O daf continua diretamente a série de bênçãos sobre aromas iniciada em 43a, listando plantas e ervas específicas — simlak, cana marinha, narciso de jardim e do campo, violetas, cidra e marmelo — e a fórmula própria para cada uma. Segue uma sequência de ensinamentos de Rav Zutra bar Tovia em nome de Rav: a bênção sobre árvores em flor em Nissan, a prova bíblica de que se abençoa sobre o aroma porque só a alma — e não o corpo — dele desfruta, a promessa de que os jovens de Israel exalarão aroma como o Líbano, o ensinamento de que Deus embelezou a cada um seu próprio ofício, e a medida de luz de tocha e de lua relevante para quem sai à noite. Um ensinamento sobre a superioridade de lançar-se ao fogo a envergonhar publicamente o próximo, ilustrado por Tamar, antecede duas baraitot de Beit Shamai e Beit Hilel sobre a ordem de bênção entre óleo, murta e vinho ao final da refeição — com um episódio de Rav Papa. O daf fecha com a extensa baraita dos seis (ou oito) comportamentos indignos de um talmid chacham, com a discussão detalhada de cada um.
(a Guemará continua a série de plantas aromáticas iniciada em 43a) Disse Rav Guidel em nome de Rav: este (hai) simlak (uma erva aromática, identificada com o jasmim) — abençoa-se sobre ele "Borê atzê vesamim". Disse Rav Chananel em nome de Rav: estas (hanei) canas (chilfei) do mar (deyamá) — abençoa-se sobre elas "Borê atzê vesamim". Disse Mar Zutra: qual (mai) é o versículo (kerá) que fundamenta chamar essas canas de "árvore"? "E ela (vehi) os fez subir (heelatam) ao telhado (hagagá) e os escondeu (vatitmenem) no linho (befishtei) da árvore (haetz)" — versículo sobre Rachav escondendo os espiões no linho, que a tradição identifica com o linho feito dessas mesmas canas, aqui chamadas "árvore" na própria Escritura.
"Simlak" — chamam-no (korin lo) "yasmin" em língua (bilshon) ismaelita (Yishmael), e é uma espécie (min) de erva (esev) que tem (sheyesh bo) três (shalosh) fileiras (shurot) de folhas (alin), uma (zo) acima (lemaalá) da outra (mizo), e três folhas (alin) em cada (lechol) fileira (shurá). "Canas do mar" — perfume (bossem) que chamam (shekorin) "aspik", e é (vehu) a nardo (shibolet nerd), e é feito (veassuy) como (keein) talos (giv'olei) de linho (pishtan), pois (de) encontramos (ashkechan) que talos (giv'olin) são chamados (deikrei) "árvore" (etz).
A Guemará continua a lista de aromas específicos e suas bênçãos, começada no fim de 43a: agora acrescenta o simlak (identificado por Rashi como jasmim) e as "canas do mar" (um tipo de nardo), ambos merecendo "que cria árvores aromáticas". Mar Zutra fundamenta biblicamente por que essas canas, que não são propriamente uma árvore no sentido comum, podem ainda assim receber a bênção de "árvore", citando o versículo sobre Rachav que chama seus talos de "árvore".
Rav Mesharshiá disse: este (hai) narciso (narkom) de jardim (deginunitá) — abençoa-se sobre ele "Borê atzê vesamim"; mas o narciso do campo (dedavrá) — "Borê isvê vesamim" (que cria ervas aromáticas — uma fórmula própria para plantas que não têm caule lenhoso, apenas herbáceo). Disse Rav Sheshet: sobre estas (hanei) violetas (siglei) — abençoa-se sobre elas "Borê isvê vesamim". Disse Mar Zutra: este (hai) que (man) sente o cheiro (morach) de uma cidra (etrogá) ou de um marmelo (chabushá) diz: "Baruch shenatan reiach tov bapeirot" (bendito o que deu bom cheiro aos frutos — uma terceira fórmula, própria para frutos comestíveis cujo aroma se aprecia, distinta das duas fórmulas anteriores, reservadas a plantas cujo propósito principal é o próprio aroma).
"Narkom" — chavatzelet hasharon (o narciso, ou lírio, de Sharon), segundo o Behag (Baal Halachot Guedolot). "Deginunitá" — o que cresce (hagadel) no jardim (baginá). "Siglei" — "violas" em língua estrangeira (bilaaz). "Chabushin" — "codonhos" em língua estrangeira.
A lista de plantas e suas respectivas fórmulas de bênção prossegue, agora com uma distinção nova: o mesmo narciso recebe bênçãos diferentes conforme cresça em jardim cultivado (árvore) ou no campo silvestre (erva). Surge também uma terceira fórmula, específica para frutos comestíveis apreciados também pelo aroma — cidra e marmelo — que não se enquadram nem em "árvores" nem em "ervas" aromáticas, pois seu propósito primário é servir de alimento, não de perfume.
Disse Rav Yehudá: este (hai) que (man) sai (nafek) nos dias (beyomei) de Nissan (Nissan) e vê (vechazei) árvores (ilanei) brotando (demelavlevi), diz: "Bendito (baruch) o que nada (shelo) fez faltar (chisser) em seu mundo (beolamo), e criou (uvará) nele criaturas (beriyot) boas (tovot) e árvores (ilanot) boas, para embelezar-se (lehitna'ot) com elas (bahen) os filhos de Adão (benei adam)" — a bênção anual sobre as árvores em flor, que celebra o renascimento da natureza e sua beleza destinada ao deleite humano. Disse Rav Zutra bar Toviá em nome de Rav: de onde (minayin) se aprende que se abençoa sobre o aroma (hareiach)? Pois se disse (sheneemar): "toda (kol) a alma (haneshamá) louvará (tehalel) a Deus (Yah)" (Salmos 150:6). Qual é (eizehu) a coisa (davar) da qual a alma (haneshamá) desfruta (nehenet) e o corpo (hagguf) não desfruta (ein nehené) dela (mimenu)? Deves dizer (havei omer): é (zeh) o aroma (hareiach) — pois só a alma, e não o corpo, percebe e desfruta do aroma; por isso o versículo que fala do louvor da alma serve de fundamento para a obrigação de abençoar especificamente sobre ele.
"Para embelezar-se" — para desfrutar (lehenot).
Depois da longa lista de aromas específicos, a Guemará introduz duas bênçãos de caráter mais geral: a bênção anual sobre árvores em flor no mês de Nissan, que celebra a renovação da natureza, e o fundamento bíblico da própria obrigação de abençoar sobre aromas em geral — derivado do versículo que atribui à "alma" o louvor a Deus, entendendo que o aroma é justamente aquele prazer que só a alma, e não o corpo físico, é capaz de perceber e desfrutar.
E disse Rav Zutra bar Toviá em nome de Rav: no futuro (atidim) os jovens (bachurei) de Israel darão (sheyitnu) bom cheiro (reiach tov) como o Líbano (kalevanon), pois se disse: "irão (yelchu) seus ramos (yonkotav), e será (vihi) como a oliveira (kazayit) seu esplendor (hodo), e cheiro (vereiach) para ele (lo) como o Líbano" (Oseias 14:7).
"Como o Líbano" — pois (she) se sente o cheiro (merichin) sobre ele (alav) e sobre suas flores (ufrachav) — o monte Líbano era famoso por seus cedros e pela fragrância que deles emanava.
Um ensinamento messiânico breve: aplicando ao povo de Israel a imagem profética de Oseias sobre o florescimento futuro, Rav Zutra bar Tovia promete que os jovens de Israel, na era vindoura, exalarão fragrância comparável à do próprio monte Líbano, célebre por seus cedros aromáticos.
E disse Rav Zutra bar Toviá em nome de Rav: o que (mai) está escrito (dichtiv): "tudo (et hakol) fez (assá) belo (yafeh) a seu tempo (veito)" (Eclesiastes 3:11) — ensina (melamed) que a cada um (shekol echad veechad) o Santo, bendito seja, embelezou (yifá lo) seu ofício (umanuto) a seus próprios olhos (befanav) — isto é, cada pessoa, qualquer que seja sua profissão ou ocupação, ainda que humilde ou pouco valorizada por outros, é levada por Deus a enxergar beleza e satisfação naquilo que faz, permitindo assim que todos os ofícios necessários ao mundo encontrem quem os exerça de bom grado.
"Embelezou a cada um seu ofício" — e mesmo (veafilu) o curtidor (borsi) (ofício malcheiroso e desprezado), é agradável (naeh) a ele seu ofício a seus próprios olhos (beeinav); e fez (veassá) o Santo, bendito seja, assim (kach), para que (shelo) não faltasse (yechsar) ao mundo (haolam) nenhum (umanut) ofício — pois se cada trabalhador enxergasse apenas o desprezo alheio por sua profissão, muitos ofícios essenciais, ainda que humildes, ficariam sem quem os exercesse.
Um ensinamento de sabedoria prática e providencial: Deus fez com que cada pessoa encontrasse satisfação e beleza no próprio ofício, por mais humilde ou desagradável que pareça aos olhos alheios (como o curtidor, cujo trabalho envolve mau cheiro) — garantindo assim que nenhuma das ocupações necessárias à sociedade humana ficasse sem quem a exercesse de boa vontade.
Disse Rav Papá: isso é (hainu) o que dizem (deamrei) as pessoas (inashei): "pendura (telei) para ele (leih) um tronco (korá) por outra coisa (ledavar acher), e ele (veihu) fará (aved) o seu (dideih) — isto é, o velho ditado popular sobre pendurar um tronco de tâmaras diante de um porco, fingindo oferecer-lhe outra coisa, quando na verdade ele mesmo, por instinto próprio, o revolverá no esterco — ilustrando como cada criatura, mesmo sem perceber o motivo alheio, acaba fazendo o que sua própria natureza a leva a fazer.
"Korá" — o broto tenro (rach) que cresce (hagadel) na tamareira (dekel); pendura-o (telei oto) para o porco (lechazir), e ele (vehu) o revolverá (yegalgelenu) no esterco (baashpá), pois (shezo) esse é (hi) seu ofício (umanuto) — o porco, atraído pelo broto pendurado, acaba fazendo o que é próprio de sua natureza, revolver-se na sujeira, independentemente do motivo pelo qual foi ali atraído.
Rav Papa cita um provérbio popular para ilustrar o ensinamento anterior: assim como se pendura uma isca para atrair um porco a um lugar, e ele, uma vez ali, acaba fazendo o que sua natureza o leva a fazer de qualquer modo, também cada pessoa é atraída por Deus a seu próprio ofício, e ali encontra satisfação em exercer aquilo que já lhe é natural, ainda que a atração inicial pareça vir de outro motivo.
E disse Rav Zutra bar Toviá em nome de Rav: a luz de uma tocha (avuká) equivale, para efeito de proteção contra demônios a quem sai à noite, a estarem como (kishnayim) dois; e a luz da lua (yareach), como (kishlosha) três. Foi perguntado (iba'ya lehu) aos sábios: a luz de uma tocha equivale a estarem como dois, incluindo (bahadei) a ela (dideih) mesma (ou seja, uma pessoa com uma tocha equivale a duas pessoas ao todo)? Ou talvez (dilma) a luz de uma tocha equivale a mais dois, além (levar) dela mesma (ou seja, equivale a três pessoas ao todo)? Venha (ta) e ouça (shema) a resposta a partir do que se ensinou sobre a lua: "e a lua, como três" — se dizes (bishlama) que a tocha equivale a dois incluindo a ela mesma — está bem (shapir) (pois então a lua, equivalendo a três incluindo a si mesma, seria uma unidade a mais que a tocha, o que faz sentido, já que a lua ilumina mais); mas (elá) se dizes (imrat) que a tocha equivale a dois além dela mesma (ou seja, três ao todo), então a lua, para ser apenas uma unidade a mais, teria que equivaler a quatro (arbaá) — por que (lemá) me diz o texto apenas três? E não disse (vehaamar) o mestre (mar): a um (leechad) que sai sozinho, o demônio se mostra (nireh) e prejudica (umazik); a dois (lishnayim) que saem juntos, se mostra (nireh) mas não prejudica (veeino mazik); a três (lishloshá), nem sequer (eino nireh) se mostra (kol ikar) de modo algum — isto é, o número exato de pessoas presentes é o que determina o grau de proteção, o que confirma que a contagem deve incluir a própria pessoa. Mas (elá), não (lav) se aprende (shema mina) daqui que a luz de uma tocha equivale a dois, incluindo a ela mesma? Aprende-se (shema mina) daqui, de fato, que é assim.
"Tocha equivale a dois seres humanos (bnei adam)" — quanto à (leinyan) questão de quem sai (hayotze) à noite (balaylá), pois (deamar) disse o mestre (mar): que não saia (al yetzé) ninguém (adam) sozinho (yechidi) à noite. "E a lua equivale a três" — e há (veyesh) distinção (chiluk) entre dois (shnayim) e três (shloshá), como (kedilkaman) se ensinará a seguir. "A um, o demônio se mostra" — o demônio (hashed) se mostra a ele e o prejudica (umazi kolo).
A Guemará passa a tratar de proteção contra demônios para quem sai à noite: a luz de uma tocha equivale, em proteção, à companhia de duas pessoas, e a luz da lua, à de três. A dúvida — se essas contagens incluem a própria pessoa que carrega a luz ou se somam a ela — é resolvida a partir do princípio já conhecido de que o grau de perigo demoníaco decresce progressivamente conforme o número de pessoas presentes (a um, o demônio aparece e causa dano; a dois, aparece mas não causa dano; a três, nem aparece), concluindo-se que a contagem da tocha inclui a própria pessoa.
E disse Rav Zutra bar Toviá em nome de Rav — e há quem diga (veamrei lah), disse Rav Chana bar Bizná em nome de Rabi Shimon Chassidá, e há quem diga, disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: é melhor (noach) para o homem (leadam) que se lance (sheyapil atzmo) dentro (letoch) de uma fornalha (kivshan) de fogo (haesh), e não que (veal) envergonhe (yalbin) o rosto (penei) de seu próximo (chaveiro) em público (barabim). De onde (mena lan) o aprendemos? De Tamar, pois se disse: "ela (hi) está sendo levada (mutzet) etc." (Gênesis 38:25 — quando Tamar, prestes a ser executada por suposta imoralidade, envia discretamente a Yehudá os objetos que provam ser ele o pai, sem denunciá-lo publicamente, preferindo arriscar a própria vida a envergonhá-lo diante de todos).
"Ela está sendo levada, e ela enviou etc." — e eis que (veilu) explicitamente (behedia) ela não disse (lo amerá): "estes (elu) sinais (simanim) são (hem) de Yehudá, e dele (velo) estou (ani) grávida (hará)"; mas (elá) disse apenas: "ao homem (laish) a quem (asher) pertencem (lo) estes (eleh), dele estou grávida" — se ele reconhecer (im yodeh), que reconheça (yodeh); e se não (im lav), serei queimada (eisaref), e não (velo) envergonharei (albin) seu rosto (panav) — preferindo morrer a expor publicamente quem era o verdadeiro pai.
Um dos ensinamentos éticos mais célebres do Talmud: é preferível à própria pessoa lançar-se ao fogo a envergonhar publicamente outra pessoa. O modelo bíblico é Tamar que, prestes a ser condenada à morte por adultério aparente, não denuncia diretamente Yehudá como o verdadeiro pai de seus filhos, mas apenas insinua discretamente, dando-lhe a oportunidade de se reconhecer voluntariamente, disposta a morrer em silêncio caso ele não o fizesse, para não expô-lo à vergonha pública.
Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): trouxeram (hevi'u) diante dele (lefanav) óleo (shemen) e murta (hadas) (ao final da refeição, para lavar as mãos e sentir o aroma) — Beit Shamai diz: abençoa (mevarech) sobre o óleo, e depois (veachar kach) abençoa sobre a murta. E Beit Hilel diz: abençoa sobre a murta, e depois abençoa sobre o óleo. Disse Rabán Gamliel: eu (ani) decidirei (achria) entre as duas opiniões: quanto ao óleo — obtivemos (zachinu) o benefício do seu cheiro (lereicho) e obtivemos o benefício da sua untura (lesichato) (pois se unge as mãos com óleo perfumado); quanto à murta — apenas seu cheiro (lereicho) obtivemos, mas sua untura não obtivemos (lo zachinu) — e por isso, sendo o óleo mais completo em seus benefícios, deve ser abençoado primeiro. Disse Rabi Yochanan: a halachá (halachá) é conforme as palavras (kedivrei) de quem decidiu (hamachria) — isto é, conforme Rabán Gamliel, a favor de Beit Shamai neste caso específico.
"Óleo e murta" — ao final (besof) da refeição (haseudá), óleo para untar (lasuch) as mãos, a fim de remover (lehaavir) a gordura (zohamat) dos alimentos (haochlim), e murta para cheirar (lehariach), como (kemo) já dissemos (sheamarnu). "Eu decidirei" — a favor (letzad) de Beit Shamai. "Obtivemos seu cheiro e sua untura" — como (kegon) o óleo prensado (mishchá kevishá) (perfumado); por isso (hilcach) o óleo é preferível (adif).
Uma nova baraita traz uma disputa sobre a ordem de bênção entre óleo e murta trazidos ao final da refeição: Beit Shamai prioriza o óleo, Beit Hilel prioriza a murta. Rabán Gamliel decide a favor de Beit Shamai, com um raciocínio quantitativo: o óleo proporciona dois benefícios simultâneos — aroma e untura das mãos — enquanto a murta proporciona apenas o aroma; por essa superioridade de benefícios, o óleo é abençoado primeiro. Rabi Yochanan confirma que a halachá segue essa decisão.
Rav Papá chegou de passagem (ikela) à casa (bei) de Rav Huná filho de Rav Iká. Trouxeram (ayto) diante deles (lekamayhu) óleo e murta. Tomou (shekal) Rav Papá e abençoou (bareich) sobre a murta (ahadas) primeiro (bereishá), e depois (vehadar) abençoou sobre o óleo (ashemen) (conforme Beit Hilel, e não conforme a decisão de Rabán Gamliel a favor de Beit Shamai). Disse-lhe Rav Huná: não (lá) entende (savar lah) o mestre (mar) que a halachá é conforme as palavras de quem decidiu (isto é, conforme Beit Shamai, como decidido acima)? Disse-lhe Rav Papá: assim (hachi) disse Rava: a halachá é conforme Beit Hilel (uma tradição diferente da que fixou a halachá conforme o decisor). Mas não (veló) é (hi) assim — a Guemará observa que essa não era a verdadeira razão; para escapulir-se (leishtemutei nafshei) de seu próprio erro é que (hu de) ele agiu (avad) assim — isto é, Rav Papa havia abençoado incorretamente por engano, seguindo o costume comum de Beit Hilel sem se lembrar da halachá decidida, e só depois de questionado inventou essa justificativa para disfarçar o próprio deslize.
"Mas não é assim" — não (lo) disse Rava de fato que a halachá é conforme Beit Hilel; mas (elá) Rav Papá envergonhou-se (achsif) por (lefi) ter errado (shetaá), e livrou-se (vehishmit atzmo) a si mesmo com isso (bechach) — ou seja, inventou uma citação de Rava para não admitir publicamente o próprio erro.
Este episódio ilustra, com honestidade incomum, um deslize do próprio Rav Papa: tendo abençoado por engano na ordem de Beit Hilel (murta antes do óleo), contrária à halachá já fixada conforme Beit Shamai, ao ser corrigido por seu anfitrião ele justifica sua ação citando uma suposta tradição de Rava — mas a Guemará esclarece que essa citação não era verdadeira, e que Rav Papa apenas buscava salvar as aparências diante do próprio erro.
Ensinaram os sábios: trouxeram diante deles óleo e vinho (este é o vinho de depois da refeição, e não o copo de bênção) — Beit Shamai diz: segura (ochez) o óleo na sua direita (bimino) e o vinho (veet hayayin) na sua esquerda (bismolo), abençoa sobre o óleo, e volta (vechozer) e abençoa sobre o vinho. E Beit Hilel diz: segura o vinho na sua direita e o óleo na sua esquerda, abençoa sobre o vinho — "borê perí hagafen" —, e volta e abençoa sobre o óleo — "borê shemen arev" —, e unta-o (vetacho) na cabeça (berosh) do servo (hashamash) — isto é, depois de abençoar o óleo, esfrega-o na cabeça de quem o serviu, aproveitando-o de modo prático. E se (veim) o servo (shamash) é um talmid chacham (talmid chacham), unta-o na parede (bakotel) — e não na sua cabeça, para não perfumá-lo, porque (mipnei she) é indigno (genai) a um talmid chacham sair (latzet) à rua (lashuk) quando (keshehu) está perfumado (mevusam) — pois isso poderia sugerir vaidade ou libertinagem, deselegante para um sábio.
"Óleo e vinho" — este (zehu) é o vinho de depois (sheleachar) da refeição (hamazon), e não (veein) este (zeh) o copo (kos) de bênção (shel berachá) (isto é, não é o copo da birkat hamazon propriamente, mas um vinho servido à parte). "Óleo na sua direita" — porque (lefi) sobre ele (alav) abençoa-se (mevarech) primeiro (techilá). "Abençoa sobre o óleo" — "borê shemen arev". "Volta e abençoa sobre o vinho" — como (kegon) em dia comum (bechol), quando (she) o vinho não é (ein) fixo (kevá) na refeição, e o vinho de "antes da refeição" não o isenta (poter) deste, pois não houve reclinação formal. "E unta-o na cabeça do servo" — a fim de (kedei) que não (shelo) saia (yetzé) o próprio anfitrião com as mãos (besidav) perfumadas (mevusamot) à rua (bashuk), pois (she) é indigno (genai) a um talmid chacham fazê-lo.
Uma segunda baraita trata da ordem entre óleo e vinho (este, o vinho comum de depois da refeição, em dia sem reclinação formal): Beit Shamai prioriza o óleo, Beit Hilel prioriza o vinho — e acrescenta o detalhe prático de untar o óleo restante na cabeça do servente, para que as próprias mãos do anfitrião não saiam perfumadas à rua. Mas se o próprio servente for um sábio, o óleo é untado na parede em vez de em sua cabeça, preservando também a ele da aparência de vaidade — introduzindo o tema seguinte, dos comportamentos indignos de um talmid chacham.
Ensinaram os sábios: seis (shishá) coisas (devarim) são indignas (genai) a um talmid chacham (letalmid chacham): que não (al) saia (yetzé) quando (keshehu) está perfumado (mevusam) à rua (lashuk); e que não saia sozinho (yechidi) à noite (balaylá); e que não saia com sapatos (minalim) remendados (hamtulaim); e que não converse (yesaper) com uma mulher (ishá) na rua; e que não se reclina (yasev) em companhia (bachavurá) de ignorantes (amei haaretz); e que não entre (yikanes) por último (baacharoná) na casa (bevet) de estudo (hamidrash). E há quem diga (veyesh omrim): também (af) que não dê (lo yafsia) passos (pesiá) largos (gassá), e que não caminhe (yehalech) de cabeça (bekomá) erguida (zekufá).
Abre-se aqui a extensa baraita que fecha o daf, listando seis (ou, segundo outra opinião, oito) comportamentos considerados indignos da dignidade de um talmid chacham: sair perfumado ou sozinho à noite, usar calçado remendado em público, conversar com mulher na rua, associar-se a ignorantes da Torá, chegar por último ao bet hamidrash, e — segundo alguns — andar com passos largos ou com a cabeça erguida. A Guemará dedicará as próximas unidades a examinar cada um desses itens em detalhe.
"Que não saia perfumado à rua" (retomando o primeiro item da baraita): disse Rabi Abá filho de Rabi Chiyá bar Abá em nome de Rabi Yochanan: isso se aplica apenas em lugar (bemakom) onde (she) são suspeitos (chashudim) de relações (mishkav) homossexuais (zachur) — pois ali o perfume poderia sugerir que o sábio busca atrair tais atenções indevidas sobre si. Disse Rav Sheshet: não dissemos (lo amran) essa proibição senão (elá) quanto à fragrância impregnada em sua roupa (bevigdo); mas (aval) em seu corpo (begufo) — o suor (zeiá) a dissipa (meavrá leih) — isto é, o perfume aplicado diretamente sobre a pele logo se dissipa com o suor natural, não permanecendo perceptível o tempo suficiente para levantar suspeita. Disse Rav Papá: e seu cabelo (usearo) é equiparado (kevigdo dameh) à roupa (pois retém o perfume por mais tempo, como a roupa); e há quem diga (veamrei lah): é equiparado (kegufo dameh) ao corpo (pois o suor da cabeça também o dissipa).
"Que são suspeitos de relações homossexuais" — homens que praticam tal ato se perfumam (mevasmin atzman) a si mesmos a fim de que (kedei sheyitavu) os desejem (lahem) — por isso, num lugar assim, um sábio perfumado levantaria a mesma suspeita. "E seu cabelo é equiparado à roupa" — pois (dela) não é comum (shechicha) nele (beih) suor (zeiá). "E há quem diga, é equiparado ao corpo" — pois (deshechicha) é comum nele suor.
A Guemará qualifica o primeiro item da baraita: a proibição de sair perfumado só se aplica em lugares onde essa prática poderia sugerir a busca de atenção para relações homossexuais proibidas — não uma proibição absoluta contra qualquer perfume. Distingue-se ainda entre a roupa, que retém o perfume de modo perceptível e por isso é problemática, e o corpo, cujo suor natural dissipa rapidamente a fragrância; quanto ao cabelo, há dúvida se equipara-se à roupa (retendo o perfume) ou ao corpo (dissipando-o pelo suor).
"E que não saia sozinho à noite" — por causa de suspeita (mishum chashada) (de imoralidade ou de outra atividade imprópria). E não dissemos isso senão (elá) quando (dela) não tem (kevia leih) hora (idaná) fixa — isto é, quando não é sabido que ele costuma sair a essa hora por um motivo legítimo e regular; mas (aval) se tem hora fixa — sabe-se (mida yedia) que é para (dele'idaneih) sua hora habitual que (ka) vai (azel) — e, sendo esse costume publicamente conhecido, não há suspeita, e ele pode sair sozinho.
"Por causa de suspeita" — de imoralidade (zenut). "Quando não tem hora fixa" — quando (shelo) seu mestre (rabo) não lhe fixou (kavu lo) um horário (keviut) regular para lhe ensinar (lelamdo) à noite — caso em que sua saída noturna não teria explicação pública conhecida, gerando suspeita.
A qualificação da segunda proibição segue o mesmo padrão da primeira: o problema não é a saída noturna em si, mas a suspeita que ela gera quando não há explicação pública conhecida. Se o sábio tem um horário regular e sabido — por exemplo, para estudar com seu mestre a uma hora fixa da noite — todos sabem o motivo de sua saída, e a suspeita de imoralidade não se levanta.
"E que não saia com sapatos remendados" — isso apoia (mesayeia leih) Rabi Chiyá bar Abá, pois disse Rabi Chiyá bar Abá: é indigno (genai hu) a um talmid chacham sair com sapatos remendados (hamtulaim). Mas (vehá) não (ini) é assim que o próprio Rabi Chiyá bar Abá saía (nafek) com sapatos remendados?! (uma objeção pela própria conduta do transmissor) Disse Mar Zutra filho de Rav Nachman: a proibição refere-se a remendo (tela'i) sobre (al gabei) remendo (tela'i) — vários remendos sobrepostos, mas não um único remendo, que Rabi Chiyá bar Abá de fato usava. E não dissemos isso senão quanto ao remendo na parte de cima (befanta) do sapato; mas (aval) na sola (begildá) — não há problema (leit lan bah) nisso (pois a sola não é visível). E quanto à parte de cima (befanta), não dissemos isso senão a caminho (beorchá) (em público); mas (aval) em casa (beveitá) — não há problema nisso. E não dissemos isso senão nos dias (bimot) de calor (hachamá); mas (aval) nos dias (bimot) de chuva (hageshamim) — não há problema nisso (pois a lama esconde o remendo).
"Panta" — "empenha (anpónia)" em língua estrangeira, que (she) fica sobre (al gabei) o pé (haregel). "Guildá" — o salto (akev), que chamam (shekorin) "sola (shola)". "Nos dias de chuva" — a lama (hatit) o encobre (mechasehu).
O terceiro item recebe uma série de qualificações progressivas: a proibição de sapatos remendados aplica-se apenas a múltiplos remendos sobrepostos (não a um único, que o próprio transmissor da lei usava), apenas ao remendo visível na parte superior do sapato (não na sola), apenas quando se sai em público (não em casa), e apenas em dias secos (pois em dias de chuva a lama disfarça o remendo). O padrão geral dessas qualificações é sempre o mesmo: a preocupação halachica é com a aparência pública de indignidade, não com a pobreza ou o remendo em si.
"E que não converse com uma mulher na rua" — disse Rav Chisdá: e mesmo que (vaafilu) seja (hi) sua esposa (ishto). Ensinou-se (tanya) também (namei) assim (hachi): mesmo que seja sua esposa, e mesmo que seja sua filha (bitó), e mesmo que seja sua irmã (achotó) — pois (lefi) nem todos (ein hakol) são versados (bekiin) em seus parentes (bikrovotav) — isto é, quem passa e o vê conversando com uma mulher na rua não sabe, à primeira vista, que se trata de sua própria esposa, filha ou irmã, e poderia suspeitar de conduta imprópria.
"Mesmo que seja sua esposa" — pois (she) nem todos (ein hakol) a reconhecem (makirin bah), e suspeitam (vechoshdin) dele (oto).
O quarto item é estendido ao extremo: a proibição de conversar com mulher na via pública aplica-se mesmo às parentes mais próximas — esposa, filha, irmã — precisamente porque um observador casual não tem como saber o grau de parentesco, e poderia suspeitar de conduta imprópria. A preocupação, como nos itens anteriores, é sempre com a aparência pública, não com a intenção real do sábio.
"E que não se reclina em companhia de ignorantes" — qual (mai) é o motivo (taamá)? Para que não (dilma) venha (atei) a ser atraído (leimeshochei) atrás (batrayhu) deles — isto é, a convivência íntima e prolongada com pessoas ignorantes da Torá, reclinado junto a elas como em uma refeição de companheirismo, corre o risco de arrastar o sábio, aos poucos, para os hábitos e valores deles, afastando-o do estudo e da conduta próprios de um talmid chacham.
O quinto item recebe uma justificativa simples e direta: o perigo não está em conversar ocasionalmente com ignorantes da Torá, mas em reclinar-se com eles em companhia próxima e prolongada — a convivência típica de uma refeição formal em grupo —, pois essa proximidade sustentada arrisca arrastar o próprio sábio, gradualmente, para os costumes e a negligência espiritual daqueles com quem convive.
"E que não entre por último na casa de estudo" — porque (mishum) o chamam (dekaru leih) de "negligente" (posheia) — isto é, chegar por último ao bet hamidrash, depois de todos os demais já reunidos, dá a impressão pública de desleixo com o estudo da Torá e com a pontualidade devida a essa obrigação, ainda que o sábio tenha um motivo legítimo para o atraso.
"Que o chamam de 'negligente'" — isto é, o consideram preguiçoso (mitatzel).
O sexto item, breve, segue o mesmo princípio dos anteriores: a preocupação não é necessariamente com a substância da conduta, mas com a impressão pública que ela transmite — chegar por último à casa de estudo, mesmo com boa razão, sujeita o sábio à reputação de negligente em relação ao estudo da Torá.
"E há quem diga: também que não dê passos largos" — pois disse o mestre (mar): um passo (pesiá) largo (gassá) tira (notelet) uma (echad) parte em quinhentas (mechamesh meot) da luz (mimeor) dos olhos (einav) do homem (adam). Qual (mai) é seu remédio (takanateih)? Que a restitua (lehadreih) com o vinho de kidush da noite (bevei) de sábado (shimshei) — isto é, o vinho bebido na santificação do sábado, à noite, tem o poder de restaurar essa pequena perda de visão causada pelos passos largos ao longo da semana.
"Com o kidush da noite de sábado" — pois (she) bebe (shote) o copo (kos) de kidush no sábado (beshabat) à noite (balaylá).
Segundo a opinião adicional citada na baraita, também dar passos largos seria indigno de um talmid chacham — e a Guemará fundamenta essa restrição com um ensinamento sobre seus efeitos físicos: cada passo largo custaria uma fração ínfima da visão da pessoa, perda que pode ser restaurada pelo vinho do kidush na noite de sábado, num equilíbrio entre o dano cotidiano e a santidade recuperadora do dia de descanso.
"E que não caminhe de cabeça (bekomá) erguida (zekufá)" — pois disse o mestre: quem caminha (hamehalech) de cabeça erguida, mesmo que (afilu) apenas quatro cúbitos (amot), é como se (keilu) empurrasse (docheak) os pés (raglei) da Presença Divina (Shechiná) — isto é, andar com arrogância e altivez, mesmo por uma curta distância, é como se afastasse à força a própria presença de Deus, que preenche todo o mundo, pois está escrito (dichtiv): "toda (melo) a terra (kol haaretz) está cheia de Sua glória (kevodo)" (Isaías 6:3 — versículo que afirma a onipresença da glória divina, incompatível com o gesto de altivez que nega espaço a ela).
O daf se encerra com o último dos comportamentos indignos: caminhar com a cabeça erguida, gesto de arrogância e orgulho, é equiparado a empurrar fisicamente a Presença Divina, que — segundo o versículo de Isaías citado — preenche toda a terra sem exceção. A imagem enfatiza que a humildade não é apenas uma virtude social desejável, mas uma condição espiritual necessária para não "afastar" o espaço que, teologicamente, já pertence à glória de Deus em toda parte, mesmo no pequeno trecho de quatro cúbitos percorrido por uma única passada.
Ver no Yerushalmi: a bênção sobre o vinho de depois da refeição e sobre o mugmar, tratadas nesta série de halachot sobre aromas, correspondem à mesma Mishná já comentada em Yerushalmi Berachot 6:6.
Ver Yerushalmi Berachot 6:6 →