O daf abre concluindo a resposta, iniciada no fim de 44b, sobre a cláusula da Mishná "e quem bebe água por sua sede": ela vem excluir quem bebe água para desafogar um pedaço de carne entalado na garganta, cuja bênção não é a comum. Segue-se a opinião de Rabi Tarfon, que prescreve a fórmula alongada "borê nefashot rabot vechesronan", e a pergunta prática de Rava bar Rav Chanan a Abaie (ou a Rav Yossef) sobre a halachá, respondida com "vai e vê o que o povo pratica" — encerrando o Perek Ketzad Mevarchin com o hadran. O daf então abre o Perek Shloshá SheAchlu com sua Mishná fundamental sobre o zimún: três que comeram juntos são obrigados a convidar-se mutuamente para a Bênção do Alimento, e a Mishná lista quem se soma ao trio mesmo em casos duvidosos — quem comeu demai, primeiro dízimo já separada sua teruma, segundo dízimo e hekdesh resgatados, o servente que comeu um azeitona, e o samaritano — e quem não se soma — tevel, dízimos não resgatados, mulheres, escravos e menores —, fechando com a medida mínima para se somar ao zimún, disputada entre os sábios e Rabi Yehudá. A Guemará então busca a fonte bíblica do zimún nos versículos "engrandecei ao Eterno comigo" e "porque o Nome do Eterno invocarei, dai grandeza a nosso D'us", e extrai daí também a lei de que quem responde "amém" não deve elevar a voz mais que quem abençoa, e o tradutor não deve elevar a voz mais que o leitor da Torá.
Para excluir aquele a quem (dachanakteih) um pedaço de carne (umtza) sufocou — isto é, a cláusula da Mishná "e quem bebe água por sua sede abençoa 'shehakol'" vem excluir quem bebe água não por sede, mas para se livrar de um pedaço de carne entalado na garganta: sobre essa água não se recita bênção alguma, pois ela serve ali de remédio para desobstruir a garganta, e não de bebida propriamente dita.
Completa-se aqui, no início de 45a, a resposta de Rav Idi bar Avin iniciada no fim de 44b: a cláusula da Mishná sobre "quem bebe água por sua sede" não é redundante, pois vem excluir especificamente quem bebe água para desafogar um pedaço de carne preso na garganta — situação em que a água não é bebida por prazer ou sede, e por isso não recebe a bênção "shehakol".
Rabi Tarfon diz: "Borê nefashot rabot vechesronan" ("que cria numerosas almas e suas carências") — isto é, uma fórmula distinta e mais longa da bênção final, mencionando não apenas as criaturas que D'us criou, mas também aquilo que lhes falta e que Ele supre. Disse-lhe Rava bar Rav Chanan a Abaie, e há quem diga (veamri lah) a Rav Yossef: qual (mai) é a halachá (hilchata) — isto é, qual fórmula da bênção final se deve seguir na prática, entre as várias mencionadas? Disse-lhe: vai (pok) e vê (chazi) o que (mai) o povo (ama) pratica (davar) — isto é, em vez de decidir por raciocínio teórico, observe-se o costume já estabelecido entre o povo, que reflete a tradição prática recebida.
"O que o povo pratica" — como (heich) costumam (noaguim); e já (kevar) costumavam (nahagu) abençoar (levarech) no início (batchilá) "Shehakol" e ao final (ulevasof) "Borê nefashot rabot vechesronan" sobre (al) tudo (kol) o que (mah) Ele criou (shebará).
A pergunta prática de Rava bar Rav Chanan busca fixar qual das fórmulas mencionadas ao longo desta sugya — a simples "borê nefashot rabot" ou a versão alongada de Rabi Tarfon, "vechesronan" — deve ser seguida; a resposta remete ao costume já consolidado do povo, que, segundo Rashi, já praticava a fórmula completa de Rabi Tarfon, unindo as duas bênçãos numa só sequência: "shehakol" antes, "borê nefashot rabot vechesronan" depois, sobre tudo o que D'us criou.
Encerra-se aqui o Perek Ketzad Mevarchin — "Como se abençoa" —, o sexto perek de Massechet Berachot, dedicado às fórmulas de bênção sobre os alimentos, da fruta da árvore ao pão, do vinho aos aromas, culminando nesta extensa discussão sobre a bênção final "borê nefashot".
Três (shloshá) que comeram (sheachlu) juntos (keachat) são obrigados (chayavin) a convidar-se mutuamente (lezamen) — isto é, a formar o zimún, unindo-se numa fórmula introdutória em plural antes da Bênção do Alimento. Comeu (achal) alimento em condição duvidosa quanto aos dízimos, chamado demai, e primeiro dízimo (maasser rishon) cuja teruma (terumato) foi retirada (nitelá), segundo dízimo (maasser sheni) e hekdesh (consagrado ao Templo) que foram resgatados (nifdu), e o servente (hashamash) que comeu (sheachal) do tamanho de uma azeitona (kezait), e o samaritano (hakuti) — convidam-se (mezamnin) por causa dele (alav) — isto é, todas essas pessoas, mesmo em situações duvidosas ou de status especial, contam para compor o número mínimo de três exigido para o zimún.
"Três que comeram etc. convidar-se" — reunir-se (lehizdamen) juntos (yachad) para unir (letzaref) a bênção (berachá) em linguagem (belashon) de plural (rabim), como (kegon) "Nevarech" ("abençoemos"). "Cuja teruma foi retirada" — vem à mente (kas"d) a teruma (terumat) do dízimo (maasser) dele, que (she) cabe (al) ao levita (halevi) separar (lehafrish). "Segundo dízimo que foi resgatado" — para permiti-lo (lehatiro) em comer (baachilá) fora (chutz) de Jerusalém (Yerushalaim), e seu resgate (pidyono) subirá (yaaleh) a Jerusalém e será comido (veyeachel) lá. "E o servente" — que (she) os serviu (shimsham) na refeição (beseudá) e comeu (veachal) com eles (imahem) do tamanho de uma azeitona, para (kedei) se juntar (lehitzataref) com eles ao zimún; e em todos (bechol) esses casos (hanei) foi necessário (itztrich) nos ensinar (leashmoeinu) que, embora (af al gav) se pareçam (dedamu) com proibição (leisur), não há aqui (ein kan) bênção (berachá) em transgressão (baaverá), conforme (kedi) se explica (mefaresh) e prossegue (veazil) na Guemará.
Abre-se aqui, com o hadran do perek anterior, o Perek Shloshá SheAchlu — "Três que comeram" —, dedicado às leis do zimún, a convocação mútua para a Bênção do Alimento em grupo. A Mishná fixa a regra básica (três comensais são obrigados) e lista, em seguida, uma série de casos duvidosos ou de status especial — demai, dízimos já resgatados ou com a teruma retirada, o servente que provou um pouco da refeição, e até o samaritano — que, apesar das aparências, contam plenamente para compor o zimún, pois, como explica Rashi, não há aqui problema de "bênção em transgressão".
Comeu tevel (produto do qual ainda não foram separados teruma nem dízimos), e primeiro dízimo cuja teruma não (shelo) foi retirada, e segundo dízimo e hekdesh que não foram resgatados, e o servente que comeu menos (pachot) do tamanho de uma azeitona, e o gentio (hanochri) — não se convidam por causa dele — isto é, essas pessoas e alimentos não contam para compor o número de três exigido para o zimún. Mulheres (nashim), escravos (avadim) e menores (ketanim) — não se convidam por causa deles — não se juntam a homens para formar o zimún, embora possam formar seu próprio zimún entre si, conforme se discutirá adiante. Até quanto (ad kamá) se convidam (mezamnin) — isto é, qual a quantidade mínima que alguém precisa comer para poder se somar ao trio do zimún? Até o tamanho de uma azeitona (kezait). Rabi Yehudá diz: até o tamanho de um ovo (kebeitzá).
"Até quanto se convidam" — quanto (kamá) deve comer (yochal) com eles (imahem) e se obrigar (veyitchayev) com eles no zimún; e daí decorre (venafka mina) a possibilidade de desobrigá-los (lehotziam) de seu dever (yedei chovatan) se lhe derem (im yitnu lo) o copo (hakos) para abençoar (levarech) — isto é, se essa pessoa comeu a quantidade mínima exigida, ela pode ser designada para recitar a Bênção do Alimento em nome de todos.
A Mishná completa a lista com o lado oposto: tevel, dízimos não resgatados e o gentio não contam para o zimún, pois seu consumo envolve transgressão ou ausência de obrigação; mulheres, escravos e menores tampouco se juntam aos homens, por não compartilharem plenamente da mesma obrigação. Por fim, fixa-se a medida mínima de comida exigida para poder se somar ao trio — uma azeitona segundo os sábios, um ovo inteiro segundo Rabi Yehudá.
Guemará: de onde (mená) essas (hanei) coisas (milei) — isto é, qual é a fonte bíblica da obrigação do zimún? Disse Rav Assi: pois (de) disse o versículo (amar kra): "Engrandecei (gadelu) ao Eterno comigo (iti), e exaltemos (uneromemá) Seu nome (shemo) juntos (yachdav)" (Salmos 34:4) — isto é, Davi convida ao menos duas outras pessoas ("comigo... juntos") a se unirem a ele no louvor, sugerindo um mínimo de três participantes. Rabi Avahu disse: daqui (mehacha): "Porque (ki) o Nome do Eterno invocarei (ekra), dai (havu) grandeza (godel) a nosso D'us (Eloheinu)" (Devarim 32:3) — onde o singular que invoca ("invocarei") pede que os demais ("dai") respondam, sugerindo igualmente a estrutura de três: um que convida e ao menos dois que respondem.
"De onde essas coisas" — que (de) três (shloshá) são aptos (reuyim) para a bênção (berachat) de união (tzeruf). "Engrandecei ao Eterno comigo" — eis (harei) três; e assim (vechen) "invocarei... dai grandeza" — o único (hayachid) diz (omer) a dois (lishnaim).
A Guemará abre a discussão da nova Mishná buscando sua fonte bíblica: Rav Assi encontra no versículo de Tehilim 34 a estrutura de um convite de Davi a pelo menos duas outras pessoas, e Rabi Avahu encontra estrutura equivalente no cântico de Haazinu — em ambos os casos, um indivíduo convocando ao menos dois outros, compondo o mínimo de três exigido para o zimún.
Disse Rav Chanan bar Aba: de onde (minayin) que quem responde (laoneh) "Amém" não deve elevar (shelo yagbiha) sua voz (kolo) mais (yoter) que quem abençoa (min hamevarech) — isto é, quem responde "amém" a uma bênção não deve falar mais alto do que aquele que a proferiu, para não perturbar a ordem e a dignidade do ato — pois se diz (shenneemar): "Engrandecei ao Eterno comigo, e exaltemos Seu nome juntos" — isto é, o verbo "exaltemos", em plural incluindo Davi e os demais, indica que ambos devem falar em igual medida, "juntos", sem que um se sobreponha ao outro.
A Guemará extrai do mesmo versículo uma segunda lei, agora sobre o decoro da resposta "amém": ela deve acompanhar, não sobrepujar, a voz de quem abençoa — leitura sustentada pela palavra "juntos" (yachdav), que sugere igualdade e sincronia, não competição de volume.
Disse Rabi Shimon ben Pazi: de onde (minayin) que o tradutor (hametargem) não tem permissão (reshai) de elevar sua voz mais que o leitor (hakoreh) — isto é, quem traduz a leitura da Torá para o aramaico não deve falar mais alto do que quem lê o texto original? Pois se diz (shenneemar): "Moshé falava (yedaber) e D'us lhe respondia (yaanenu) com voz (bekol)" (Shemot 19:19) — não era necessário (ein talmud lomar) dizer "com voz" — pois já se sabe que D'us respondia; a menção extra da palavra é redundante e vem ensinar algo; então o que (mah) vem ensinar (talmud lomar) "com voz"? Com a voz (bekolo) de Moshé — isto é, D'us respondia na mesma intensidade de voz de Moshé, sem elevá-la além da voz dele, ensinando por analogia que quem responde ou traduz não deve superar em volume a voz de quem fala primeiro.
Uma terceira derivação, agora do relato da revelação no Sinai, estende o mesmo princípio de decoro vocal ao tradutor da leitura pública da Torá: assim como D'us respondia a Moshé na mesma voz dele, também o tradutor deve manter sua voz no mesmo nível da de quem lê, nunca acima.
Também se ensinou (tanya nami) assim (hachi): o tradutor não tem permissão de elevar sua voz mais que o leitor. E se (veim) não for possível (i efshar) ao tradutor (lametargem) elevar sua voz (lehagbiha kolo) contra (keneged) o leitor (por ter voz naturalmente mais fraca) — que o leitor (hakoreh) abaixe (yemaech) sua voz (kolo) e leia (veyikra) — isto é, se o tradutor não conseguir igualar sua voz à do leitor, cabe ao leitor reduzir a própria voz, para que ambos permaneçam no mesmo nível e nenhum se sobreponha ao outro.
Uma baraita confirma e detalha a lei anterior, prevendo o caso prático em que o tradutor não consegue igualar sua voz à do leitor: nesse caso, a solução é o próprio leitor abaixar sua voz, preservando o princípio de equilíbrio entre as duas vozes.
Foi dito (itmar): dois (shnaim) que comeram juntos, discordam (pligi) Rav e Rabi Yochanan — isto é, embora a Mishná exija três para o zimún ser obrigatório, discute-se se dois comensais podem, facultativamente, formar o zimún entre si. Um (chad) disse: se quiseram (ratzu) convidar-se (lezamen) — convidam-se (mezamnin) — isto é, dois podem, se desejarem, recitar a fórmula introdutória do zimún entre si, ainda que não sejam obrigados. E um disse: se quiseram convidar-se — não se convidam — isto é, o zimún exige necessariamente três; dois jamais podem recitá-lo, nem mesmo por vontade própria.
Encerrada a discussão sobre a fonte e as leis de decoro do zimún, a Guemará passa a examinar seu limite mínimo: Rav e Rabi Yochanan discordam sobre se dois comensais podem, facultativamente, formar o zimún entre si, ou se a exigência de três é absoluta, tornando impossível o zimún com apenas dois, mesmo por vontade própria.
Aprendemos (tenan): três que comeram juntos são obrigados a convidar-se. Depreende-se por dedução: três (shloshá) — sim (in) (estão obrigados), dois (shnaim) — não (lo) — isto é, a formulação exata da Mishná parece indicar, por exclusão, que apenas três se convidam, nunca dois, refutando a opinião de que dois podem fazê-lo se quiserem!
A Guemará traz uma primeira objeção contra a opinião mais permissiva: a própria redação da Mishná, ao especificar "três", pareceria excluir por dedução a possibilidade de dois se convidarem, mesmo voluntariamente.
Ali (hatam) (na Mishná) é obrigação (chová), aqui (hacha) (na opinião permissiva) é permissão (reshut) — isto é, a Mishná apenas ensina que três são obrigados ao zimún; ela não vem negar que dois possam fazê-lo facultativamente, pois trata apenas do caso de obrigação, não do de mera permissão.
A resposta neutraliza a objeção, distinguindo entre o que a Mishná obriga (três) e o que ela simplesmente não proíbe (dois, por vontade própria): a Mishná trata apenas da obrigação, deixando em aberto a possibilidade facultativa.
Venha e ouça (ta shema): três que comeram juntos — são obrigados a convidar-se, e não podem (ein rashain) se separar (leichalek) — isto é, uma vez reunidos para comer, não podem se dividir em subgrupos para recitar cada um sua própria bênção, devendo permanecer unidos no zimún. Depreende-se novamente: três — sim, dois — não!
Uma nova baraita é trazida como possível refutação, com a mesma lógica de dedução por exclusão: se apenas o caso de três é mencionado como proibido de se dividir, isso sugeriria que dois nunca estiveram unidos em primeiro lugar, contrariando a opinião permissiva.
Diferente (shani) é ali (hatam), pois (de) já se estabeleceram (kavu lehu) em obrigação (bechová) desde o início (meikara) — isto é, o caso da baraita trata de três que já estavam reunidos e obrigados desde o começo da refeição; por isso, não podem depois se separar, tendo perdido essa possibilidade ao se comprometerem com a obrigação; mas nada disso implica que dois não possam, desde o início, optar por se unir voluntariamente.
"Não podem se separar" — e abençoar (ulevarech) cada um (kol echad) por si (leatzmo), pois (de) anulariam (mafkei lah) a categoria (letorat) do zimún. "Três, sim; dois, não" — esta (hai) é a explicação (pirusha): de que (demidkatani) se ensina "não podem se separar", ouvimos daí (shema mina) que três se convidam, dois não se convidam, mesmo (vaafilu) que quisessem (ratzu); pois se (dei) disseres (imrat) que dois também (nami), se quiserem, se convidam, por que (amai) um deles (haechad) não teria permissão (ein rashai) de se separar, que vá (lezil) ele (hu) embora, e não (velo) anularia (mafkaat) a bênção (birkat) do zimún com isso (behachi), e os dois (hashnaim) restantes se convidariam (veyezamnu)! "Diferente é ali, pois já se estabeleceram em obrigação desde o início" — e se (vei) um deles fosse embora (azil), anularia (mafkaat) a obrigação deles (lehu chová), e ficariam (vekamu lehu) em situação de permissão (bireshut), e maior (vegadol) é quem é ordenado (hametzuve) e cumpre (veoseh) do que quem não é ordenado (mimi she'eino metzuve) e cumpre (veoseh).
A Guemará neutraliza também essa segunda objeção: o caso dos três que não podem se separar refere-se a uma obrigação já estabelecida, que, se desfeita, rebaixaria os dois remanescentes de uma obrigação plena para uma mera permissão — o que é indesejável, pois, segundo o princípio talmúdico, maior é o mérito de quem cumpre um mandamento por estar obrigado do que quem o cumpre apenas por vontade própria. Isso nada diz, porém, sobre se dois, desde o início, podem se unir voluntariamente ao zimún.
Venha e ouça: o servente (hashamash) que (shehayá) servia (meshamesh) a dois (hashnaim) — eis que (harei) ele come (ochel) com eles (imahem), ainda que (af al pi) não (shelo) lhe tenham dado (natnu lo) permissão (reshut) — isto é, o servente pode comer junto com os dois que serve, mesmo sem que eles o convidem expressamente, pois com apenas dois comensais não há ainda obrigação de zimún que sua presença pudesse comprometer. Servia (meshamesh) a três (hashloshá) — eis que ele não come com eles, a menos que (ela im ken) lhe deem (natnu lo) permissão — isto é, com três já constituídos em obrigação de zimún, o servente não pode se intrometer na refeição deles sem permissão explícita, pois sua participação afetaria essa obrigação já estabelecida. E depreende-se dessa baraita, ao que parece: dois já formam algum tipo de grupo relevante — do contrário, por que caberia sequer discutir se o servente pode ou não comer com eles sem permissão?
"Come com eles" — não há aqui (ein kan) arrogância (gaavá) (da parte do servente em se juntar sem ser convidado), pois (de) lhes é agradável (nicha lehu), já que (dematei) os traz (mayti lehu) à condição (lididei) de zimún; e se (vei) dois (shnaim) também (nami) se convidassem (mezamnin) por si mesmos, sem o servente, por que (amai) lhes seria agradável (nicha lehu) a presença dele? Sem (belo) ele (dideih) também (nami), se quisessem (im ba'u), já se convidariam (mezamnei) — isto é, o fato de os dois desejarem a companhia do servente precisamente para alcançar o número de três sugere que, sozinhos, dois não teriam como formar o zimún; prova, portanto, contra a opinião de que dois podem se convidar por vontade própria.
Uma terceira tentativa de prova: a baraita do servente parece sugerir que dois comensais sozinhos não bastam para o zimún — pois, segundo Rashi, é precisamente por desejarem completar o trio que os dois recebem de bom grado o servente à mesa; se pudessem se convidar sozinhos, essa hospitalidade não se explicaria.
Diferente é ali — isto é, a Guemará responde que o caso do servente é distinto: os dois comensais o recebem de bom grado não porque precisem dele para formar zimún algum entre si, mas porque, com sua chegada, tornam-se três e alcançam assim a obrigação plena do zimún, que é preferível — pelo princípio de que maior é o mérito de quem cumpre por estar obrigado — à mera permissão facultativa entre dois; isso nada prova, portanto, contra a possibilidade de dois se convidarem voluntariamente quando não há um terceiro disponível.
A Guemará neutraliza também esta última objeção com a mesma lógica da resposta anterior: o interesse dos dois comensais na chegada do servente explica-se pelo desejo de trocar uma permissão facultativa por uma obrigação plena de três, e não pela impossibilidade de dois se convidarem por conta própria. A sugya sobre se dois podem formar zimún voluntariamente permanece, assim, sem uma refutação conclusiva neste daf, e prossegue em 45b.
Ver no Yerushalmi: a Mishná que abre aqui o Perek Shloshá SheAchlu — três que comeram juntos são obrigados ao zimún, com a lista de quem se soma e quem não se soma ao trio — é a mesma Mishná, quase palavra por palavra, que abre o Perek Zayin do Yerushalmi Berachot.
Ver Yerushalmi Berachot 7:1 →