Talmud Bavli · Berachot · Daf 58, lado A · Perek Tet (HaRoeh)
נח ע״א

A maldição de Babel e a bênção de Shomron; multidões de Israel; as fadigas de Adão; o bom e o mau hóspede; sábios e reis; e Rav Sheshet, o cego, diante do rei

Berachot 58a · Perek Tet ("Aquele que vê")

O daf abre um novo tópico: disse Rabi Yirmeyá ben Elazar que a maldição sobre a Babilônia amaldiçoou também seus vizinhos, mas a maldição sobre Shomron abençoou os seus, cada afirmação sustentada por versículo. Segue Rav Hamnuna sobre a bênção ao ver multidões de Israel e multidões das nações, com uma baraita que explica o motivo e narra Ben Zoma vendo uma multidão no Monte do Templo; a reflexão de Ben Zoma sobre as fadigas de Adão até achar pão e roupa, contrastadas com a fartura pronta de quem tem tudo preparado; a diferença entre o bom e o mau hóspede em sua fala; o versículo sobre Ishai pai de David como líder de multidão, com a definição de que uma multidão não é menor que sessenta miríades; a bênção sobre sábios e reis de Israel e das nações; o ensinamento de Rabi Yochanan de correr sempre ao encontro de reis, mesmo gentios, para no Mundo Vindouro discernir a diferença; e o longo e célebre episódio de Rav Sheshet, sábio cego, que percebe a chegada do rei romano antes de um hereges zombador, culminando na exposição de Rabi Shila — perseguido injustamente perante o rei, salvo por Elias, e absolvido — sobre os sete atributos de "a Ti, Senhor, pertence a grandeza", cada um ligado a um episódio da história de Israel.

1Disse Rabi Yirmeyá ben Elazar: amaldiçoada foi a Babilônia, amaldiçoados foram seus vizinhos; amaldiçoada foi Shomron, abençoados foram seus vizinhos
Bavli · 58a — Guemará
אָמַר רַבִּי יִרְמְיָה בֶּן אֶלְעָזָר: נִתְקַלְּלָה בָּבֶל — נִתְקַלְּלוּ שְׁכֵנֶיהָ. נִתְקַלְּלָה שׁוֹמְרוֹן — נִתְבָּרְכוּ שְׁכֵנֶיהָ: נִתְקַלְּלָה בָּבֶל — נִתְקַלְּלוּ שְׁכֵנֶיהָ, דִּכְתִיב: ״וְשַׂמְתִּיהָ לְמוֹרַשׁ קִפֹּד וְאַגְמֵי מָיִם״. נִתְקַלְּלָה שׁוֹמְרוֹן נִתְבָּרְכוּ שְׁכֵנֶיהָ — דִּכְתִיב: ״וְשַׂמְתִּי שֹׁמְרוֹן לְעִי הַשָּׂדֶה לְמַטָּעֵי כָרֶם וְגוֹ׳״.

Disse (amar) Rabi Yirmeyá ben Elazar: amaldiçoada foi (nitkalelá) a Babilônia (Bavel) — amaldiçoados foram (nitkalelu) seus vizinhos (sheneihá). Amaldiçoada foi (nitkalelá) Shomron (Shomron) — abençoados foram (nitbarchu) seus vizinhos (sheneihá). Amaldiçoada foi (nitkalelá) a Babilônia (Bavel) — amaldiçoados foram (nitkalelu) seus vizinhos (sheneihá), pois está escrito (dichtiv): "e a farei (vesamtihá) herança (lemorash) do ouriço (kipod) e poças (veagmei) de água (mayim)" (Yeshayahu 14:23). Amaldiçoada foi (nitkalelá) Shomron (Shomron), abençoados foram (nitbarchu) seus vizinhos (sheneihá) — pois está escrito (dichtiv): "e farei (vesamti) Shomron (Shomron) ruína (leí) do campo (hasadeh), para plantações (lemataei) de vinha (charem) etc." (Michá 1:6).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
נתקללה בבל נתקללו שכניה – כלומר אוי לרשע אוי לשכנו: קאת וקפוד – חיות ועופות רעים ומזיקין את השכנים אבל עי השדה ומטעי כרם שנתקללו בה ערי ישראל הנאה היא לשכנים:

"Amaldiçoada foi a Babilônia, amaldiçoados foram seus vizinhos" — isto é (kelomar), ai (oy) do ímpio (larashá), ai (oy) de seu vizinho (lishecheno) — a maldição sobre a Babilônia transbordou também sobre seus vizinhos. "Kaat e ouriço" — animais (chayot) e aves (veofot) daninhos (raim) que (umazikin) prejudicam (mazikin) os vizinhos (hasheichenim); mas (aval) "ruína do campo" e "plantações de vinha", com que (shenitkalelu) foram amaldiçoadas (bah) as cidades (arei) de Israel (Yisrael) ao redor de Shomron, é proveito (hanaá) hi (hi) para os vizinhos (lashecheinim) — isto é, Rashi explica a diferença: a maldição de Babilônia trouxe animais nocivos que também afligem os vizinhos, mas a maldição de Shomron trouxe apenas terra fértil transformada em campo e vinhedo, o que beneficia quem vive ao redor.

Nota

A maldição sobre a Babilônia — tornar-se morada de animais e aves nocivos — transbordou e prejudicou também seus vizinhos; já a maldição sobre Shomron — tornar-se campo e vinhedo — foi, na prática, proveito para os vizinhos, pois terra fértil beneficia quem está ao redor.

2E disse Rav Hamnuna: aquele que vê multidões de Israel, aquele que vê multidões das nações
Bavli · 58a — Guemará
וְאָמַר רַב הַמְנוּנָא: הָרוֹאֶה אוּכְלוּסֵי יִשְׂרָאֵל, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … חֲכַם הָרָזִים״. אוּכְלוּסֵי גּוֹיִם, אוֹמֵר: ״בּוֹשָׁה אִמְּכֶם וְגוֹ׳״.

E disse (veamar) Rav Hamnuna: aquele que vê (haroeh) multidões (uchlusei) de Israel (Yisrael), diz (omer): "Bendito (Baruch)... sábio (chacham) dos segredos (harazim)" — pois conhece os corações distintos de cada um. Aquele que vê multidões (uchlusei) das nações (goyim), diz (omer): "envergonhada (boshá) foi vossa mãe (imchem) etc." (Yirmeyahu 50:12).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
אוכלוסי – חיל גדול של ששים רבוא: חכם הרזים – היודע מה שבלב כל אלו:

"Multidões" — um exército (cheil) grande (gadol) de sessenta (shishim) miríades (ribo) — isto é, o termo "uchlusin" designa especificamente uma multidão dessa magnitude, como se explicita adiante. "Sábio dos segredos" — aquele que conhece (hayodea) o que (mah) há no coração (shebalev) de todos (kol) estes (eilu).

Nota

Ao ver uma multidão de Israel, abençoa-se "Sábio dos segredos", pois Deus conhece o coração diverso de cada um; ao ver uma multidão das nações, recita-se um versículo de vergonha sobre elas.

3Baraita: porque não são semelhantes seus pensamentos nem seus rostos; Ben Zoma no Monte do Templo
Bavli · 58a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: הָרוֹאֶה אוּכְלוּסֵי יִשְׂרָאֵל, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … חֲכַם הָרָזִים״ — שֶׁאֵין דַּעְתָּם דּוֹמָה זֶה לָזֶה, וְאֵין פַּרְצוּפֵיהֶן דּוֹמִים זֶה לָזֶה. בֶּן זוֹמָא רָאָה אוּכְלוּסָא עַל גַּב מַעֲלָה בְּהַר הַבַּיִת, אָמַר: ״בָּרוּךְ … חֲכַם הָרָזִים וּבָרוּךְ … שֶׁבָּרָא כׇּל אֵלּוּ לְשַׁמְּשֵׁנִי״.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): aquele que vê (haroeh) multidões (uchlusei) de Israel (Yisrael), diz (omer): "Bendito (Baruch)... sábio (chacham) dos segredos (harazim)" — porque (she) não (ein) é semelhante (domá) o pensamento (daatam) de um (zeh) ao de outro (lazeh), e não (veein) são semelhantes (domim) os rostos (partzufeihen) de um (zeh) ao de outro (lazeh). Ben Zoma viu (raá) uma multidão (uchlusá) sobre (al gav) uma rampa (maalá) no Monte (behar) do Templo (habayit), disse (amar): "Bendito (Baruch)... sábio (chacham) dos segredos (harazim), e bendito (uvaruch)... que criou (shebará) todos (kol) estes (eilu) para me servir (leshamesheni)".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
לשמשני – שהם חורשים וזורעים ואני מוצא מוכן:

"Para me servir" — pois (shehem) eles aram (chorshim) e semeiam (vezorim), e eu (vaani) encontro (motzeh) tudo pronto (muchan) — isto é, Rashi explica que Ben Zoma bendiz a segunda bênção porque, embora não conheça pessoalmente cada indivíduo da multidão, todos eles, em conjunto, trabalham para que ele encontre seu sustento pronto.

Nota

A razão da bênção sobre multidões de Israel: nenhuma pessoa tem pensamento nem rosto igual ao de outra. Ben Zoma, vendo uma multidão no Monte do Templo, acrescentou uma segunda bênção — por Deus ter criado todos eles para, coletivamente, servirem ao seu sustento.

4Ele dizia: quantas fadigas fadigou-se Adão até achar pão para comer e roupa para vestir; e eu encontro tudo pronto diante de mim
Bavli · 58a — Guemará
הוּא הָיָה אוֹמֵר: כַּמָּה יְגִיעוֹת יָגַע אָדָם הָרִאשׁוֹן עַד שֶׁמָּצָא פַּת לֶאֱכוֹל: חָרַשׁ, וְזָרַע, וְקָצַר, וְעִמֵּר, וְדָשׁ, וְזָרָה, וּבָרַר, וְטָחַן, וְהִרְקִיד, וְלָשׁ, וְאָפָה, וְאַחַר כָּךְ אָכַל. וַאֲנִי מַשְׁכִּים וּמוֹצֵא כׇּל אֵלּוּ מְתוּקָּנִין לְפָנַי. וְכַמָּה יְגִיעוֹת יָגַע אָדָם הָרִאשׁוֹן עַד שֶׁמָּצָא בֶּגֶד לִלְבּוֹשׁ: גָּזַז, וְלִבֵּן, וְנִפֵּץ, וְטָוָה, וְאָרַג, וְאַחַר כָּךְ מָצָא בֶּגֶד לִלְבּוֹשׁ, וַאֲנִי מַשְׁכִּים וּמוֹצֵא כׇּל אֵלֶּה מְתוּקָּנִים לְפָנַי. כׇּל אוּמּוֹת שׁוֹקְדוֹת וּבָאוֹת לְפֶתַח בֵּיתִי, וַאֲנִי מַשְׁכִּים וּמוֹצֵא כׇּל אֵלּוּ לְפָנַי.

Ele (hu) dizia (hayá omer): quantas (kamá) fadigas (yegiot) fadigou-se (yagá) Adão (Adam) o primeiro (harishon) até que (ad she) achou (matzá) pão (pat) para comer (leechol): arou (charash), e semeou (vezará), e colheu (vekatzar), e enfeixou (veimer), e debulhou (vedash), e joeirou (vezará), e escolheu (uverar), e moeu (vetachan), e peneirou (vehirkid), e amassou (velash), e assou (veafá), e depois disso (veachar kach) comeu (achal). E eu (vaani) madrugo (mashkim) e acho (umotzeh) tudo (kol) isto (eilu) pronto (metukanin) diante de mim (lefanai). E quantas (vechamá) fadigas (yegiot) fadigou-se (yagá) Adão (Adam) o primeiro (harishon) até que (ad she) achou (matzá) roupa (beged) para vestir (lilbosh): tosou (gazaz), e branqueou (veliben), e cardou (venipetz), e fiou (vetavá), e teceu (veraag), e depois disso (veachar kach) achou (matzá) roupa (beged) para vestir (lilbosh), e eu (vaani) madrugo (mashkim) e acho (umotzeh) tudo (kol) isto (eileh) pronto (metukanim) diante de mim (lefanai). Todas (kol) as nações (umot) se esforçam (shokdot) e vêm (uvaot) à porta (lefetach) de minha casa (beiti), e eu (vaani) madrugo (mashkim) e acho (umotzeh) tudo (kol) isto (eilu) diante de mim (lefanai).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
כל אומות שוקדות ובאות לפתחי – עשיר היה והכל באין אצלו לסחורה:

"Todas as nações se esforçam e vêm à minha porta" — pois (she) era rico (ashir hayá), e todos (vehakol) vinham (baim) a ele (etzlo) para negociar (lischorá) — isto é, Rashi explica que Ben Zoma, sendo rico, via mercadores de todas as nações chegando à sua porta para comerciar.

Nota

Ben Zoma refletia sobre as onze etapas de trabalho que Adão precisou percorrer para obter pão, e as seis para obter roupa — enquanto ele mesmo encontrava tudo pronto ao madrugar, com as nações do mundo vindo comerciar à sua própria porta.

5Ele dizia: o que diz o bom hóspede? O que diz o mau hóspede?
Bavli · 58a — Guemará
הוּא הָיָה אוֹמֵר: אוֹרֵחַ טוֹב מַהוּ אוֹמֵר? — כַּמָּה טְרָחוֹת טָרַח בַּעַל הַבַּיִת בִּשְׁבִילִי, כַּמָּה בָּשָׂר הֵבִיא לְפָנַי, כַּמָּה יַיִן הֵבִיא לְפָנַי, כַּמָּה גְּלוּסְקָאוֹת הֵבִיא לְפָנַי, וְכׇל מַה שֶּׁטָּרַח — לֹא טָרַח אֶלָּא בִּשְׁבִילִי. אֲבָל אוֹרֵחַ רַע מַהוּ אוֹמֵר? — מַה טּוֹרַח טָרַח בַּעַל הַבַּיִת זֶה? פַּת אַחַת אָכַלְתִּי, חֲתִיכָה אַחַת אָכַלְתִּי, כּוֹס אֶחָד שָׁתִיתִי, כׇּל טוֹרַח שֶׁטָּרַח בַּעַל הַבַּיִת זֶה — לֹא טָרַח אֶלָּא בִּשְׁבִיל אִשְׁתּוֹ וּבָנָיו.

Ele (hu) dizia (hayá omer): o bom (tov) hóspede (oreach), o que (mahu) diz (omer)? — quantos (kamá) esforços (trachot) se esforçou (tarach) o dono (baal) da casa (habayit) por minha causa (bishvili), quanta (kamá) carne (basar) trouxe (hevi) diante de mim (lefanai), quanto (kamá) vinho (yayin) trouxe (hevi) diante de mim (lefanai), quantos (kamá) pães finos (gluskaot) trouxe (hevi) diante de mim (lefanai), e tudo (vechol mah) quanto (she) se esforçou (tarach) — não (lo) se esforçou (tarach) senão (ela) por minha causa (bishvili). Mas (aval) o mau (ra) hóspede (oreach), o que (mahu) diz (omer)? — que (mah) esforço (toraach) se esforçou (tarach) este (zeh) dono (baal) da casa (habayit)? Um (achat) pão (pat) comi (achalti), um (achat) pedaço (chatichá) comi (achalti), um (echad) copo (kos) bebi (shatiti), todo (kol) esforço (toraach) que (she) se esforçou (tarach) este (zeh) dono (baal) da casa (habayit) — não (lo) se esforçou (tarach) senão (ela) por causa (bishvil) de sua esposa (ishto) e seus filhos (uvanav).

Nota

O bom hóspede atribui a si mesmo todo o esforço do anfitrião, agradecendo por cada prato; o mau hóspede minimiza o que recebeu e atribui o esforço do anfitrião apenas à própria família deste.

6Sobre o bom hóspede e o mau hóspede está escrito: "lembra-te de que engrandeças Sua obra"; "por isso os homens O temem"
Bavli · 58a — Guemará
עַל אוֹרֵחַ טוֹב מַהוּ אוֹמֵר? — ״זְכֹר כִּי תַשְׂגִּיא פׇעֳלוֹ אֲשֶׁר שֹׁרְרוּ אֲנָשִׁים״. עַל אוֹרֵחַ רַע כְּתִיב: ״לָכֵן יְרֵאוּהוּ אֲנָשִׁים וְגוֹ׳״.

Sobre (al) o bom (tov) hóspede (oreach), o que (mahu) se diz (omer)? — "lembra-te (zechor) de que (ki) engrandeças (tasgi) Sua obra (poalo), a qual (asher) contemplam (shoreru) os homens (anashim)" (Iyov 36:24). Sobre (al) o mau (ra) hóspede (oreach) está escrito (ketiv): "por isso (lachein) O temerão (yereuhu) os homens (anashim) etc." (Iyov 37:24).

Nota

Um versículo de Iyov sustenta a atitude do bom hóspede, que engrandece a obra do anfitrião como se fosse a de Deus; outro versículo, do mesmo livro, sustenta a atitude oposta do mau hóspede, que reduz tudo a mero temor formal.

7"E o homem, nos dias de Shaul, era velho entre os homens": este é Ishai pai de David, que saía, entrava e discursava em meio a multidão
Bavli · 58a — Guemará
״וְהָאִישׁ בִּימֵי שָׁאוּל זָקֵן בָּא בַאֲנָשִׁים״. אָמַר רָבָא, וְאִיתֵּימָא רַב זְבִיד, וְאִיתֵּימָא רַב אוֹשַׁעְיָא: זֶה יִשַׁי אֲבִי דָּוִד שֶׁיָּצָא בְּאוּכְלוּסָא, וְנִכְנַס בְּאוּכְלוּסָא, וְדָרַשׁ בְּאוּכְלוּסָא. אָמַר עוּלָּא: נְקִיטִינַן אֵין אוּכְלוּסָא בְּבָבֶל. תָּנָא: אֵין אוּכְלוּסָא פְּחוּתָה מִשִּׁשִּׁים רִבּוֹא.

"E o homem (vehaish), nos dias (bimei) de Shaul (Shaul), era velho (zaken), vinha (ba) entre os homens (baanashim)" (Shmuel I 17:12). Disse (amar) Rava, e alguns dizem (veiteimá) Rav Zevid, e alguns dizem (veiteimá) Rav Oshaya: este (zeh) é Ishai pai (avi) de David (David), que (she) saía (yatzá) em meio a multidão (beuchlusá), e entrava (venichnas) em meio a multidão (beuchlusá), e discursava (vedarash) em meio a multidão (beuchlusá) — ou seja, era acompanhado de sessenta miríades onde quer que fosse. Disse (amar) Ulá: sustentamos (nekitinan) que não (ein) há multidão (uchlusá) na Babilônia (beVavel) — pois lá não há sessenta miríades reunidas. Foi ensinado (tana): não (ein) há multidão (uchlusá) menor (pechutá) que (mi) sessenta (shishim) miríades (rivo).

Nota

O versículo sobre Ishai, pai de David, "vindo entre os homens", é interpretado como referência a alguém acompanhado por uma verdadeira multidão em cada saída, entrada e discurso; Ulá observa que não há tal multidão na Babilônia, e uma baraita fixa a medida: nunca menos de sessenta miríades.

8Bênção sobre sábios e reis de Israel e das nações do mundo
Bavli · 58a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: הָרוֹאֶה חַכְמֵי יִשְׂרָאֵל, אוֹמֵר ״בָּרוּךְ … שֶׁחָלַק מֵחׇכְמָתוֹ לִירֵאָיו״. חַכְמֵי אוּמּוֹת הָעוֹלָם, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … שֶׁנָּתַן מֵחׇכְמָתוֹ לְבָשָׂר וָדָם״. הָרוֹאֶה מַלְכֵי יִשְׂרָאֵל, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … שֶׁחָלַק מִכְּבוֹדוֹ לִירֵאָיו״. מַלְכֵי אוּמּוֹת הָעוֹלָם, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … שֶׁנָּתַן מִכְּבוֹדוֹ לְבָשָׂר וָדָם״.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): aquele que vê (haroeh) sábios (chachmei) de Israel (Yisrael), diz (omer): "Bendito (Baruch)... que repartiu (shechalak) de Sua sabedoria (mechochmato) aos que O temem (lireav)". Aquele que vê sábios (chachmei) das nações (umot) do mundo (haolam), diz (omer): "Bendito (Baruch)... que deu (shenatan) de Sua sabedoria (mechochmato) à carne (levasar) e ao sangue (vadam)". Aquele que vê (haroeh) reis (malchei) de Israel (Yisrael), diz (omer): "Bendito (Baruch)... que repartiu (shechalak) de Sua glória (mikevodo) aos que O temem (lireav)". Reis (malchei) das nações (umot) do mundo (haolam), diz (omer): "Bendito (Baruch)... que deu (shenatan) de Sua glória (mikevodo) à carne (levasar) e ao sangue (vadam)".

Nota

Quatro bênçãos paralelas: ao ver sábios de Israel, "que repartiu Sua sabedoria aos que O temem"; sábios das nações, "que deu de Sua sabedoria à carne e ao sangue"; reis de Israel, "que repartiu de Sua glória aos que O temem"; reis das nações, "que deu de Sua glória à carne e ao sangue" — a mesma dádiva descrita como partilha íntima para Israel e como doação genérica para as nações.

9Disse Rabi Yochanan: sempre se esforce o homem para correr ao encontro dos reis de Israel, e até dos reis das nações do mundo
Bavli · 58a — Guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: לְעוֹלָם יִשְׁתַּדֵּל אָדָם לָרוּץ לִקְרַאת מַלְכֵי יִשְׂרָאֵל. וְלֹא לִקְרַאת מַלְכֵי יִשְׂרָאֵל בִּלְבַד, אֶלָּא אֲפִילּוּ לִקְרַאת מַלְכֵי אוּמּוֹת הָעוֹלָם, שֶׁאִם יִזְכֶּה — יַבְחִין בֵּין מַלְכֵי יִשְׂרָאֵל לְמַלְכֵי אוּמּוֹת הָעוֹלָם.

Disse (amar) Rabi Yochanan: sempre (leolam) se esforce (yishtadel) o homem (adam) para correr (laruz) ao encontro (likrat) dos reis (malchei) de Israel (Yisrael). E não (velo) apenas (bilvad) ao encontro (likrat) dos reis (malchei) de Israel (Yisrael), mas (ela) até mesmo (afilu) ao encontro (likrat) dos reis (malchei) das nações (umot) do mundo (haolam), para que (she) se merecer (im yizkeh) o Mundo Vindouro — discirna (yavchin) entre (bein) os reis (malchei) de Israel (Yisrael) e os reis (lemalchei) das nações (umot) do mundo (haolam).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
שאם יזכה – לעולם הבא ויראה בכבוד מלך המשיח: יבחין – כמה יתר כבוד נוטלי שכר מצות יותר ממה שהיה כבוד האומות בעוה"ז:

"Para que se merecer" — o Mundo Vindouro (laolam habá) e ver (veyireh) a glória (bichvod) do Rei (melech) Messias (hamashiach). "Discirna" — quanto (kamá) maior (yeter) é a glória (kavod) que recebem (notlei) os que cumprem (sechar) os preceitos (mitzvot), mais (yoter) do que (mimah) foi (shehayá) a glória (kevod) das nações (haumot) neste mundo (baolam hazeh) — isto é, Rashi explica que quem viu ambos os tipos de rei terá parâmetro, no Mundo Vindouro, para apreciar quanto maior é a recompensa reservada a Israel do que a glória passageira das nações.

Nota

Segundo Rabi Yochanan, deve-se correr ao encontro de qualquer rei, mesmo gentio, pois quem viu ambos poderá, no Mundo Vindouro, comparar a glória passageira dos reis das nações com a glória eterna reservada a Israel e ao Rei Messias.

10Rav Sheshet era cego; percebeu a chegada do rei antes de um hereje que zombava dele
Bavli · 58a — Guemará
רַב שֵׁשֶׁת סַגִּי נְהוֹר הֲוָה. הֲווֹ קָאָזְלִי כּוּלֵּי עָלְמָא לְקַבּוֹלֵי אַפֵּי מַלְכָּא, וְקָם אֲזַל בַּהֲדַיְיהוּ רַב שֵׁשֶׁת. אַשְׁכְּחֵיהּ הָהוּא מִינָא, אֲמַר לֵיהּ: חַצְבֵי לְנַהְרָא, כַּגְנֵי לְיָיא? אֲמַר לֵיהּ: תָּא חֲזִי דְּיָדַעְנָא טְפֵי מִינָּךְ. חֲלַף גּוּנְדָּא קַמַּיְיתָא. כִּי קָא אָוְושָׁא, אֲמַר לֵיהּ הָהוּא מִינָא: אֲתָא מַלְכָּא. אֲמַר לֵיהּ רַב שֵׁשֶׁת: לָא קָאָתֵי. חֲלַף גּוּנְדָּא תִּנְיָינָא. כִּי קָא אָוְושָׁא, אֲמַר לֵיהּ הָהוּא מִינָא: הַשְׁתָּא קָא אָתֵי מַלְכָּא. אֲמַר לֵיהּ רַב שֵׁשֶׁת: לָא קָא אָתֵי מַלְכָּא. חָלֵיף תְּלִיתַאי. כִּי קָא שָׁתְקָא, אֲמַר לֵיהּ רַב שֵׁשֶׁת: וַדַּאי הַשְׁתָּא אָתֵי מַלְכָּא.

Rav Sheshet era muito ofuscado de luz (sagi nehor) (eufemismo para cego). Estavam (havo) indo (kaazli) todo (kulei) o mundo (alma) receber (lekabolei) a face (apei) do rei (malka), e levantou-se (vekam) e foi (azal) com eles (bahadayhu) Rav Sheshet. Encontrou-o (ashkecheih) um certo (hahu) hereje (mina), disse-lhe (amar leih): cântaros (chatzvei) vão (lenahra) ao rio (lenahra), mas os quebrados (kagnei), para onde (leya)? — zombando de Rav Sheshet, cego, indo ao encontro do rei. Disse-lhe (amar leih) Rav Sheshet: vem (ta) e vê (chazi) que (de) eu sei (yadana) mais (tefei) do que tu (minách). Passou (chalaf) o primeiro (kamaitá) batalhão (gunda). Quando (ki) fazia (ka) alarido (avshá), disse-lhe (amar leih) aquele (hahu) hereje (mina): chegou (atá) o rei (malka)! Disse-lhe (amar leih) Rav Sheshet: não (la) está chegando (katei) ainda. Passou (chalaf) o segundo (tinyaná) batalhão (gunda). Quando (ki) fazia (ka) alarido (avshá), disse-lhe (amar leih) aquele (hahu) hereje (mina): agora (hashtá) sim está chegando (katei) o rei (malka)! Disse-lhe (amar leih) Rav Sheshet: não (la) está chegando (katei) ainda o rei (malka). Passou (chalif) o terceiro (telitai) batalhão. Quando (ki) este vinha (ka) em silêncio (shatka), disse-lhe (amar leih) Rav Sheshet: certamente (vadai) agora (hashtá) chega (atei) o rei (malka).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
חצבי לנהרא – הכדין השלמים הולכים לנהר לשאוב מים: כגני לייא – השבורים להיכן כלומר למה הולכים ואף אתה שאתה סומא ולא תראהו להיכן תלך: גונדא – כת:

"Cântaros vão ao rio" — os potes (hakadin) íntegros (hashlemim) vão (holchim) ao rio (lanahar) para tirar (lishov) água (mayim). "Mas os quebrados, para onde?" — isto é (kelomar), os quebrados (hashvurim), para onde (leheichan), ou seja (kelomar), para quê (lamá) vão (holchim)? E também tu (veaf atá), que (sheatá) és cego (somá) e não (velo) o verás (tirenu), para onde (leheichan) vais (telech)? "Gunda" — um batalhão (kat).

Nota

Rav Sheshet, cego, foi ao encontro do rei junto com toda a multidão; um hereje o insultou, comparando-o a um cântaro quebrado que não serve para nada; mas Rav Sheshet, discernindo pelo som, corrigiu duas vezes a falsa expectativa do hereje, mostrando que sabia mais do que ele — e reconheceu o rei verdadeiro pelo silêncio de sua chegada.

11Perguntou-lhe o hereje: de onde sabes isso? Respondeu: porque o reino da terra é semelhante ao reino do Céu
Bavli · 58a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ הָהוּא מִינָא: מְנָא לָךְ הָא? אֲמַר לֵיהּ: דְּמַלְכוּתָא דְאַרְעָא כְּעֵין מַלְכוּתָא דִרְקִיעָא, דִּכְתִיב: ״צֵא וְעָמַדְתָּ בָהָר לִפְנֵי ה׳ וְהִנֵּה ה׳ עֹבֵר וְרוּחַ גְּדוֹלָה וְחָזָק מְפָרֵק הָרִים וּמְשַׁבֵּר סְלָעִים לִפְנֵי ה׳ לֹא בָרוּחַ ה׳ וְאַחַר הָרוּחַ רַעַשׁ לֹא בָרַעַשׁ ה׳. וְאַחַר הָרַעַשׁ אֵשׁ לֹא בָאֵשׁ ה׳ וְאַחַר הָאֵשׁ קוֹל דְּמָמָה דַקָּה״.

Disse-lhe (amar leih) aquele (hahu) hereje (mina): de onde (mena) tens (lach) isto (ha)? Disse-lhe (amar leih) Rav Sheshet: porque (de) o reino (malchutá) da terra (deará) é como (keein) o reino (malchutá) do céu (dirkiá), pois está escrito (dichtiv): "sai (tzeh) e fica de pé (veamadta) no monte (vahar) perante (lifnei) o Senhor (Hashem), e eis (vehineh) que o Senhor (Hashem) passa (over), e um vento (veruach) grande (gedolá) e forte (vechazak) despedaça (meparek) montes (harim) e quebra (umeshaber) rochas (selaim) perante (lifnei) o Senhor (Hashem), não (lo) está o Senhor (Hashem) no vento (baruach); e após (veachar) o vento (haruach), um tremor (raash), não (lo) está o Senhor (Hashem) no tremor (baraash); e após (veachar) o tremor (haraash), um fogo (esh), não (lo) está o Senhor (Hashem) no fogo (baesh); e após (veachar) o fogo (haesh), uma voz (kol) de silêncio (demamá) fino (daká)" (Melachim I 19:11-12).

Nota

Rav Sheshet fundamenta seu discernimento no episódio de Eliyahu no Choreb: assim como Deus não Se revelou no vento, no tremor ou no fogo, mas na voz de silêncio fino, também o verdadeiro rei se anuncia não pelo alarido dos primeiros batalhões, mas pelo silêncio que os antecede.

12Quando chegou o rei, Rav Sheshet o abençoou; o hereje zombou, e teve seu fim
Bavli · 58a — Guemará
כִּי אֲתָא מַלְכָּא, פָּתַח רַב שֵׁשֶׁת וְקָא מְבָרֵךְ לֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ הָהוּא מִינָא: לְמַאן דְּלָא חָזֵית לֵיהּ קָא מְבָרְכַתְּ? וּמַאי הֲוִי עֲלֵיהּ דְּהָהוּא מִינָא? אִיכָּא דְּאָמְרִי: חַבְרוֹהִי כַּחְלִינְהוּ לְעֵינֵיהּ, וְאִיכָּא דְּאָמְרִי: רַב שֵׁשֶׁת נָתַן עֵינָיו בּוֹ, וְנַעֲשָׂה גַּל שֶׁל עֲצָמוֹת.

Quando (ki) chegou (atá) o rei (malka), começou (patach) Rav Sheshet e o abençoava (mevarech leih). Disse-lhe (amar leih) aquele (hahu) hereje (mina): a quem (leman) não (de la) vês (chazeit leih) abençoas (mevarechat)? E o que (umai) foi (havi) daquele (aleih) hereje (deahu mina)? Há quem diga (ika deamri): seus companheiros (chavrohi) lhe vazaram (kachlinhu) os olhos (leeineih) — por ele haver zombado do cego; e há quem diga (ika deamri): Rav Sheshet pôs (natan) seus olhos (einav) nele (bo), e ele se tornou (venaasá) um monte (gal) de ossos (atzamot).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
כחלינהו לעיניה – נקרו לעיניו:

"Lhe vazaram os olhos" — furaram-lhe (nikru) os olhos (leeinav).

Nota

Rav Sheshet, ao sentir a chegada do rei, começou a recitar sobre ele a bênção devida; o hereje zombou de que ele abençoasse quem não podia ver — e, segundo uma opinião, foi cegado por seus próprios companheiros, e, segundo outra, foi reduzido a um monte de ossos pelo próprio olhar de Rav Sheshet.

13Rabi Shila açoitou um homem que se relacionara com uma gentia; foi denunciado ao rei; Eliyahu apareceu como testemunha
Bavli · 58a — Guemará
רַבִּי שֵׁילָא נַגְּדֵיהּ לְהָהוּא גַּבְרָא דִּבְעַל גּוֹיָה. אֲזַל אֲכַל בֵּיהּ קוּרְצֵי בֵּי מַלְכָּא, אֲמַר: אִיכָּא חַד גַּבְרָא בִּיהוּדָאֵי דְּקָא דָּיֵין דִּינָא בְּלָא הַרְמָנָא דְמַלְכָּא. שַׁדַּר עֲלֵיהּ פְּרִיסְתְּקָא. כִּי אֲתָא אָמְרִי לֵיהּ: מַאי טַעְמָא נַגֵּדְתֵּיהּ לְהַאי? אֲמַר לְהוּ: דְּבָא עַל חֲמָרְתָא. אָמְרִי לֵיהּ: אִית לְךָ סָהֲדִי? אֲמַר לְהוּ: אִין. אֲתָא אֵלִיָּהוּ אִדְּמִי לֵיהּ כְּאִינִישׁ, וְאַסְהֵיד. אָמְרִי לֵיהּ: אִי הָכִי, בַּר קְטָלָא הוּא! אֲמַר לְהוּ: אֲנַן מִיּוֹמָא דִּגְלֵינַן מֵאַרְעִין לֵית לַן רְשׁוּתָא לְמִקְטַל. אַתּוּן, מַאי דְּבָעֵיתוּן עֲבִידוּ בֵּיהּ.

Rabi Shila açoitou (nagedeih) aquele (lehahu) homem (gavra) que (diveal) se relacionara com (beal) uma gentia (goyá). Foi (azal) este e caluniou-o (achal beih kurtzei) na casa (bei) do rei (malka), disse (amar): há (ika) um (chad) homem (gavra) entre (bi) os judeus (yehudaei) que (deka) julga (dayen) julgamento (dina) sem (bela) autorização (harmana) do rei (demalka). Enviou (shadar) contra ele (aleih) um oficial (pristeka). Quando (ki) este chegou (atá), disseram-lhe (amri leih): qual (mai) a razão (taama) por que açoitaste (nagedteih) este (lehai)? Disse-lhes (amar lehu): porque (de) se relacionou (ba al) com uma jumenta (chamartá) — chamando a gentia, de forma pejorativa, de jumenta. Disseram-lhe (amri leih): tens (it lach) testemunhas (sahadei)? Disse-lhes (amar lehu): sim (in). Veio (atá) Eliyahu, assemelhou-se (idmi leih) a um homem (keinish), e testemunhou (veashid). Disseram-lhe (amri leih): se (i) assim (hachi), é réu de morte (bar ketala hu)! Disse-lhes (amar lehu): nós (anan), desde o dia (miyoma) em que fomos exilados (diglenan) de nossa terra (mearin), não (leit) temos (lan) autoridade (reshutá) para matar (lemiktal). Vós (atun), o que (mai) quiserdes (dibaitun), fazei (avidu) com ele (beih).

Nota

Rabi Shila açoitou um judeu que se relacionara com uma gentia; o próprio homem o denunciou ao rei por julgar sem autorização real; interrogado, Rabi Shila afirmou tê-lo açoitado por relação imprópria, e Eliyahu apareceu disfarçado como testemunha, permitindo-lhe provar o caso — mas, quando as autoridades quiseram condená-lo à morte, Rabi Shila esclareceu que os judeus no exílio não têm autoridade para executar sentenças de morte.

14Enquanto examinavam o julgamento, Rabi Shila abriu com "A Ti, Senhor, pertence a grandeza"; deram-lhe um cetro e disseram: julga
Bavli · 58a — Guemará
עַד דִּמְעַיְּינִי בֵּיהּ בְּדִינָא, פְּתַח רַבִּי שֵׁילָא וַאֲמַר: ״לְךָ ה׳ הַגְּדֻלָּה וְהַגְּבוּרָה וְגוֹ׳״. אָמְרִי לֵיהּ: מַאי קָאָמְרַתְּ? אֲמַר לְהוּ, הָכִי קָאָמֵינָא: ״בְּרִיךְ רַחֲמָנָא דְּיָהֵיב מַלְכוּתָא בְּאַרְעָא כְּעֵין מַלְכוּתָא דִרְקִיעָא, וִיהַב לְכוּ שׁוּלְטָנָא וְרָחֲמִי דִּינָא״. אֲמַרוּ: חַבִּיבָא עֲלֵיהּ יְקָרָא דְמַלְכוּתָא כּוּלֵּי הַאי! יָהֲבִי לֵיהּ קוּלְפָא אֲמַרוּ לֵיהּ: דּוּן דִּינָא.

Enquanto (ad) examinavam (dimayeini) nele (beih) o julgamento (bedina), abriu (patach) Rabi Shila e disse (vaamar): "a Ti (lecha), Senhor (Hashem), pertence a grandeza (hagedulá) e o poder (vehagevurá) etc." (Divrei HaYamim I 29:11). Disseram-lhe (amri leih): o que (mai) estás dizendo (kaamarat)? Disse-lhes (amar lehu): assim (hachi) estou dizendo (kaamina): "bendito (berich) é o Misericordioso (Rachmaná), que (deyahev) deu (yahev) reino (malchutá) na terra (beará) semelhante (keein) ao reino (malchutá) do céu (dirkiá), e vos deu (viyhav lechu) domínio (shultaná) e amor (verachamei) pela justiça (dina)". Disseram (amaru): quão querida (chaviva) lhe é (aleih) a honra (yekará) do reino (demalchutá), tanto assim (kulei hai)! Deram-lhe (yahavi leih) um cetro (kulfá), disseram-lhe (amaru leih): julga (dun) o julgamento (dina).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
ורחמי דינא – אוהבים משפט: קולפא – מקל לרדות:

"E amor pela justiça" — que amam (ohavim) a justiça (mishpat). "Kulfá" — um bastão (makel) para (lirdot) governar (lirdot).

Nota

Rabi Shila, sob julgamento, recitou o versículo sobre a grandeza Divina, e o interpretou diante das autoridades como louvor ao próprio reino terreno — semelhante ao reino do Céu, e dotado de amor pela justiça; impressionadas com sua devoção à honra do reino, elas lhe deram um bastão de autoridade e o mandaram julgar.

15Ao sair, o denunciante zombou: faz o Misericordioso milagre para mentirosos assim? Rabi Shila matou-o, pois era perseguidor
Bavli · 58a — Guemará
כִּי הֲוָה נָפֵיק, אֲמַר לֵיהּ הַהוּא גַּבְרָא: עָבֵיד רַחֲמָנָא נִיסָּא לְשַׁקָּרֵי הָכִי? אֲמַר לֵיהּ: רָשָׁע, לָאו חֲמָרֵי אִיקְּרוּ? דִּכְתִיב: ״אֲשֶׁר בְּשַׂר חֲמוֹרִים בְּשָׂרָם״. חַזְיֵיהּ דְּקָאָזֵיל לְמֵימְרָא לְהוּ דִּקְרִינְהוּ חֲמָרֵי, אֲמַר: הַאי רוֹדֵף הוּא. וְהַתּוֹרָה אָמְרָה: אִם בָּא לְהׇרְגְּךָ — הַשְׁכֵּם לְהׇרְגוֹ. מַחְיֵיהּ בְּקוּלְפָא וְקַטְלֵיהּ.

Quando (ki) este (Rabi Shila) estava saindo (havá nafek), disse-lhe (amar leih) aquele (hahu) homem (gavra) (o denunciante): faz (aveid) o Misericordioso (Rachmaná) milagre (nisa) para mentirosos (leshakarei) assim (hachi)? Disse-lhe (amar leih) Rabi Shila: ímpio (rashá), não (lav) se chamam (ikru) os gentios jumentos (chamarei)? Pois está escrito (dichtiv): "cuja (asher) carne (besar) é carne (chamorim) de jumentos (besaram)" (Yechezkel 23:20). Viu (chazyeih) que este (dekaazel) ia (azel) dizer-lhes (lemeimar lehu) que (dikrinhu) os chamara (karinhu) jumentos (chamarei), disse (amar): este (hai) é (hu) um perseguidor (rodef) — pois isso o colocaria em risco de morte perante o rei. E a Torá (vehatorá) disse (amrá): se (im) vem (ba) para matar-te (leharegecha) — madruga (hashkeim) para matá-lo (leharego). Golpeou-o (machyeih) com o cetro (bekulfá) e o matou (vekatleih).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
התורה אמרה אם בא להרגך השכם להרגו – אם במחתרת וגו' (שמות כב) לפי שבא על עסקי נפשות שיודע הוא שאם ימצא ותמצאנו חותר לא תעמיד עצמך מלהציל ממונך והוא בא לדעת כן שיקום עליך ויהרגך אמרה תורה השכם אתה והרגהו:

"A Torá disse: se vem para matar-te, madruga para matá-lo" — é derivado do versículo "se (im) em arrombamento (bamachteret) etc." (Shemot 22:1), porque (lefi) este veio (ba) por causa (al iske) de vidas (nefashot), pois (she) ele sabe (yodea hu) que (she) se (im) for encontrado (yimatzeh) arrombando (chotair), e o encontrares (vetimtzaenu), não (lo) te conterás (taamod atzmecha) de salvar (mehatzil) teu bem (mamonecha), e ele veio (vehu ba) sabendo (ladaat) assim (ken), que (she) se levantará (yakum) contra ti (alecha) e te matará (veyahargecha); disse (amrá) a Torá (hatorá): madruga tu (hashkeim atá) e mata-o (veharegehu) — isto é, Rashi esclarece que a regra do ladrão que arromba se aplica aqui porque o denunciante, sabendo que sua acusação poria a vida de Rabi Shila em risco, tornou-se, em efeito, um perseguidor que vinha atrás de sua vida.

Nota

O denunciante zombou de que Deus fizesse milagre para "mentirosos"; Rabi Shila retrucou citando o versículo que chama os gentios de "carne de jumentos" — e, percebendo que o homem iria denunciá-lo por isso, tratou-o como perseguidor (rodef) e o matou primeiro, aplicando o princípio derivado do ladrão que arromba: "se vem para matar-te, madruga para matá-lo".

16Já que se fez milagre com este versículo, Rabi Shila o interpreta cláusula por cláusula, ligando cada atributo a um episódio da história de Israel
Bavli · 58a — Guemará
אֲמַר: הוֹאִיל וְאִתְעֲבִיד לִי נִיסָּא בְּהַאי קְרָא, דָּרֵישְׁנָא לֵיהּ: ״לְךָ ה׳ הַגְּדֻלָּה״ — זוֹ מַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״עֹשֶׂה גְדֹלוֹת עַד אֵין חֵקֶר״. ״וְהַגְּבוּרָה״ — זוֹ יְצִיאַת מִצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְא יִשְׂרָאֵל אֶת הַיָּד הַגְּדֹלָה וְגוֹ׳״. ״וְהַתִּפְאֶרֶת״ — זוֹ חַמָּה וּלְבָנָה שֶׁעָמְדוּ לוֹ לִיהוֹשֻׁעַ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּדֹּם הַשֶּׁמֶשׁ וְיָרֵחַ עָמָד וְגוֹ׳״. ״וְהַנֵּצַח״ — זוֹ מַפַּלְתָּהּ שֶׁל רוֹמִי. וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״וְיֵז נִצְחָם עַל בְּגָדַי וְגוֹ׳״. ״וְהַהוֹד״ — זוֹ מִלְחֶמֶת נַחֲלֵי אַרְנוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל כֵּן יֵאָמַר בְּסֵפֶר מִלְחֲמֹת ה׳ אֶת וָהֵב בְּסוּפָה וְגוֹ׳״. ״כִּי כֹל בַּשָּׁמַיִם וּבָאָרֶץ״ — זוֹ מִלְחֶמֶת סִיסְרָא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִן שָׁמַיִם נִלְחָמוּ הַכּוֹכָבִים מִמְּסִלּוֹתָם וְגוֹ׳״. ״לְךָ ה׳ הַמַּמְלָכָה״ — זוֹ מִלְחֶמֶת עֲמָלֵק, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״כִּי יָד עַל כֵּס יָהּ״. ״וְהַמִּתְנַשֵּׂא״ — זוֹ מִלְחֶמֶת גּוֹג וּמָגוֹג, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״הִנְנִי אֵלֶיךָ גּוֹג נְשִׂיא רֹאשׁ מֶשֶׁךְ וְתֻבָל״. ״לְכֹל לְרֹאשׁ״ — אָמַר רַב חָנָן בַּר רָבָא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֲפִילּוּ רֵישׁ גַּרְגִּיתָא מִן שְׁמַיָּא מַנּוּ לֵיהּ.

Disse (amar) Rabi Shila: já que (hoil) se fez (itavid) para mim (li) milagre (nisa) com este (behai) versículo (kra), interpretá-lo-ei (dareishna leih): "a Ti (lecha), Senhor (Hashem), pertence a grandeza (hagedulá)" — esta (zo) é a obra (maasei) da Criação (bereishit), e assim (vechen) ele diz (hu omer): "faz (oseh) grandezas (gedolot) sem (ad ein) limite (cheker)" (Iyov 9:10). "E o poder (vehagevurá)" — esta (zo) é a saída (yetziat) do Egito (mitzrayim), pois foi dito (sheneemar): "e viu (vayar) Israel (Yisrael) a mão (et hayad) grande (hagedolá) etc." (Shemot 14:31). "E o esplendor (vehatiferet)" — este (zo) é o sol (chamá) e a lua (ulevaná) que (sheamdu) pararam (amdu) para (lo) Yehoshua, pois foi dito (sheneemar): "e parou (vayidom) o sol (hashemesh), e a lua (veyareach) parou (amad) etc." (Yehoshua 10:13). "E a vitória (vehanetzach)" — esta (zo) é a queda (mapaltá) de Roma (Romi). E assim (vechen) ele diz (hu omer): "e salpicou (veyez) seu sangue (nitzcham) sobre (al) minhas vestes (begadai) etc." (Yeshayahu 63:3). "E a majestade (vehahod)" — esta (zo) é a guerra (milchemet) dos vales (nachalei) de Arnon (Arnon), pois foi dito (sheneemar): "por isso (al kein) se diz (yeamar) no livro (besefer) das guerras (milchamot) do Senhor (Hashem): et Vahev (et Vahev) em Sufá (besufá) etc." (Bamidbar 21:14). "Pois (ki) tudo (chol) está no céu (bashamayim) e na terra (uvaaretz)" — esta (zo) é a guerra (milchemet) de Sisrá (Sisrá), pois foi dito (sheneemar): "desde (min) o céu (shamayim) lutaram (nilchamu) as estrelas (hakochavim), de suas órbitas (mimesilotam)" (Shoftim 5:20). "A Ti (lecha), Senhor (Hashem), pertence o reino (hamamlachá)" — esta (zo) é a guerra (milchemet) de Amalek, e assim (vechen) ele diz (hu omer): "pois (ki) a mão (yad) está sobre (al) o trono (keis) de Y-ah (Yah)" (Shemot 17:16). "E o exaltado (vehamitnasei)" — esta (zo) é a guerra (milchemet) de Gog e Magog, e assim (vechen) ele diz (hu omer): "eis-me (hineni) contra ti (eilecha), Gog, príncipe (nesi) chefe (rosh) de Meshech e Tuval" (Yechezkel 38:3). "Sobre todos (lechol), à cabeça (lerosh)" — disse (amar) Rav Chanan bar Rava disse (amar) Rabi Yochanan: até mesmo (afilu) um capataz (reish) de poço (gargita) é nomeado (mannu) desde o Céu (min shemaya) para ele (leih).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 58a
הממלכה זו מלחמת עמלק – דכתיב בה כסא מלכות כי יד על כס יה (שמות י״ז:ט״ז) כלומר על ידי מלחמה ליי' בעמלק יתעלה כסאו: המתנשא – מדכתיב לשון נשיאות משמע על נשיא ראש משך ותובל: לכל לראש – לכל הקם להיות לראש הוא מתנשא כלומר שהוא גוזר ומעמידו: ריש גרגיתא – בור הממונה על החופרין חפירות למלאותן מים כדי להשקות בהן שדותיהן:

"'O reino' — esta é a guerra de Amalek" — pois (dichtiv) está escrito (bah) nela a palavra "trono (keis) de reinado (malchut)": "pois (ki) a mão (yad) está sobre (al) o trono (keis) de Y-ah (Yah)" (Shemot 17:16), isto é (kelomar), por meio (al yedei) da guerra (milchamá) do Senhor (la-Hashem) contra (be) Amalek (Amalek) Se exalta (yitaleh) Seu trono (kiso). "'O exaltado'" — porque (mide) está escrito (dichtiv) linguagem (leshon) de "elevação (nesiut)", indica (mashma) referência a (al) "príncipe (nesi) chefe (rosh) de Meshech e Tuval". "'Sobre todos, à cabeça'" — sobre todo (lechol) aquele que se levanta (hakam) para ser (lihyot) chefe (lerosh), Ele (hu) Se exalta (mitnasei), isto é (kelomar), que (she) Ele (hu) decreta (gozer) e o estabelece (umaamido). "Capataz de poço" — o poço (bor) encarregado (hamemuneh) sobre (al) os que escavam (hachofrin) escavações (chafirot) para (lemalotan) enchê-las (lemalotan) de água (mayim), a fim de (kedei) regar (lehashkot) com elas (bahen) seus campos (sedoteihem).

Nota

Rabi Shila expõe cláusula por cláusula o versículo "a Ti, Senhor, pertence a grandeza": a grandeza é a Criação; o poder, a saída do Egito; o esplendor, o sol e a lua parados para Yehoshua; a vitória, a futura queda de Roma; a majestade, a guerra dos vales de Arnon; "tudo no céu e na terra", a guerra de Sisrá; o reino, a guerra de Amalek; o exaltado, a futura guerra de Gog e Magog; e "à cabeça de todos" ensina, segundo Rabi Yochanan, que até o mais humilde encarregado de um poço é nomeado pelo Céu.

17Foi ensinado em uma baraita em nome de Rabi Akiva: outra interpretação do mesmo versículo, ligada aos grandes milagres do Êxodo e do Templo
Bavli · 58a — Guemará
בְּמַתְנִיתָא תַּנָּא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַבִּי עֲקִיבָא: ״לְךָ ה׳ הַגְּדֻלָּה״ — זוֹ קְרִיעַת יַם סוּף. ״וְהַגְּבוּרָה״ — זוֹ מַכַּת בְּכוֹרוֹת. ״וְהַתִּפְאֶרֶת״ — זוֹ מַתַּן תּוֹרָה. ״וְהַנֵּצַח״ — זוֹ יְרוּשָׁלַיִם. ״וְהַהוֹד״ — זוֹ בֵּית הַמִּקְדָּשׁ.

Em uma baraita (bematnita) foi ensinado (taná) em nome (mishemeih) de Rabi Akiva: "a Ti (lecha), Senhor (Hashem), pertence a grandeza (hagedulá)" — esta (zo) é a fenda (keriat) do Mar (yam) de Suf (suf). "E o poder (vehagevurá)" — esta (zo) é a praga (makat) dos primogênitos (bechorot). "E o esplendor (vehatiferet)" — este (zo) é o dom (matan) da Torá (Torá). "E a vitória (vehanetzach)" — esta (zo) é Jerusalém (Yerushalayim). "E a majestade (vehahod)" — este (zo) é o Templo (Beit HaMikdash).

Nota

Rabi Akiva propõe uma segunda leitura do mesmo versículo: a grandeza é a fenda do Mar de Suf; o poder, a praga dos primogênitos; o esplendor, o dom da Torá; a vitória, Jerusalém; e a majestade, o Templo — encerrando o daf com uma exposição paralela, centrada não em guerras futuras, mas nos grandes marcos fundacionais de Israel: o Êxodo, a revelação no Sinai e Jerusalém com seu Templo.