Talmud Bavli · Berachot · Daf 60, lado A · Perek Tet (HaRoeh)
ס ע״א

A conclusão da disputa sobre casa e utensílios novos; a oração vã sobre o filho da esposa grávida, com Leá e Diná; Hilel e o temor do estudante; quem entra numa cidade, na casa de banho e ao sangrar; e as bênçãos matinais

Berachot 60a · Perek Tet ("Aquele que vê")

O daf abre concluindo a disputa entre Rav Huna e Rabi Yochanan sobre casa nova e utensílios novos, trazendo uma baraita e harmonizando as duas versões da tradição. Segue explicando os casos concretos da Mishná sobre abençoar pelo mal e pelo bem, e desenvolve a extensa sugya sobre a oração vã — o homem que reza pelo sexo do filho já formado, com o caso de Leá e Diná e o intervalo de dias em que se pode ainda pedir misericórdia, e o episódio de Hilel, o Velho, que não temia más notícias porque confiava que nada de ruim ocorreria em sua própria casa. O daf then trata da oração de quem entra numa cidade grande e no banheiro, com o cuidado de Abaye contra "abrir a boca para o satã", e fecha com uma bela sequência de bênçãos ao acordar e ao realizar atos cotidianos — a saída da casa de banho, a sangria e a visita ao médico — culminando na fórmula "Rofê cholim", que abre caminho para a série de bênçãos matinais do próximo daf.

1Segue-se, portanto, que quando adquiriu e voltou a adquirir o mesmo — segundo todos, não precisa abençoar
Bavli · 60a — Guemará
מִכְּלָל דְּכִי קָנָה וְחָזַר וְקָנָה, דִּבְרֵי הַכֹּל אֵין צָרִיךְ לְבָרֵךְ.

Segue-se (mikelal) disso que (de) quando (ki) adquiriu (kaná) e voltou (vechazar) a adquirir (vekaná) o mesmo objeto, isto é, adquiriu um utensílio novo idêntico a um que já possuía — segundo (divrei) todos (hakol), não (ein) precisa (tzarich) abençoar (levarech).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
דקנה וחזר וקנה דברי הכל אין צריך לברך – דהא רבי יוחנן לא אמר צריך לברך אלא משום דלענין קנייה חדש הוא:

"Quando adquiriu e voltou a adquirir, segundo todos não precisa abençoar" — pois (deha) Rabi Yochanan não (lo) disse (amar) que precisa (tzarich) abençoar (levarech) senão (ela) por causa (mishum) de que (de), quanto à (leinyan) aquisição (keniyah), é novo (chadash) para ele — mas quando já adquiriu antes o mesmo tipo de objeto, não há sequer essa novidade de aquisição.

Nota

A Guemará conclui, a partir da formulação de Rav Huna e Rabi Yochanan em 59b, que há um caso em que ambos concordam: quando alguém já adquiriu um objeto, e depois volta a adquirir exatamente o mesmo tipo de objeto que já possuía — sem qualquer elemento de novidade além da posse repetida — não há qualquer obrigação de abençoar "SheHecheyanu".

2E há quem diga: Rav Huna só disse isso quando não adquiriu e depois adquiriu; mas se adquiriu e voltou a adquirir, não precisa abençoar. E Rabi Yochanan disse: mesmo que adquiriu e voltou a adquirir, precisa abençoar
Bavli · 60a — Guemará
וְאִיכָּא דְּאָמְרִי: אָמַר רַב הוּנָא: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא שֶׁלֹּא קָנָה וְחָזַר וְקָנָה, אֲבָל קָנָה וְחָזַר וְקָנָה — אֵין צָרִיךְ לְבָרֵךְ. וְרַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: אֲפִילּוּ קָנָה חָזַר וְקָנָה — צָרִיךְ לְבָרֵךְ. מִכְּלָל דְּכִי יֵשׁ לוֹ וְקָנָה — דִּבְרֵי הַכֹּל צָרִיךְ לְבָרֵךְ.

E há quem diga (veika deamri): disse (amar) Rav Huna: não (lo) ensinaram (shanu) que não precisa abençoar senão (ela) quando (she) não (lo) adquiriu (kaná) antes e voltou (vechazar) a adquirir (vekaná); mas (aval) se adquiriu (kaná) e voltou (vechazar) a adquirir (vekaná) — não (ein) precisa (tzarich) abençoar (levarech). E Rabi Yochanan disse (amar): mesmo que (afilu) adquiriu (kaná) e voltou (chazar) a adquirir (vekaná) — precisa (tzarich) abençoar (levarech). Segue-se (mikelal) disso que (de) quando (ki) tem (yesh lo) um e adquiriu (vekaná) outro semelhante — segundo (divrei) todos (hakol), precisa (tzarich) abençoar (levarech).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
ואיכא דאמרי כו' מכלל דכי יש לו וקנה דברי הכל צריך לברך – דהא רב הונא לא אמר אין צריך לברך אלא דקנה וחזר וקנה דליכא חדוש כלל אבל יש לו וקנה דאיכא חדוש מודה הוא דצריך:

"E há quem diga etc., segue-se que quando tem e adquiriu, segundo todos precisa abençoar" — pois (deha) Rav Huna não (lo) disse (amar) que não precisa abençoar senão (ela) quando (de) adquiriu (kaná) e voltou a adquirir (vechazar vekaná), caso em que (deleika) não há (leika) novidade (chidush) alguma (kelal); mas (aval) quando tem e adquiriu (yesh lo vekaná), caso em que (deika)(ika) novidade (chidush), ele admite (modeh hu) que (de) precisa (tzarich) abençoar.

Nota

Uma segunda versão da tradição inverte os termos da primeira: aqui, Rav Huna isenta apenas quem adquire de novo exatamente o que já possuía sem interrupção (kaná vechazar vekaná), enquanto Rabi Yochanan exige a bênção mesmo nesse caso. Ambas as versões concordam, porém, que quando alguém já tem um objeto e adquire um segundo semelhante ao lado do primeiro (yesh lo vekaná), a bênção é devida por todos — pois aí há uma novidade real de aquisição, ainda que não de posse.

3Objetam: construiu casa nova sem ter similar, ou comprou utensílios novos sem ter similares — precisa abençoar; se tem similares — não precisa, palavras de Rabi Meir. Rabi Yehuda diz: em ambos os casos precisa abençoar
Bavli · 60a — Guemará
מֵיתִיבִי: בָּנָה בַּיִת חָדָשׁ וְאֵין לוֹ כַּיּוֹצֵא בּוֹ, קָנָה כֵּלִים חֲדָשִׁים וְאֵין לוֹ כַּיּוֹצֵא בָּהֶם — צָרִיךְ לְבָרֵךְ. יֵשׁ לוֹ כַּיּוֹצֵא בָּהֶם — אֵין צָרִיךְ לְבָרֵךְ, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ צָרִיךְ לְבָרֵךְ.

Objetam (meitivi): construiu (baná) casa (bayit) nova (chadash) e não (veein) tem (lo) outra similar (kayotze bo) a ela, ou comprou (kaná) utensílios (kelim) novos (chadashim) e não (veein) tem (lo) similares (kayotze bahen) a eles — precisa (tzarich) abençoar (levarech). Tem (yesh lo) similares (kayotze bahen) a eles (bahen) — não (ein) precisa (tzarich) abençoar (levarech); palavras (divrei) de Rabi Meir. Rabi Yehuda diz (omer): seja como for (bein kach uvein kach) — tenha ou não similares — precisa (tzarich) abençoar (levarech).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
בין כך ובין כך – בין שיש לו בין שאין לו הואיל ולא קנה הראשונים ועכשיו קנה צריך לברך:

"Seja como for" — seja (bein) que tenha (sheyesh lo), seja que não (bein sheein lo) objetos similares, visto que (hoil) não (velo) adquiriu (kaná) os primeiros (harishonim) e agora (veachshav) adquiriu (kaná) estes, precisa (tzarich) abençoar (levarech).

Nota

A Guemará traz a baraita já citada em 59b como objeção: segundo Rabi Meir, apenas quem não possui similar precisa abençoar; segundo Rabi Yehuda, sempre se abençoa, tenha ou não similar. Essa baraita será usada para testar qual versão da disputa Rav Huna/Rabi Yochanan é mais coerente.

4Está bem segundo a primeira versão — Rav Huna concorda com Rabi Meir e Rabi Yochanan com Rabi Yehuda. Mas segundo a segunda versão, com quem concordaria Rabi Yochanan? Nem com Rabi Meir, nem com Rabi Yehuda!
Bavli · 60a — Guemará
בִּשְׁלָמָא לְלִישָּׁנָא קַמָּא — רַב הוּנָא כְּרַבִּי מֵאִיר, וְרַבִּי יוֹחָנָן כְּרַבִּי יְהוּדָה. אֶלָּא לְלִישָּׁנָא בָּתְרָא, בִּשְׁלָמָא רַב הוּנָא כְּרַבִּי יְהוּדָה, אֶלָּא רַבִּי יוֹחָנָן דְּאָמַר כְּמַאן? לָא כְּרַבִּי מֵאִיר וְלָא כְּרַבִּי יְהוּדָה!

Está bem (bishlama) segundo (le) a primeira (kama) versão (lishana)Rav Huna concorda com (ke) Rabi Meir, e Rabi Yochanan com (ke) Rabi Yehuda. Mas (ela) segundo (le) a última (batra) versão (lishana), está bem (bishlama) que Rav Huna concorda com (ke) Rabi Yehuda; mas (ela) Rabi Yochanan, que (de) disse (amar) que sempre precisa abençoar mesmo quando adquiriu e voltou a adquirir, como (kemaan) concorda com quem? Não (lo) concorda com (ke) Rabi Meir e não (velo) com (ke) Rabi Yehuda!

Nota

A Guemará testa as duas versões contra a baraita de Rabi Meir e Rabi Yehuda. Na primeira versão, o encaixe é perfeito: Rav Huna (que isenta quando há similar) corresponde a Rabi Meir, e Rabi Yochanan (que sempre exige) corresponde a Rabi Yehuda. Mas na segunda versão — em que Rabi Yochanan exige a bênção mesmo quando o mesmo objeto foi adquirido de novo, um caso mais extremo do que a baraita discute — nenhum dos dois tanaítas parece corresponder à posição de Rabi Yochanan.

5Rabi Yochanan pode responder: o mesmo se aplica a Rabi Yehuda quanto a adquirir o mesmo de novo; a disputa em "tem e adquiriu" visa mostrar o alcance extremo de Rabi Meir — que mesmo aí não precisa abençoar
Bavli · 60a — Guemará
אָמַר לָךְ רַבִּי יוֹחָנָן: הוּא הַדִּין דִּלְרַבִּי יְהוּדָה קָנָה וְחָזַר וְקָנָה — נָמֵי צָרִיךְ לְבָרֵךְ. וְהָא דְּקָא מִיפַּלְגִי בְּיֵשׁ לוֹ וְקָנָה, לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחוֹ דְּרַבִּי מֵאִיר דַּאֲפִילּוּ קָנָה וְיֵשׁ לוֹ — אֵין צָרִיךְ לְבָרֵךְ, וְכׇל שֶׁכֵּן קָנָה וְחָזַר וְקָנָה דְּאֵין צָרִיךְ לְבָרֵךְ.

Poderia dizer-te (amar lach) Rabi Yochanan: o mesmo (hu hadin) se aplica (de) a Rabi Yehuda: adquiriu (kaná) e voltou (vechazar) a adquirir (vekaná) o mesmo objeto — também (nami) precisa (tzarich) abençoar (levarech) segundo ele. E isto (veha), que (de) discordam (mipalgi) Rabi Meir e Rabi Yehuda a respeito de (be) "tem (yesh lo) e adquiriu (vekaná)" — um segundo objeto além do primeiro, é para dar-te a conhecer (lehodiacha) a força (kocho) de Rabi Meir, que (de) mesmo que (afilu) adquiriu (kaná) outro e já tem (veyesh lo) o primeiro — não (ein) precisa (tzarich) abençoar (levarech), e tanto mais (vechol shekein) no caso de adquiriu (kaná) e voltou (vechazar) a adquirir (vekaná) o mesmo, que (de) não (ein) precisa (tzarich) abençoar (levarech).

Nota

A Guemará responde em nome de Rabi Yochanan: também Rabi Yehuda concordaria que, quando se adquire de novo exatamente o mesmo objeto sem interrupção, é preciso abençoar — a disputa na baraita, formulada sobre "tem um e adquire outro similar", visa apenas revelar o alcance extremo da posição de Rabi Meir: mesmo nesse caso mais brando ele isenta, e por consequência (a fortiori) isentaria também no caso mais extremo de adquirir de novo o mesmo objeto.

6Mas então deveriam ter discordado sobre "adquiriu e voltou a adquirir" para mostrar o alcance de Rabi Yehuda! A força da permissão é preferível a ele
Bavli · 60a — Guemará
וְלִיפַּלְגוּ בְּקָנָה וְחָזַר וְקָנָה דְּאֵין צָרִיךְ לְבָרֵךְ, לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחוֹ דְּרַבִּי יְהוּדָה! כֹּחַ דְּהֶתֵּירָא עֲדִיף לֵיהּ.

E que discordassem (veliflagu) sobre (be) "adquiriu (kaná) e voltou (vechazar) a adquirir (vekaná)" — que segundo Rabi Meir não (ein) precisa (tzarich) abençoar (levarech) — para te dar a conhecer (lehodiacha) a força (kocho) de Rabi Yehuda — que mesmo nesse caso extremo exige a bênção! A Guemará responde: a força (koach) de (de) permitir (hetera) é preferível (adif) a ele (leih) — ao redator da baraita, que preferiu demonstrar o alcance da posição mais permissiva, e não o da mais rigorosa.

Nota

Última objeção da série: por que a baraita não formulou a disputa sobre o caso extremo de "adquiriu e voltou a adquirir o mesmo objeto", o que revelaria o alcance da posição rigorosa de Rabi Yehuda? A Guemará responde com um princípio redacional: prefere-se demonstrar o alcance de uma posição permissiva (a isenção de Rabi Meir) a demonstrar o alcance de uma posição que exige mais — encerrando, assim, toda a sugya sobre casa nova e utensílios novos aberta ainda em 59b.

7Sobre a Mishná: "abençoa pelo mal" etc.
Bavli · 60a — Guemará
מְבָרֵךְ עַל הָרָעָה כּוּ׳.

Sobre a Mishná: "abençoa (mevarech) pelo mal (al hara'ah)" etc.

Nota

A Guemará retoma outra cláusula da Mishná — o princípio de abençoar "Dayan HaEmet" pelo mal e "HaTov VeHaMetiv" pelo bem — para explicar com exemplos concretos como um mesmo evento pode ser, a rigor, tanto bom quanto mau, dependendo da perspectiva.

8Como assim? Por exemplo, quando um rio levou terra de sua propriedade — embora no fim seja bom para ele, pois a terra ganha aluvião e melhora, por ora é mau
Bavli · 60a — Guemará
הֵיכִי דָּמֵי? כְּגוֹן דִּשְׁקַל בִּדְקָא בְּאַרְעֵיהּ, אַף עַל גַּב דְּטָבָא הִיא לְדִידֵיהּ, דְּמַסְּקָא אַרְעָא שִׂירְטוֹן וְשָׁבְחָא, הַשְׁתָּא מִיהָא רָעָה הִיא.

Como (heichi) se compara (dami) isso, na prática? Por exemplo (kegon), quando (de) o rio levou (shekal) terra por erosão (bidka) em sua terra (bearei); ainda que (af al gav) isso seja (hi) bom (tava) para ele mesmo (ledidei) a longo prazo, pois (de) a terra (ara) ganha (maska) aluvião (sirton) e melhora (veshavcha) com o tempo, por ora (hashta miha) ainda assim é mal (ra'ah hi).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
דמסקא ארעא שרטון – לימ"ץ מחמת המים והוה ליה לזבל: השתא מיהא רעה היא – שמחבלת תבואה של שנה זו ומברך ברוך דיין האמת:

"Que a terra ganha aluvião" — limo (limutz) por causa (mechamat) das águas (hamayim), e serve-lhe (vehava leih) como adubo (lezevel). "Por ora ainda assim é mal" — pois (she) danifica (mechabelet) a colheita (tevuah) deste (shel) ano (shanah), e abençoa (umevarech) "Bendito (Baruch)... o Juiz (Dayan) da Verdade (HaEmet)".

Nota

A Guemará exemplifica: quando um rio corrói e leva terra de uma propriedade, isso é, a longo prazo, benéfico — pois a terra recebe aluvião fértil e melhora sua qualidade. Ainda assim, no momento imediato o evento é ruim, pois destrói a colheita daquele ano; por isso a bênção correta, no instante do fato, é "Dayan HaEmet" — o Juiz da Verdade.

9Sobre a Mishná: "e pelo bem" etc.
Bavli · 60a — Guemará
וְעַל הַטּוֹבָה כּוּ׳.

Sobre a Mishná: "e pelo bem (veal hatovah)" etc.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
ועל הטובה שהיא מעין הרעה – יברך הטוב והמטיב:

"E pelo bem que é semelhante (meein) ao mal" — abençoa (yevarech) "HaTov VeHaMetiv".

Nota

Segundo Rashi, esta cláusula da Mishná trata do caso inverso e simétrico ao anterior: um evento que é, na aparência imediata, bom, mas que guarda em si um elemento "semelhante ao mal" — como se verá no exemplo seguinte —, e ainda assim se abençoa por ele "HaTov VeHaMetiv".

10Como assim? Por exemplo, achou um objeto perdido — embora seja mau para ele, pois se o rei souber, tomará dele, por ora é bom
Bavli · 60a — Guemará
הֵיכִי דָּמֵי? כְּגוֹן דְּאַשְׁכַּח מְצִיאָה, אַף עַל גַּב דְּרָעָה הִיא לְדִידֵיהּ, דְּאִי שָׁמַע בַּהּ מַלְכָּא שָׁקֵיל לַהּ מִינֵּיהּ, הַשְׁתָּא מִיהָא טוֹבָה הִיא.

Como (heichi) se compara (dami)? Por exemplo (kegon), quando (de) achou (ashkach) um objeto perdido (metziah); ainda que (af al gav) isso seja (hi) mal (ra'ah) para ele mesmo (ledidei) a longo prazo, pois (de), se (i) ouvir (shama) a respeito dela (bah) o rei (malka), tomará (shakeil) a ela (lah) dele (mineih) por confisco, por ora (hashta miha) ainda assim é bem (tovah hi).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
מאי היא – כגון דאשכח מציאה:

O que (mai) é (hi) esse caso? Por exemplo (kegon), quando (de) achou (ashkach) um objeto perdido (metziah).

Nota

O exemplo simétrico ao anterior: achar um objeto perdido é, a rigor, um risco — se chegar ao conhecimento do rei ou de sua administração, o achado poderá ser confiscado dele. Ainda assim, no momento imediato, encontrar o objeto é um bem, e por isso se abençoa "HaTov VeHaMetiv".

11Estava sua esposa grávida e disse: "seja vontade que dê à luz" etc. — eis que é oração vã
Bavli · 60a — Guemará
הָיְתָה אִשְׁתּוֹ מְעוּבֶּרֶת וְאָמַר: ״יְהִי רָצוֹן שֶׁתֵּלֵד כּוּ׳״ — הֲרֵי זוֹ תְּפִלַּת שָׁוְא.

Sobre a Mishná: estava (hayeta) sua esposa (ishto) grávida (meuberet) e disse (veamar): "seja (yehi) vontade (ratzon) que dê à luz (shetelid)" etc. — eis (harei) que esta (zo) é oração (tefilat)(shav).

Nota

A Mishná ensina que orar pelo sexo do filho quando a esposa já está grávida é oração vã — pois o sexo da criança já está fisicamente determinado desde a concepção, e nenhuma súplica pode alterar um fato já consumado. A Guemará abrirá, a partir daqui, uma extensa discussão sobre até que ponto isso é rigorosamente verdadeiro.

12Mas a misericórdia não ajuda? Rav Yosef objeta com o versículo "e depois deu à luz uma filha, e chamou seu nome Dina" — Leá julgou a si mesma e a criança se transformou; mas não se menciona milagre
Bavli · 60a — Guemará
וְלָא מַהֲנֵי רַחֲמֵי? מֵתִיב רַב יוֹסֵף: ״וְאַחַר יָלְדָה בַּת וַתִּקְרָא אֶת שְׁמָהּ דִּינָה״: מַאי ״וְאַחַר״? אָמַר רַב: לְאַחַר שֶׁדָּנָה לֵאָה דִּין בְּעַצְמָהּ וְאָמְרָה: שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים עֲתִידִין לָצֵאת מִיַּעֲקֹב, שִׁשָּׁה יָצְאוּ מִמֶּנִּי וְאַרְבָּעָה מִן הַשְּׁפָחוֹת, הֲרֵי עֲשָׂרָה. אִם זֶה זָכָר, לֹא תְּהֵא אֲחוֹתִי רָחֵל כְּאַחַת הַשְּׁפָחוֹת, מִיָּד נֶהֶפְכָה לְבַת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתִּקְרָא אֶת שְׁמָהּ דִּינָה״. אֵין מַזְכִּירִין מַעֲשֵׂה נִסִּים.

E não (vela) ajuda (mahanei) a misericórdia (rachamei) — não adianta então rezar sobre uma gravidez já em curso? Objeta (metiv) Rav Yosef: "e depois (veachar) deu à luz (yalda) uma filha (bat), e chamou (vatikra) seu nome (shemah) Dina" — o que (mai) significa "e depois (veachar)"? Disse (amar) Rav: depois (leachar) que (she) julgou (dana) Leá um juízo (din) em si mesma (beatzmah) e disse (veamerah): doze (sheneim asar) tribos (shevatim) estão destinadas (atidin) a sair (latzet) de Yaacov; seis (shishah) já saíram (yatzu) de mim (mimeni) e quatro (vearba'ah) das servas (hashefachot), eis (harei) dez (asarah). Se (im) este (zeh) que carrego for varão (zachar), não (lo) será (tehei) minha irmã (achoti) Rachel como (keachat) uma (achat) das servas (hashefachot) — pois teria menos tribos que elas. Imediatamente (miyad) transformou-se (nehepechah) em filha (levat), como foi dito (sheneemar): "e chamou (vatikra) seu nome (shemah) Dina". Mas por que a Torá não relatou isso como milagre? Não (ein) se menciona (mazkirin) feito (maaseh) de milagres (nisim) explicitamente na Escritura, ainda quando ocorrem.

Nota

Rav Yosef traz uma objeção forte: o versículo diz que Leá "depois" deu à luz uma filha, e Rav explica que esse "depois" se refere ao momento em que Leá, por compaixão com sua irmã Rachel, orou para que o filho que carregava (originalmente varão) se tornasse menina — e a oração foi atendida, transformando o feto de Dina. Isso prova que a misericórdia divina pode, sim, alterar o sexo de um feto já formado, contradizendo a Mishná. A resposta de que "não se menciona feito de milagres" explica por que a Torá não descreve isso abertamente como um milagre, mas não resolve ainda a contradição com a regra da oração vã — o que a Guemará fará a seguir.

13E se quiseres, diz: o caso de Leá ocorreu dentro de quarenta dias — pois se ensinou: nos primeiros três dias, peça misericórdia para não apodrecer; de três a quarenta, para que seja varão; de quarenta a três meses, para não ser sandal; de três a seis, para não ser natimorto; de seis a nove, para sair em paz
Bavli · 60a — Guemará
וְאִיבָּעֵית אֵימָא: מַעֲשֶׂה דְּלֵאָה בְּתוֹךְ אַרְבָּעִים יוֹם הֲוָה. כִּדְתַנְיָא: שְׁלֹשָׁה יָמִים הָרִאשׁוֹנִים — יְבַקֵּשׁ אָדָם רַחֲמִים שֶׁלֹּא יַסְרִיחַ. מִשְּׁלֹשָׁה וְעַד אַרְבָּעִים יְבַקֵּשׁ רַחֲמִים שֶׁיְּהֵא זָכָר. מֵאַרְבָּעִים יוֹם וְעַד שְׁלֹשָׁה חֳדָשִׁים — יְבַקֵּשׁ רַחֲמִים שֶׁלֹּא יְהֵא סַנְדָּל. מִשְּׁלֹשָׁה חֳדָשִׁים וְעַד שִׁשָּׁה — יְבַקֵּשׁ רַחֲמִים שֶׁלֹּא יְהֵא נֵפֶל. מִשִּׁשָּׁה וְעַד תִּשְׁעָה — יְבַקֵּשׁ רַחֲמִים שֶׁיֵּצֵא בְּשָׁלוֹם.

E se quiseres (veibaeit), dize (eimah): o caso (maaseh) de Leá ocorreu (havah) dentro (betoch) de quarenta (arbaim) dias (yom) da concepção — quando o feto ainda não estava definitivamente formado. Como foi ensinado (kidtanya): nos três (sheloshah) dias (yamim) primeiros (harishonim) — peça (yevakesh) o homem (adam) misericórdia (rachamim) para que não (shelo) apodreça (yasriach) o sêmen, e sim que seja recebido no útero. De três (mishloshah) e até (vead) quarenta (arbaim) dias, peça (yevakesh) misericórdia (rachamim) que (sheyehei) seja varão (zachar). De quarenta (mearbaim) dias (yom) e até (vead) três (sheloshah) meses (chodashim) — peça (yevakesh) misericórdia (rachamim) que não (shelo) seja (yehei) um (sandal) — feto malformado. De três (mishloshah) meses (chodashim) e até (vead) seis (shishah) — peça (yevakesh) misericórdia (rachamim) que não (shelo) seja (yehei) um natimorto (nefel). De seis (mishishah) e até (vead) nove (tishah) — peça (yevakesh) misericórdia (rachamim) que (sheyetzeh) saia (yetzeh) em paz (beshalom).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
שלא יסריח – הזרע אלא יקלוט ויהיה ולד ולאחר שלשה ימים אם לא קלט כבר הסריח ואין תפלה מועלת: שלא יהא סנדל – שלא תתעבר אשתו ולד אחר ויהיה פוחת צורתו של ראשון ודומה לדג של ים ששמו סנדל הכי אמרינן במס' נדה (דף כה:) סנדל דומה לסנדל של ים ומתחלתו ולד היה אלא שנרצף משל לאדם שסטר את חבירו והחזיר צורתו לאחוריו:

"Para que não apodreça" — o sêmen (hazera); mas (ela) que seja recebido (yiklot) no útero e se torne (veyihyeh) feto (valad); e depois (ulеachar) de três (sheloshah) dias (yamim), se (im) não (lo) foi recebido (kalat), já (kevar) apodreceu (hisriach), e não (veein) vale (moelet) mais oração (tefilah). "Que não seja um sandal" — que não (shelo) engravide (titaber) sua esposa (ishto) de outro (acher) feto (valad), de modo que (veyihyeh) diminua (pochet) a forma (tzurato) do primeiro (harishon) e se pareça (vedomeh) a um peixe (dag) do mar (shel yam) cujo nome (shemo) é sandal — assim (hachi) se diz (amrinan) no tratado (bemasechet) Nidá (25b): o sandal — feto malformado — se parece (domeh) ao sandal do mar (shel yam), e desde o início (mitechilato) era (hayah) um feto (valad) normal, mas (ela) foi achatado (shenirtzaf) pelo outro feto no útero, à semelhança (mashal) de um homem (adam) que esbofeteou (shesatar) seu companheiro (chaveiro) e reverteu (vehechzir) sua forma (tzurato) para trás (laachorav) — achatando o rosto.

Nota

A Guemará propõe uma segunda resolução: o episódio de Leá ocorreu dentro do prazo de quarenta dias da concepção, período em que — segundo uma baraita detalhada — ainda é eficaz orar pelo sexo da criança, pois o feto não está fisicamente definido. A baraita traça cinco estágios da gestação com uma súplica própria para cada um: nos primeiros três dias, que o sêmen seja recebido; de três a quarenta dias, que seja varão; de quarenta dias a três meses, que não seja um "sandal" (feto achatado por um segundo feto); de três a seis meses, que não seja natimorto; de seis a nove, que nasça em segurança.

14Mas a misericórdia ajuda mesmo dentro de quarenta dias? Não disse Rav Yitzchak bar Rav Ami que quem emite sêmen primeiro gera fêmea, e a mulher que emite primeiro gera varão? Aqui trata-se de quando ambos emitiram ao mesmo tempo
Bavli · 60a — Guemará
וּמִי מַהֲנֵי רַחֲמֵי? וְהָאָמַר רַב יִצְחָק בְּרֵיהּ דְּרַב אַמֵּי: אִישׁ מַזְרִיעַ תְּחִלָּה — יוֹלֶדֶת נְקֵבָה, אִשָּׁה מַזְרַעַת תְּחִלָּה — יוֹלֶדֶת זָכָר. שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִשָּׁה כִּי תַזְרִיעַ וְיָלְדָה זָכָר״! הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן — כְּגוֹן שֶׁהִזְרִיעוּ שְׁנֵיהֶם בְּבַת אַחַת.

Mas será que (umi) ajuda (mahanei) a misericórdia (rachamei) mesmo dentro dos quarenta dias, uma vez que o sexo já está fisiologicamente determinado desde a emissão de sêmen? Não (veha) disse (amar) Rav Yitzchak, filho (breih) de Rav Ami: se o homem (ish) emite sêmen (mazria) primeiro (techilah) — ela dá à luz (yoledet) fêmea (nekevah); se a mulher (ishah) emite sêmen (mazraat) primeiro (techilah) — ela dá à luz (yoledet) varão (zachar), como foi dito (sheneemar): "se a mulher (ishah) emitir sêmen (ki tazria) e der à luz (veyaldah) varão (zachar)"! A Guemará responde: aqui (hacha), com o que (bemai) lidamos (askinan)? Por exemplo (kegon) quando (she) ambos (sheneihem) emitiram sêmen (hizri'u) ao mesmo tempo (bevat achat) — caso em que o sexo ainda não está determinado, e a oração pode influir.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
ומי מהני – תפלה לזכר אפילו בתוך ארבעים יום והלא הדבר תלוי בהזרעה תחלה: הכי גרסינן משכחת לה דמהניא כגון שהזריעו שניהם בבת אחת:

"Mas será que ajuda" — a oração (tefilah) por um varão (lezachar) mesmo (afilu) dentro (betoch) de quarenta (arbaim) dias (yom)? Ora (vehalo), o assunto (hadavar) depende (taluy) de quem emite sêmen (behazraah) primeiro (techilah)! Assim (hachi) se lê (garsinan): encontra-se (mishkachat lah) que ela — a oração — ajuda (demahanya), por exemplo (kegon), quando (she) ambos (sheneihem) emitiram sêmen (hizri'u) ao mesmo tempo (bevat achat).

Nota

A Guemará levanta uma última dificuldade, aparentemente contradizendo sua própria resolução: se o sexo do filho já é determinado fisiologicamente por quem emite sêmen primeiro (a doutrina de Rav Yitzchak bar Rav Ami, apoiada no versículo de Vayikrá), como pode a oração ainda influir dentro dos quarenta dias? A resposta final: a oração é eficaz especificamente no caso raro em que ambos os cônjuges emitem sêmen exatamente ao mesmo tempo, situação em que o resultado ainda está em aberto — encerrando assim toda a sugya sobre a oração vã e a gravidez.

15Sobre a Mishná: "vinha pelo caminho" etc.
Bavli · 60a — Guemará
הָיָה בָּא בַּדֶּרֶךְ.

Sobre a Mishná: "vinha (hayah ba) pelo caminho (baderech)" e ouviu voz de gritaria na cidade e disse: seja vontade que não seja em minha casa — eis que é oração vã.

Nota

A Guemará retoma outra cláusula da Mishná — a mesma regra de oração vã aplicada a quem, ao aproximar-se de sua cidade e ouvir gritos de aflição, reza para que a desgraça não tenha ocorrido em sua própria casa, já que o fato, se ocorreu, já ocorreu e não pode ser alterado. A partir daqui a Guemará traz o episódio de Hilel, o Velho, que ilustra uma atitude de confiança diante de más notícias.

16Ensinaram os sábios: caso de Hilel, o Velho, que vinha pelo caminho e ouviu voz de gritaria na cidade — disse: estou seguro de que não é em minha casa; e sobre ele diz o versículo "de má notícia não temerá, seu coração está firme, confiante no Eterno"
Bavli · 60a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: מַעֲשֶׂה בְּהִלֵּל הַזָּקֵן שֶׁהָיָה בָּא בַּדֶּרֶךְ וְשָׁמַע קוֹל צְוָחָה בָּעִיר, אָמַר: מוּבְטָח אֲנִי שֶׁאֵין זֶה בְּתוֹךְ בֵּיתִי. וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״מִשְּׁמוּעָה רָעָה לֹא יִירָא נָכוֹן לִבּוֹ בָּטֻחַ בַּה׳״. אָמַר רָבָא: כׇּל הֵיכִי דְּדָרְשַׁתְּ לְהַאי קְרָא מֵרֵישֵׁיהּ לְסֵיפֵיהּ — מִדְּרִישׁ, מִסֵּיפֵיהּ לְרֵישֵׁיהּ — מִדְּרִישׁ: מֵרֵישֵׁיהּ לְסֵיפֵיהּ מִדְּרִישׁ — ״מִשְּׁמוּעָה רָעָה לֹא יִירָא״, מַה טַּעַם? — ״נָכוֹן לִבּוֹ בָּטֻחַ בַּה׳״. מִסֵּיפֵיהּ לְרֵישֵׁיהּ מִדְּרִישׁ — ״נָכוֹן לִבּוֹ בָּטֻחַ בַּה׳, מִשְּׁמוּעָה רָעָה לֹא יִירָא״.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): caso (maaseh) de Hilel, o Velho (hazaken), que (she) vinha (hayah ba) pelo caminho (baderech) e ouviu (veshama) voz (kol) de gritaria (tzevachah) na cidade (bair); disse (amar): seguro (muvtach) estou eu (ani) de que (she) não (ein) é isto (zeh) dentro (betoch) de minha casa (beiti). E sobre ele (vealav) a Escritura (hakatuv) diz (omer): "de má (mishmuah) notícia (raah) não (lo) temerá (yira); seu coração (libo) está firme (nachon), confiante (batuach) no (bа) Eterno (Hashem)". Disse (amar) Rava: toda vez (kol heichi) que (de) expuseres (darasht) este (lehai) versículo (kra) de seu início (mereisheih) a seu fim (lesefeih) — expõe-se (midrish) coerentemente; de seu fim (miseifeih) a seu início (lereisheih)também se expõe (midrish) coerentemente: de seu início a seu fim se expõe assim — "de má notícia não temerá", qual (mah) é a razão (taam)? — "seu coração está firme, confiante no Eterno". De seu fim a seu início se expõe assim — "seu coração está firme, confiante no Eterno, por isso de má notícia não temerá".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
כל היכי דדרשת ליה להאי קרא – מדריש לחדא משמעות: מסיפיה לרישיה מדריש – מי שנכון לבו בטוח ביי' משמועה רעה לא יירא:

"Toda vez que expuseres este versículo" — expõe-se (midrish) em um (lechada) sentido (mashmaut) coerente, em qualquer direção que se leia. "De seu fim a seu início se expõe" — aquele (mi) cujo (she) coração (libo) está firme (nachon), confiante (batuach) no Eterno (bAdoshem) — de má notícia (mishmuah raah) não (lo) temerá (yira).

Nota

A baraita narra o célebre episódio de Hilel, o Velho: ao ouvir gritos de aflição vindos de sua cidade enquanto ainda estava a caminho, ele expressou confiança tranquila de que a desgraça não teria ocorrido em sua própria casa — atitude que a Escritura elogia com o versículo de Salmos sobre o coração firme e confiante em D'us. Rava observa que esse versículo se deixa expor coerentemente em ambas as direções de leitura, do início ao fim ou do fim ao início, sempre com o mesmo sentido causal entre confiança e ausência de temor.

17Certo discípulo que ia atrás de Rabi Yishmael bar Rabi Yossei no mercado de Tzion viu-o temeroso — disse-lhe: és pecador, pois está escrito "temeram em Tzion os pecadores"! Respondeu: mas não está escrito "feliz o homem que teme sempre"? Aquilo se refere a palavras de Torá
Bavli · 60a — Guemará
הַהוּא תַּלְמִידָא דַּהֲוָה קָא אָזֵיל בָּתְרֵיהּ דְּרַבִּי יִשְׁמָעֵאל בְּרַבִּי יוֹסֵי בְּשׁוּקָא דְצִיּוֹן. חַזְיֵיהּ דְּקָא מְפַחֵיד. אֲמַר לֵיהּ: חַטָּאָה אַתְּ, דִּכְתִיב: ״פָּחֲדוּ בְצִיּוֹן חֲטָאִים״. אֲמַר לֵיהּ: וְהָכְתִיב ״אַשְׁרֵי אָדָם מְפַחֵד תָּמִיד״! אֲמַר לֵיהּ: הַהוּא בְּדִבְרֵי תוֹרָה כְּתִיב.

Certo (hahu) discípulo (talmida) que (dahavah) ia (azil) atrás (batreih) de Rabi Yishmael bar Rabi Yossei no mercado (beshuka) de Tzion: viu-o (chazyeih) que (deka) estava temeroso (mefached). Disse-lhe (amar leih): pecador (chataah) és tu (at), pois está escrito (dichtiv): "temeram (pachadu) em (be) Tzion os pecadores (chataim)". Disse-lhe (amar leih): mas não (veha) está escrito (chetiv) "feliz (ashrei) o homem (adam) que teme (mefached) sempre (tamid)"! Disse-lhe (amar leih): aquele (hahu) versículo se refere (betiv) a palavras (bedivrei) de Torá (Torah) — o temor de esquecer o que se aprendeu, não o temor comum.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
בדברי תורה כתיב – אשרי אדם מפחד תמיד שמא תשתכח ממנו שמתוך כך הוא מחזיר לשנותם תמיד:

"Refere-se a palavras de Torá" — "feliz o homem que teme sempre" — refere-se a quem teme que talvez (shema) se esqueça (tishtakach) dele (mimenu) o que aprendeu, pois (shemitoch) assim (kach) ele (hu) volta (machzir) a estudá-las (leshanotam) sempre (tamid).

Nota

Episódio semelhante ao de Hilel, mas em sentido oposto: um discípulo repreende Rabi Yishmael bar Rabi Yossei por demonstrar temor no mercado de Tzion, citando o versículo de que "temeram em Tzion os pecadores" — isto é, só o pecador teme. Rabi Yishmael responde com outro versículo, que louva quem "teme sempre", e resolve a aparente contradição: o temor elogiado é especificamente o temor de esquecer os ensinamentos de Torá, que leva à repetição constante do estudo — não o temor mundano ou supersticioso.

18Yehuda bar Natan ia atrás de Rav Hamnuna e suspirou — disse-lhe: aquele homem quer atrair sofrimentos sobre si? Está escrito "temi o que temia e me sobreveio"! Mas não está escrito "feliz o homem que teme sempre"? Aquilo se refere a palavras de Torá
Bavli · 60a — Guemará
יְהוּדָה בַּר נָתָן הֲוָה שָׁקֵיל וְאָזֵיל בָּתְרֵיהּ דְּרַב הַמְנוּנָא. אִתְּנַח. אֲמַר לֵיהּ: יִסּוּרִים בָּעֵי הַהוּא גַּבְרָא לְאֵתוּיֵי אַנַּפְשֵׁיהּ? דִּכְתִיב: ״כִּי פַחַד פָּחַדְתִּי וַיֶּאֱתָיֵנִי וַאֲשֶׁר יָגֹרְתִּי יָבֹא לִי״! וְהָא כְּתִיב: ״אַשְׁרֵי אָדָם מְפַחֵד תָּמִיד״! הָהוּא בְּדִבְרֵי תוֹרָה כְּתִיב.

Yehuda bar Natan ia (havah shakeil veazil) atrás (batreih) de Rav Hamnuna. Suspirou (itnach) este. Disse-lhe (amar leih): sofrimentos (yisurin) quer (baei) aquele (hahu) homem (gavra) trazer (leatuyei) sobre si mesmo (anafshei)? Pois está escrito (dichtiv): "pois (ki) temi (pachad) o que temia (pachadti) e me sobreveio (vayeateyani), e o que (vaasher) receei (yagorti) veio (yavo) a mim (li)"! Mas não (veha) está escrito (ketiv): "feliz (ashrei) o homem (adam) que teme (mefached) sempre (tamid)"! Aquele (hahu) versículo se refere (betiv) a palavras (bedivrei) de Torá (Torah).

Nota

Terceiro episódio da mesma série: Yehuda bar Natan repreende um suspiro de Rav Hamnuna com o versículo de Jó, "temi o que temia e me sobreveio" — insinuando que o próprio temor atrai a desgraça. A objeção final é a mesma de antes, e recebe a mesma resposta: o versículo que louva o temor constante refere-se ao temor de esquecer os ensinamentos de Torá, não ao temor mundano que Rav Hamnuna demonstrava, e que Yehuda bar Natan considerava supersticioso e prejudicial.

19Sobre a Mishná: "aquele que entra numa cidade grande" etc.
Bavli · 60a — Guemará
הַנִּכְנָס לִכְרַךְ.

Sobre a Mishná: "aquele que entra (hanichnas) numa cidade grande (lecherech)" reza duas orações, uma ao entrar e outra ao sair.

Nota

A Guemará retoma a última cláusula da Mishná do Perek HaRoeh, sobre a oração de quem entra e sai de uma cidade grande (kerach), abrindo caminho para a extensa baraita seguinte com o texto completo dessas orações — e, na sequência, para toda a série de bênçãos ligadas aos atos cotidianos: a casa de banho, a sangria e o médico.

20Ensinaram os sábios: ao entrar, o que diz? "Seja vontade diante de Ti que me faças entrar nesta cidade em paz"; ao entrar, diz "agradeço-Te"; ao sair, "seja vontade que me faças sair em paz"; ao sair, "agradeço-Te... e assim como me fizeste sair em paz, assim me conduzas, apoies e faças avançar em paz, e me salves da mão de todo inimigo e emboscada no caminho"
Bavli · 60a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: בִּכְנִיסָתוֹ מַהוּ אוֹמֵר? — ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהַי שֶׁתַּכְנִיסֵנִי לִכְרַךְ זֶה לְשָׁלוֹם״. נִכְנַס, אוֹמֵר: ״מוֹדֶה אֲנִי לְפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהַי שֶׁהִכְנַסְתַּנִי לִכְרַךְ זֶה לְשָׁלוֹם״. בִּקֵּשׁ לָצֵאת, אוֹמֵר: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהַי וֵאלֹהֵי אֲבוֹתַי, שֶׁתּוֹצִיאֵנִי מִכְּרַךְ זֶה לְשָׁלוֹם״. יָצָא, אוֹמֵר: ״מוֹדֶה אֲנִי לְפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהַי שֶׁהוֹצֵאתַנִי מִכְּרַךְ זֶה לְשָׁלוֹם. וּכְשֵׁם שֶׁהוֹצֵאתַנִי לְשָׁלוֹם, כָּךְ תּוֹלִיכֵנִי לְשָׁלוֹם, וְתִסְמְכֵנִי לְשָׁלוֹם, וְתַצְעִידֵנִי לְשָׁלוֹם, וְתַצִּילֵנִי מִכַּף כׇּל אוֹיֵב וְאוֹרֵב בַּדֶּרֶךְ״.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): ao entrar (bichnisato), o que (mahu) diz (omer)? — "seja (yehi) vontade (ratzon) diante de Ti (milefanecha), Eterno (Hashem) meu D'us (Elohai), que (she) me faças entrar (tachnisenei) nesta (lecherech zeh) cidade fortificada em paz (leshalom)". Entrou (nichnas), diz (omer): "agradeço (modeh) eu (ani) diante de Ti (lefanecha), Eterno (Hashem) meu D'us (Elohai), que (she) me fizeste entrar (hichnastani) nesta cidade (lecherech zeh) em paz (leshalom)". Quis (bikesh) sair (latzet), diz (omer): "seja (yehi) vontade (ratzon) diante de Ti (milefanecha), Eterno (Hashem) meu D'us (Elohai) e D'us (vEilohei) de meus pais (avotai), que (she) me faças sair (totzieni) desta cidade (micherech zeh) em paz (leshalom)". Saiu (yatza), diz (omer): "agradeço (modeh) eu (ani) diante de Ti (lefanecha), Eterno (Hashem) meu D'us (Elohai), que (she) me fizeste sair (hotzetani) desta cidade (micherech zeh) em paz (leshalom). E assim como (uchesheim she) me fizeste sair (hotzetani) em paz (leshalom), assim (kach) me conduzas (tolicheni) em paz (leshalom), e me apoies (vetismecheni) em paz (leshalom), e me faças avançar (vetatzideni) em paz (leshalom), e me salves (vetatzileni) da mão (mikaf) de todo (kol) inimigo (oyev) e emboscada (veorev) no caminho (baderech)".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
תנו רבנן – בן עזאי אמרה דאמר שתים בכניסתו ושתים ביציאתו:

"Ensinaram os sábios" — Ben Azai a disse (amrah), pois (deamar) ensinou duas (shtayim) orações ao entrar (bichnisato) e duas (ushtayim) ao sair (bitziato).

Nota

A baraita, atribuída por Rashi a Ben Azai, ensina o texto completo das quatro orações de quem entra e sai de uma cidade fortificada (kerach): ao chegar, pede-se entrada em paz; após entrar, agradece-se por isso; ao se preparar para sair, pede-se saída em paz; e após sair, agradece-se e se pede, adicionalmente, proteção contínua na estrada — condução, apoio, avanço seguro e salvamento de inimigos e emboscadas.

21Disse Rav Matna: só ensinaram isso quanto a uma cidade onde não se julga nem se executa; mas numa cidade onde se julga e executa, não há problema nisso
Bavli · 60a — Guemará
אָמַר רַב מַתְנָא: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא בִּכְרַךְ שֶׁאֵין דָּנִין וְהוֹרְגִין בּוֹ, אֲבָל בִּכְרַךְ שֶׁדָּנִין וְהוֹרְגִין בּוֹ — לֵית לַן בַּהּ.

Disse (amar) Rav Matna: não (lo) ensinaram (shanu) essas orações senão (ela) quanto a uma cidade (becherech) onde (she) não se julga (ein danin) nem se executa (vehorgin) nela (bo); mas (aval) numa cidade (becherech) onde (she) se julga (danin) e se executa (vehorgin) nela (bo) — não temos (leit lan) problema (bah) nisso — pois ali as orações não bastam, é preciso agir com cautela redobrada.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
לית לן בה – יזהר בעצמו שלא יפשע או אם פשע כבר אל יכנס במקום סכנה:

"Não temos problema nisso" — isto é, ali não bastam as orações, e deve tomar cuidado (yizaher) consigo mesmo (beatzmo) para que não (shelo) transgrida (yifsha), ou (o), se (im)(kevar) transgrediu (pasha), que não (al) entre (yikanes) em lugar (bemakom) de perigo (sakanah).

Nota

Rav Matna limita o alcance das orações de entrada e saída da cidade: elas foram ensinadas para uma cidade sem autoridade jurídica própria para julgar e executar — onde o perigo é o do caminho em geral. Numa cidade que possui tribunal com poder de vida e morte, o perigo é diferente e maior, e Rashi explica que ali as orações não bastam: é preciso cuidado redobrado para não transgredir, e evitar entrar em lugar de perigo se já se transgrediu.

22Há quem diga que Rav Matna disse: mesmo numa cidade onde se julga e executa, pois às vezes não se depara com alguém que lhe ensine mérito
Bavli · 60a — Guemará
אִיכָּא דְּאָמְרִי, אָמַר רַב מַתְנָא: אֲפִילּוּ בִּכְרַךְ שֶׁדָּנִין וְהוֹרְגִין בּוֹ, זִימְנִין דְּלָא מִתְרְמֵי לֵיהּ אִינָשׁ דְּיָלֵיף לֵיהּ זְכוּתָא.

Há quem diga (ika deamri): disse (amar) Rav Matna: mesmo (afilu) numa cidade (becherech) onde (she) se julga (danin) e se executa (vehorgin) nela (bo) — também se recitam essas orações, pois às vezes (zimnin) não (dela) se depara (mitremei leih) com um homem (inash) que (de) lhe ensine (yaleif leih) mérito (zechuta) — um defensor —, e por isso a oração é necessária mesmo ali.

Nota

A segunda versão da tradição de Rav Matna inverte o sentido: mesmo numa cidade com tribunal de poder pleno, as orações são recitadas — pois o perigo do julgamento não depende apenas da conduta própria, mas também da sorte de contar ou não com quem interceda a favor, e por isso a súplica continua sendo necessária mesmo ali.

23Ensinaram os sábios: aquele que entra na casa de banho diz: "seja vontade diante de Ti que me salves desta e do que é semelhante a ela, e não me ocorra nada de dano e pecado; e se me ocorrer algo, que minha morte seja expiação para todos os meus pecados"
Bavli · 60a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: הַנִּכְנָס לְבֵית הַמֶּרְחָץ, אוֹמֵר: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהַי שֶׁתַּצִּילֵנִי מִזֶּה וְכַיּוֹצֵא בּוֹ, וְאַל יֶאֱרַע בִּי דְּבַר קַלְקָלָה וְעָוֹן. וְאִם יֶאֱרַע בִּי דְּבַר קַלְקָלָה וְעָוֹן — תְּהֵא מִיתָתִי כַּפָּרָה לְכׇל עֲוֹנוֹתַי״.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): aquele que entra (hanichnas) na casa (bebeit) de banho (hamerchatz), diz (omer): "seja (yehi) vontade (ratzon) diante de Ti (milefanecha), Eterno (Hashem) meu D'us (Elohai), que (she) me salves (tatzileni) desta (mizeh) e do que é semelhante (vechayotze) a ela (bo), e não (veal) me ocorra (yeara bi) nenhum acontecimento (devar) de dano (kalkalah) e pecado (veavon). E se (veim) me ocorrer (yeara bi) algum acontecimento (devar) de dano (kalkalah) e pecado (veavon) — que seja (tehei) minha morte (mitati) expiação (kapara) por todos (lechol) os meus pecados (avonotai)".

Nota

A baraita ensina a oração de quem entra na casa de banho — lugar associado, na Antiguidade, a riscos físicos (desabamento, queimadura, afogamento) — pedindo salvação de todo dano ou pecado que ali possa ocorrer, e, subsidiariamente, que a própria morte, caso ocorra ali, sirva como expiação completa. A Guemará questionará em seguida se essa fórmula é apropriada.

24Disse Abaye: não diga o homem isso, para não abrir sua boca ao satã — pois disse Reish Lakish, e também se ensinou em nome de Rav Yossei: nunca abra o homem sua boca ao satã
Bavli · 60a — Guemará
אָמַר אַבָּיֵי: לָא לֵימָא אִינָשׁ הָכִי, דְּלָא לִפְתַּח פּוּמֵּיהּ לְשָׂטָן. דְּאָמַר רֵישׁ לָקִישׁ, וְכֵן תָּנָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב יוֹסֵי: לְעוֹלָם אַל יִפְתַּח אָדָם פִּיו לַשָּׂטָן.

Disse (amar) Abaye: não (la) diga (leima) o homem (inash) isso (hachi), para não (dela) abrir (liftach) sua boca (pumeih) ao satã (lesatan). Pois (de) disse (amar) Reish Lakish, e assim (vechen) se ensinou (tana) em nome de (mishmeih de) Rav Yossei: para sempre (leolam), não (al) abra (yiftach) o homem (adam) sua boca (piv) ao satã (lasatan) — mencionando a possibilidade do mal, mesmo em condicional.

Nota

Abaye objeta à fórmula anterior: não se deve mencionar sequer condicionalmente a possibilidade de "dano e pecado", pois isso equivale a "abrir a boca ao satã" — dar voz e ocasião à força acusadora. Cita o princípio geral, atribuído a Reish Lakish e também ensinado em nome de Rav Yossei, de que jamais se deve mencionar em palavras a possibilidade de um mal, mesmo hipoteticamente.

25Disse Rav Yosef: qual o versículo? "Quase como Sodoma fomos, semelhantes a Gomorra"; e o que lhes respondeu o profeta? "Ouvi a palavra do Eterno, chefes de Sodoma" etc.
Bavli · 60a — Guemará
אָמַר רַב יוֹסֵף: מַאי קְרָאָה — דִּכְתִיב: ״כִּמְעָט כִּסְדֹם הָיִינוּ לַעֲמֹרָה דָּמִינוּ״, מַאי אַהְדַּר לְהוּ נָבִיא — ״שִׁמְעוּ דְּבַר ה׳ קְצִינֵי סְדֹם וְגוֹ׳״.

Disse (amar) Rav Yosef: qual (mai) é o versículo (kra'ah) que apoia esse princípio? Está escrito (dichtiv): "quase (kimeat) como (kisdom) Sodoma fomos (hayinu), semelhantes (daminu) a (laamorah) Gomorra". O que (mai) lhes respondeu (ahadar lehu) o profeta (navi) — "ouvi (shimu) a palavra (devar) do Eterno (Hashem), chefes (ketzinei) de Sodoma" etc. — o profeta repreendeu justamente aqueles que haviam mencionado sua própria comparação com Sodoma, sinal de que essa menção, mesmo negativa, atrai a acusação.

Nota

Rav Yosef fundamenta o princípio de "não abrir a boca ao satã" num versículo de Yeshayahu: o povo, ao dizer de si mesmo "quase como Sodoma fomos", foi imediatamente repreendido pelo profeta como se fosse de fato Sodoma — demonstrando que a própria menção da comparação, ainda que hipotética ou retórica, já atrai a severidade do juízo.

26Ao sair, o que se diz? Disse Rav Acha: "agradeço-Te, ó Eterno, que me salvaste do fogo"
Bavli · 60a — Guemará
כִּי נָפֵיק מַאי אוֹמֵר? אָמַר רַב אַחָא: ״מוֹדֶה אֲנִי לְפָנֶיךָ ה׳ שֶׁהִצַּלְתַּנִי מִן הָאוּר״.

Quando (ki) sai (nafeik), o que (mai) diz (omer)? Disse (amar) Rav Acha: "agradeço (modeh) eu (ani) diante de Ti (lefanecha), Eterno (Hashem), que (she) me salvaste (hitzaltani) do (min) fogo (haur)" — referência ao fogo que aquece a água da casa de banho.

Nota

Complementando a oração de entrada, Rav Acha ensina a bênção de agradecimento ao sair da casa de banho em segurança, mencionando especificamente o risco do fogo usado para aquecer suas águas — um perigo real e concreto nas casas de banho da época.

27Rabi Avahu entrou na casa de banho; desabou a casa de banho sob ele; ocorreu-lhe um milagre e apoiou-se numa coluna, salvando cento e um homens com um só braço. Disse: isto é o que ensinou Rav Acha
Bavli · 60a — Guemará
רַבִּי אֲבָהוּ עָל לְבֵי בָנֵי. אִפְּחִית בֵּי בָנֵי מִתּוּתֵיהּ, אִתְרְחִישׁ לֵיהּ נִיסָּא קָם עַל עַמּוּדָא, שֵׁזִיב מְאָה וְחַד גַּבְרֵי בְּחַד אֵבְרֵיהּ. אֲמַר: הַיְינוּ דְּרַב אַחָא.

Rabi Avahu entrou (al) na casa de banho (levei banei). Desabou (ipechit) a casa de banho (bei banei) sob ele (mitutei); ocorreu-lhe (itrachish leih) um milagre (nisa): ficou de pé (kam) sobre (al) uma coluna (amuda), e salvou (sheiziv) cento e um (meah vechad) homens (gavrei) com um só (bechad) braço (eivreih). Disse (amar): isto (hainu) é o que ensinou (de) Rav Acha.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
בי בני – בית המרחץ: מתותיה – חפירה שהמים נופלים לתוכה ובני אדם רוחצים על גבי תקרה שעל גבה: בחד אבריה – בזרועו החזיק אחד או שנים וזה בזה החזיקו עד מאה ואחד: היינו דרבי אחא – דבעי אודויי שהוצאתני לשלום:

"Bei banei" — a casa (beit) de banho (hamerchatz). "Sob ele" — a escavação (chafirah) onde (she) as águas (hamayim) caem (nofelet) dentro (letocha), e as pessoas (benei adam) se banham (rochatzim) sobre (al gabei) o teto (tikrah) que está sobre (sheal gabah) ela. "Com um só braço" — em seu braço (bizroo) segurou (hechzik) um (echad) ou dois (oshnayim), e este (vezeh) a este (bazeh) se seguraram (hechziku), até (ad) cento e um (meah vechad). "Isto é o que ensinou Rabi Acha" — que (deba'ei) se precisa (ba'ei) agradecer (odui) ao sair, que (she) D'us o fez sair (hotzetani) em paz (leshalom).

Nota

Um episódio miraculoso ilustra vividamente por que se deve agradecer ao sair da casa de banho em segurança: quando a casa de banho desabou sob Rabi Avahu, ocorreu-lhe um milagre — ele se firmou sobre uma coluna e, com um só braço, sustentou uma corrente humana de cento e um homens até que todos fossem salvos. Ao concluir a experiência, ele mesmo reconheceu que essa era exatamente a razão por trás do ensinamento de Rav Acha sobre agradecer ao sair.

28Pois disse Rav Acha: aquele que entra para sangrar diz: "seja vontade diante de Ti que este ato me seja para cura, e me cures — pois D'us curador fiel és Tu, e Tua cura é verdadeira, pois não é costume dos homens curar, senão que assim se acostumaram"
Bavli · 60a — Guemará
דְּאָמַר רַב אַחָא: הַנִּכְנָס לְהַקִּיז דָּם, אוֹמֵר: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהַי שֶׁיְּהֵא עֵסֶק זֶה לִי לִרְפוּאָה, וּתְרַפְּאֵנִי. כִּי אֵל רוֹפֵא נֶאֱמָן אָתָּה וּרְפוּאָתְךָ אֱמֶת, לְפִי שֶׁאֵין דַּרְכָּן שֶׁל בְּנֵי אָדָם לְרַפּאוֹת אֶלָּא שֶׁנָּהֲגוּ״.

Pois (de) disse (amar) Rav Acha: aquele que entra (hanichnas) para sangrar (lehakiz dam), diz (omer): "seja (yehi) vontade (ratzon) diante de Ti (milefanecha), Eterno (Hashem) meu D'us (Elohai), que (sheyehei) seja este (zeh) ato (esek) para mim (li) para cura (lirefuah), e me cures (uterapeni). Pois (ki) D'us (El) curador (rofe) fiel (neeman) és Tu (atah), e Tua cura (urefuatcha) é verdade (emet), porquanto (lefi) não (she'ein) é costume (darkan) dos filhos (shel benei) de homem (adam) curar (lerapot), senão (ela) que (she) assim se acostumaram (nahagu)".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 60a
שאין דרכן של בני אדם וכו' – כלומר לא היה להם לעסוק ברפואות אלא לבקש רחמים:

"Que não é costume dos filhos de homem" etc. — isto é (kelomar), não (lo) lhes cabia (hayah lahem) ocupar-se (laasok) em curas (birfuot), senão (ela) pedir (levakesh) misericórdia (rachamim) — a verdadeira cura vem de D'us; a medicina humana é apenas um costume aceito.

Nota

Rav Acha ensina a oração de quem se submete a uma sangria — procedimento médico comum na época —, pedindo que o próprio tratamento sirva de cura, e reconhecendo que a cura verdadeira e confiável vem de D'us, "curador fiel", já que recorrer a tratamentos humanos é apenas um costume aceito, e não a origem real de qualquer cura.

29Disse Abaye: não diga o homem isso, pois ensinou a escola de Rabi Yishmael: "e cura curará" — daqui se aprende que foi dada permissão ao médico para curar
Bavli · 60a — Guemará
אָמַר אַבָּיֵי: לָא לֵימָא אִינָשׁ הָכִי, דְּתָנֵי דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: ״וְרַפֹּא יְרַפֵּא״ — מִכָּאן שֶׁנִּיתְּנָה רְשׁוּת לָרוֹפֵא לְרַפּאוֹת.

Disse (amar) Abaye: não (la) diga (leima) o homem (inash) isso (hachi), pois (de) ensinou (tanei) a escola (dvei) de Rabi Yishmael: "e cura (verapo) curará (yerape)" — do versículo sobre quem fere seu semelhante — daqui (mikan) se aprende que (she) foi dada (nitnah) permissão (reshut) ao médico (larofe) para curar (lerapot) — a medicina não é mero costume tolerado, mas licença dada explicitamente pela Torá.

Nota

Abaye objeta à formulação de Rav Acha: não se deve dizer que curar "não é costume dos homens, senão que assim se acostumaram" — pois a escola de Rabi Yishmael ensina, a partir do versículo "e cura curará", que a Torá deu permissão explícita ao médico para exercer a medicina. Longe de ser um mero costume tolerado, a atividade médica tem base legal e moral própria na própria Lei.

30Quando se levanta, o que diz? Disse Rav Acha: "Bendito... que cura gratuitamente"
Bavli · 60a — Guemará
כִּי קָאֵי מַאי אוֹמֵר? — אָמַר רַב אַחָא: ״בָּרוּךְ … רוֹפֵא חִנָּם״.

Quando (ki) se levanta (kaei) — após a sangria, o que (mai) diz (omer)? Disse (amar) Rav Acha: "Bendito (Baruch)... que cura (rofe) gratuitamente (chinam)" — a fórmula final de agradecimento, encerrando a sequência de bênçãos sobre os atos do corpo e abrindo caminho para a série de bênçãos matinais que seguirá no próximo daf.

Nota

O daf se encerra com a fórmula de conclusão da sangria: "Bendito... que cura gratuitamente" — um encerramento breve, que fecha a sequência de bênçãos ligadas aos cuidados corporais (casa de banho, sangria) iniciada com a oração de entrada na cidade grande, e que serve de ponte para a extensa série de bênçãos matinais que Berachot 60b desenvolverá a seguir, começando pela oração ao entrar no banheiro e pelas bênçãos "Elokai Neshamá" e "Asher Yatzar".