio, já gera obrigação de bênção — encerrando a sugya da shetitá e retornando o daf ao tema geral das bênçãos sobre alimentos.

Nova Mishná: a fórmula exata da bênção do pão · הַמּוֹצִיא אוֹ מוֹצִיא

14"Sobre o pão diz hamotzí" — o que diz? "Que faz sair o pão da terra"; Rabi Nechemiá diz: "faz sair o pão da terra". Disse Rava: em "motzí" ninguém discorda que significa passado; discordam em "hamotzí" — sábios: significa passado; Rabi Nechemiá: significa futuro
Bavli · 38a — Guemará (nova Mishná e sua explicação)
שֶׁעַל הַפַּת הוּא אוֹמֵר ״הַמּוֹצִיא״ וְכוּ׳. תָּנוּ רַבָּנַן: מָה הוּא אוֹמֵר? — ״הַמּוֹצִיא לֶחֶם מִן הָאָרֶץ״. רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר: ״מוֹצִיא לֶחֶם מִן הָאָרֶץ״. אָמַר רָבָא: בְּ״מוֹצִיא״ כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דְּאַפֵּיק מַשְׁמַע, דִּכְתִיב: ״אֵל מוֹצִיאָם מִמִּצְרָיִם״. כִּי פְּלִיגִי בְּ״הַמּוֹצִיא״, רַבָּנַן סָבְרִי הַמּוֹצִיא דְּאַפֵּיק מַשְׁמַע, דִּכְתִיב: ״הַמּוֹצִיא לְךָ מַיִם מִצּוּר הַחַלָּמִישׁ״. וְרַבִּי נְחֶמְיָה סָבַר הַמּוֹצִיא דְּמַפֵּיק מַשְׁמַע, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַמּוֹצִיא אֶתְכֶם מִתַּחַת סִבְלוֹת מִצְרָיִם״.

Cita-se a nova Mishná deste perek: "sobre o pão, a pessoa diz 'hamotzí' etc." Sobre isso, ensinaram os sábios numa baraita: o que exatamente se diz? "Que faz sair (hamotzí) o pão da terra". Rabi Nechemiá diz: "faz sair (motzí, sem o artigo "ha") o pão da terra". Disse Rava explicando a base gramatical da disputa: quanto à forma "motzí" (sem "ha"), todo o mundo não discorda que ela tem o sentido de ação já concluída no passado (afek mashma), como está escrito (Bamidbar 23:22): "D'us os fez sair (motziam) do Egito" — referindo-se a algo já ocorrido. Quando discordam é quanto à forma "hamotzí" (com o artigo "ha"): os sábios entendem que "hamotzí" tem o sentido de ação já concluída no passado (afek mashma), como está escrito (Devarim 8:15): "que faz sair (hamotzí) para ti água da rocha de sílex" — dita depois de o milagre já ter ocorrido; e Rabi Nechemiá entende que "hamotzí" tem o sentido de ação futura ou contínua (mafek mashma), como foi dito (Shemot 6:7): "que vos faz sair (hamotzí etchem) de debaixo dos fardos do Egito" — dita antes de o Êxodo se completar, referindo-se a algo ainda por vir.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
דאפיק משמע – שהוציא כבר והא ודאי ברכה הגונה דלשעבר בעינן שהרי כבר הוציא הלחם הזה מן הארץ שהוא בא ליהנות הימנו: דכתיב אל מוציאם ממצרים – וכשנאמרה פרשת בלעם כבר יצאו: המוציא לך מים – וכבר הוציא: ורבי נחמיה סבר דמפיק משמע – שעתיד להוציא דכתיב המוציא אתכם וכשנאמר פסוק זה למשה עדיין לא יצאו והמוציא לך מים עדיין היה מוציא כל ימי היותם במדבר:

"Tem o sentido de ação já concluída no passado (afek mashma)" — isto é, que já fez sair, e esta certamente é a bênção adequada referida a algo passado que estamos exigindo aqui — pois D'us já fez sair este pão da terra sobre o qual a pessoa vem agora desfrutar. "Como está escrito: 'D'us os fez sair do Egito'" — e quando se disse a seção de Bilam, já haviam saído. "'Que faz sair para ti água'" — e ali tambéma tinha feito sair antes desse versículo ser dito. "E Rabi Nechemiá entende que tem o sentido de ação futura (mafek mashma)" — que está por fazer sair, como está escrito "que vos faz sair" etc., e quando se disse este versículo a Moshé, ainda não haviam saído, e quanto a "que faz sair para ti água", ainda estava fazendo sair a água por todos os dias em que estiveram no deserto — o milagre era contínuo, não um evento único e concluído.

Nota

A nova Mishná do perek estabelece a fórmula exata da bênção do pão, e a Guemará dedica-se a explicar a base gramatical e bíblica da disputa entre os sábios e Rabi Nechemiá quanto ao uso do artigo definido "ha" em "hamotzí": os sábios entendem que, mesmo com o artigo, o particípio expressa ação já concluída (baseando-se no paralelo da água da rocha, milagre pontual já ocorrido quando mencionado), justificando "hamotzí" como referência ao pão que D'us já fez brotar da terra; Rabi Nechemiá entende que a presença do artigo "ha" desloca o sentido para uma ação contínua ou futura (baseando-se no versículo do Êxodo, dito antes da saída se completar), e por isso prefere a forma sem artigo, "motzí", que mantém o sentido de passado consumado exigido para uma bênção adequada.

15E os sábios? Aquele versículo, assim disse o Santo, bendito é Ele, a Israel: quando eu vos fizer sair, farei convosco algo para que saibais que fui Eu quem vos fez sair do Egito, como está escrito: "e sabereis que Eu sou o Eterno vosso D'us, que vos faz sair"
Bavli · 38a — Guemará
וְרַבָּנַן? — הָהוּא הָכִי קָאָמַר לְהוּ קוּדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא לְיִשְׂרָאֵל: כַּד מַפֵּיקְנָא לְכוּ, עָבֵידְנָא לְכוּ מִלְּתָא כִּי הֵיכִי דְּיָדְעִיתוּ דַּאֲנָא הוּא דְּאַפֵּיקִית יָתְכוֹן מִמִּצְרַיִם, דִּכְתִיב: ״וִידַעְתֶּם כִּי אֲנִי ה׳ אֱלֹהֵיכֶם הַמּוֹצִיא״.

E os sábios — como respondem à prova de Rabi Nechemiá a partir do versículo do Êxodo? Aquele versículo ("que vos faz sair de debaixo dos fardos do Egito"), assim disse o Santo, bendito seja Ele, a Israel: quando eu vos fizer sair (no futuro), farei convosco algo especial para que saibais que fui Eu quem vos fez sair (afekit, no passado) do Egito — isto é, o versículo não descreve o próprio ato de sair como futuro, mas antecipa um sinal futuro que confirmará, retrospectivamente, que a saída já ocorreu por Sua mão, como está escrito (Shemot 6:7, a continuação do mesmo versículo): "e sabereis que Eu sou o Eterno, vosso D'us, que vos faz sair (hamotzí) etc." — confirmando que "hamotzí", mesmo nesse contexto, refere-se retrospectivamente a um ato já consumado, e não a uma ação futura, preservando assim a posição dos sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 38a
דאפיקית יתכון – שאני הוא שהוצאתי אתכם:

"Que fui Eu (afekit) quem vos fez sair" — isto é, que sou Eu quem vos fez sair já — o sinal futuro serve apenas para revelar e confirmar um fato já consumado, e não para descrever uma saída ainda pendente.

Nota

Os sábios respondem à prova textual de Rabi Nechemiá reinterpretando o versículo do Êxodo: a promessa de "fazer sair" não descreve o próprio Êxodo como evento futuro no momento da bênção, mas sim um sinal futuro (as pragas, ou a revelação no Sinai) que confirmaria, depois do fato, que D'us já havia sido o agente da saída do Egito — preservando, assim, o sentido de "hamotzí" como referência a uma ação já concluída, mesmo nesse versículo aparentemente futuro.

16Os sábios elogiaram a Rabi Zeira o bar Rav Zevid, como grande e versado em bênçãos; pediu que lho trouxessem; uma vez veio a ele, trouxeram-lhe pão, e ele abriu e disse "motzí" — não é este de quem dizem que é versado em bênçãos?!
Bavli · 38a — Guemará (episódio, continua em 38b)
מִשְׁתַּבְּחִין לֵיהּ רַבָּנַן לְרַבִּי זֵירָא [אֶת] בַּר רַב זְבִיד אֲחוּהּ דְּרַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב זְבִיד דְּאָדָם גָּדוֹל הוּא וּבָקִי בִּבְרָכוֹת הוּא. אָמַר לָהֶם: לִכְשֶׁיָּבֹא לְיֶדְכֶם הֲבִיאוּהוּ לְיָדִי. זִמְנָא חֲדָא אִיקְּלַע לְגַבֵּיהּ אַפִּיקוּ לֵיהּ רִיפְתָּא, פָּתַח וְאָמַר ״מוֹצִיא״. אָמַר: זֶה הוּא שֶׁאוֹמְרִים עָלָיו דְּאָדָם גָּדוֹל הוּא וּבָקִי בִּבְרָכוֹת הוּא?! בִּשְׁלָמָא אִי אֲמַר ״הַמּוֹצִיא״

Encerrando o daf com um episódio ilustrativo da importância prática dessa disputa gramatical: os sábios elogiaram a Rabi Zeira o filho de bar Rav Zevid, irmão de Rabi Shmuel bar Rav Zevid, dizendo que era homem grande (em erudição) e versado (baki) em bênçãos. Disse-lhes Rabi Zeira: quando ele vier a vossas mãos (isto é, quando o encontrardes), trazei-o à minha mão (isto é, trazei-o a mim, para que eu o conheça). Certa vez ele apareceu, chegando à casa de Rabi Zeira; trouxeram-lhe pão, e ele abriu a boca e disse "motzí" (sem o artigo "ha"). Disse Rabi Zeira, surpreso e decepcionado: é este de quem dizem que é homem grande e versado em bênçãos?! Ora, se tivesse dito "hamotzí" (com o artigo — a fórmula sustentada pelos sábios, e portanto a halachicamente aceita) — compreender-se-ia sua erudição; mas dizer "motzí", seguindo a opinião isolada e rejeitada de Rabi Nechemiá, revela que ele não domina a halachá estabelecida — e a continuação deste episódio, com a defesa do bar Rav Zevid, prossegue no início de Berachot 38b.

Nota

O daf termina em suspensão dentro do próprio episódio: Rabi Zeira acaba de expressar sua decepção ao ouvir o bar Rav Zevid recitar "motzí" em vez de "hamotzí", e a frase "ora, se tivesse dito 'hamotzí'..." é interrompida — presumivelmente introduzindo a réplica ou justificativa do bar Rav Zevid, que prossegue no início de Berachot 38b. O episódio ilustra, de modo vívido, como a disputa gramatical abstrata das unidades 14-15 tinha consequências práticas reais na avaliação da erudição de um sábio.