Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Vav (Ketzad Mevarchin)
שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ

O critério de "borê pri ha'etz", a disputa sobre se "shehacol" cobre pão e vinho, o episódio de Binyamin o pastor, e a nova Mishná sobre o que não cresce da terra

Berachot 40b

O daf abre concluindo o critério deixado em aberto em 40a: só se abençoa "borê pri ha'etz" onde o galho, após a colheita do fruto, permanece e volta a produzir — o que exclui o trigo, mesmo segundo Rabi Yehudá. Segue-se a disputa entre Rav Huna e Rabi Yochanan sobre se a fórmula genérica "shehacol" cobre também pão e vinho, comparada com uma baraita tanaítica paralela de Rabi Meir e Rabi Yossi sobre quem troca a fórmula fixada pelos sábios por uma expressão de louvor espontânea. O episódio de Binyamin, o pastor, que abençoou em aramaico sem o Nome de D'us, traz a regra de Rav de que toda bênção sem menção do Nome não é bênção, contraposta à exigência de Rabi Yochanan de que também conste a menção da Realeza — sustentada por uma leitura da confissão do dízimo. O daf fecha com a nova Mishná sobre a fórmula "shehacol" para tudo o que não cresce da terra, sobre vinagre, novelot e gafanhotos, e a posição de Rabi Yehudá sobre "espécie de maldição", seguida do início da Guemará que identifica as novelot e discute as tamareiras mais leves do demai — terminando em aberto, com uma dificuldade que prossegue no início de 41a.

Conclusão: o critério de "borê pri ha'etz" · בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ

1Mas onde, ao se retirar o fruto, o galho não permanece e não volta a produzir, não se abençoa "borê pri ha'etz", mas sim "borê pri ha'adamá"
Bavli · 40b — Guemará (continuação de 40a)
אֲבָל הֵיכָא דְּכִי שָׁקְלַתְּ לֵיהּ לְפֵירֵי לֵיתֵיהּ לִגְווֹזָא דַּהֲדַר מַפֵּיק, לָא מְבָרְכִינַן עֲלֵיהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״ אֶלָּא ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״.

Completando o critério apresentado no fim do daf anterior: mas onde, quando se retira o fruto (peirei) dele, o galho (gvozá) não permanece intacto e por isso não volta a produzir (mafik) frutos no ano seguinte — como é o caso do trigo, cuja haste é cortada junto com a espiga — não abençoamos sobre ele "que cria o fruto da árvore (borê pri ha'etz)", mas sim "que cria o fruto da terra (borê pri ha'adamá)".

Nota

Este trecho fecha a explicação iniciada no fim de 40a: o critério para a bênção "borê pri ha'etz" não é a classificação botânica genérica de "árvore" (pela qual, segundo Rabi Yehudá, o trigo se qualificaria), mas um critério funcional — se o galho do qual se colheu o fruto permanece vivo e continua a produzir frutos nos anos seguintes. Como isso não ocorre com o trigo, aplica-se a ele "borê pri ha'adamá", mesmo na visão de Rabi Yehudá.

"Shehacol" cobre pão e vinho? · חוּץ מִן הַפַּת וּמִן הַיַּיִן

2Foi dito: Rav Huna diz: exceto pão e vinho; Rabi Yochanan diz: mesmo pão e vinho
Bavli · 40b — Guemará
וְעַל כּוּלָּן אִם אָמַר ״שֶׁהַכֹּל״ וְכוּ׳. אִתְּמַר. רַב הוּנָא אָמַר: חוּץ מִן הַפַּת וּמִן הַיַּיִן. וְרַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: אֲפִילּוּ פַּת וְיַיִן.

Citando a última cláusula da mishná de 40a: "e sobre todos, se disse 'shehacol', etc. [cumpriu sua obrigação]." Sobre isso foi dito (itmar) uma disputa entre amoraítas: Rav Huna disse: a fórmula "shehacol" serve para qualquer alimento, com exceção do pão e do vinho (que exigem suas próprias fórmulas específicas, "hamotzi" e "borê pri hagafen", e não são cobertos por "shehacol"). E Rabi Yochanan disse: a fórmula "shehacol" serve mesmo para pão e vinho (sendo a mais abrangente de todas as fórmulas, cobrindo até esses dois casos especiais).

Nota

A Guemará abre uma disputa amoraica sobre o alcance da fórmula genérica "shehacol": Rav Huna a limita, excluindo pão e vinho, que teriam fórmulas próprias e insubstituíveis; Rabi Yochanan a estende, considerando-a válida até para esses dois alimentos centrais da refeição e do Kidush.

3Vamos dizer que é como tannaim: Rabi Meir — viu pão e disse "como é bela esta broa, bendito o Lugar que a criou" — cumpriu; Rabi Yossi: todo o que muda da cunhagem fixada pelos sábios não cumpre
Bavli · 40b — Guemará
נֵימָא כְּתַנָּאֵי: רָאָה פַּת וְאָמַר: ״כַּמָּה נָאָה פַּת זוֹ, בָּרוּךְ הַמָּקוֹם שֶׁבְּרָאָהּ״ — יָצָא. רָאָה תְּאֵנָה וְאָמַר ״כַּמָּה נָאָה תְּאֵנָה זוֹ, בָּרוּךְ הַמָּקוֹם שֶׁבְּרָאָהּ״ — יָצָא, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: כׇּל הַמְשַׁנֶּה מִמַּטְבֵּעַ שֶׁטָּבְעוּ חֲכָמִים בִּבְרָכוֹת — לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. נֵימָא רַב הוּנָא דְּאָמַר כְּרַבִּי יוֹסֵי, וְרַבִּי יוֹחָנָן דְּאָמַר כְּרַבִּי מֵאִיר?!

Vamos dizer (neima) que essa disputa é como uma disputa entre tannaim anteriores, numa baraita: viu pão e disse: "como é bela (naê) esta broa de pão, bendito o Lugar (Hamacom) que a criou" — cumpriu sua obrigação, mesmo sem usar a fórmula fixa "hamotzi". Viu uma figueira e disse: "como é bela esta figueira, bendito o Lugar que a criou" — cumpriu sua obrigação; estas são as palavras de Rabi Meir. Rabi Yossi diz: todo aquele que muda da cunhagem (matbêa) que os sábios cunharam (tavu) nas bênçãos não cumpre sua obrigação (a fórmula espontânea de louvor não substitui a fórmula fixa). A Guemará propõe: vamos dizer que Rav Huna, que exclui pão e vinho de "shehacol", concorda com Rabi Yossi (que exige a fórmula fixa), e Rabi Yochanan, que inclui pão e vinho em "shehacol", concorda com Rabi Meir (que aceita fórmulas alternativas de louvor)?!

Nota

A Guemará tenta ancorar a disputa amoraica numa disputa tanaítica paralela: Rabi Meir aceita que uma expressão espontânea de louvor a D'us, ao ver um alimento, substitua a fórmula fixa da bênção; Rabi Yossi exige estritamente a fórmula que os sábios cunharam. A proposta é equiparar Rav Huna a Rabi Yossi (rigor quanto à fórmula) e Rabi Yochanan a Rabi Meir (flexibilidade), mas essa equiparação será desfeita nos dois trechos seguintes.

4Diz-te Rav Huna: eu digo mesmo conforme Rabi Meir, pois este só falou onde não se menciona o nome do pão; mas onde se menciona o nome do pão, mesmo Rabi Meir concorda
Bavli · 40b — Guemará
אָמַר לָךְ רַב הוּנָא: אֲנָא דַּאֲמַרִי אֲפִילּוּ לְרַבִּי מֵאִיר, עַד כָּאן לָא קָאָמַר רַבִּי מֵאִיר הָתָם, אֶלָּא הֵיכָא דְּקָא מַדְכַּר שְׁמֵיהּ דְּפַת, אֲבָל הֵיכָא דְּלָא קָא מַדְכַּר שְׁמֵיהּ דְּפַת אֲפִילּוּ רַבִּי מֵאִיר מוֹדֶה.

Diz-te Rav Huna em sua defesa: eu afirmo minha posição mesmo que ela concorde com Rabi Meir e não haja contradição alguma; até aqui Rabi Meir só disse que a expressão espontânea vale ali (no caso da baraita) onde a pessoa menciona (madkar) o nome (shmeih) do pão explicitamente ("como é bela esta pão"); mas onde não menciona o nome do pão (dizendo apenas "shehacol", sem nomear o pão especificamente), mesmo Rabi Meir concorda que não cumpre, pois "shehacol" é fórmula genérica demais para cobrir algo tão específico e central quanto o pão — logo, minha posição de excluir pão e vinho de "shehacol" não contradiz Rabi Meir.

Nota

Rav Huna refuta a tentativa de equipará-lo a Rabi Yossi: sua posição de que "shehacol" não cobre pão e vinho é compatível até com a visão mais flexível de Rabi Meir, pois este só validou expressões alternativas quando mencionam explicitamente o alimento em questão ("como é bela esta pão"), não a fórmula totalmente genérica "shehacol", que não nomeia nada especificamente.

5E Rabi Yochanan diz-te: eu digo mesmo conforme Rabi Yossi, pois este só falou por causa de bênção que os sábios não instituíram; mas quem disse "shehacol", que os sábios instituíram, mesmo Rabi Yossi concorda
Bavli · 40b — Guemará
וְרַבִּי יוֹחָנָן אָמַר לָךְ: אֲנָא דַּאֲמַרִי אֲפִילּוּ לְרַבִּי יוֹסֵי, עַד כָּאן לָא קָאָמַר רַבִּי יוֹסֵי הָתָם אֶלָּא מִשּׁוּם דְּקָאָמַר בְּרָכָה דְּלָא תַּקִּינוּ רַבָּנַן, אֲבָל אָמַר ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״ דְּתַקִּינוּ רַבָּנַן, אֲפִילּוּ רַבִּי יוֹסֵי מוֹדֶה.

E Rabi Yochanan diz-te em sua defesa: eu afirmo minha posição mesmo que ela concorde com Rabi Yossi e não haja contradição alguma; até aqui Rabi Yossi só disse que não cumpre a obrigação ali (no caso da baraita) por causa de que a pessoa disse uma bênção que os sábios não instituíram (takinu) (a expressão espontânea "bendito o Lugar que a criou"); mas quem disse "que tudo veio a ser por Sua palavra (shehacol nihyê bidvaro)", que os sábios também instituíram como fórmula fixa de bênção, mesmo Rabi Yossi concorda que cumpre a obrigação, mesmo para pão e vinho — pois minha posição de incluir pão e vinho em "shehacol" não contradiz Rabi Yossi, já que "shehacol" também é uma fórmula fixada pelos sábios, e não uma invenção pessoal.

Nota

Rabi Yochanan, por sua vez, refuta a equiparação com Rabi Meir: sua posição de que "shehacol" cobre até pão e vinho é compatível com a visão mais rigorosa de Rabi Yossi, pois este só invalidou fórmulas de louvor espontâneas e não instituídas pelos sábios; "shehacol", ao contrário, é ela própria uma fórmula fixada pelos sábios, ainda que genérica — logo, seu uso satisfaz até o padrão de Rabi Yossi.

Binyamin, o pastor: bênção sem o Nome · בְּרִיךְ מָרֵיהּ דְּהַאי פִּיתָּא

6Binyamin, o pastor, embrulhou pão e disse: "bendito o dono deste pão"; disse Rav: cumpriu; mas não disse Rav que toda bênção sem menção do Nome não é bênção? Porque disse "bendito o Misericordioso, dono deste pão"
Bavli · 40b — Guemará
בִּנְיָמִין רָעֲיָא כְּרַךְ רִיפְתָּא, וַאֲמַר: ״בְּרִיךְ מָרֵיהּ דְּהַאי פִּיתָּא״. אָמַר רַב: יָצָא. וְהָאָמַר רַב: כׇּל בְּרָכָה שֶׁאֵין בָּהּ הַזְכָּרַת הַשֵּׁם אֵינָהּ בְּרָכָה! דְּאָמַר: ״בְּרִיךְ רַחֲמָנָא מָרֵיהּ דְּהַאי פִּיתָּא״.

Binyamin, o pastor (raiá), embrulhou (karach) um pedaço de pão (riftá) e o comeu, sem cerimônia, e disse em aramaico: "bendito (brich) seja o dono (mareih) deste pão (pitá)". Disse Rav: cumpriu sua obrigação de bênção, apesar de sua fala simples e leiga. A Guemará objeta: mas não disse Rav em outro lugar que toda bênção que não tenha nela menção do Nome (hazcarat hashem) de D'us não é bênção válida? E aqui, "o dono deste pão" não menciona explicitamente o Nome! A Guemará responde: isso se resolve porque, na verdade, Binyamin disse: "bendito seja o Misericordioso (Rachmaná), dono deste pão" — e "Rachmaná" é, em aramaico, uma menção válida do Nome de D'us.

Nota

O episódio de Binyamin, o pastor — um homem simples, sem formação de estudioso — que abençoou o pão em aramaico coloquial, é usado para validar bênçãos ditas em linguagem popular, desde que cumpram os requisitos formais. A objeção de que sua fórmula não mencionava o Nome divino, contradizendo o próprio princípio de Rav, é resolvida ao esclarecer que ele de fato disse "Rachmaná" (o Misericordioso), termo aramaico reconhecido como menção válida do Nome.

7Mas não precisamos de três bênçãos? O que "cumpriu" quer dizer, que Rav disse — também cumpriu a primeira bênção
Bavli · 40b — Guemará
וְהָא בָּעֵינַן שָׁלֹשׁ בְּרָכוֹת? מַאי ״יָצָא״ דְּקָאָמַר רַב — נָמֵי יָצָא יְדֵי בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה.

A Guemará objeta ainda: mas não precisamos na bênção do alimento, depois de comer pão, de três bênçãos (as três bênçãos da Birkat Hamazon)? Como pode uma frase tão simples cumprir toda a obrigação? A Guemará responde: o que significa "cumpriu" que Rav disse — quer dizer que ele também cumpriu apenas a obrigação da primeira bênção (birkat rishoná) (a bênção "Hazan", que agradece pelo sustento; as demais bênçãos da Birkat Hamazon ainda precisariam ser ditas à parte).

Nota

A Guemará esclarece que o "cumpriu" de Rav se refere apenas à primeira das três bênçãos da Birkat Hamazon (a bênção que agradece pelo sustento), não a todas as três — evitando a implicação exagerada de que uma frase tão simples bastaria para toda a obrigação pós-refeição.

8Que vem ensinar-nos? Que mesmo dita em língua comum é válida
Bavli · 40b — Guemará
מַאי קָמַשְׁמַע לַן? אַף עַל גַּב דַּאֲמָרָהּ בִּלְשׁוֹן חוֹל.

A Guemará pergunta: o que este relato vem ensinar-nos (ka mashma lan) — por que precisaríamos ouvir sobre esse episódio? Ensina-nos que a bênção cumpre sua obrigação apesar de (af al gav) tê-la dito em língua (lashon) comum (chol) — isto é, em aramaico coloquial, e não na língua sagrada do hebraico.

Nota

A Guemará explica o propósito de citar o episódio de Binyamin: demonstrar que a bênção do sustento é válida mesmo dita em língua comum (aramaico), não exigindo o hebraico sagrado.

9Mas já aprendemos isso: e estas se dizem em qualquer língua; era necessário para não dizer que só quando os sábios instituíram em língua comum, mas não o contrário
Bavli · 40b — Guemará
תְּנֵינָא: וְאֵלּוּ נֶאֱמָרִים בְּכָל לְשׁוֹן: פָּרָשַׁת סוֹטָה, וִידּוּי מַעֲשֵׂר, קְרִיאַת שְׁמַע, וּתְפִלָּה, וּבִרְכַּת הַמָּזוֹן. אִצְטְרִיךְ: סָלְקָא דַעְתָּךְ אָמֵינָא, הָנֵי מִילֵּי דַּאֲמָרָהּ בִּלְשׁוֹן חוֹל כִּי הֵיכִי דְּתַקִּינוּ רַבָּנַן בִּלְשׁוֹן קֹדֶשׁ, אֲבָל לֹא אֲמָרָהּ בִּלְשׁוֹן חוֹל כִּי הֵיכִי דְּתַקִּינוּ רַבָּנַן בִּלְשׁוֹן קֹדֶשׁ, אֵימָא לָא. קָא מַשְׁמַע לַן.

A Guemará objeta: já aprendemos (tenina) isso numa mishná: e estas se dizem em qualquer língua (bechol lashon): a seção (parashat) da Sotá (a mulher suspeita de adultério), a confissão (vidui) do dízimo (maasser), a leitura do Shemá, a Tefilá (a Amidá), e a bênção do sustento (Birkat Hamazon) — logo, já sabíamos que a Birkat Hamazon pode ser dita em qualquer língua! A Guemará responde: o relato de Binyamin era necessário (itztrich) mesmo assim, pois poderia entrar em teu pensamento (salká datach amina) eu dizer: estas coisas ditas na mishná valem apenas quando a pessoa a disse em língua comum tal como (ki heichi) os sábios a instituíram em língua sagrada (seguindo exatamente a mesma formulação, apenas traduzida); mas se não a disse em língua comum tal como os sábios a instituíram em língua sagrada (usando palavras livres, como fez Binyamin, sem seguir a fórmula fixa traduzida), diria-se que não cumpre. O relato de Binyamin vem ensinar-nos que, mesmo assim, cumpre.

Nota

A Guemará questiona a necessidade do episódio de Binyamin, já que uma mishná lista explicitamente a Birkat Hamazon entre as declarações que podem ser ditas em qualquer língua. A resposta distingue dois níveis: a mishná permitiria apenas uma tradução literal e fiel da fórmula fixa; o episódio de Binyamin ensina que mesmo uma formulação livre e popular, desde que mantenha os requisitos essenciais (como a menção do Nome), é válida.

Nome e Realeza na bênção · הַזְכָּרַת הַשֵּׁם וּמַלְכוּת

10A coisa em si: disse Rav: toda bênção sem menção do Nome não é bênção; Rabi Yochanan: toda bênção sem menção da Realeza não é bênção; disse Abaiê: parece conforme Rav, pela baraita sobre "não transgredi... nem esqueci"
Bavli · 40b — Guemará
גּוּפָא. אָמַר רַב: כׇּל בְּרָכָה שֶׁאֵין בָּהּ הַזְכָּרַת הַשֵּׁם — אֵינָהּ בְּרָכָה. וְרַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: כׇּל בְּרָכָה שֶׁאֵין בָּהּ מַלְכוּת אֵינָהּ בְּרָכָה. אָמַר אַבָּיֵי: כְּווֹתֵיהּ דְּרַב מִסְתַּבְּרָא, דְּתַנְיָא: ״לֹא עָבַרְתִּי מִמִּצְוֹתֶיךָ וְלֹא שָׁכָחְתִּי״: לֹא עָבַרְתִּי — מִלְּבָרֶכְךָ, וְלֹא שָׁכָחְתִּי — מִלְּהַזְכִּיר שִׁמְךָ עָלָיו. וְאִילּוּ מַלְכוּת לָא קָתָנֵי.

Voltando à própria questão (gufá) mencionada de passagem acima: disse Rav: toda bênção que não tenha nela menção do Nome não é bênção válida. E Rabi Yochanan disse: toda bênção que não tenha nela menção da Realeza (malchut) (isto é, "Rei do universo") não é bênção válida. Disse Abaiê: parece (mistabra) que a halachá é conforme Rav, pois foi ensinado numa baraita, sobre o versículo da confissão do dízimo: "não transgredi (avarti) de Teus mandamentos, e não esqueci (shachachti)" (Devarim 26:13): "não transgredi" — quer dizer que não deixei de Te abençoar (mil'varechecha) antes de separar o dízimo; "e não esqueci" — quer dizer que não deixei de mencionar Teu Nome sobre essa bênção. Mas quanto à menção da Realeza, a baraita não ensina nada, o que sugere que ela não é indispensável.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
ידי ברכה ראשונה – ברכת הזן: מלברכך – ברוך אשר קדשנו במצותיו וצונו להפריש תרומה ומעשר:

"Cumpriu apenas a obrigação da primeira bênção" — refere-se à bênção "Hazan" (que agradece pelo sustento, primeira das três bênçãos da Birkat Hamazon). "De Te abençoar" — isto é, a bênção "bendito és Tu que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste separar terumá e dízimo (maasser)".

Nota

A Guemará retoma, de forma independente, a disputa entre Rav e Rabi Yochanan sobre os elementos essenciais de toda bênção: para Rav, a menção explícita do Nome divino é indispensável; para Rabi Yochanan, é a menção da Realeza ("Rei do universo") que não pode faltar. Abaiê sustenta a posição de Rav com base na baraita sobre a confissão do dízimo, que menciona a bênção e a menção do Nome antes de separar o dízimo, mas nada diz sobre a Realeza — sugerindo, por omissão, que esta não seria estritamente necessária.

11E Rabi Yochanan ensina: "e não esqueci" — de mencionar Teu Nome e Tua Realeza sobre ela
Bavli · 40b — Guemará
וְרַבִּי יוֹחָנָן תָּנֵי: ״וְלֹא שָׁכָחְתִּי״ — מִלְּהַזְכִּיר שִׁמְךָ וּמַלְכוּתְךָ עָלָיו.

E Rabi Yochanan ensina (tanei) a mesma baraita de outra forma, incluindo a Realeza: "e não esqueci" — quer dizer que não deixei de mencionar Teu Nome e Tua Realeza (malchutcha) sobre essa bênção — de modo que, segundo sua versão da baraita, a Realeza também é mencionada explicitamente, sustentando sua própria posição.

Nota

Rabi Yochanan responde à prova de Abaiê apresentando uma versão diferente da mesma baraita, na qual a cláusula "e não esqueci" inclui tanto o Nome quanto a Realeza — preservando, assim, sua própria exigência de que toda bênção válida mencione também a soberania divina. A disputa permanece sem resolução textual definitiva neste ponto, dependendo da versão correta da baraita.

מַתְנִיתִין — עַל דָּבָר שֶׁאֵין גִּדּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ

Nova Mishná: a fórmula "shehacol" para o que não cresce da terra, o vinagre, as novelot e os gafanhotos

12Mishná: sobre coisa cujo crescimento não é da terra, diz-se "shehacol"; sobre vinagre, novelot e gafanhotos, diz-se "shehacol"; Rabi Yehudá: sobre tudo que é espécie de maldição não se abençoa
Bavli · 40b — Mishná
וְעַל דָּבָר שֶׁאֵין גִּדּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ אוֹמֵר ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״. עַל הַחוֹמֶץ וְעַל הַנּוֹבְלוֹת וְעַל הַגּוֹבַאי, אוֹמֵר ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: כֹּל שֶׁהוּא מִין קְלָלָה אֵין מְבָרְכִין עָלָיו.

E sobre coisa cujo crescimento (gidulo) não é da terra, diz-se "que tudo veio a ser por Sua palavra (shehacol nihyê bidvaro)" (pois essa fórmula genérica cobre também alimentos de origem animal, não vegetal). Sobre o vinagre (chometz), e sobre as novelot (um tipo de fruto ou produto de qualidade inferior, a esclarecer na Guemará), e sobre o gafanhoto (govai) (kosher), diz-se "shehacol" — pois, embora derivados de produtos da terra, sofreram alguma deterioração ou mudança que os afasta da fórmula própria de seu produto original. Rabi Yehudá diz: sobre tudo o que é espécie de maldição (min klalá) não se abençoa de forma alguma — nem mesmo "shehacol", por serem produtos associados a deterioração ou infortúnio.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
מתני' הנובלות – מפרש בגמרא: גובאי – חגבים טהורים: מין קללה – חומץ ונובלות וגובאי על ידי קללה הן באין:

"Mishná: sobre as novelot" — a Guemará explicará logo adiante o que são. "Govai" — gafanhotos puros (kosher). "Espécie de maldição" — o vinagre, as novelot e o govai vêm todos por meio de uma maldição (deterioração ou praga, e não por seu crescimento natural pleno).

Nota

Esta nova mishná trata da fórmula "shehacol" para alimentos que não crescem diretamente da terra (como carne, leite e ovos, detalhados na baraita seguinte), e a estende também a três casos especiais — vinagre, novelot e gafanhotos — que, segundo Rashi, têm em comum a origem em algum tipo de deterioração ou "maldição" (azedamento, apodrecimento prematuro, praga). Rabi Yehudá discorda quanto a esses três casos, sustentando que produtos associados a maldição não recebem bênção alguma.

13Se havia diante dele muitas espécies: Rabi Yehudá — se entre elas há espécie das sete, abençoa sobre ela; os sábios: abençoa sobre qual delas quiser
Bavli · 40b — Mishná
הָיוּ לְפָנָיו מִינִין הַרְבֵּה, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אִם יֵשׁ בֵּינֵיהֶן מִין שִׁבְעָה — עָלָיו הוּא מְבָרֵךְ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: מְבָרֵךְ עַל אֵיזֶה מֵהֶן שֶׁיִּרְצֶה.

Continua a mishná com outro caso: havia diante dele muitas espécies (minin) de alimentos vegetais, cada uma exigindo sua própria bênção prévia; Rabi Yehudá diz: se há entre elas uma espécie das sete (as sete espécies pelas quais a Terra de Israel é elogiada — Devarim 8:8), abençoa sobre ela primeiro, dando-lhe prioridade. E os sábios dizem: abençoa sobre qual delas quiser (sem prioridade fixa entre as espécies).

Nota

Esta última cláusula da mishná trata da ordem de prioridade quando várias espécies de alimentos vegetais estão à mesa: Rabi Yehudá dá precedência às sete espécies pelas quais a Terra de Israel é louvada; os sábios não estabelecem ordem fixa, deixando a escolha livre. Este ponto específico não é desenvolvido na Guemará imediatamente seguinte, que passa a tratar da primeira cláusula da mishná.

A Guemará da nova Mishná: identificando as novelot · מַאי נוֹבְלוֹת

14Ensinaram os sábios: sobre coisa cujo crescimento não é da terra, como carne de behemot, chayot, aves e peixes, diz-se "shehacol"; sobre leite, ovos e queijo, "shehacol"; sobre pão mofado, vinho azedo e prato deteriorado, "shehacol"; sobre sal, zamit, trufas e cogumelos, "shehacol"; mas trufas e cogumelos não são produtos da terra?
Bavli · 40b — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: עַל דָּבָר שֶׁאֵין גִּדּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ, כְּגוֹן בְּשַׂר בְּהֵמוֹת חַיּוֹת וְעוֹפוֹת וְדָגִים אוֹמֵר ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״. עַל הֶחָלָב וְעַל הַבֵּיצִים וְעַל הַגְּבִינָה אוֹמֵר ״שֶׁהַכֹּל״. עַל הַפַּת שֶׁעִפְּשָׁה, וְעַל הַיַּיִן שֶׁהִקְרִים, וְעַל הַתַּבְשִׁיל שֶׁעִבֵּר צוּרָתוֹ אוֹמֵר ״שֶׁהַכֹּל״. עַל הַמֶּלַח וְעַל הַזָּמִית וְעַל כְּמֵהִין וּפִטְרִיּוֹת אוֹמֵר ״שֶׁהַכֹּל״. לְמֵימְרָא דִּכְמֵהִין וּפִטְרִיּוֹת לָאו גִּדּוּלֵי קַרְקַע נִינְהוּ? וְהָתַנְיָא הַנּוֹדֵר מִפֵּירוֹת הָאָרֶץ — אָסוּר בְּפֵירוֹת הָאָרֶץ, וּמוּתָּר בִּכְמֵהִין וּפִטְרִיּוֹת, וְאִם אָמַר ״כׇּל גִּדּוּלֵי קַרְקַע עָלַי״ — אָסוּר אַף בִּכְמֵהִין וּפִטְרִיּוֹת.

Inicia-se a Guemará da nova mishná: ensinaram os rabanan numa baraita: sobre coisa cujo crescimento não é da terra, como por exemplo (kegon) carne de behemot (animais domésticos), chayot (animais selvagens), aves e peixes, diz-se "shehacol". Sobre o leite, e sobre os ovos, e sobre o queijo, diz-se "shehacol". Sobre o pão que mofou (ipshá), e sobre o vinho que azedou (hikrim), e sobre o prato cozido (tavshil) que mudou (ivêr) sua forma (tzurato) (estragou-se, ficando irreconhecível), diz-se "shehacol". Sobre o sal, e sobre o zamit (um tipo de tempero ou molho, a identificar), e sobre trufas (kemehin) e cogumelos (pitriot), diz-se "shehacol". A Guemará questiona: é razoável dizer (lemeimrá) que trufas e cogumelos não são produtos que crescem do solo (gidulei karka) — visto que a baraita os agrupa entre coisas cujo crescimento não é da terra? Mas não foi ensinado numa outra baraita: quem faz voto (hanoder) de se abster de frutos da terra (por juramento) — fica proibido quanto aos frutos da terra, mas permitido (mutar) quanto a trufas e cogumelos (implicando que estes não se classificam como "frutos da terra"); mas se disse "que me sejam proibidos todos os produtos (gidulei) que crescem do solo (karka)" — fica proibido mesmo quanto a trufas e cogumelos (implicando que estes, sim, crescem do solo, ainda que não sejam tecnicamente "frutos da terra")! Há, portanto, uma contradição implícita: as trufas e cogumelos crescem, ou não, do solo?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
גמ' שהקרים – בוטי"ר בלע"ז:

"Vinho que azedou (shehikrim)" — em francês antigo, "boutir" (azedar, talhar, como manteiga rançosa).

Nota

A baraita detalha a categoria de "coisa cujo crescimento não é da terra" (carnes, leite, ovos, queijo) e a estende a alimentos vegetais que sofreram deterioração (pão mofado, vinho azedo, comida estragada), além de sal, zamit, trufas e cogumelos. A Guemará levanta uma dificuldade: a inclusão de trufas e cogumelos nesta lista sugere que eles não crescem do solo, mas uma baraita sobre votos de abstinência de frutos da terra parece sugerir o contrário — que eles crescem do solo, embora não sejam classificados como "frutos da terra" propriamente ditos. Essa aparente tensão é resolvida no trecho seguinte por Abaiê.

15Disse Abaiê: crescem em abundância da terra, mas não sugam da terra
Bavli · 40b — Guemará
אָמַר אַבָּיֵי: מִירְבָּא רָבוּ מֵאַרְעָא, מֵינָק לָא יָנְקִי מֵאַרְעָא.

Disse Abaiê: trufas e cogumelos, quanto a crescer em abundância (mirba ravu), crescem sim da terra (ar'a) — e por isso "crescem do solo" no sentido amplo, ficando proibidos por um voto genérico; mas quanto a sugar (meinak), não sugam (yanki) da terra — pois não têm raízes que absorvam nutrientes diretamente do solo como as demais plantas, e por isso não se classificam tecnicamente como "frutos da terra".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
מירבא רבו מארעא – מלחלוחית הארץ הם גדלים על העצים ועל הכלים:

"Quanto a crescer em abundância, crescem da terra" — isto é, crescem a partir da umidade (lachluchit) da terra, ainda que apareçam, na prática, sobre as árvores e sobre os utensílios (recipientes de madeira e afins, e não diretamente enraizados no chão).

Nota

Abaiê resolve a tensão distinguindo dois sentidos de "crescer da terra": trufas e cogumelos absorvem sua umidade e nutrição a partir do solo por difusão indireta (mesmo brotando sobre madeira ou outros materiais), mas não possuem raízes próprias que "sugam" diretamente do solo como as plantas comuns. Por isso podem ser chamados de "produtos que crescem do solo" em sentido amplo (relevante para o voto), mas não se qualificam como "frutos da terra" na acepção técnica das bênçãos.

16Mas não foi ensinado "sobre coisa cujo crescimento não é da terra"? Ensina: sobre coisa que não suga da terra
Bavli · 40b — Guemará
וְהָא ״עַל דָּבָר שֶׁאֵין גִּדּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ״ קָתָנֵי! תְּנִי: עַל דָּבָר שֶׁאֵין יוֹנֵק מִן הָאָרֶץ.

A Guemará objeta ainda: mas não foi ensinado (katanei) na baraita original a expressão "sobre coisa cujo crescimento (gidulo) não é da terra" — o que sugere que trufas e cogumelos simplesmente não crescem da terra, contradizendo a distinção de Abaiê? A Guemará responde: ensina (tenei) a baraita, com uma correção textual leve: sobre coisa que não suga (yonek) da terra — alinhando o texto da baraita com a distinção precisa de Abaiê entre "crescer" (em sentido amplo) e "sugar" (absorver diretamente pelas raízes).

Nota

A Guemará ajusta a formulação exata da baraita para harmonizá-la com a distinção de Abaiê: em vez de "cujo crescimento não é da terra", a expressão correta seria "que não suga da terra", preservando a coerência entre as duas fontes.

17"E sobre as novelot": o que são novelot? Rabi Zeira e Rabi Ilá: um diz — frutas cozidas pelo sol; outro diz — tâmaras derrubadas pelo vento
Bavli · 40b — Guemará
וְעַל הַנּוֹבְלוֹת: מַאי נוֹבְלוֹת? רַבִּי זֵירָא וְרַבִּי אִילְעָא. חַד אָמַר: בּוּשְׁלֵי כַמְרָא. וְחַד אָמַר: תַּמְרֵי דְזִיקָא.

Voltando à mishná: "e sobre as novelot". A Guemará pergunta: o que são novelot? Há uma disputa entre Rabi Zeira e Rabi Ilá. Um diz: são bushlei chamra (frutos, provavelmente figos, "cozidos" ou amadurecidos em excesso pelo calor do sol, até secarem prematuramente). E o outro diz: são tamrei dezika (tâmaras derrubadas antes do tempo pelo vento).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
בושלי כמרא – כמו שרופי חמה שבשלם ושרפם החום ויבשו ותמרים הם. כמרא חום כמו מכמר בשרא (פסחים דף נח.): תמרי דזיקא – שהרוח משירן:

"Bushlei chamra" — isto é, como frutos queimados pelo sol (chamá), que o calor cozinhou e ressecou, e são tâmaras (especificamente); "chamra" tem o sentido de calor, como na expressão "esquenta (mechamer) a carne" (Pessachim 58a). "Tamrei dezika" — isto é, tâmaras que o vento (rucha) derruba (mashiran) prematuramente, antes de amadurecerem por completo.

Nota

A Guemará busca a identidade exata das "novelot" mencionadas na mishná, com uma disputa entre Rabi Zeira e Rabi Ilá: para um, trata-se de tâmaras ressecadas prematuramente pelo calor excessivo do sol; para o outro, de tâmaras derrubadas do pé antes do tempo pelo vento — ambas variedades de fruto de qualidade inferior por não terem completado seu amadurecimento natural.

18Aprendemos: Rabi Yehudá diz: tudo que é espécie de maldição não se abençoa; está bem para quem diz "bushlei chamra" — por isso as chama "espécie de maldição"; mas para quem diz "tamrei dezika" — que espécie de maldição há nisso?
Bavli · 40b — Guemará
תְּנַן, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: כֹּל שֶׁהוּא מִין קְלָלָה אֵין מְבָרְכִין עָלָיו. בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר בּוּשְׁלֵי כַמְרָא, הַיְינוּ דְּקָרֵי לֵיהּ ״מִין קְלָלָה״, אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר תַּמְרֵי דְזִיקָא — מַאי מִין קְלָלָה?

Aprendemos (tenan) na mishná: Rabi Yehudá diz: tudo o que é espécie de maldição não se abençoa sobre isso, nem mesmo "shehacol". A Guemará examina se essa cláusula favorece uma das duas opiniões: está bem (bishlamá) para quem diz que as novelot são bushlei chamra (frutos ressecados pelo calor excessivo, um dano evidente e fora do padrão natural) — por isso Rabi Yehudá as chama (karei) de "espécie de maldição" (fazendo sentido classificá-las assim); mas para quem diz que são tamrei dezika (meras tâmaras caídas pelo vento, um evento natural e comum) — que espécie de maldição há nisso — por que Rabi Yehudá as consideraria produto de uma "maldição"?

Nota

A Guemará tenta decidir a disputa sobre a identidade das novelot a partir da própria linguagem de Rabi Yehudá, que as chama de "espécie de maldição": essa caracterização se encaixa bem com frutos ressecados de forma anômala pelo calor excessivo, mas é difícil de aplicar a tâmaras que simplesmente caíram pelo vento antes do tempo — um fenômeno natural, sem conotação de maldição.

19Refere-se ao restante (do vinagre e do gafanhoto)
Bavli · 40b — Guemará
אַשְּׁאָרָא.

A Guemará responde, resolvendo a dificuldade anterior: a expressão "espécie de maldição" de Rabi Yehudá refere-se ao restante (ashaará) dos itens da mishná — isto é, ao vinagre e ao gafanhoto, que de fato têm clara conotação de dano ou deterioração — e não necessariamente às tamrei dezika, sobre as quais Rabi Yehudá poderia até discordar.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
אשארא – אחומץ וגובאי פליג ר' יהודה:

"Ao restante" — quer dizer que é sobre o vinagre e o gafanhoto que Rabi Yehudá discorda (considerando-os "espécie de maldição"), independentemente de qual seja a identidade exata das novelot.

Nota

A resposta da Guemará dissocia a expressão "espécie de maldição" de Rabi Yehudá das novelot especificamente, aplicando-a ao restante da lista da mishná — o vinagre e o gafanhoto —, que evidentemente resultam de algum tipo de dano ou deterioração, independentemente de qual das duas identificações das novelot esteja correta.

20Há quem diga: está bem para quem diz "bushlei chamra" — por isso abençoamos sobre elas "shehacol"; mas para quem diz "tamrei dezika" — "shehacol"? deveria abençoar "borê pri ha'etz"!
Bavli · 40b — Guemará
אִיכָּא דְּאָמְרִי: בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר בּוּשְׁלֵי כַמְרָא, הַיְינוּ דִּמְבָרְכִינַן עֲלַיְיהוּ ״שֶׁהַכֹּל״. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר תַּמְרֵי דְזִיקָא, ״שֶׁהַכֹּל״?! ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״ מִבְּעֵי לֵיהּ לְבָרוֹכֵי!

Há quem diga (ika deamri) uma versão diferente desta mesma discussão: está bem para quem diz que as novelot são bushlei chamra (frutos ressecados e deteriorados pelo calor) — por isso faz sentido que abençoamos sobre elas "shehacol" (pois, tendo perdido sua forma e qualidade original, já não merecem a fórmula específica do fruto da árvore); mas para quem diz que são tamrei dezika (tâmaras comuns, apenas caídas antes do tempo, mas ainda intactas e comestíveis como tâmaras normais)por que diríamos "shehacol"?! Deveria (mibaê) abençoar sobre elas a fórmula específica "que cria o fruto da árvore (borê pri ha'etz)" — pois, afinal, continuam sendo tâmaras genuínas, apenas colhidas de outra forma!

Nota

Uma segunda versão da disputa levanta uma dificuldade inversa à anterior: a mishná prescreve "shehacol" para as novelot, o que se harmoniza bem com a visão de que são frutos deteriorados pelo calor (perdendo, assim, sua fórmula própria); mas se forem apenas tâmaras comuns derrubadas pelo vento antes do tempo, permanecendo intactas como fruto, deveriam manter a fórmula específica "borê pri ha'etz" — tornando difícil entender por que a mishná prescreveria "shehacol" para elas.

21Mas quanto às novelot em geral, todos concordam que são bushlei chamra; a disputa é sobre as novelot da tamareira, conforme a mishná dos itens mais leves do demai
Bavli · 40b — Guemará
אֶלָּא, בְּנוֹבְלוֹת סְתָמָא כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דְּבוּשְׁלֵי כַמְרָא נִינְהוּ. כִּי פְּלִיגִי בְּנוֹבְלוֹת תְּמָרָה. דִּתְנַן: הַקַּלִּין שֶׁבַּדְּמַאי: הַשִּׁיתִין, וְהָרִימִּין, וְהָעוּזְרָדִין, בְּנוֹת שׁוּחַ, וּבְנוֹת שִׁקְמָה, וְגוּפְנִין, וְנִצְפָּה, וְנוֹבְלוֹת תְּמָרָה.

A Guemará resolve a contradição entre as duas versões: mas na verdade, quanto às novelot mencionadas de forma indeterminada (setamá) (sem outro qualificativo), todo o mundo (kulei alma) não discorda que são bushlei chamra (frutos ressecados pelo calor, e por isso "shehacol" é claramente correto para elas). Quando Rabi Zeira e Rabi Ilá discordam, é sobre as novelot da tamareira (temará) especificamente — mencionadas à parte, numa outra mishná, pois aprendemos ali: os produtos mais leves (hakalin) quanto ao demai (produto agrícola de origem duvidosa quanto ao dízimo): as frutas de shitin, e rimin, e uzradin, as benot shuach, e benot shikmá, e gufnin, e nitzpá, e as novelot temará (as novelot específicas da tamareira, mencionadas nesta lista de produtos "leves" quanto às leis do demai).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
הקלים שבדמאי – פירוש שהקלו חכמים בדמאי שלהן שהלוקחן מעם הארץ אין צריך לעשרן. אלו הן: השיתין כו' – שאינן חשובים ואין ע"ה חש עליהם מלעשרן:

"Os produtos mais leves quanto ao demai" — isto é, os sábios foram leves (hekelu) quanto ao demai deles, de modo que quem os compra de um am haáretz (pessoa não confiável quanto às leis de dízimo) não precisa separar o dízimo (leasran). E estas são elas: "os produtos de shitin etc." — pois não são produtos importantes, e o am haáretz não se preocupa (chash) em separar o dízimo deles.

Nota

A Guemará harmoniza as duas versões da disputa: quanto às "novelot" mencionadas isoladamente na mishná de Berachot, ambas as opiniões concordam que são frutos deteriorados pelo calor. A verdadeira disputa entre Rabi Zeira e Rabi Ilá diz respeito às "novelot da tamareira" especificamente, mencionadas numa mishná de Demai entre uma lista de produtos agrícolas de menor importância, para os quais os sábios flexibilizaram as exigências de separação do dízimo quando comprados de pessoas não confiáveis nessa área.

22Identificação dos itens da lista: shitin são espécie de figos; rimin são candei; uzradin são tulshei; benot shuach são figos brancos; benot shikmá são duvlei; gufnin são o fim das videiras; nitzpá é a alcaparra; sobre as novelot temará, a mesma disputa de Rabi Ilá e Rabi Zeira
Bavli · 40b — Guemará
שִׁיתִין, אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מִין תְּאֵנִים. רִימִּין — כַּנְדֵי. הָעוּזְרָדִין — טוּלְשֵׁי. בְּנוֹת שׁוּחַ, אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: תְּאֵינֵי חִיוָּרָתָא. בְּנוֹת שִׁקְמָה, אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: דּוּבְלֵי. גּוּפְנִין — שִׁילְהֵי גּוּפְנֵי. נִצְפָּה — פִּרְחָה. נוֹבְלוֹת תְּמָרָה — רַבִּי אִילְעָא וְרַבִּי זֵירָא, חַד אָמַר: בּוּשְׁלֵי כַמְרָא, וְחַד אָמַר: תַּמְרֵי דְזִיקָא.

A Guemará identifica cada item da lista de Demai: shitin — disse Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan: são uma espécie (min) de figos (teenim). Rimin — são candei (um tipo de fruto). Uzradin — são tulshei (nêsperas ou sorvas). Benot shuach — disse Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan: são figos brancos (teinei chivarata). Benot shikmá — disse Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan: são duvlei (frutos do sicômoro). Gufnin — são shilhei gufnei (os últimos cachos, tardios, da videira). Nitzpá — é a pircha (a alcaparra). E quanto às novelot temará (as novelot da tamareira, o último item da lista) — repete-se aqui a mesma disputa já citada: Rabi Ilá e Rabi Zeira — um diz: são bushlei chamra, e o outro diz: são tamrei dezika.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
טולשי – קולמש"י: שילהי גופני – ענבים סתווניות:

"Tulshei" — em francês antigo, "colmesches" (nêsperas). "Shilhei gufnei" — uvas (anavim) tardias, de outono (setavniot).

Nota

A Guemará percorre item por item a lista de produtos "leves" quanto ao demai, identificando cada um com termos correntes da época (a maioria variedades secundárias de figo, além de nêsperas, uvas tardias e alcaparra), e chega ao último item, as novelot temará, sobre o qual repete a mesma disputa entre Rabi Ilá e Rabi Zeira já apresentada anteriormente — confirmando que é exatamente esse item, e não as "novelot" genéricas da mishná de Berachot, o objeto da controvérsia.

23Está bem para quem diz "bushlei chamra" — por isso ensina-se que apenas o duvidoso é isento, mas o certo é obrigado; mas para quem diz "tamrei dezika" — o certo seria obrigado? são coisas abandonadas!
Bavli · 40b — Guemará
בִּשְׁלָמָא לְמַאן דְּאָמַר בּוּשְׁלֵי כַמְרָא — הַיְינוּ דְּקָתָנֵי הַקַּלִּין שֶׁבַּדְּמַאי סְפֵיקָן הוּא דְּפָטוּר, הָא וַדָּאָן — חַיָּיב. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר תַּמְרֵי דְזִיקָא — וַדָּאָן חַיָּיב?! הֶפְקֵרָא נִינְהוּ!

A Guemará examina a mishná de Demai para decidir a disputa: está bem para quem diz que as novelot temará são bushlei chamra (frutos ressecados, um produto agrícola normal, apenas de menor qualidade) — por isso faz sentido que se ensina (katanei) que apenas quando seu status de dízimo é duvidoso (sfeikan) é que o comprador fica isento (patur) de separar o dízimo; mas quando é certo (vadaan) que não foi separado — fica obrigado (chayav) a separá-lo, como qualquer outro produto agrícola normal. Mas para quem diz que são tamrei dezika (tâmaras que meramente caíram pelo vento antes da colheita formal)faria sentido dizer que, mesmo quando é certo que não foram dizimadas, o comprador fica obrigado a separar o dízimo?! Isso não pode ser, pois tais frutos, caídos e não colhidos formalmente pelo dono, são consideradas coisas abandonadas (hefkera) — e produtos abandonados, recolhidos livremente por qualquer um, estão isentos de dízimo, mesmo com certeza!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
הא ודאן – אם ידוע שלא הופרש מהן מעשר:

"Mas quando é certo" — isto é, quando é sabido que o dízimo não foi separado deles.

Nota

A Guemará traz nova evidência da mishná de Demai: esta distingue entre status duvidoso (isento de dízimo) e status certo de não separação (obrigado a dizimar) para os produtos da lista — o que se encaixa bem com a visão de que as novelot temará são frutos regularmente colhidos, apenas de qualidade inferior. Mas se fossem tâmaras meramente caídas pelo vento, e portanto abandonadas (hefker), não deveriam estar sujeitas à obrigação de dízimo mesmo com certeza de não separação, pois produtos hefker são isentos por definição — gerando uma nova dificuldade contra essa segunda opinião.

24Aqui trata-se de quando o dono as juntou em monte, formando eira, conforme Rabi Yitzchak em nome de Rabi Yochanan em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: espigas caídas, esquecidas e o canto do campo que se juntou em monte ficam sujeitos ao dízimo
Bavli · 40b — Guemará
הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן — שֶׁעֲשָׂאָן גּוֹרֶן. דְּאָמַר רַבִּי יִצְחָק אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: הַלֶּקֶט וְהַשִּׁכְחָה וְהַפֵּאָה שֶׁעֲשָׂאָן גּוֹרֶן — הוּקְבְּעוּ לְמַעֲשֵׂר.

A Guemará resolve a dificuldade: aqui, na mishná de Demai, do que (bemai) estamos tratando (askinan)? Trata-se de um caso especial: em que alguém as juntou (asaan) em monte, formando uma eira (goren) (reunindo as tâmaras caídas em um só lugar, como se fossem uma colheita organizada), pois disse Rabi Yitzchak em nome de Rabi Yochanan em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: as espigas caídas (leket), os feixes esquecidos (shichechá), e o canto (peá) do campo — presentes obrigatórios aos pobres, normalmente isentos de dízimo — que alguém juntou em monte, formando uma eira, ficam sujeitos (hukbeu) ao dízimo (pois o ato de empilhá-los como uma colheita formal os torna, aparentemente aos olhos de quem vê, um produto agrícola normal, gerando a obrigação rabínica de dizimar).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 40b
שעשאן גורן – העני או מי שלקטן העמיד מהן ערימת כרי: הלקט והשכחה והפאה – אע"פ שפטורים מן המעשר לקטן עני ועשאן גורן הוקבעו למעשר מדרבנן דמאן דחזי סבר שתבואת קרקעו היא:

"Quando alguém as juntou formando uma eira" — isto é, quando o pobre, ou quem quer que as tenha colhido, formou (heemid) delas um monte (arêmat) de pilha (kri). "As espigas caídas, e o esquecido, e o canto do campo" — apesar de (af al pi) serem isentos do dízimo, se o pobre as colheu e as formou em eira, ficam sujeitos ao dízimo por decreto rabínico (mideravnan), pois quem asnaquela forma pensa (savar) que é a produção (tevuat) normal de seu próprio campo (karkeo) (e, para evitar essa confusão e a impressão de que o dízimo foi omitido, os sábios impuseram a obrigação também sobre esses produtos, uma vez organizados como colheita formal).

Nota

A Guemará resolve a última dificuldade aplicando um princípio independente de Rabi Eliezer ben Yaakov: embora presentes aos pobres (espigas caídas, esquecidos, canto do campo) sejam normalmente isentos de dízimo, os sábios os sujeitaram a essa obrigação quando alguém os organiza formalmente em uma eira — para evitar que pareçam produção agrícola comum não dizimada. O mesmo se aplicaria às tâmaras caídas pelo vento (tamrei dezika): mesmo sendo tecnicamente hefker, se alguém as reúne formalmente em monte, tornam-se sujeitas ao dízimo por essa mesma razão preventiva.

25Há quem diga (o daf termina em aberto; a nova dificuldade é desenvolvida no início de 41a)
Bavli · 40b — Guemará (final do daf; continua em 41a)
אִיכָּא דְּאָמְרִי:

Há quem diga (ika deamri) uma nova versão desta última resolução — mas o daf termina aqui, e o desenvolvimento dessa versão alternativa, com a dificuldade que ela ainda enfrenta (por que, numa das opiniões, a mesma expressão "novelot" seria usada tanto para o fruto isolado quanto, alhures, apenas com a especificação "da tamareira"), prossegue no início do daf seguinte, 41a.

Nota

O daf 40b termina em aberto, no meio de uma segunda tentativa de explicar a relação entre a mishná de Demai e a disputa sobre a identidade das novelot temará. A continuação imediata, no início de 41a, apresenta essa nova versão e uma dificuldade adicional sobre a terminologia empregada nas duas fontes, que permanece sem resolução textual clara naquele ponto ("kashiá").