Talmud Bavli · Berachot · Daf 49, lado A · Perek Zayin (Shloshah SheAchlu)
מט ע״א

Pleimo conclui que a Torá foi dada em treze alianças; Rabi Abba exige agradecimento no início e no fim da quarta bênção; a disputa sobre selar duas bênçãos com um único selo; e os costumes de Rabá bar Rav Huna, Rav Sheshet, Rav Nachman e Rav Gidel sobre o conteúdo exato de cada bênção do Birkat Hamazon

Berachot 49a · Perek Shloshá SheAchlu

O daf abre completando a frase deixada em aberto ao final de 48b: Pleimo explica por que a aliança deve ser mencionada antes da Torá na bênção da terra — a Torá foi dada em três alianças, mas a circuncisão foi dada em treze. Rabi Abba acrescenta que a quarta bênção deve abrir e fechar com agradecimento, e que reduzi-la para menos de uma menção é reprovável. A Guemará então debate longamente a regra de que não se selam duas bênçãos com um único selo, testando-a contra vários costumes litúrgicos — a bênção sobre a terra e o alimento, sobre Israel e as festividades, sobre o Shabat e as festividades — e conclui com a distinção entre bênçãos verdadeiramente duplas e bênçãos que tratam de um único assunto. Um episódio real na casa do Resh Galuta, em que Rabá bar Rav Huna abriu com um tema e selou com dois, gera a crítica de Rav Chisda e uma nova rodada de perguntas e respostas de Rav Sheshet e Rav Nachman sobre como o selo de "que constrói Jerusalém" deve corresponder à abertura da bênção. Um relato de Rav Chisda a Rabi Zeira conta como ele próprio foi repreendido por Rav Sheshet, na casa do Resh Galuta, por ter omitido aliança, Torá e realeza — e como se defendeu citando Rav Chananel em nome de Rav, para então ser confrontado por ter preferido seguir uma única autoridade tardia em vez de toda a cadeia de tanaítas e amoraítas anteriores. Segue-se a opinião de Rabi Yochanan, mediada por Rabi Zeira e Rav Papa, de que a quarta bênção exige menção da realeza duas vezes. O daf termina com Rav Gidel, sentado diante de Rav Huna, ensinando em nome de Rav as fórmulas de compensação para quem esqueceu de mencionar Shabat, Iom Tov ou Rosh Chodesh no Birkat Hamazon — terminando em aberto no meio do relato sobre Gidel bar Minyomi diante de Rav Nachman.

1— completando a frase de Pleimo — E esta, a aliança da circuncisão, foi dada em treze alianças
Bavli · 49a — Guemará (conclusão da baraita iniciada em 48b)
וְזוֹ נִתְּנָה בִּשְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה בְּרִיתוֹת.

— completando a frase iniciada ao final de 48b — e esta (vezo) a aliança da circuncisão foi dada (nitná) em treze (bishlosh esreh) alianças (britot) — isto é, Pleimo conclui seu raciocínio: a Torá foi dada em apenas três alianças (no Sinai, na Tenda do Encontro e nas planícies de Moav), enquanto a aliança da circuncisão, na perícope de Bereshit 17, é mencionada nada menos que treze vezes pela palavra "aliança" — e por isso, sendo a aliança da circuncisão a mais reiterada e fundamental das duas, ela deve ser citada em primeiro lugar na bênção da terra, antes da menção da Torá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
מילה נתנה בי"ג בריתות – בפרשת מילה שנתנה לאברהם אבינו הם כתובים:

"A circuncisão (milá) foi dada (nitná) em treze (bishlosh esreh) alianças (britot)" — na perícope (befarashat) da circuncisão (milá) que (she) foi dada (nitná) a Avraham, nosso pai (avinu), elas (hem) estão escritas (ketuvim) — isto é, Rashi remete o leitor ao capítulo 17 de Bereshit, onde a palavra "aliança" aparece treze vezes na passagem que institui a circuncisão, fonte numérica exata da afirmação de Pleimo.

Nota

Encerra-se a explicação de Pleimo: a aliança da circuncisão deve preceder a menção da Torá na bênção da terra porque ela foi reiterada treze vezes no texto bíblico que a institui, contra apenas três ocasiões em que a Torá foi formalmente entregue por aliança.

2Rabi Abba diz: precisa dizer nela agradecimento no início e no fim; e quem reduz não reduza a menos de uma vez, e todo o que reduz a menos de uma é reprovável
Bavli · 49a — Guemará (baraita)
רַבִּי אַבָּא אוֹמֵר: צָרִיךְ שֶׁיֹּאמַר בָּהּ הוֹדָאָה תְּחִלָּה וָסוֹף. וְהַפּוֹחֵת לֹא יִפְחוֹת מֵאַחַת. וְכׇל הַפּוֹחֵת מֵאַחַת — הֲרֵי זֶה מְגוּנֶּה.

Rabi Abba diz: precisa (tzarich) que (she) diga (yomar) nela (bah) na quarta bênção, "o Bom e o Que faz o bem" agradecimento (hodaá) no início (techilá) e no fim (vasof) — isto é, esta bênção deve abrir e fechar com uma expressão de agradecimento a D'us. E quem reduz (hapochet) não (lo) reduza (yifchot) a menos de (meachat) uma (achat) vez de agradecimento — isto é, mesmo quem deseja abreviar não pode eliminar totalmente a menção do agradecimento, devendo mantê-la ao menos uma vez. E todo (vechol) aquele que reduz (hapochet) a menos de (meachat) uma (achat) — eis que este (harei zeh) é reprovável (meguneh) — isto é, quem omite completamente a menção do agradecimento nesta bênção é considerado repreensível.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
תחלה וסוף – נודה ה' אלהינו ועל כולם ה' אלהינו אנו מודים לך:

"No início e no fim" — a fórmula de abertura é "agradeceremos (nodeh) a Ti, Eterno (Hashem) nosso D'us (Elokeinu)", e a de fechamento é "e por tudo (veal kulam), Eterno (Hashem) nosso D'us (Elokeinu), nós (anu) Te agradecemos (modim lach)" — isto é, Rashi identifica as duas fórmulas litúrgicas exatas de agradecimento que devem abrir e fechar a quarta bênção do Birkat Hamazon.

Nota

Rabi Abba fixa outra exigência de conteúdo, agora para a quarta bênção: ela deve conter agradecimento tanto no início quanto no fim, sendo reprovável quem a reduz a menos de uma única menção de agradecimento.

3E todo o que sela "que doa terras" na bênção da terra, e "que salva Israel" em "que constrói Jerusalém" — este é ignorante; e todo o que não diz aliança e Torá na bênção da terra, e a realeza da casa de David em "que constrói Jerusalém" — não cumpriu sua obrigação
Bavli · 49a — Guemará (baraita)
וְכׇל הַחוֹתֵם ״מַנְחִיל אֲרָצוֹת״ בְּבִרְכַּת הָאָרֶץ, וּ״מוֹשִׁיעַ אֶת יִשְׂרָאֵל״ בְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״ — הֲרֵי זֶה בּוּר. וְכׇל שֶׁאֵינוֹ אוֹמֵר בְּרִית וְתוֹרָה בְּבִרְכַּת הָאָרֶץ, וּמַלְכוּת בֵּית דָּוִד בְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״ — לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ.

E todo (vechol) aquele que sela (hachotem) "que doa (manchil) terras (aratzot)" na bênção (bevirkat) da terra (haaretz), e "que salva (moshia) Israel (et Yisrael)" em "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" — eis que este (harei zeh) é ignorante (bur) — isto é, quem seleciona fórmulas de fechamento genéricas em vez das fórmulas específicas e corretas ("que dá a terra" e "que constrói Jerusalém") demonstra ignorância litúrgica. E todo (vechol) aquele que (she) não (eino) diz (omer) aliança (brit) e Torá (veTorá) na bênção (bevirkat) da terra (haaretz), e a realeza (malchut) da casa (beit) de David em "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" — não cumpriu (lo yatzá) sua obrigação (yedei chovato) — isto é, esta baraita reafirma como obrigatórias, e não apenas recomendadas, as exigências de conteúdo já mencionadas por Nachum, o Ancião, Rabi Yossei e Rabi Eliezer ao final de 48b.

Nota

A baraita reforça, em termos ainda mais categóricos, as exigências de conteúdo: usar fórmulas de selo genéricas demonstra ignorância litúrgica, e omitir aliança, Torá ou a realeza davídica invalida o cumprimento da obrigação.

4Isso serve de apoio a Rabi Ilá, que disse em nome de Rabi Yaakov bar Acha, em nome de nosso mestre: todo o que não disse aliança e Torá na bênção da terra, e a realeza da casa de David em "que constrói Jerusalém", não cumpriu sua obrigação
Bavli · 49a — Guemará
מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַבִּי אִילְעָא, דְּאָמַר רַבִּי אִילְעָא אָמַר רַבִּי יַעֲקֹב בַּר אַחָא מִשּׁוּם רַבֵּינוּ: כׇּל שֶׁלֹּא אָמַר בְּרִית וְתוֹרָה בְּבִרְכַּת הָאָרֶץ וּמַלְכוּת בֵּית דָּוִד בְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״ — לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ.

Isso serve de apoio (mesayaia leih) a Rabi Ilá, pois (deamar) disse Rabi Ilá em nome de Rabi Yaakov bar Acha, em nome de nosso mestre (rabeinu) — isto é, Rabi Yehudá HaNassi, o redator da Mishná: todo (kol) aquele que (she) não (lo) disse (amar) aliança (brit) e Torá (veTorá) na bênção (bevirkat) da terra (haaretz) e a realeza (malchut) da casa (beit) de David em "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" — não cumpriu (lo yatzá) sua obrigação (yedei chovato) — isto é, a Guemará observa que a baraita recém-citada corrobora de modo independente a tradição já transmitida por Rabi Ilá em nome de Rabi.

Nota

A Guemará nota que a baraita anterior corrobora, de forma independente, a mesma tradição já transmitida por Rabi Ilá em nome de Rabi Yehudá HaNassi.

5Discordam sobre isso Aba Yossei ben Dostai e os sábios: um diz que "o Bom e o Que faz o bem" precisa de realeza, e um diz que não precisa de realeza
Bavli · 49a — Guemará
פְּלִיגִי בַּהּ אַבָּא יוֹסֵי בֶּן דּוֹסְתַּאי וְרַבָּנַן. חַד אָמַר: ״הַטּוֹב וְהַמֵּטִיב״ צְרִיכָה מַלְכוּת, וְחַד אָמַר: אֵינָהּ צְרִיכָה מַלְכוּת. מַאן דְּאָמַר צְרִיכָה מַלְכוּת קָסָבַר דְּרַבָּנַן. וּמַאן דְּאָמַר אֵינָהּ צְרִיכָה מַלְכוּת קָסָבַר דְּאוֹרָיְיתָא.

Discordam (pligi) sobre isso (bah) Aba Yossei ben Dostai e os sábios (rabanan). Um (chad) diz: "o Bom (hatov) e o Que faz o bem (vehametiv)" precisa (tzricha) de realeza (malchut) — isto é, precisa mencionar o reino de D'us, como as demais bênçãos, e um (chad) diz: não (eina) precisa (tzricha) de realeza (malchut). Quem (man) diz que (deamar) precisa (tzricha) de realeza (malchut) considera (kasavar) que (de) é de instituição rabínica (derabanan) — isto é, para esta opinião, a quarta bênção é uma instituição independente dos sábios de Iavne, e por isso, como toda bênção autônoma, precisa abrir com a fórmula completa que inclui a menção da realeza divina. E quem (uman) diz que (deamar) não (eina) precisa (tzricha) de realeza (malchut) considera (kasavar) que (de) é de origem bíblica (deoraita) — isto é, para esta outra opinião, a quarta bênção já está implícita no próprio texto da Torá, na cláusula "que te deu", e por isso é considerada uma bênção contígua à anterior, não exigindo abertura própria com menção de realeza.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
מ"ד צריכה מלכות קסבר דרבנן – הלכך לאו ברכה הסמוכה לחברתה היא שאינה מברכת הארץ: ומ"ד אינה צריכה מלכות קסבר דאורייתא היא – ומברכת הארץ היא כדאמר לעיל (ברכות ד' מח:) אשר נתן לך זה הטוב והמטיב והויא לה ברכה הסמוכה לחברתה ומיהו פותח בה בברוך לפי שפתיחתה היא חתימתה שכולה הודאה אחת היא ואינה הפסקה ודומה לברכת הפירות והמצות:

"Quem diz que precisa de realeza considera que é de instituição rabínica" — por isso (hilcach) não (lav) é bênção (beracha) contígua (hasmuchá) à sua companheira (lachaverta), pois (she) ela não (eina) vem (mevarechet) da bênção da terra (haaretz) — isto é, sendo uma bênção autônoma, precisa da fórmula completa de abertura. "E quem diz que não precisa de realeza considera que é de origem bíblica" — e é (hi) parte da bênção da terra (haaretz), conforme (kedeamar) se disse acima (Berachot 48b): "que te deu" — esta é "o Bom e o Que faz o bem" — e por isso ela vem (vehavya lah) bênção (beracha) contígua (hasmuchá) à sua companheira (lachaverta); porém (mihu) abre-se (pote'ach bah) nela com "Bendito (baruch)" pois (lefi she) sua abertura (petichatah) é (hi) seu fechamento (chatimatah), pois (she) toda ela (kulah) é um único (achat) agradecimento (hodaá), e não (veeina) é interrupção (hafsaká), e assemelha-se (vedomá) à bênção (levirkat) das frutas (haperot) e dos preceitos (vehamitzvot) — isto é, mesmo sendo contígua à bênção da terra, abre-se com "Bendito" por analogia às bênçãos curtas sobre frutas e mandamentos, que também abrem com essa fórmula apesar de não serem autônomas.

Nota

A disputa sobre se a quarta bênção exige menção da realeza divina depende de uma questão mais profunda: se ela é uma instituição independente dos sábios de Iavne (e por isso precisa de abertura própria) ou se está bíblicamente embutida na bênção da terra (e por isso, sendo contígua, dispensa a abertura completa apesar de começar com "Bendito").

6Ensinaram os sábios: com que se sela a construção de Jerusalém? Rabi Yossei bei Rabi Yehudá diz: "que salva Israel". A Guemará objeta e conclui: também "que salva Israel"
Bavli · 49a — Guemará (baraita)
תָּנוּ רַבָּנַן: מַהוּ חוֹתֵם בְּבִנְיַן יְרוּשָׁלַיִם, רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: ״מוֹשִׁיעַ יִשְׂרָאֵל״. ״מוֹשִׁיעַ יִשְׂרָאֵל״ — אִין, ״בּוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״ — לָא? אֶלָּא אֵימָא: אַף ״מוֹשִׁיעַ יִשְׂרָאֵל״.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): com que (mahu) se sela (chotem) a construção (bevinyan) de Jerusalém (Yerushalayim)? Rabi Yossei bei Rabi Yehudá diz: "que salva (moshia) Israel (Yisrael)" — isto é, a fórmula final da terceira bênção deveria ser "que salva Israel", em vez de "que constrói Jerusalém". A Guemará questiona: "que salva (moshia) Israel (Yisrael)" — sim (in), "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" — não (lo)? — isto é, seria de se entender que Rabi Yossei bei Rabi Yehudá exclui totalmente a fórmula "que constrói Jerusalém", o que contradiria seu próprio nome, já vinculado à bênção da construção de Jerusalém Senão (ela), diga-se (eima): também (af) "que salva (moshia) Israel (Yisrael)" — isto é, a Guemará corrige a leitura: Rabi Yossei bei Rabi Yehudá não exclui "que constrói Jerusalém", mas acrescenta que também se pode selar com "que salva Israel".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
בונה ירושלים לא – בתמיה אם חתם בונה ירושלים לאו חתימה היא הלא עיקר ברכה דירושלים היא: אלא אימא אף מושיע – אם בא לחתום מושיע ישראל ולא חתם בונה ירושלים יצא שתשועת ישראל היא בנין ירושלים:

"'Que constrói Jerusalém' — não?" — em tom de pergunta (betemiha): se selou (chatam) "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)", acaso não (lav) é selo (chatimá) válido (hi)? Acaso não (halo) é ela (hi) o cerne (ikar) da bênção (beracha) de Jerusalém (Yerushalayim)? "Senão diga-se: também 'que salva'" — se veio (ba) selar (lachtom) "que salva (moshia) Israel (Yisrael)" e não (velo) selou (chatam) "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)", cumpriu (yatzá) sua obrigação, pois (she) a salvação (teshuat) de Israel (Yisrael) é (hi) a construção (binyan) de Jerusalém (Yerushalayim) — isto é, Rashi esclarece que as duas fórmulas são intercambiáveis, pois a salvação de Israel e a reconstrução de Jerusalém são, em essência, o mesmo evento messiânico.

Nota

A Guemará interpreta a baraita de Rabi Yossei bei Rabi Yehudá não como uma substituição, mas como uma alternativa válida: tanto "que constrói Jerusalém" quanto "que salva Israel" servem como selo legítimo da terceira bênção, pois ambas expressam o mesmo evento de redenção final.

7Rabá bar Rav Huna esteve na casa do Resh Galuta, abriu com um assunto e selou com dois; disse Rav Chisda: que proeza selar com dois! E não se ensinou que Rabi diz: não se sela com dois?
Bavli · 49a — Guemará
רַבָּה בַּר רַב הוּנָא אִיקְּלַע לְבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא, פְּתַח בַּחֲדָא וְסַיֵּים בְּתַרְתֵּי. אָמַר רַב חִסְדָּא: גְּבוּרְתָּא לְמֶחְתַּם בְּתַרְתֵּי! וְהָתַנְיָא רַבִּי אוֹמֵר: אֵין חוֹתְמִין בִּשְׁתַּיִם!

Rabá bar Rav Huna esteve (ikleá) na casa (bei) do Resh Galuta (o Exilarca), abriu (patach) com um assunto (bachadá) e selou (vesayem) com dois (betartei) — isto é, ao recitar a terceira bênção do Birkat Hamazon, ele começou mencionando apenas um dos dois temas (Israel ou Jerusalém), mas ao final selou mencionando ambos, "que salva Israel" e "que constrói Jerusalém". Disse Rav Chisda: que proeza (gevurtá) selar (lemechtam) com dois (betartei)! — isto é, dito com ironia: não há mérito algum em selar com dois temas, pois isso é incorreto E não se ensinou (vehatanya) que Rabi diz: não se selam (ein chotmin) duas bênçãos com dois (bishtayim) temas ao mesmo tempo? — isto é, Rav Chisda questiona a prática de Rabá bar Rav Huna, invocando a opinião de Rabi de que uma única fórmula de selo não deve combinar dois assuntos distintos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
פתח בחדא – כשהתחיל בברכה לא אמר רחם ה' על ישראל עמך ועל ירושלים עירך אלא אחת מהן וכשחתם חתם בשתים מושיע ישראל ובונה ירושלים: אין חותמין בשתים – שדומין לעושין מצות חבילות כי היכי דאמר (פסחים קב:) אין אומר ב' קדושות על כוס אחד:

"Abriu com um assunto" — quando (keshe) começou (hitchil) a bênção (beracha), não (lo) disse (amar) "tem piedade (rachem), Eterno (Hashem), de Israel (al Yisrael) Teu povo (amecha) e de Jerusalém (veal Yerushalayim) Tua cidade (irecha)", senão (ela) apenas (achat) um (mehen) deles, e quando (uchshe) selou (chatam), selou (chatam) com dois (bishtayim): "que salva (moshia) Israel (Yisrael)" e "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" — isto é, Rashi explica exatamente o descompasso: a abertura mencionou só um tema, mas o fechamento incluiu ambos. "Não se selam com dois" — pois (she) se assemelham (domin) a quem faz (leosin) mandamentos (mitzvot) em pacotes (chavilot chavilot) — isto é, combinar dois assuntos distintos em um único selo é like agrupar mandamentos apressadamente, sem dar a cada um sua devida atenção individual, assim (ki heichi) como (deamar) se disse (Pessachim 102b): não se diz (ein omer) duas (shtei) santificações (kedushot) sobre um único (al kos echad) copo (kos) — isto é, Rashi traz um paralelo de outro contexto litúrgico, em que também se evita condensar duas fórmulas sagradas distintas num único ato.

Nota

Um episódio real na casa do Exilarca — Rabá bar Rav Huna abrindo com um único tema e selando com dois — desencadeia a crítica de Rav Chisda, que invoca a regra de Rabi de que uma bênção não deve ser selada com dois assuntos distintos, por analogia à proibição de agrupar mandamentos apressadamente.

8Voltando ao assunto: Rabi diz que não se selam duas; Levi objetou com "pela terra e pelo alimento" e "pela terra e pelos frutos" — mas a terra produz o alimento e os frutos, sendo um único tema
Bavli · 49a — Guemará
גּוּפָא. רַבִּי אוֹמֵר: אֵין חוֹתְמִין בִּשְׁתַּיִם. אֵיתִיבֵיהּ לֵוִי לְרַבִּי, ״עַל הָאָרֶץ וְעַל הַמָּזוֹן״! — אֶרֶץ דְּמַפְּקָא מָזוֹן. ״עַל הָאָרֶץ וְעַל הַפֵּירוֹת״! — אֶרֶץ דְּמַפְּקָא פֵּירוֹת.

Voltando (gufá) ao assunto — isto é, a Guemará agora examina a fonte original da regra de Rabi, citada anteriormente: Rabi diz: não se selam (ein chotmin) duas bênçãos com dois (bishtayim) temas. Objetou-lhe (eitiveih) Levi a Rabi: "pela terra (al haaretz) e pelo alimento (veal hamazon)"! — isto é, a própria fórmula de selo da bênção da terra combina dois substantivos, "terra" e "alimento" — contradizendo a regra de Rabi Terra (eretz) que (de) produz (mafeka) alimento (mazon) — isto é, a resposta é que ambos os termos remetem, na verdade, a um único conceito: a terra é a fonte do alimento, então mencionar os dois não é combinar dois assuntos distintos, mas apenas explicitar a causa e seu efeito. "Pela terra e pelos frutos (veal haperot)"! — outra objeção semelhante, com a fórmula "terra e frutos" Terra (eretz) que (de) produz (mafeka) frutos (perot) — isto é, a mesma resposta se aplica: a terra produz os frutos, portanto os dois termos descrevem um único assunto.

Nota

Levi desafia a regra de Rabi com dois exemplos de fórmulas litúrgicas que parecem combinar dois temas no selo — mas a Guemará explica que, em ambos os casos, os dois termos descrevem causa e efeito de um único assunto, e não dois assuntos verdadeiramente distintos.

9"Que santifica Israel e as festividades"! — Israel é quem santifica as festividades. "Que santifica Israel e as luas novas"! — Israel é quem santifica as luas novas
Bavli · 49a — Guemará
״מְקַדֵּשׁ יִשְׂרָאֵל וְהַזְּמַנִּים״! — יִשְׂרָאֵל דְּקַדְּשִׁינְהוּ לִזְמַנִּים. ״מְקַדֵּשׁ יִשְׂרָאֵל וְרָאשֵׁי חֳדָשִׁים״! — יִשְׂרָאֵל דְּקַדְּשִׁינְהוּ לְרָאשֵׁי חֳדָשִׁים.

"Que santifica (mekadesh) Israel (Yisrael) e as festividades (vehazmanim)"! — outra objeção, com a fórmula de selo da bênção das festividades Israel (Yisrael) é quem (de) santifica (kadshinhu) as festividades (lizmanim) — isto é, o próprio povo de Israel, por meio de seu tribunal, é quem determina e santifica o calendário das festividades, portanto os dois termos remetem a um único ato: a santificação praticada por Israel. "Que santifica (mekadesh) Israel (Yisrael) e as luas novas (verashei chodashim)"! Israel (Yisrael) é quem (de) santifica (kadshinhu) as luas novas (lerashei chodashim) — mesma resposta: é Israel, por meio do tribunal, quem santifica o início de cada mês.

Nota

Duas objeções adicionais de Levi recebem a mesma resposta: em ambas as fórmulas, os dois termos aparentemente distintos descrevem, na verdade, um único ato — a santificação do calendário praticada pelo próprio povo de Israel.

10"Que santifica o Shabat, e Israel, e as festividades"! — exceto esta
Bavli · 49a — Guemará
״מְקַדֵּשׁ הַשַּׁבָּת וְיִשְׂרָאֵל וְהַזְּמַנִּים״! — חוּץ מִזּוֹ.

"Que santifica (mekadesh) o Shabat (hashabat), e Israel (veYisrael), e as festividades (vehazmanim)"! — uma objeção mais forte: esta fórmula, usada quando uma festividade coincide com Shabat, combina três termos, e aqui não se pode dizer que um produz o outro, pois o Shabat é santificado por D'us mesmo, e não por Israel Exceto (chutz) esta (mizo) — isto é, a Guemará admite que esta fórmula é de fato uma exceção à regra de Rabi, pois combina dois assuntos verdadeiramente distintos e independentes: a santidade do Shabat, fixa e determinada por D'us, e a santidade das festividades, que depende da santificação humana.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
מקדש השבת וישראל והזמנים – והכא ליכא למימר ישראל מקדשי לשבת וזמנים דאילו זמנים תלויין בב"ד לקדש חדשים ע"פ הראייה אבל שבת קדישא וקיימא: חוץ מזו ומ"ש הכא חדא היא – אין כאן אלא ברכת מקדש שמברך להקב"ה שמקדש השבת והזמנים אבל מושיע ישראל ובונה ירושלים תרתי מילי נינהו ואין כוללים ב' דברים בברכה אחת ולא גרס הא בהא תליא ובה"ג גרס הכי חוץ מזו ומ"ש הני תרתי קדושי נינהו ומודה רבי דחתמינן בהו בשתים אבל נחמה חדא מילתא היא ובחדא בעי למחתם ואינו נ"ל דא"כ אית ליה לרבי חותמין בשתים והכא ה"ט דהא בהא תליא ולא היה לו לכלול ולומר אין חותמין בשתים ועוד רבי כי אמרה לאו אנחמה אמרה:

"Que santifica o Shabat, e Israel, e as festividades" — e aqui (vehacha) não há (leika) como dizer (lemeimar) que Israel (Yisrael) santifica (kadshei) o Shabat (leshabat) e as festividades (uzmanim), pois (de) as festividades (zmanim) dependem (teluyin) do tribunal (bevet din) para santificar (lekadesh) os meses (chodashim) conforme (al pi) o testemunho (hareiyá) da lua nova, mas (aval) o Shabat (shabat) é santo (kdishá) e permanece (vekayamá) fixo, sem depender de ação humana. "Exceto esta, e qual a diferença? Aqui é um único assunto" — não há (ein kan) aqui senão (ela) a bênção (birkat) "que santifica" (mekadesh), que abençoa (shemevarech) ao Santo, bendito seja (leHaKadosh Baruch Hu), que (she) santifica (mekadesh) o Shabat (hashabat) e as festividades (vehazmanim) — isto é, aqui Rashi explica a posição de que, apesar da aparência de dois temas, trata-se de uma única bênção sobre a santificação, o que a torna aceitável como exceção; mas, alternativamente, cita a leitura da Halachot Guedolot, segundo a qual "que salva Israel" e "que constrói Jerusalém" seriam de fato dois temas, e mesmo assim Rabi concordaria em selar com ambos, pois a consolação é considerada um único assunto — posição que Rashi próprio considera não convincente.

Nota

A fórmula tripla usada quando uma festividade coincide com Shabat é reconhecida como genuína exceção: diferentemente das festividades e luas novas, cuja santidade depende da ação humana do tribunal, o Shabat é intrinsecamente santo, tornando a combinação dos dois termos uma verdadeira união de dois assuntos distintos — Rashi debate, sem resolver definitivamente, se isso contradiz ou não a regra geral de Rabi.

11E qual a diferença? Aqui é um único assunto, ali são dois, cada um por si
Bavli · 49a — Guemará
וּמַאי שְׁנָא? הָכָא חֲדָא הִיא, הָתָם תַּרְתֵּי, כׇּל חֲדָא וַחֲדָא בְּאַפֵּי נַפְשָׁהּ.

E qual (umai) a diferença (shená)? — isto é, a Guemará pergunta por que a fórmula "Shabat, Israel e festividades" é aceita, enquanto o caso original de Rabá bar Rav Huna, que selou com "Israel e Jerusalém", foi criticado por Rav Chisda Aqui (hacha) é (hi) um único (chadá) assunto — a santificação, aplicada tanto ao Shabat quanto às festividades, ali (hatam) são dois (tartei) assuntos distintos — a salvação de Israel e a reconstrução de Jerusalém, cada um (kol chadá vechadá) por si (beapei nafshah) — isto é, a Guemará distingue: no caso do Shabat e das festividades, ambos são casos particulares de um mesmo conceito geral de santificação divina, ao passo que salvação de Israel e construção de Jerusalém, embora relacionados teologicamente, são dois tópicos verdadeiramente independentes, e por isso não devem ser combinados num único selo.

Nota

A Guemará explica a diferença: Shabat e festividades são duas expressões de um mesmo conceito, a santificação, e por isso podem compartilhar um único selo; já a salvação de Israel e a construção de Jerusalém são dois tópicos genuinamente distintos, cada um exigindo tratamento próprio.

12E qual a razão pela qual não se selam com dois? Porque não se fazem os mandamentos em pacotes
Bavli · 49a — Guemará
וְטַעְמָא מַאי אֵין חוֹתְמִין בִּשְׁתַּיִם? לְפִי שֶׁאֵין עוֹשִׂין מִצְוֹת חֲבִילוֹת חֲבִילוֹת.

E qual (mai) a razão (taama) pela qual não se selam (ein chotmin) com dois (bishtayim)? Porque (lefi she) não (ein) se fazem (osin) os mandamentos (mitzvot) em pacotes (chavilot chavilot) — isto é, a Guemará explica a razão subjacente da regra de Rabi: cada mandamento e cada bênção merece ser tratado e concluído com sua própria e específica atenção, e agrupar dois temas distintos num único selo transmite a impressão de estar cumprindo os preceitos de forma apressada e negligente, como quem despacha vários fardos de uma só vez.

Nota

A Guemará fundamenta a regra de não selar com dois temas: fazê-lo daria a impressão de estar cumprindo mandamentos apressadamente, "em pacotes", sem dar a cada bênção a atenção individual que merece.

13O que ficou estabelecido sobre isso?
Bavli · 49a — Guemará
מַאי הָוֵי עֲלַהּ?

O que (mai) ficou estabelecido (havei) sobre isso (alah)? — isto é, a Guemará pergunta qual é, afinal, a conclusão prática sobre o episódio de Rabá bar Rav Huna: sua prática de selar com dois temas foi validada ou rejeitada?

Nota

Pergunta de transição: a Guemará busca agora a conclusão prática sobre como proceder quando a abertura da bênção mencionou apenas um tema.

14Disse Rav Sheshet: quem abriu com "tem piedade de Teu povo Israel", sela com "que salva Israel"; quem abriu com "tem piedade de Jerusalém", sela com "que constrói Jerusalém". E Rav Nachman disse: mesmo quem abriu com "tem piedade de Israel", sela com "que constrói Jerusalém"
Bavli · 49a — Guemará
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: פָּתַח בְּ״רַחֵם עַל עַמְּךָ יִשְׂרָאֵל״ — חוֹתֵם בְּמוֹשִׁיעַ יִשְׂרָאֵל. פָּתַח בְּ״רַחֵם עַל יְרוּשָׁלָיִם״ — חוֹתֵם בְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״. וְרַב נַחְמָן אָמַר: אֲפִילּוּ פָּתַח בְּ״רַחֵם עַל יִשְׂרָאֵל״ — חוֹתֵם בְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״, מִשּׁוּם שֶׁנֶּאֱמַר ״בּוֹנֵה יְרוּשָׁלַיִם ה׳ נִדְחֵי יִשְׂרָאֵל יְכַנֵּס״: אֵימָתַי בּוֹנֵה יְרוּשָׁלַיִם ה׳ — בִּזְמַן שֶׁנִּדְחֵי יִשְׂרָאֵל יְכַנֵּס.

Disse Rav Sheshet: quem abriu (patach) com "tem piedade (rachem) de Teu povo (al amcha) Israel (Yisrael)" — sela (chotem) com "que salva (moshia) Israel (Yisrael)". Quem abriu (patach) com "tem piedade (rachem) de Jerusalém (al Yerushalayim)" — sela (chotem) com "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" — isto é, Rav Sheshet estabelece a regra prática: o selo deve corresponder exatamente ao tema mencionado na abertura. E Rav Nachman disse: mesmo (afilu) quem abriu (patach) com "tem piedade (rachem) de Israel (al Yisrael)" — sela (chotem) com "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)", pois (mishum) se disse (sheneemar): "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim), o Eterno (Hashem), os dispersos (nidchei) de Israel (Yisrael) reunirá (yechanes)" (Tehilim 147:2) — isto é, Rav Nachman discorda: mesmo que a abertura mencione apenas Israel, o selo correto continua sendo "que constrói Jerusalém", pois o próprio versículo une os dois conceitos: quando (eimatai) "constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim), o Eterno (Hashem)"? Na época (bizman) em que (she) "os dispersos (nidchei) de Israel (Yisrael) reunirá (yechanes)" — isto é, o próprio versículo ensina que a construção de Jerusalém e a reunião dos dispersos de Israel são um único e mesmo evento, de modo que "que constrói Jerusalém" já engloba, necessariamente, a salvação de Israel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
פתח בעל עמך ישראל כו' – דבעינן חתימה מעין פתיחה: ור"נ כו' – בונה ירושלים תשועת ישראל היא דכתיב (תהילים קמ״ז:ב׳) בונה ירושלים ה' ואז נדחי ישראל יכנס:

"Abriu com 'sobre Teu povo Israel' etc." — pois (de) se requer (bainan) que o selo (chatimá) seja semelhante (meein) à abertura (petichá) — isto é, o princípio geral que Rashi identifica por trás da regra de Rav Sheshet é que a fórmula de fechamento de uma bênção deve espelhar o tema com que ela foi aberta. "E Rav Nachman etc." — "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" é (hi) a salvação (teshuat) de Israel (Yisrael), pois (dichtiv) está escrito (ketiv): "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim), o Eterno (Hashem), e então (veaz) os dispersos (nidchei) de Israel (Yisrael) reunirá (yechanes)" — isto é, Rashi confirma que, para Rav Nachman, a base textual do versículo dos Salmos é suficiente para justificar que "que constrói Jerusalém" sirva de selo mesmo quando a abertura mencionou apenas Israel.

Nota

Rav Sheshet fixa o princípio geral de que o selo deve corresponder ao tema da abertura, enquanto Rav Nachman propõe uma exceção: como o próprio texto bíblico une "construir Jerusalém" e "reunir os dispersos de Israel" num único versículo, o selo "que constrói Jerusalém" é sempre válido, mesmo quando a abertura mencionou apenas Israel.

15Disse-lhe Rabi Zeira a Rav Chisda: venha o mestre e ensine. Disse-lhe: a bênção do alimento eu não aprendi bem, mas o que se ensina eu ensino. O que é isso? Contou o episódio na casa do Resh Galuta, quando Rav Sheshet ergueu o pescoço contra ele como uma serpente, porque não disse aliança, Torá nem realeza
Bavli · 49a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי זֵירָא לְרַב חִסְדָּא: נֵיתֵי מָר וְנִתְנֵי. אֲמַר לֵיהּ: בִּרְכַּת מְזוֹנָא לָא גְּמִירְנָא, וְתַנּוֹיֵי מַתְנֵינָא. אֲמַר לֵיהּ: מַאי הַאי? אֲמַר לֵיהּ: דְּאִקְּלַעִי לְבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא, וּבָרֵיכִי בִּרְכַּת מְזוֹנָא, וְזַקְפֵיהּ רַב שֵׁשֶׁת לְקוֹעֵיהּ עֲלַי כְּחִוְיָא. וְאַמַּאי? דְּלָא אֲמַרִי לֹא בְּרִית וְלֹא תּוֹרָה וְלֹא מַלְכוּת. וְאַמַּאי לָא אֲמַרְתְּ? כִּדְרַב חֲנַנְאֵל אָמַר רַב, דְּאָמַר רַב חֲנַנְאֵל אָמַר רַב: לֹא אָמַר בְּרִית וְתוֹרָה וּמַלְכוּת — יָצָא. בְּרִית — לְפִי שֶׁאֵינָהּ בְּנָשִׁים. תּוֹרָה וּמַלְכוּת — לְפִי שֶׁאֵינָן לֹא בְּנָשִׁים וְלֹא בַּעֲבָדִים. וְאַתְּ שְׁבַקְתְּ כֹּל הָנֵי תַּנָּאֵי וְאָמוֹרָאֵי, וַעֲבַדְתְּ כְּרַב?!

Disse-lhe (amar leih) Rabi Zeira a Rav Chisda: venha (neitei) o mestre (mar) e ensine (veniteni) — isto é, Rabi Zeira pede a Rav Chisda que lhe ensine a baraita, presumindo que ele a conhecesse bem. Disse-lhe (amar leih): a bênção (birkat) do alimento (mezoná) eu não (la) aprendi bem (gemirna), mas o que se ensina (tanuyei) eu ensino (matnina) — isto é, Rav Chisda responde de forma curiosa: não domina bem as fontes teóricas sobre o Birkat Hamazon, mas pode relatar algo que lhe foi "ensinado" de outra forma, por experiência própria. Disse-lhe (amar leih): o que (mai) é isso (hai)? — isto é, Rabi Zeira pergunta o que Rav Chisda quer dizer com essa resposta enigmática. Disse-lhe (amar leih): que (de) estive (ikleí) na casa (bei) do Resh Galuta, e abençoei (vareichi) a bênção (birkat) do alimento (mezoná), e ergueu (zakfeih) Rav Sheshet o pescoço (lekoeih) contra mim (alai) como uma serpente (kechivya) — isto é, Rav Sheshet, presente no mesmo local, reagiu de modo hostil e ameaçador, erguendo o pescoço em sinal de indignação, como faz uma serpente prestes a atacar. E por quê (veamai)? Porque (de) não (la) disse (amari) nem (lo) aliança (brit), nem (velo) Torá (torá), nem (velo) realeza (malchut) — isto é, Rav Chisda omitiu as três menções obrigatórias, e por isso foi repreendido. E por que (veamai) não (la) disseste (amart)? — Rabi Zeira pergunta o motivo da omissão Conforme (kid) Rav Chananel disse (amar) em nome de Rav, pois (deamar) disse Rav Chananel em nome de Rav: não disse (lo amar) aliança (brit), Torá (torá) e realeza (umalchut) — cumpriu (yatzá) sua obrigação, mesmo assim. Aliança (brit) — porque (lefi she) ela não (einah) se aplica às mulheres (benashim) — isto é, como a circuncisão não se aplica às mulheres, elas não estão obrigadas a mencioná-la, e por extensão a menção não é considerada estritamente indispensável mesmo para os homens. Torá (torá) e realeza (umalchut) — porque (lefi she) elas não (einan) se aplicam nem (lo) às mulheres (benashim) nem (velo) aos escravos (vaavadim) — isto é, como o estudo da Torá e a realeza terrena não se aplicam igualmente a mulheres e escravos, sua menção também não seria estritamente obrigatória. E tu (veat) abandonaste (shevakt) todos (kol) esses (hanei) tanaítas (tanaei) e amoraítas (veamoraei) que exigiram categoricamente a menção destes três elementos, e agiste (avadt) conforme (kerav) Rav apenas?! — isto é, Rabi Zeira repreende Rav Chisda por ter seguido uma única autoridade tardia e mais permissiva, em vez de toda a extensa tradição anterior que exigia as três menções como indispensáveis.

Nota

Um relato pessoal de Rav Chisda revela um episódio de tensão real na casa do Exilarca: sua omissão de aliança, Torá e realeza provocou a reação hostil de Rav Sheshet, e sua defesa — invocando Rav Chananel em nome de Rav, que dispensa essas menções por não se aplicarem igualmente a mulheres e escravos — é rejeitada por Rabi Zeira, que o repreende por preferir uma única opinião tardia a toda a tradição anterior.

16Disse Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan: "o Bom e o Que faz o bem" precisa de realeza. O que isso vem ensinar? Disse Rabi Zeira: que precisa de duas realezas, uma dela e uma de "que constrói Jerusalém"
Bavli · 49a — Guemará
אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: ״הַטּוֹב וְהַמֵּטִיב״ צְרִיכָה מַלְכוּת. מַאי קָא מַשְׁמַע לַן, כׇּל בְּרָכָה שֶׁאֵין בָּהּ מַלְכוּת — לֹא שְׁמָהּ בְּרָכָה? וְהָא אַמְרַהּ רַבִּי יוֹחָנָן חֲדָא זִימְנָא! אָמַר רַבִּי זֵירָא: לוֹמַר שֶׁצְּרִיכָה שְׁתֵּי מַלְכֻיוֹת, חֲדָא דִּידַהּ וַחֲדָא דְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״.

Disse Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan: "o Bom (hatov) e o Que faz o bem (vehametiv)" precisa (tzricha) de realeza (malchut) — retomando a disputa mencionada acima, Rabi Yochanan se posiciona a favor da opinião de que a quarta bênção exige menção da realeza divina. O que (mai) isso vem (ka) ensinar-nos (mashma lan)? Toda (kol) bênção (beracha) que (she) não (ein) há nela (bah) realeza (malchut) — não (lo) se chama (shemah) bênção (beracha)? — isto é, a Guemará questiona: essa afirmação de Rabi Yochanan traz alguma novidade, ou apenas repete o princípio geral, já conhecido, de que toda bênção autônoma precisa mencionar o reino de D'us? E não (vehá) já disse isso (amrah) Rabi Yochanan uma (chadá) vez (zimná)? — isto é, o princípio geral já é conhecido de outro lugar, então por que repeti-lo aqui especificamente sobre a quarta bênção? Disse Rabi Zeira: a novidade é dizer (lomar) que (she) ela precisa (tzricha) de duas (shtei) realezas (malchuyot), uma (chadá) dela mesma (didah) e uma (vechadá) de "que constrói (deboneh) Jerusalém (Yerushalayim)" — isto é, Rabi Zeira explica a novidade real: não basta que a quarta bênção mencione a realeza uma vez; ela precisa mencioná-la duas vezes — uma para si mesma, e outra repetindo a menção já feita na terceira bênção, "que constrói Jerusalém", pois a mera contiguidade entre as bênçãos não é suficiente para dispensar a segunda menção.

Nota

Rabi Zeira esclarece a real novidade da afirmação de Rabi Yochanan: a quarta bênção não precisa apenas de uma menção de realeza, mas de duas — a sua própria e a repetição daquela já feita em "que constrói Jerusalém" — pois a contiguidade entre bênçãos, por si só, não dispensa a menção redobrada.

17Se assim, deveríamos precisar de três: uma dela, uma de "que constrói Jerusalém" e uma da bênção da terra! Senão, a bênção da terra por que não? Porque é bênção contígua à sua companheira — "que constrói Jerusalém" também não deveria precisar!
Bavli · 49a — Guemará
אִי הָכִי נִיבְעֵי תְּלָת: חֲדָא דִּידַהּ, וַחֲדָא דְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״, וַחֲדָא דְּבִרְכַּת הָאָרֶץ! אֶלָּא בִּרְכַּת הָאָרֶץ מַאי טַעְמָא לָא? מִשּׁוּם דְּהָוְיָיא לַהּ בְּרָכָה הַסְּמוּכָה לַחֲבֶרְתָּהּ, ״בּוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״ נָמֵי לָא תִּבְעֵי, דְּהָוְיָא לַהּ בְּרָכָה הַסְּמוּכָה לַחֲבֶרְתָּהּ!

Se assim (i hachi), deveríamos precisar (niveí) de três (telat): uma (chadá) dela mesma (didah), e uma (vechadá) de "que constrói (deboneh) Jerusalém (Yerushalayim)", e uma (vechadá) da bênção (devirkat) da terra (haaretz)! — isto é, a Guemará questiona a lógica de Rabi Zeira: se a razão para exigir a repetição da realeza é que a mera contiguidade não basta, então também a bênção da terra, contígua à terceira, deveria exigir sua própria menção de realeza, totalizando três, e não apenas duas Senão (ela), a bênção (birkat) da terra (haaretz), qual (mai) a razão (taama) pela qual não (la) precisa de sua própria menção? Porque (mishum) que (de) ela é (havyaya lah) bênção (beracha) contígua (hasmuchá) à sua companheira (lachaverta) — isto é, a resposta natural seria que a bênção da terra, por ser contígua à primeira bênção, dispensa menção própria de realeza. Mas então, objeta a Guemará: "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" também (namei) não (la) deveria precisar (tivei), pois (de) ela é (havya lah) bênção (beracha) contígua (hasmuchá) à sua companheira (lachaverta) — isto é, pelo mesmo raciocínio, "que constrói Jerusalém", sendo contígua à bênção da terra, também deveria dispensar sua própria menção de realeza — mas Rabi Zeira já havia dito que ela precisa dela, o que parece contraditório.

Nota

A Guemará pressiona a lógica de Rabi Zeira até seu limite: se a contiguidade dispensa a bênção da terra de repetir a realeza, o mesmo raciocínio deveria dispensar também "que constrói Jerusalém" — mas isso contradiz a exigência de duas menções já estabelecida.

18Pela mesma razão, também "que constrói Jerusalém" não deveria precisar; mas, por ter mencionado a realeza da casa de David, não seria educado não mencionar a realeza celestial. Rav Papa disse: precisa de duas realezas além da própria
Bavli · 49a — Guemará
הוּא הַדִּין דַּאֲפִילּוּ ״בּוֹנֵה יְרוּשָׁלָיִם״ נָמֵי לָא בָּעֲיָא. אַיְּידֵי דְּאָמַר מַלְכוּת בֵּית דָּוִד, לָאו אוֹרַח אַרְעָא דְּלָא אָמַר מַלְכוּת שָׁמַיִם. רַב פָּפָּא אָמַר, הָכִי קָאָמַר: צְרִיכָה שְׁתֵּי מַלְכֻיוֹת לְבַר מִדִּידַהּ.

A mesma regra (hu hadin) se aplica: que mesmo (daafilu) "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)" também (namei) não (la) deveria precisar (baaya) de menção própria de realeza — isto é, a Guemará concede o ponto: em princípio, "que constrói Jerusalém" também deveria estar dispensada, pela mesma lógica da contiguidade. Mas (ayedei) que (de) se disse (amar) nela a realeza (malchut) da casa (beit) de David, não (lav) seria comportamento educado (orach ara) não (dela) dizer (amar) também a realeza (malchut) celestial (shamayim) — isto é, a razão real pela qual "que constrói Jerusalém" precisa mencionar a realeza divina não é a exigência formal da regra, mas sim uma questão de cortesia e propriedade: já que essa bênção menciona a realeza terrena da casa de David, seria deselegante omitir a menção da realeza de D'us, o Rei supremo. Rav Papa disse, assim (hachi) ele disse (kaamar): precisa (tzricha) de duas (shtei) realezas (malchuyot) além (levar) da sua própria (mididah) — isto é, Rav Papa reformula a afirmação original de Rabi Zeira: a quarta bênção precisa mencionar duas realezas adicionais à sua própria abertura — a da terceira bênção e, implicitamente, reafirmando a estrutura já discutida.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
לאו אורח ארעא דלא אמר מלכות שמים – בבונה ירושלים הלכך מהדר לה בהטוב והמטיב (ואומר מלך העולם הטוב והמטיב): שתי מלכיות – כגון אבינו מלכנו אדירנו בוראנו גואלנו קדושנו קדוש יעקב רוענו רועה ישראל המלך הטוב והמטיב לכל וכו': לבר מדידה – שפותחת ברוך אתה ה' אלהינו מלך העולם וכו':

"Não seria comportamento educado não dizer a realeza celestial" — em "que constrói (boneh) Jerusalém (Yerushalayim)"; por isso (hilcach) repõe-se (mehadar lah) na quarta bênção, "o Bom (hatov) e o Que faz o bem (vehametiv)" e diz-se ali "Rei do mundo, o Bom e o Que faz o bem" — isto é, Rashi explica que, como "que constrói Jerusalém" acabou não mencionando explicitamente a realeza celestial por cortesia formal, essa menção é compensada na bênção seguinte. "Duas realezas" — como (kegon) nas expressões "nosso Pai (avinu), nosso Rei (malkeinu), nosso Poderoso (adireinu), nosso Criador (boreinu), nosso Redentor (goaleinu), nosso Santo (kedosheinu), o Santo (kedosh) de Yaakov (Yaakov), nosso Pastor (roeinu), Pastor (roeh) de Israel (Yisrael), o Rei (hamelech) Bom (hatov) e o Que faz o bem (vehametiv) a todos (lakol)" etc. "Além da sua própria" — que (she) abre (potachat) com "Bendito (baruch) és Tu (ata), Eterno (Hashem) nosso D'us (Elokeinu), Rei (melech) do mundo (haolam)" etc. — isto é, Rashi cita a fórmula litúrgica exata em que se acumulam as menções de realeza dentro da quarta bênção, além da fórmula padrão de abertura de toda bênção.

Nota

A tensão lógica é resolvida por meio de uma explicação diferente: a menção de realeza em "que constrói Jerusalém" não decorre de uma exigência formal, mas de cortesia — não seria apropriado mencionar a realeza terrena de David sem mencionar também a realeza celestial —, e essa omissão parcial é compensada com uma acumulação de títulos reais na quarta bênção, conforme detalhado por Rav Papa e Rashi.

19Sentava-se Rabi Zeira atrás de Rav Gidel, e sentava-se Rav Gidel diante de Rav Huna, e sentava-se e dizia: quem errou e não mencionou o de Shabat, diz a fórmula de compensação; disse-lhe: quem disse isso? Rav
Bavli · 49a — Guemará
יָתֵיב רַבִּי זֵירָא אֲחוֹרֵי דְּרַב גִּידֵּל, וְיָתֵיב רַב גִּידֵּל קַמֵּיהּ דְּרַב הוּנָא, וְיָתֵיב וְקָאָמַר: טָעָה וְלֹא הִזְכִּיר שֶׁל שַׁבָּת, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ שֶׁנָּתַן שַׁבָּתוֹת לִמְנוּחָה לְעַמּוֹ יִשְׂרָאֵל בְּאַהֲבָה לְאוֹת וְלִבְרִית, בָּרוּךְ מְקַדֵּשׁ הַשַּׁבָּת״. אֲמַר לֵיהּ: מַאן אַמְרַהּ? רַב.

Sentava-se (yativ) Rabi Zeira atrás (achorei) de Rav Gidel, e sentava-se (veyativ) Rav Gidel diante (kameih) de Rav Huna, e sentava-se (veyativ) e dizia (vekaamar): quem errou (taá) e não (velo) mencionou (hizkir) o de (shel) Shabat (shabat) — isto é, quem esqueceu de inserir a menção da santidade do Shabat no Birkat Hamazon — diz (omer): "Bendito (baruch) que (she) deu (natan) Shabatot (shabatot) para descanso (limnuchá) a Seu povo (leamo) Israel (Yisrael) com amor (beahavá), como sinal (leot) e como aliança (velivrit); Bendito (baruch) que santifica (mekadesh) o Shabat (hashabat)" — isto é, Rav Gidel transmite uma fórmula de compensação: uma bênção curta e independente, que pode ser recitada ao final da refeição para suprir a omissão da menção do Shabat. Disse-lhe (amar leih) Rav Huna a Rav Gidel: quem (man) disse isso (amrah)? Rav — isto é, Rav Huna pergunta a fonte dessa fórmula, e Rav Gidel responde que a recebeu do próprio Rav.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
ויתיב רב גידל וקאמר טעה כו' א"ל – רב הונא לרב גידל מאן אמרה:

"E sentava-se Rav Gidel e dizia: errou (taá) etc.; disse-lhe" — Rav Huna a Rav Gidel: quem (man) disse isso (amrah)? — isto é, Rashi apenas esclarece os papéis dos interlocutores na cena: Rav Huna, sentado à frente, questiona a fonte da tradição que Rav Gidel estava transmitindo, enquanto Rabi Zeira ouvia atrás, absorvendo o ensinamento por meio dessa cadeia.

Nota

Uma cena de transmissão oral em cadeia: Rabi Zeira, sentado atrás de Rav Gidel, que por sua vez está diante de Rav Huna, absorve a fórmula de compensação para quem esqueceu de mencionar o Shabat no Birkat Hamazon — fórmula que Rav Gidel atribui ao próprio Rav.

20Voltou a sentar-se e dizer: quem errou e não mencionou o de Iom Tov, diz a fórmula correspondente
Bavli · 49a — Guemará
הֲדַר יָתֵיב וְקָאָמַר: טָעָה וְלֹא הִזְכִּיר שֶׁל יוֹם טוֹב, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ שֶׁנָּתַן יָמִים טוֹבִים לְעַמּוֹ יִשְׂרָאֵל לְשִׂמְחָה וּלְזִכָּרוֹן, בָּרוּךְ מְקַדֵּשׁ יִשְׂרָאֵל וְהַזְּמַנִּים״. אֲמַר לֵיהּ: מַאן אַמְרַהּ? רַב.

Voltou (hadar) a sentar-se (yativ) e dizer (vekaamar): quem errou (taá) e não (velo) mencionou (hizkir) o de (shel) Iom Tov (yom tov) — isto é, quem esqueceu de mencionar a festividade — diz (omer): "Bendito (baruch) que (she) deu (natan) dias (yamim) bons (tovim) a Seu povo (leamo) Israel (Yisrael) para alegria (lesimchá) e para memória (ulezikaron), Bendito (baruch) que santifica (mekadesh) Israel (Yisrael) e as festividades (vehazmanim)" — outra fórmula de compensação, análoga à anterior, agora para a omissão da menção de uma festividade. Disse-lhe (amar leih): quem (man) disse isso (amrah)? Rav — a mesma pergunta e a mesma resposta se repetem.

Nota

Rav Gidel continua a série, agora com a fórmula de compensação para quem esqueceu de mencionar Iom Tov, novamente atribuída a Rav.

21Voltou a sentar-se e dizer: quem errou e não mencionou o de Rosh Chodesh, diz: "que deu luas novas..."; e não sei se disse "alegria", nem se selou, nem se era dele ou de seu mestre
Bavli · 49a — Guemará
הֲדַר יָתֵיב וְקָאָמַר: טָעָה וְלֹא הִזְכִּיר שֶׁל רֹאשׁ חוֹדֶשׁ אוֹמֵר ״בָּרוּךְ שֶׁנָּתַן רָאשֵׁי חֳדָשִׁים לְעַמּוֹ יִשְׂרָאֵל לְזִכָּרוֹן״. וְלָא יָדַעְנָא אִי אָמַר בָּהּ ״שִׂמְחָה״ אִי לָא אָמַר בָּהּ ״שִׂמְחָה״, אִי חָתֵים בָּהּ, אִי לָא חָתֵים בָּהּ, אִי דִּידֵיהּ אִי דְּרַבֵּיהּ.

Voltou (hadar) a sentar-se (yativ) e dizer (vekaamar): quem errou (taá) e não (velo) mencionou (hizkir) o de (shel) Rosh Chodesh (rosh chodesh) diz (omer): "Bendito (baruch) que (she) deu (natan) luas novas (rashei chodashim) a Seu povo (leamo) Israel (Yisrael) para memória (lezikaron)" — terceira fórmula de compensação, agora para a omissão de Rosh Chodesh. E não sei (vela yadana) se (i) disse (amar) nela (bah) "alegria (simchá)", se (i) não (la) disse (amar) nela (bah) "alegria (simchá)", se (i) selou (chatem) nela (bah), se (i) não (la) selou (chatem) nela (bah), se (i) era dele (didei), se (i) de seu mestre (derabeih) — isto é, quem transmite este último relato, aparentemente Rabi Zeira, confessa incerteza quanto a vários detalhes precisos desta terceira fórmula: se incluía a palavra "alegria" como as anteriores, se tinha um selo formal como "Bendito que santifica...", e se a tradição era do próprio Rav Gidel ou de seu mestre Rav Huna.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 49a
ולא ידענא – רבי זירא קאמר לה לא ידענא אי אמר רב גידל לזכרון ולשמחה אי לא אמר לשמחה ואי אמרה משמיה דרב אי לא אמרה: אי חתים בה – מקדש ישראל וראשי חדשים אי לא חתים:

"E não sei" — Rabi Zeira diz isso (kaamar lah): não sei (la yadana) se (i) Rav Gidel disse (amar) "para memória (lezikaron) e para alegria (ulesimchá)", se (i) não (la) disse (amar) "para alegria (lesimchá)", e se (vei) a disse (amrah) em nome (mishmeih) de Rav, se (i) não (la) a disse (amrah) em nome de Rav. "Se selou nela" — "que santifica (mekadesh) Israel (Yisrael) e as luas novas (verashei chodashim)", se (i) não (la) selou (chatem) — isto é, Rashi confirma que é o próprio Rabi Zeira quem, ao relatar essa tradição mais tarde, admite não se lembrar com precisão de todos os detalhes da terceira fórmula, ao contrário das duas primeiras, que reteve com clareza.

Nota

Diferentemente das duas fórmulas anteriores, transmitidas com precisão, a terceira — para a omissão de Rosh Chodesh — chega até nós com lacunas: o próprio transmissor, Rabi Zeira, admite não se lembrar se incluía a palavra "alegria", se tinha selo formal, e nem mesmo se a atribuição a Rav era certa.

22Gidel bar Minyomi estava diante de Rav Nachman; Rav Nachman errou — a frase, e o relato de seu erro, prosseguem no início de 49b
Bavli · 49a — Guemará (continua em 49b)
גִּידֵּל בַּר מִנְיוֹמֵי הֲוָה קָאֵי קַמֵּיהּ דְּרַב נַחְמָן, טְעָה רַב נַחְמָן

Gidel bar Minyomi estava (havá kaei) diante (kameih) de Rav Nachman — isto é, um novo episódio se inicia: Gidel bar Minyomi, discípulo distinto de Rav Gidel citado nos ensinamentos anteriores, encontrava-se junto a Rav Nachman quando este último recitava o Birkat Hamazon. Errou (teá) Rav Nachman — isto é, o relato é interrompido exatamente no momento em que se descreve o erro cometido por Rav Nachman ao recitar a bênção; a natureza exata do erro, e o que Gidel bar Minyomi fez a respeito, são revelados apenas no início do daf seguinte, 49b, onde se conta que Rav Nachman "voltou ao início" da bênção, e o diálogo consequente entre ele e Rav Sheila em nome de Rav sobre a regra de que quem erra deve retornar ao princípio.

Nota

O daf termina em aberto, no meio de um novo episódio: Rav Nachman comete um erro ao recitar o Birkat Hamazon diante de seu discípulo Gidel bar Minyomi — episódio cuja continuação, incluindo a regra de que quem erra deve voltar ao início da bênção, será tratada logo no começo de 49b.